Capítulo 2 - Zashti ~ Parte 1

Alguns dias depois, não havia mais resquícios da virose em seu corpo, por isso, naquela segunda feira, iria para o colégio após, mais ou menos, uma semana de cama.

Assim como se fez necessário há meses, ela se levantou às quatro horas da manhã, vestiu uma roupa de academia, prendeu Lucky na coleira e saiu discretamente com ele, correndo pelo condomínio para aquecer seus músculos, enquanto comia duas bananas para não sentir muita fome.

Por trás das casas do condomínio, o sol nascia cedo, com pressa de expulsar a lua do céu. A brisa gelada da noite que acariciava sua pele, aos poucos se tornava morna, com a incidência crescente dos raios solares.
A primavera havia chegado há dois meses. Folhas voltaram a crescer nas árvores, e flores desabrocham, juntamente com a chegada dos pássaros e sua canção. Enquanto isso, durante o tempo de mudança e ressurreição, as flores de algodão, que haviam sido plantadas no início do ano, finalmente cresceram e, com o vento, passaram a liberar o algodão por todo o conjunto. As ruas foram cobertas por algodão, parecendo que ainda nevava.

No caminho para a quadra, Alisha e Lucky chutavam e tentavam pegar todo o algodão que, por causa do vento, flutuava lerdo a cinco metros do chão, no máximo.

Na quadra, infelizmente, já haviam homens e garotos treinando. Os mais jovens, jogavam futebol, enquanto os mais velhos e mais exercitados, faziam flexões, ou se levantavam nas barras.

Ela franziu o cenho, e o cheiro de suor a fez sentir vontade de vomitar. Desde o fim do inverno, que eles haviam voltado a treinar na quadra, ocupando os equipamentos. Sempre que começavam os treinos do time de futebol, a gritaria começava, perturbando a audição de Alisha, que as vezes captava sussuros distantes e alheios. Fantasmas tentando se comunicar com seus entes vivos.

Inalando oxigênio, e se enchendo de coragem, ela se aproximou e amarrou Lucky a uma barra metálica. Quando conseguiu lugar, se posicionou antes que algum dos garotos fosse na frente. Pegou impulso, se segurou e ficou pendurada, então, começou a a balançar as pernas.  Com o impulso, ela girou. Suas mãos se movimentaram rapidamente, ajustando seu equilíbrio, a impedindo de cair, entrelaçando e soltando os dedos.

Com o impulso certo, ela se lançou ao ar e pousou de pé ao lado de Lucky, que se assustou e latiu para ela. Alisha riu, o soltou e voltou a caminhar com ele.

Em casa, Richard havia acordado e tomava seu banho. A jovem ouviu o som do chuveiro, quando passou em frente a porta do quarto do pai, e seguiu rápido para o quarto dela, entrando com o canino e fechando a porta. Lucky, com um salto, subiu na cama e se deitou no lençol fino.

Alisha entrou no banheiro, se despiu, fez todas as suas necessidades e se lavou enquanto pensava em tudo o que fez e o que viria a fazer. Que vida top e merda. Suspirou e, ao terminar, se enxugou e foi se vestir.

No guarda roupa, ela pegou sua calça jeans favorita e a vestiu, também enrolando o cinto para que a calça não caísse. Então, vestiu a blusa com o símbolo do colégio. Ela se movimentou, sentindo a camisa apertada nos braços, e a calça apertada nas coxas. Suspirou, sabendo que seus músculos haviam se desenvolvido um pouco, graças ao treino.

Da cômoda, ela pegou o bastão metálico e o acariciou com a ponta dos dedos, sentindo cada símbolo Dae por toda a sua extensão.

— Vire um bracelete.

Ela estava com preguiça de forçar o bastão através do pensamento, por isso, resolveu usar suas palavras. Em sua mão, o metal do bastão se tornou mole, em seguida, líquido, e passou a se reajustar, assumindo a forma familiar a de um bracelete. Estando na forma correta, o metal, de liquido, se tornou sólido. O bracelete era algo comum, no entanto, ainda possuía alguns símbolos de Daechya por sua extensão.

Alisha sorriu, sentindo o peso do bracelete, e o pôs no pulso. Balançou o braço, percebendo que estava bem preso, como sempre, mas sua roupa continuava impedindo parcialmente seus movimentos.

Na frente do espelho, ela se pôs em posição de luta e começou a desferir socos e chutes no ar. Aos poucos, o tecido foi se alargando com a força que ela colocava nos golpes, chegando ao ponto de quase rasgar. Sentindo-se mais livre, a Zashti sorriu, ajeitou a roupa e pegou o Kniga.

No entanto, assim que suas mãos tocaram as placas metálicas, a fechadura voltou a brilhar. O brilho estava mais forte do que a última vez, quando Marla estava presente. Desesperada e sem saber o que fazer, ela olhou para as duas estatuetas de dragão em sua prateleira.

— Krieger, me ajuda! — Na estatueta de dragão escarlate, não houve mudança alguma, nem um brilho sequer. Por isso, ela olhou para a estatueta que pegou na Loja de Especiarias. A estatueta de uma dragonesa, branca como a neve, e brilhante como cristal. — Heiwa, o que eu faço?!

Nem mesmo a dragonesa respondeu. Alisha se viu sozinha naquela situação, e não sabia o que fazer, por isso, pôs o livro e sua chave dentro da mochila e colocou um casaco preto por cima, mesmo que não fosse sentir frio.

Fechou e pegou a mochila e saiu do quarto com Lucky, indo para o andar debaixo. Ela jogou a mochila no sofá e foi comer, encontrando Richard fazendo o café da manhã, como sempre. A jovem o abraçou por trás e beijou sua bochecha, agradecendo pela comida, e sentou-se na mesa para comer.

