Capítulo 23 - Família
A chuva havia cessado há semanas, mas todo o solo ainda estava enxarcado. Isso havia deixado Rider feliz, afinal, os animais da floresta deixariam pegadas com mais facilidade, e ela poderia segui-las sem muita dificuldade.
A jovem sorriu, segurando o arco com firmeza e adentrando mais ao fundo da floresta. Em uma bela clareira com uma fonte no centro, um grupo de animais estava reunido. Não haviam apenas herbivoros, mas carnivoros tambem, todos juntos bebendo da água daquele bebedouro.
No maior silencio possível, subiu em uma arvore e puxou uma flecha da aljava, a encaixando no arco e fechando o olho esquerdo. Com o pé, ela quebrou um pequeno galho do tronco em que estava sentada, chamando a atençao dos animais. Ela soltou a seta, que cortou o ar e acertou o olho de um vallente javali de pele grossa e grandes chifres, pertencente a mesma especie que a perseguiu em sua primeira caça. A flecha atravessou seu olho e entrou quase que completamente em sua cabeça, fazendo-o cair sem vida.
Os animais se assustaram com a morte repentina do javali, e escaparam. Rider sorriu vitoriosa, descendo da arvore e amarrando uma corda nas paras do animal.
- Eu consegui - ela começa a caminhar arrastando sua caça, cantarolando alegremente uma música que improvisava - Eu consegui, consegui, consegui. Hoje almoço vai ter, muita carne pra comer, pra pele a gente vender, e roupa a gente ter. Na nanana nana.
Os insetos gigantes espreitavam pelas árvores e arbustos, alguns ate se escondiam dentro da terra molhada quando o corpo puxado por Rider se aproximava.
Quando o espaçamento entre as arvores se tornou maior, e a luz do sol pôde iluminar o caminho, a garota avistou o cavalo e a carroça. O cavalo marrom do lanceiro estava amarrado a uma árvore, aproveitando sua sombra enquando comia um pouco de grama. Rider ergueu uma das maos, a balançando:
- Oooooii Audax! Eu voltei!
O equino ergueu a cabeça, olhando para a garota, e voltou a comer. Rider resmungou o quanto ele era insensível, e lhe deu língua, sendo acertada no rosto pela cauda o animal. Cuspindo pêlo, ela usa de toda a força para erguer o corpo pesado da sua presa, o jogando dentro da carroça.
- Vamos pra casa Audax!
Ela bateu suavemente em seu quadril e o desamarrou da árvore, subindo na carroça e se esparramando com as mãos em cima da barriga, massageando todos os locais em que sentia as dores agudas da cólica enquanto a carroça era lentamente puxada. Quando a dor amenizou, ela respiro fundo e se sentou, batendo as redeas para que Audax caminhasse mais rápido.
Trotando, o cavalo levou a garota e sua caça para casa, ouvindo-a aparentemente conversar com ele, como se esperasse que um dia ele fosse responder. Ele era um cavalo, por mais que entendesse uma coisa ou outra, nunca conseguiria responder em palavras, e Rider sabia disso, por isso sempre fazia questao de lhe dar algum agrado por suporta-la tagarelar.
Ao chegar na cabana, ela amarrou Audax em seu abrigo nos fundos, colocando comida e água frescas para ele. O acariciando e murmurando um "até amanhã", a garota começou a puxar o javali, o levando para dentro de casa e o largando no meio da sala por ser pesado demais.
- Lancer, eu voltei! - gritou, mas não houve nenhuma resposta, imaginou que ele estivesse dormindo, entao lavou as mãos e foi diretamente para o quarto que passaram a dividir.
O quarto que antes tinha apenas uma cama pequena, agora tinha uma segunda menor ainda, improvisada no outro canto da parede, com os travesseiros e lençois bagunçados. Era a cama designada a ela para que não dormisse na cadeira da sala.
Ela acertou em cheio, ele ainda estava dormindo.
A mais nova se dirigiu ao lanceiro deitado na cama e tocou sua testa, a febre havia passado e ele deixou de suar tanto. Suspirou aliviada, pegando uma faca pequena e a afiando na pedra, em seguida, cortou as bandagens do abdômen dele. Os ferimentos, que haviam sido fechados com linha de costura pela garota, estavam quase que completamente cicatrizados, logo poderia retirar os fios.
Em seu braço direito exposto, havia algo de esquisito, parecido com uma tatuagem, mas ao mesmo tempo com uma cicatriz. Era difícil dizer o que era, principalmente ler aquilo, mas ela sentiu: cheiro de problema.
Lancer respirou fundo, roncando baixinho. Rider se assustou com o barulho e bateu de leve em seu rosto para o acordar. Ele estava dormindo bem, e tambem estava engraçado com o cabelo desgrenhado e mal pintado, meio castanho e meio azul. Ate parecia um morador de rua.
- Hora de acordar.
- Mas ja? - ele resmunga, tentando se virar de costas para ela para voltar a dormir.
- Está quase de noite, passei o dia todo fora.
No mesmo instante ele abriu os olhos e se virou para ela.
- E o que estava fazendo sozinha la fora?
- Caçando, nossa comida acabou, e o dinheiro tambem.
- Como o dinheiro acabou tão rápido? - ele resmunga desacreditado. O dinheiro nao devia durar pelo menos um mês? - Nós fomos à cidade no inicio da semana.
- Talvez nao tivesse acabado se eu nao tivesse precisado comprar remédios para você, seu irresponsável!
Ótimo, a criança vai me dar sermão, de novo. Ele pensou.
- E por que precisei de cuidados? Eu nao me lembro...
- Lembraria se não estivesse bêbado demais para isso.
- Foram só algumas garrafas.
- Que quase custaram sua vida. Voce é procurado em toda Ophiocus por traição, e ainda arranjou uma briga de bar. Se nao fosse por mim, voce estaria sendo executado!
Ele nao se lembrava de tudo o que ocorreu, apenas algumas cenas aleatórias e sem contexto, como uma provocação e, em seguida, puro caos de sangue, dentes e cadeiras voando. Mesmo sem lembrar direito, Lancer sabia que havia sido cercado, e teria sido capturado se Rider não tivesse aparecido com três flechas armadas em seu arco.
Pelo tempo que passou conhecendo a garota, poderia dizer com toda convicção do mundo que ela atirou nos pés de seus captores e, em seguida, o empurrou para fora do bar. Apesar de tão nova, era tão adulta, e ele era apenas um idiota. Ele que deveria ser o adulto da casa, e ela apenas a criança a brincar com seus brinquedos e animais.
Dentro de sua própria mente, ele amaldiçoou os pais da garota. Queria poder te-los torturado.
- Lancer? - ela estava sentada a seu lado, balançando a mao na frente de seus olhos. - Esta acordado? Voce viajou de novo. Foi pra onde desta vez?
- Estou. - o lanceiro boceja, esfregando os olhos e ignorando sua ultima pergunta. - Vamos, tenho de tirar a pele do javali. Amanhã vamos ate a cidade.
Ela ssentiu, tratando de verificar novamente o estado do mais velho, então levantou-se e foi se lavar, enquanto Lancer limpava e esfolava o javali.
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