Capitulo 15 - Coroa de Serpentes

Heilos tremia, limpando suas mãos e rosto com desespero, tentando se livrar da sensação de ter cometido um grande erro. Mas nada funcionava. O peso ainda estava em seus ombros, e em sua cabeça, fazendo-o desmoronar diante seu reflexo no espelho, que parecia o julgar por ter reivindicado a água da qual jurou que nunca beberia.

Rei. Ele havia se tornado rei.

- Heilos, você tem noção do que está fazendo? - Damian perguntou, o olhando com seriedade pela primeira vez. - Você tem ao menos noção do que é ser rei?

- Não. Mas se Tyrkan pôde ser rei, eu também posso, e não é difícil.

- Nao estou falando disso. Estou falando do peso que essa merda de ouro faz na sua cabeça.

Respirou fundo, pondo os pensamentos em ordem, se acalmando e se erguendo, lavando o rosto com água fria. Finalmente entendendo o que Zithar e Damian suportaram por tantos anos, os nomeando corajosos por nunca reclamarem de todo aquele peso.

Ele odiou sentir a coroa na cabeça. A mesma coroa que Tyrkan, o pai dele, e o pai do pai dele usaram para cometer dos crimes mais hediondos.

Ao olhar a coroa, que eram duas serpentes douradas enroscadas uma na outra e no anel, se arrependeu imediatamente de ter puxado a espada da bainha quase uma semana atrás.

Com ambos no pátio principal, e uma multidão assistindo, Heilos puxou sua espada, olhando Damian fazer o mesmo. O guerreiro estava sério, convicto do que queria, mas o rei parecia nao se importar com o duelo, carregando a espada de modo desleixado.

Damian deu o primeiro golpe, sendo bloqueado e chutado para o chão, resolvendo nao se levantar. Heilos apenas olhou, e esperou a boa vontade do irmão.

- Levante e lute pela sua coroa, Damian. Zithar deve estar assistindo, totalmente decepcionada com você.

- Zithar deve estar decepcionada com você. - repetiu para si mesmo o que havia falado para seu irmão.

Riu baixo, lembrando-se de cada patada que a ex rainha lhe dava, sentindo falta do mau humor dela na presença dele. Olhou pra coroa, a pegando nas mãos e a analisando, ouvindo as historias que sua mae contava, antes de se afogar na banheira do quarto de casal.

Sujo com o próprio sangue, ele caminhou para dentro do castelo a passos largos e cabeça erguida, com os guardas abrindo passagem para ele. Entrou na sala do trono, pegando a coroa de serpentes e a analisando, em seguida, a pondo na cabeça, e vendo todos ali se curvarem perante ele. Narvi, Skure, Kauane, Sieron, os guardas, os servos, e até Nemesis. Todos reconhecendo que ele era rei por direito.

- O que devemos fazer, meu rei? - perguntou Sieron, erguendo o olhar para Heilos.

- Como Damian ordenou anteriormente, se distribuam, e auxiliem os que mais precisam. Se não pudermos lutar contra as lágrimas das Rionags, faremos de tudo para amenizar as consequências.

Heilos caminhava pelos corredores secundários, trajando sua roupa de couro, sem sinal algum de que ele era o rei. A coroa, havia sido, simplesmente, largada em cima da cama como um treco sem valor, coisa que nem Tyrkan ou Damian fariam.

Kauane o viu, começando a o seguir.

- Heilos! Pra onde você vai? Tem de ficar no trono!

- Vou dar um passeio.

A indígena parou, o olhando se distanciar e assoviar, em seguida, o som de garras contra o chão ressoou, e o vulto vermelho de Nemesis passou batido por ela, correndo atras do guerreiro.

Heilos foi para o estábulo, selando o seu cavalo preto e bateu as rédeas, deixando o animal correr pela cidade e atravessar os portões da muralha. Segundos depois, outros sons de passos, e Nemesis vinha correndo atras do cavalo de Heilos, fazendo o equino correr mais rápido.

O guerreiro guiou sua montaria pelo caminho de terra, vendo o grande cão igualar a sua velocidade e, posteriormente, o ultrapassar, chegando primeiro no destino. Heilos parou o cavalo e desmontou, o amarrando em um galho de uma árvore, dando a ele uma maçã como agrado.

- Correu muito bem. - ele olha para o canino. - Você também, Nemesis.

***

Raniel dormia, deixando seu pequeno aprendiz organizando seus estudos. Sua mente o fez viajar para outro lugar. Ele piscou, abrindo os olhos, revelando suas pupilas verdes. Como de costume, ele estava enxergando dentro do sonho, uma vez que, ali dentro, não haviam limitações físicas.

Olhou em volta, percebendo estar na capital de outro reino. As lojas vendiam as mais diversas coisas, desde comida a acessórios e bens inúteis. As pessoas caminhavam tranquilamente debaixo daquele sol escaldante, completamente acostumadas a tortura do calor.

Mais a frente, um grande castelo se erguia magnífico e cheio de beleza. No topo de cada torre, sua bandeira vermelha balançava com o vento, revelando o desenho de um pássaro amarelo. Ele estava em Phoenix, um reino cercado pelas areias de um deserto.

Ao norte, uma forte tempestade de areia se aproximava, repleta de nuvens escuras, raios e trovões. As pessoas se assustaram e correram, e Raniel fez o mesmo, se escondendo dentro de uma cafeteria e vendo o vento e a areia erguerem tudo do chao, desde barracas até carroças. Os vidros das casas rachavam e se estilhaçavam, e o chão tremia. Quando a tempestade terminou, a luz do sol nao retornou, e a cidade permaneceu coberta por escuridão.

Raniel saiu da loja, vendo o cenário de destruiçao que assolou ate o castelo, que teve duas de suas torres demolidas pela tempestade. Nao havia ninguem na rua. Os simbolos da fênix haviam sido destruidos, e alguns foram substituidos por uma bandeira preta com uma face dourada de leão.

- É hora do jantar. - diz uma voz feminina, seguida de um rosnado.

Raniel se virou, dando de cara com um leão de quase dois metros e cinquenta centímetros de altura. Ao lado dele, havia uma figura magra de cabelos compridos, que ria internamente enquanto o Leão se aproximava. Então, o animal saltou sobre o mago, com suas presas e garras prontas para o despedaçar.

Jack, na sala ao lado, lia suas anotaçoes e revisava os princípios de produção de poções, quando ouviu algo cair. Curioso, fechou o livro e foi ver, vendo seu mestre no chão, tossindo e se engasgando com o próprio sangue. Os olhos dele brilhavam no tom claro de azul que ele emitia quando possuía visoes, provavelmente estava no meio de uma desagradável.

Rapidamente o virou de lado, o ajudando a não se engasgar. Milagrosamente Heilos chegou acompanhado de Nemesis, ambos assustados com a situação, mas ajudando o garoto a cuidar do mais velho.

Após minutos de incomodo, os olhos de Raniel se fecharam e ele voltou a respirar naturalmente, mas ainda tossindo.

- Voltei a ser cego.

- Sim, voce voltou. - diz Jack. - Mestre, o que você viu?

- Khoasang. Ele... Ele tem uma companheira, e ela vai atacar Phoenix. Sem prisioneiros.

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