As vezes ela dava um pedaço de presunto para Lucky. O homem reclamava, mas era ignorado.

Quando terminaram, pai e filha lavaram os pratos em conjunto, para ir mais rápido, enquanto o pequeno cachorro comia sua ração

Após escovar os dentes e fazer o carinho matinal entre as orelhas caídas de Lucky, a Zashti foi levada de carro para a escola e, durante o trajeto, cantou algumas músicas famosas da infância seu pai, inclusive a introdução de alguns animes que ambos assistem juntos nas horas vagas.

A verdade era que, quando retornou de Daechya, sentiu-se culpada por falar pouco com Richard e não dizer "eu te amo" com frequência, afinal, ela havia experimentado uma vida sem a presença e os mimos do pai. Foi legal? Claro que foi. Afinal, ela fez amigos e viveu uma grande aventura, no entanto, não pôde compartilhar isso com quem mais importava.

Com isso, decidiu aproximar-se dele usando um ponto em comum entre eles, animes e pizzas. Agora, após tantos meses vivendo apenas em seu mundo de nascença, Alisha estava mais próxima de Richard, até fazendo com que ele gostasse cada vez mais de Lucky, mas aos poucos. Tudo por que, antes da própria Alisha ficar doente, Richard que adoeceu, e enquanto ela fazia chás como Kauane ensinou, Lucky cuidou dele, o vigiando o tempo todo. Dias depois, quem estava de cama era Alisha.

Quando ele parou o carro na frente do colégio, Alisha saiu e fechou a porta. A adolescente, percebendo que havia esquecido de algo, voltou para o carro, inclinando-se para dentro através da janela aberta e beijando a bochecha do pai.

— Te amo. Tome cuidado.

Richard sorri.

— Também te amo. Se comporte, preste atenção, tire dúvidas e cuidado na rua.

A adolescente sorriu e saiu com cuidado da janela, acenando para o homem dentro do carro e entrando correndo no colégio, sem deixar de cumprimentar o porteiro, que falava com ela desde quando a garota era uma novata, há dez anos atrás.

Alisha subiu os lances de escadas até que terminassem, então, percebeu que não estava ofegante ou com as pernas doendo. Os treinos matinais estavam sendo mais que promissores.

Ela caminhou para a sala de aula. Agradecendo mentalmente pelo professor ainda não estar em sala, ela entrou. Observou todas as cadeiras, suspirando aliviada ao perceber que o seu lugar marcado não estava ocupado, em seguida, seguiu até ele e pôs a mochila entre os pés da cadeira.

Sentou-se, olhando as horas no celular e esperando a chegada de Marla.

Ela esperou. Batucando os dedos na madeira, criando um ritmo musical. As conversas paralelas não chegavam a seus ouvidos. A música agitada era a única coisa que ela podia ouvir. Às vezes, tirava um dos lados do fone da orelha. Jurava ter ouvido uma voz, feminina e familiar. Impressão minha.

Em alguns minutos, a porta foi aberta com violência. Marla entrou correndo, se jogando ofegante em seu lugar. A morena teria caído, junto com a cadeira, se Alisha não tivesse se assustado e a segurado. Foi então que o professor de matemática entrou e fechou a porta. Aqueles que ficaram do lado de fora, só entrariam na próxima aula.

Marla havia sido mais rápida que eles. Conseguindo chegar antes do professor e, por isso, ganhou o direito de assistir a aula daquele dia.

— Bom dia, energúmena. — Marla sorri, o rosto moreno, brilhando de suor, a fazia parecer ainda mais radiante. Alisha não fazia ideia de como ela fazia isso. Não é possível, sério que ela faz por acidente?. — Como passou a noite?

— Bem, e você? — ela tira os fones e desliga a música.

— Muito bem. Como se sente?

— Estou bem melhor. Graças aos chás que tia Nill ensinou, melhorei rápido. — Alisha sorri, mentindo sobre o fato de a famosa funcionária, tia Nill, ter sido sua mestra. Em sua mente, Kauane foi a primeira que lhe veio a mente, mostrando durante os acampamentos os chás de plantas naturais que ela fazia. — Não precisa se preocupar.

Depois de tanto conversar, o professor começou a aula com um conjunto simples de anotações sobre a matéria. Por estar há uma semana sem ir ao colégio, ver aquela quantidade de números, palavras e ângulos, fez sua cabeça começar a doer. Marla, percebendo a situação da amiga, começou a rir, brincando que as engrenagens de seu cérebro estavam enferrujadas e com mal funcionamento.

Quando o apontamento chegou ao fim, o professor ligou o datashow e, com um slide cheio de gifs matemáticos, começou a explicar o assunto e a repassar as fórmulas. Muitos de seus colegas pediam ao professor para falar devagar, para dar tempo de copiarem, mas Marla parecia se desafiar.

Ela copiava com rapidez tudo o que o professor dizia. O lápis, contra o papel do seu caderno, produzia um som parecido com o de um rato. A morena não perdia uma palavra sequer, parecia preparada para o que viria a viver na faculdade quando terminasse o terceiro ano.

Alisha suspirou, cansada de copiar, portanto, passou a apenas ouvir. Logo, estava pensando em coisas totalmente aleatórias. Ora pensando em Daechya, ora em seu futuro. É sendo descompromissada desse jeito que você quer se formar? Era o que todos perguntavam, sem sequer terem noção da enorme pressão psicológica, ou do peso que carregava.

Mais uma vez, um professor precisou lhe chamar a atenção. Alguns rostos se viraram para ela. Vozes riram. E alguns dos garotos apontaram para sua mochila, que brilhava. Ela arregalou os olhos.

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