Capitulo 5 - Os Monstros Que Nao Vemos ~ Parte.2

Ela não havia visto o que a acertou, nao teve chances, mas sabia que era algo pesado, manuseiado por alguém forte. Em sua visão escurecida, feixes de luz coloridos dançavam formando imagens desconexas. Alisha nao estava prestando atenção nas imagens, apenas pensava no que aconteceu e tentava encontrar uma solução ao mesmo tempo que se forçava a despertar.

Quando percebeu que não adiantava obrigar seu corpo debilitado a fazer algo, parou de tentar. Deixou seu corpo e sua mente vagarem livres, leves e soltos. Agora, ela vagava pelo breu infinito, flutuando sem rumo e sem entender direito o que estava acontecendo.

Ao longe, ouviu a voz de Marla. Ela protestava por algo, emburrada do jeito que só ela conseguia ficar quando indignada. Alguém, provavelmente, estava fazendo algo com ela, tentando a obrigar a fazer algo que não era de seu desejo.

Alisha tentou gritar, mas a tentativa de ser ouvida atraves da sincronia foi infrutífera. Suas cordas vocais não produziam nenhum som. Desconfiou estar morta e seu espírito vagando em uma das salas infernais de Dunjoi, mas que tipo de castigo seria esse? Ouvir por toda a eternidade os lamentos da amiga e sofrer por saber que nunca vai chegar para ajuda-la? É, talvez fosse isso. Não era algo criativo ou revolucionário, mas eficaz.

Passou um tempo quieta, olhando para um ponto no nada, observando as imagens coloridas que sua mente travessa criava. Começou a brincar de advinhar.

Leão virando passaro; flores nascendo uma dentro da outra; linhas e mais linhas se cruzando, multiplicando e dividindo.

Entediada, respirou fundo, sentindo que seu corpo não estava tão leve quanto imaginou.

Havia algo a mais.

Tentou se mexer, balançando os braços, sentindo como se estivesse com eles presos atrás das costas, e talvez fosse isso mesmo. Logo, sua teoria sobre estar morta caiu por terra, sentindo seus sentidos retornarem a ativa e despertarem sua mente de seu sono fora de hora. Após um movimento brusco de seus braços, sentiu um enorme peso em sua nuca e não foi mais capaz de respirar.

Gritou com medo, lutando contra a pressão em sua cabeça, sentindo água entrar em seus pulmões no lugar do ar. A sensação de estar se afogando era horrível, talvez pior do que a que sentiu quando ingeriu veneno, ou quando passou meses doente por causa do pouco cuidado que teve em Daechya. A sensação de morte estava mais próxima do que nunca, talvez por ja estar ferida do combate com o Armyasenki, ou talvez por que o fato de morrer afogada nunca tenha passado pela sua cabeça. Ela não sabia o exato por que, mas tinha acabado de ganhar um medo enorme de morrer afogada.

Gritou mais uma vez, expelindo com força todo o ar que restou em seus pulmões. Felizmente, ela foi ouvida e a pressão em sua nuca desapareceu, dando lugar a um puxão de cabelo que tirou sua cabeça de dentro da água.

Respirou fundo, tossindo e cuspindo toda a água que engoliu. Com os labios entre abertos, abriu os olhos, encarando o balde repleto de água em seu colo. Franziu o cenho, trancando a mandíbula e erguendo o olhar, o direcionando para o homem a sua frente. Ele não estava mais com cara de bons amigos, mas Alisha também não.

- Vocês estão loucos?!

- É assim que retribui nossa hospitalidade? Tentando levar nossa filha com você para o caminho errado?!

-... O que? Do que está falando?

- Não se faça de sonsa garota! - ele diz, começando a caminhar ansiosamente de um lado para o outro. - Você chega aqui ferida, a acolhemos e começa a contar histórias absurdas sobre aparelhos metálicos magicos movidos a energia e mundos diferentes, e dizer que mexer com corpos é algo incrivel, tudo para tirar uma menininha inocente de casa. Você é parte da pior das escórias.

Alisha se viu mais confusa ainda. Ela nunca havia dito nada para nenhum deles, não se arriscaria desse jeito, ate por que lembrava perfeitamente de cada lição que aprendeu com Heilos durante os treinos. Toda e qualquer informação poderia ser transformada em seu ponto fraco.

Como eles haviam descoberto aquilo, ela nao fazia ideia. Enquanto ele falava sem parar, dando-lhe sermões desnecessários, Alisha divagava, pensando em como poderiam ter descoberto tudo aquilo.

