Capítulo 2 - Zashti ~ Parte 2
— Alisha. — o olhar da garota saiu da mochila e foi até o professor. — Por favor, desligue a lanterna do celular. Esta atrapalhando a aula de slide.
Nervosa, as unhas de Alisha batiam diretamente na cadeira, de forma mais rítmica do que gostaria. Alisha, então, levanta o olhar, encarando o professor. Ela iria dar um fim a aquela situação, e não seria com magia.
— Não tô afim.
***
Sangue. Estilhaços. Um corpo. Uma lança.
O pequeno aprendiz, vendo a cena, se levantou e correu até seu mestre. Raniel jazia caído, seus olhos, mesmo fechados, sangravam graças a um corte horizontal. O garoto pegou o bastão que estava caído e entregou ao Raniel, que o segurou e levantou trêmulo, se apoiando na estatueta prateada de escorpião no topo do bastão.
Raniel rosnou, olhando para o invasor. Lancer se aproximou. Seu andar era leve e tranquilo, no entanto, esbanjava perigo, como um predador prestes a atacar.
A lança foi girada. Raniel, mesmo ferido e desnorteado, sentiu a movimentação de ar causada pelos movimentos da arma e pôde se defender de um golpe, usando sua bengala.
Lancer, mesmo sabendo que Raniel era cego, nunca o subestimou. Sabia que seus poderes, que uniam uma forte magia a um grande conhecimento, permitiam que ele pudesse ver através da escuridão de seus olhos, enquanto sua audição era como a orientação a de um morcego. Um sonar.
O mago, com grande facilidade, defendeu todos os golpes da lança. Seus movimentos eram rápidos e leves. Ele, sem dúvida, possuía tanta experiência quanto o velho Mestre de Armas, Skure.
Através de seus dons, herdados de uma Oráculo que estava prestes a ser levada por Mautke, a escuridão da sua visão ganhou luz e forma quando sua pele entrou em contato com a do lanceiro durante o combate.
Lancer estava quieto, ajoelhado, apoiado em sua lança, coberto de sangue da cabeça aos pés. Estava em uma batalha, e quase morto.
Quando voltou a lucidez, Raniel não ouvia mais nada, não sentia mais nada. O lanceiro havia desaparecido.
Não havia sinal dele. O lanceiro havia, de alguma forma, conseguido escapar do sonar do mago, se tornando invisível para ele.
Jack, o pequeno aprendiz do mago, gritou um alerta, fazendo os sentidos do mais velho funcionassem ao máximo naquele momento. Raniel se virou, atacando o lanceiro antes que o mesmo pudesse o ferir. Em um contra ataque feroz, o mago foi derrubado e, a lâmina da lança atravessou o osso do seu ombro, atingindo o chão de pedra.
Raniel gritou, tentando se livrar da arma. Jack, assustado, permaneceu escondido debaixo das mesas repletas de recipientes de vidro, que abrigavam diversas poções. Lancer se aproximou das mesas, derrubando tudo no chão. Jack tampou os ouvidos sensíveis, mas mesmo assim, era capaz de ouvir todos os recipientes estilhaçando ao entrar em contato com o chão. Seus pequenos olhos, estavam repletos de medo e intriga, enquanto olhavam fixamente para os líquidos que tinham base ácida, corroendo o piso de pedra.
Seus olhos, das poções, seguiram para o lanceiro. O nível da intriga, infelizmente, cresceu. Ele havia conhecido aquele homem muito tempo antes, em contrapartida, não o reconhecia naquele momento. Os olhos, sempre brilhantes e alegres, estavam ocos e refletiam o que havia em sua alma.
Lancer foi até às caixas nas prateleiras, pegando delas cristais puros e sem magia, que brilhavam como estrelas, os Cristais Estrelares. Jack, buscando em sua mente ativa uma solução, saiu de debaixo da mesa e ergueu os pequenos punhos, criando um campo de força em volta dos cristais mais poderosos. O lanceiro o encarou.
— Desfaça isso, moleque.
— Me obrigue. — quando Lancer franziu o cenho, o garoto engoliu em seco, tentando usar da sua magia para alguma outra coisa. Talvez na criação de uma arma. — Eu... Eu não vou me submeter a você, criatura impura, corroída de dentro para fora pela vileza de Khoasang!
— Muitas palavras difíceis para um simples moleque. — do cinto, Lancer pega um punhal e se aproximou, sorrindo de tal forma, que não parecia mais o lanceiro que ele conheceu. Jack suava frio, mas não saiu da posição, nem desfez sua magia. — Devia ter ficado em casa.
— SE ABAIXE!
Como ordenado, Jack se abaixou, se jogando no chão, no entanto. A lança, que anteriormente estava presa no ombro de Raniel, voou por cima da cabeça do garoto. Agindo por instinto, Lancer agarrou a lança, a girando entre os dedos e usando de toda a sua extensão para destruir o que sobrou das poções. Com o campo de magia desfeito, o lanceiro roubou tudo o que precisava e, com a pedra de teletransporte que possuía, desapareceu do templo.
