Capítulo 5 - Os Monstros Que Não Vemos

Ela seguiu para o banheiro, trancando a porta e se despindo, abrindo o chuveiro e sendo consumida pela água morna. Soltou um suspiro aliviado, deixando de sentir frio, vendo a lama sair de seu corpo enquanto se ensaboava com um líquido de sais. 

Ela se enxugou e vestiu a roupa que lhe havia sido entregue. Era folgada e possuía a coloração marrom escuro, como terra, felizmente, ela se sentia confortável.

Horas de descanso, e Alisha ja conseguia manter-se firme de pé. Rider havia feito um milagre em seu corpo quebrado, mas, por mais que tivesse conseguido melhorar sua condição, não chegava aos pés do que Marcon poderia fazer com todo o seu conhecimento. Ainda sim, era incrível tudo o que ela fez apenas com água, plantas e toalhas. Simplesmente incrível.

Sentou-se em uma das cadeiras, cumprimentando o homem da familia, que estava sentado na cadeira da ponta. Rider e sua mae vieram com os pratos, copos e talheres, enchendo a louça com arroz, beterraba  e pão. A bebida era, simplesmente, agua com açúcar.

Comeram. Alisha mal conseguia engolir, tanto por causa da dor, quanto por causa do gosto sem graça, mas ninguem alem dela parecia desconfortável. Ao terminarem, a mae tirou a mesa enquanto Rider lavava os pratos, regrando a água contida em uma panela. A Hyd se ofereceu para ajudar, ajudando-as com a limpeza dos utensílios utilizados por elas.

Alisha respirou fundo, sentindo os pulmoes doerem, comprimidos em sua caixa torácica. Algo estava errado dentro dela. Algo de importante não havia sido curado, ainda estava fora do lugar.  Levou uma das mãos ao peito, apertando, e quando chegou a um local específico, sentiu um incomodo crescente, latejando em sua carne. Gemeu de dor.

- Você ainda está quebrada. - diz Rider. Ela havia aparecido do nada, assustando Alisha com seu jeito tranquilo e sinistro.

- Sim, eu estou, mas te agradeço por cuidar de mim.

- Eu nao fiz um bom trabalho...

- É claro que fez. Eu podia ter morrido.

Rider ergueu o olhar, olhando diretamente para Alisha com certa surpresa.

- Acha mesmo?

- Acho. Você é incrível.

A garota sorriu enormemente, correndo para seu quarto, deixando Alisha sozinha, olhando para onde ela foi. A Hyd suspirou, olhando em volta e caminhando devagar para o quarto, tentando não respirar com tanta força. Lá, ela se deitou, olhando para o teto, imersa em tédio. Buscando passar o tempo, dormia e acordava. Cantava e se mantinha em silêncio. Abria e fechava a janela, ouvindo o vento frio e forte balançando as árvores. Era época de chuvas em Ophiocus, tão fortes que eram capazes de erguer casas do chão e lança-las longe.

Aos poucos, o sol, quase invisível perante as nuvens escuras, começou a se por, tingindo as nuvens de vermelho e laranja. Quando o vento aumentou, fechou a janela, saindo do quarto para ajudar na preparação do jantar.

Mãe e filha cozinhavam juntas, uma cena que Alisha parou ao ver, sentindo-se um pouco estranha. Sentiu um vazio repentino,   lembrando que so teve uma interação do tipo com Marla, seu pai, ou sua avó paterna. Nunca com alguém além deles. Nunca com sua avó materna, e muito menos com sua desconhecida mãe. Richard não possuía nenhuma foto, nunca tocou no assunto, nunca sequer lhe disse o nome ou aparência. Isso havia doído por muito tempo, principalmente por que crianças eram seres crueis.

Rider se virou. Seu olhar não estava alegre como antes, ela parecia estar morta de sono, ou muito triste. A garota sorriu para Alisha, chamando-a para ajudar. Alisha assentiu, engolindo em seco e partindo para auxiliar na cozinha. Não havia muitos ingredientes para variar o jantar, e com razão, as fortes chuvas alagavam e destruiam as plantações, restando apenas pão e massas para a janta.