A matriarca entrou com um vestido nas maos, trazendo consigo a filha do casal, Rider. A menina estava retraída, olhando com vergonha para o chao, deixando o cabelo extremamente liso cobrir seus olhos. Ela usava uma calça e uma blusa de manga longa, ambas pertencentes ao pai.

- Vista, Rider. - ela balança a cabeça de um lado para o outro, negando a ordem. - Vista seu vestido agora, Rider.

A garota suspirou, tirando as roupas do pai, revelando hematomas novos e velhos por todo seu corpo. Obediente, ela pegou o vestido e o colocou, puxando o tecido interno para dar volume a saia.

- É assim que uma menina de família se veste. - Completou a mãe.

Naquele momento, Alisha entendeu rapidamente. Quem cuidou dela foi Rider, ela, muito provavelmente, havia se encantado com o que encontrou na mochila da Hyd. Alisha trincou o maxilar, olhando a mais nova permanecer quieta, aturando tudo o que os pais falavam sobre ela ser esquisita, uma vergonha para eles, que ela havia começado a ir pelo mau caminho.

Alisha, apos algum tempo de raciocínio, relaxa e suspira, olhando para eles.

- Sim, eu iria leva-la comigo. Ela é incrivel, vocês não a merecem.

Os olhos de Rider brilharam e seu rosto se iluminou com tanta felicidade quanto da ultima vez em que ouviu essas palavras horas atrás.

Tentaram afogar a adolescente novamente, entretanto, as mãos de Alisha estavam libertas graças a pequena magia que Sieron lhe ensinou. Com um grito de raiva, se abaixou e lançou seu corpo contra sua cintura, o derrubando.

Rider sorriu, tentando ir atrás da humana, entretanto, foi parada por sua mãe, que fazia questão de repreende-la por tentar sair de casa e fugir de suas responsabilidades como unica filha da família.

Alisha pegou a cadeira em que foi presa e a quebrou, fazendo uma de suas pernas de arma, mostrando a ponta quebrada para a mulher e estendendo a mao para Rider. Ela iria tira-la daquele lugar, não era apenas seus princípios que a faziam desejar isso, mas também havia outra coisa. Outra pessoa. Outro desejo.

- Vamos Rider. Você não precisa ficar aqui. Você nao é obrigada a viver desse jeito por causa deles. Mães e pais bons cuidam, e não fazem essas coisas, nem diminuem seus filhos.

- Você ouviria mesmo ela, Rider? Você é uma menina inteligente, sabe que nao sobreviveria sem nós para te guiar.

- Se vier comigo eu prometo que isso vai mudar.

A garota balançou a cabeça, concordando com ela. Sem relutância, estendeu a mao trêmula para Alisha, buscando apoio para conseguir andar. Deixando-a naquele estado, ambos os adultos ameaçaram sair, aproveitando-se da chance que a Hyd havia dado.

Entretanto, Alisha, ao ver ambos fugindo, sentiu como se o controle do seu corpo fosse a unica coisa que lhe faltava. Com um grito de furia, sua magia ascendeu. Aquele poder e aquela raiva, nao eram seus, e muito menos de Marla. Ela podia sentir. Aqueles sentimentos eram de alguem próximo, que estava ali, quieto, observando a partir das sombras, se mantendo invisível para todos e, surpreendentemente, para ela.

- Eu ODEIO quem machuca inocentes.

Fogo cobriu suas maos. As labaredas avermelhadas se alastraram, queimando a madeira ao redor. Rider se assustou, afastando-se, tremendo de medo ao ver seu pai queimar. Os gritos eram altos, Rider cobria os ouvidos com as mãos, tentando nao escutar a dor de sua abusiva figura paterna, enquanto sua mãe, desesperada, tentava apagar as chamas com a pouca água contida em uma panela e no balde que usaram para afogar a garota.

Lágrimas rolaram dos olhos para as bochechas de Alisha. Por que ela estava fazendo aquilo? Ela não queria machuca-los, apenas queria ir embora e levar Rider com ela.

Rider correu ate ela, puxando-a pela roupa, derrubando-a no chão. Alisha gritou ao cair, seu corpo ferido se chocou com a força do seu peso no chão de madeira. As chamas desapareceram, assim como o sentimento de raiva, restando apenas a dor que sentia. Ela gemeu, socando o chão, e fracassando em se levantar.

A mais nova foi ate ela, pegando-a pelas axilas e a erguendo. Alisha se firmou em suas pernas, sentindo dor ao respirar.