Raniel, ofegante e com o ombro destruído, foi até seu aprendiz, o ajudando a se levantar. Jack, percebendo o estado de seu mestre, chamou sua magia e começou a fechar os ferimentos de seu professor, mesmo que não pudesse fechar o buraco que havia sido feito em seu osso.
— Sinto muito, mestre. Fracassei na missão...
— Não, Jack. Você não fracassou, eu fracassei. — Raniel sorriu para a criança. — Você foi maravilhoso. Na sua idade, eu não fazia nem metade do que você faz. De você, apenas sinto orgulho.
A porta do templo foi aberta. Nêmesis entra farejando tudo, seguido de Damian. O rei estava agitado, com olheiras profundas e a mente perturbada. Ele não parecia ser nem metade do homem que um dia foi. Raniel ameaçou se levantar, mas o monarca o impediu.
— Você foi ferido, descanse. — ele olha ao redor. — O que aconteceu aqui? Jack me informou que era apenas grave, mas é mais que isso. Está tudo destruído.
— Lancer, meu rei. — Damian arregalou os olhos, enquanto Nêmesis, apenas pôs as orelhas em alerta. — Ele invadiu, destruiu as minhas pesquisas, e levou algumas coisas.
— O que ele levou?
— Cristais Estrelares.
— Raniel, para que esses cristais são usados?
— Para absorver energia mágica e, se carregados corretamente, se tornam cristais de teletransporte, tornando a abertura de portais possível.
***
Do lado de fora da sala, com sua mochila nas costas, Alisha esperava Marla. A verdade era que, com sua resposta ousada, o professor fez uma anotação dela na caderneta e a mandou para a sala da coordenação. As acusações foram as mesmas de quando ela voltou de Daechya, diziam que ela estava estranha e que precisava de acompanhamento psicológico, mas ninguém seria capaz de entender seus problemas, nem se as informações fossem passadas de forma fracionada.
A conversa, de cunho psicológico, com a coordenadora durou por muitas horas, com isso, Alisha perdeu as aulas que se seguiram após a de matemática. No entanto, a coordenadora contatou os professores e explicou toda a situação. Durante aquelas horas, a Zashti fez de tudo para ser o mais vaga possível. Ela queria desabafar, explicar tudo, em contrapartida, sabia que não podia fazer nada do que desejava.
Frustrada com as respostas vagas e sem sentido, a coordenadora dispensou a garota e voltou a seus afazeres. Alisha suspirou, pegou a mochila e saiu da sala, indo esperar a amiga. Mesmo com a porta fechada, ela podia ouvir o que ocorria na aula de artes.
— De onde vem a denominação de barroco? — a professora de artes pergunta.
— Do barro. — grande parte da sala responde, Alisha até podia ver a expressão assustada da professora.
— Do barro?
— Do pó! Da droga em pó! — um dos alunos diz, Alisha começou a rir.
— Não gente! Barroco vem de um termo espanhóis para Pérola Imperfeita. — a professora corrige, mas os alunos apenas continuavam a rir, consequentemente, ela começou a rir também.
Demorou para que todos parassem de rir, mas quando a aula chegou ao fim, Marla foi liberada com os outros e saiu, abraçando a amiga de lado e caminhando com ela para as escadas.
— Tchau tia Nill! — as duas dizem em uníssono quando a funcionária passa por elas, carregando uma vassoura e uma pá.
— Tchau meninas! Cuidado na rua!
— Pode deixar!
Elas riram e começaram a descer as escadas, um degrau após o outro.
— Como você é louca, Energúmena. — Marla ri. — Você olhou na cara do professor e disse "não tô afim". Sabe como senti orgulho de você?
— Você é má influência, isso sim, Rainha Má.
A morena riu alto.
— Você aprendeu bem, pequena gafanhoto.
Cumprimentando o porteiro, elas saíram do colégio, juntamente aos alunos de outras salas. Eram muitos rostos, brancos e morenos. Cabelos lisos e crespos, Soltos e presos, Longos e curtos. Olhos brilhando de alegria. Vozes altas e diversificadas. Barrigas roncando de fome. Apesar de todos estarem alegres pelo dia no colégio finalmente ter chego ao fim e de estarem desesperados por pratos cheios de arroz e feijão, Alisha não via ali seus colegas. Ela se via de volta ao baile, quando os rostos de todos aqueles nobres a analisavam e julgavam.
Marla, percebendo que a mais nova começou a suar de nervoso em meio a multidão, estreitou os olhos e saiu andando, a puxando consigo para longe do grupo de pessoas. A morena pedia licença e empurrava suavemente as pessoas a sua frente, que bloqueavam o caminho da calçada, atrapalhando quem queria passar por ali.