Não havia seca em Ophiocus, pelo contrário, havia época de chuvas excessivas e mortais. Na Terra, isso seria uma bênção para o solo seco, maltratado pela falta de água. Gado morreria com menos frequência, pessoas no mundo todo poderiam ter acesso abundante a água. As cidades seriam o único problema, sofrendo com alagamentos e bueiros entupidos. Se ao menos alguém canalizasse água para quem precisa.

O jantar acabou muito parecido com o almoço, mas era o que tinha por agora. Alisha não comeu, nao sentia-se. Uma onda de um pressentimento ruim havia a abalado, fazendo-a sentir enjoo e tontura constantes, enquanto sua temperatura corporal continuava a se elevar drasticamente, principalmente as maos.

Rider a levou para o quarto, pondo toalhas molhadas sobre seu corpo para abaixar sua temperatura e fazendo um remédio com plantas específicas. A garota foi chamada e precisou deixar Alisha. Com as horas, a temperatura da adolescente começou a abaixar, seu mal estar passou a desaparecer.

Alisha deitou-se na cama e aos poucos todas as luzes da casa foram apagadas. Ela ouviu os passos da familia seguindo para outro canto e uma porta se fechar. Então, silêncio. Dentro da casa não parecia haver nenhum resquício de vida; o som dos pingos de chuva ressoava com intensidade, as vezes acompanhado pelo estridente som de um trovão.

Ela revirou-se na cama, se sentindo mau por algum motivo. Seu poder se manifestando. Ela lutando para não ver o que tinha além. Não. Eu não quero. Eu só quero dormir, droga.

Em teimosia, levantou-se e caminhou pela casa agora apagada, procurando um espelho. Em uma pequena parte da casa, encontrou sua mochila, juntamente a um espelho coberto e brinquedos quebrados. Pôs a mochila nas costas com cuidado e ergueu a blusa, olhando para a mancha escura que ressurgiu em sua pele.

Suspirou em horror, olhando o sangue que se acumulava na região das suas costelas.

- Merda. Se eu nao chegar ao Marcon, eu vou morrer.

Após um tempo analisando suas condições, Alisha ajeitou a blusa, sentindo mais calor do que deveria e saiu do quarto, caminhando pela casa, observando os móveis de madeira bruta. Do lado de fora, a intensidade da chuva havia diminuído, a Hyd suspirou aliviada e conferiu suas coisas dentro da bolsa, em seguida procurando o anfitrião para agradecer pela hospitalidade. 

Enquanto caminhava pela casa, ela ouviu a voz feminina falar em sua mente, a induzindo a parar na frente da porta de um quarto e, com a curiosidade, a abriu com cuidado para não ranger, olhando pela fresta. Seus olhos, ajustados ao escuro, percorreram todo o cômodo. Era comum, como os outros, e possuindo uma cama de casal desarrumada. A adolescente deu de ombros e ameaçou sair, entretanto, um vulto no canto do quarto a chamou a atenção, seguido de um fungar choroso. Alisha entrou e se aproximou, percebendo que o vulto pertencia a uma garota de cabelo castanho bem liso, era Rider. Ela estava encolhida, o rosto manchado de lagrimas, seu cabelo castanho estava embaraçado e seu corpo estava coberto por manchas avermelhadas.

Ao ver Alisha, a garota tentou ir ate ela, mas parou com os movimentos e fez uma carinha de dor. Alisha, sentindo um aperto no coração, foi rapidamente até ela, a examinando por completo. Ela tentou ajudá-la a levantar, mas Rider choramingou de dor e voltou a se sentar, abraçando o próprio corpo.

— O que fizeram com você... Vou te tirar daqui.

Alisha ameaçou ignorar a propria dor para pega-la no colo, entretanto, sentiu uma forte dor latejar em sua nuca. Sua visão ficou desfocada e seu corpo caiu pesadamente no chão. Rider gritou assustada e a encarou com espanto, olhando então para algo além da Hyd. Alisha tentou se levantar, mas seu corpo cedeu e seus olhos se fecharam lentamente.

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