- Me desculpa, eu...

- Nao tem problema, Rider. - a quentura em excesso lhe chamou a atenção, olhando para o cadaver em chamas espalhando o fogo pela  estrutura de madeira da casa. - Pegue minha mochila, temos de ir embora.

Rider assentiu, correndo para um dos cômodos e voltando com a mochila de Alisha nas maos. A mais velha pegou de sua bolsa o bastao metálico, fazendo-o se contorcer até se tornar um bastão maior, muito parecido com a bengala que Mingzhi utilizava para se locomover.

Uma ajudava a outra a caminhar. Alisha sentia enorme dor em sua caixa torácica, seus pulmões pareciam incapazes de armazenar todo o ar que podiam. Ja Rider, suas dores não eram tão intensas quanto as de Alisha, mas eram o suficiente para fazer suas pernas não possuírem quase firmeza alguma.

Não muito longe da casa, Alisha se deixou cair de joelhos, respirando com força, sentindo dor a cada pequeno movimento do tronco. 

- Vamos. Ophiocus não é muito longe. É só seguir a estrada...

- Eu preciso descansar.

- Não aqui. Se voce não for, vai morrer! Suas costelas estão quebradas, pressionando seus pulmões, provavelmente ja estão perfurados. Temos de ir.

Alisha assentiu, pondo seu peso no bastão e se erguendo com a ajuda de Rider. Para aliviar a dor, respirava com menos frequência, suas passadas estavam menores e mais lentas.

Ambas caminhavam sem pressa pela estrada de terra. Seguindo o caminho enlameado pela chuva, que alagava as depressões feitas pelas rodas de carroças e cascos de cavalos.

O vestido de Rider arrastava no chão, sendo sujo de lama a cada passo. Ela olhou para sua roupa e trincou o maxilar, agarrando o tecido velho e o rasgando, deixando a vestimenta na altura dos joelhos, revelando alguns hematomas. Ela era jovem, a única filha da familia que tanto desejava um filho que pudesse saciar todas as suas expectativas.

Alisha olhou para seus hematomas, sentindo novamente a raiva proxima e crescente. Olhou ao redor, buscando a fonte daquele sentimento. Quem quer que fosse, não queria aparecer, apenas sentido. Era uma Essência Vital, não haviam dúvidas, entretanto, alguém contendo uma enorme fúria contida.

Repentinamente, a raiva exalada aumentou, no entanto, nao era direcionada aos hematomas feitos na menina. Alisha engoliu em seco, puxando Rider para perto dela. A Hyd xingou alto, sendo repreendida por uma voz familiar. Alisha permaneceu séria, não expressaria seu medo para ele. Dele, só sentia raiva.

- Lancer. O que quer?

- Você está bem mal.

- Eu estou ótima.

Ele retirou sua lança das costas, apontando a lâmina para seu peito, atravessando o tecido de sua blusa e ticando sua pele. Alisha arrepiou e se manteve ereta ao sentir a lâmina fria entre seus seios, podendo a atravessar e empalar.

- Se estivesse em condições, teria pego sua arma e lutado, bem como Mingzhi. A diferença é que ele ja tinha idade pra morrer sem remorsos.

- Vá embora.

- Não. Tenho planos a executar.

Ele recuou a lança, a girando na mao. Alisha puxou seu bastão para o combate, entretanto, os anos de experiência fazem o lanceiro o mais rápido ali. Com o lado sem lâmina, ele a golpeou lateralmente na barriga,  a derrubando no chão. O bastão caiu longe dela, retornando ao seu tamanho menor.

Rider tentou confronta-lo, mas foi derrubada com um empurrão. Ele se aproximou da humana, deixando a lamina proxima a um de seus olhos. Ameaçou soltar, a garota apenas continuou o encarando cansada, nao tinha mais forças para confrontar alguém.

Lancer rosnou, sentindo seus braços tremerem, tentando largar a arma. Ele olhou diretamente para ela, olhando em seus olhos. Aquele olhar, que implorava por ajuda, não sairia tão cedo de sua cabeça. Suspirou, afastando a lâmina de seu rosto e indo em direção a criança, pegando-a e jogando-a sobre o ombro como um saco de batatas.

Rider protestou indignada, fechando os punhos e acertando suas costas varias vezes. Gritou e chutou, conseguindo machuca-lo algumas poucas vezes enquanto o mesmo se afastava de Alisha, deixando-a do jeito em que estava.

- Nao pode deixa-la! Ela vai morrer!

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top