A rua estava poluída de vozes, bozinas e gases poluentes. O cheiro da gasolina e do suor dos presentes queimavam o interior das narinas de Alisha, enquanto a poluição sonora irritava seus tímpanos. Os meses que passou em Daechya, haviam aguçado seus sentidos, ela havia percebido isso a pouco tempo, quando qualquer cheiro forte ou som estridente passaram a incomodá-la demasiadamente.
Quando, finalmente, conseguiram sair do meio da multidão, seus sentidos deixaram de incomodar tanto. Marla comprou um salgado para a amiga, é um para si mesmo. Ambos eram enroladinhos de salsicha, e as duas seguiram caminhando enquanto comiam.
Quando chegaram na passarela, Marla nem fez questão de se aproximar. Ela apenas se despediu de Alisha e continuou caminhando pela calçada, pegando o caminho mais longo para chegar a um ponto de táxi. Não... Disse uma voz, mas a Zashti ignorou completamente, havia se acostumado.
Alisha atravessou a passarela para chegar até o ponto de ônibus, e tirou o celular da mochila, começando a mexer no aplicativo de transporte. O GPS estava com erro, não mostrava o local exato dos veículos, mas ela não se importou, apenas conectou a senha do cartão de crédito do pai e começou a digitar o destino. Ela confirmou, o aplicativo pesquisou e um motorista aceitou a viagem.
Acompanhando o progresso do veículo pelo GPS do aplicativo, Alisha permaneceu parada, batendo o pé no chão.
Volte.
Ela olhou ao redor, procurando o dono daquela voz, feminina e pacífica. Quando percebeu que não havia ninguém, concluiu que era um espírito tentando entrar em contato, suspirou e revirou os olhos, pondo os fones de ouvido em volume máximo.
Corra. Volte. Siga. Proteja. O espírito misterioso dizia, a voz fazendo um eco irritante dentro da mente da garota. Alisha ignorou, e sorriu quando percebeu que seu transporte estava prestes a chegar.
Foi então que, uma menina de aproximadamente oito anos, se aproximou dela. Suas roupas, rasgadas e sujas, revelavam que ela era uma criança de rua. Enquanto seu corpo magro implorava por comida. Alisha tirou os fones, se abaixando até ficar na sua altura e poder analisar melhor seus fios castanhos, no entanto, seis olhos possuíam um tom claro de lilás.
— Oi, tudo bem? — a menina assente. — Está com fome?
A menina assentiu mais uma vez. Alisha pôs a mochila no chão, pegou dinheiro dentro da carteira de moedas e foi até um vendedor ambulante. A jovem comprou alguns salgados pequenos e um copo de suco e entregou para a garota. Os olhos da criança brilharam, hipnotizando Alisha. Ela não parecia normal, foi então que ela percebeu e arregalou os olhos.
— Céus, você esta possuída...
— Escute. — ela diz, sua voz infantil possuía certa intensidade, consequência da presença de um espírito dentro do seu corpo. O tom lilás dos seus olhos se tornou mais intenso. — Se eu fosse você, escutaria a voz em sua mente. — Enquanto ela falava, sua voz retornava ao tom infantil, e seus olhos se tornaram castanhos. Ela sorriu alegre, e totalmente infantil. — Obrigada pela comida, moça.
Então, ela correu, comendo os salgados, desesperada para saciar sua fome.
A Zashti permaneceu estática, olhando para onde a garotinha foi. Foi então que sentiu algo em sua mente, como se alguém enfiasse um espeto em seu cérebro.
VOLTE!
A voz feminina, de pacífica e paciente, se tornou autoritária. Os pêlos, dos braços da garota, eriçaram com o susto. Ela sentiu um frio na barriga, e um arrepio na espinha. Rapidamente, e sem se importar com a taxa cobrada, cancelou o Uber. Guardou o troco e o celular na mochila, e correu para longe do ponto de ônibus.
Imaginou que seria um esforço correr a ladeira da passarela, mas seu corpo, adaptado aos treinos, não se sentiu cansado. Continuou a correr, atravessando a passarela, se batendo com algumas pessoas e pedindo desculpas.
Ela olhou ao redor, desesperada. Siga. Proteja. Mas quem?
Seguindo seus instintos, Alisha correu pelas ruas, procurando pelo que estava errado.
Houve um grito. Rapidamente, e quase caindo quando derrapou, a garota mudou de direção e seguiu para a origem dos gritos.
Pessoas corriam apavoradas. Algumas gritavam coisas desconexas, foi então que, uma mulher apontou para o céu e gritou a plenos pulmões.
Alisha olhou para cima. Algo caia na direção das pessoas. Um carro.
Junto com os outros, ela se afastou e se protegeu. O veículo se chocou com intensidade no asfalto, espalhando vidro para todos os lados, então, capotou algumas vezes, parando com o teto contra o chão. Alisha se aproximou, analisando o carro, e prendendo a respiração de medo ao olhar as marcas que haviam nele.
A lataria havia sido esmagada por uma força avassaladora. Havia marcas mais profundas, onde garras haviam sido cravadas com força.
— Armyasenki.
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