Capítulo 11 - Compaixão
Dois dias de cama. Nao duas horas, ou dois minutos, mas dois dias. Isso estava o enlouquecendo. Seu corpo de guerreiro exigia alguma movimentação, mas não, ele estava deitado, obedecendo a uma garota de doze anos que se achava a melhor curandeira do mundo. Você pode estar acostumado, mas assim como qualquer um, precisa de descanso. Agora seja um bom menino e fique nessa cama, ou eu vou furar o teu olho com tua lança. As palavras dela se repetiam varias vezes em sua mente, o fazendo rir.
- É. Talvez ela esteja certa..... Rider? - ele ergueu a cabela do travesseiro quando nao ouviu uma resposta. - Rider?!
Quando a resposta não foi dada, ele ignorou completamente as ameaças da garota e se levantou, retirando as faixas do tronco e vestindo uma camisa qualquer. A procurou pela casa, nao a encontrando, ate ver uma pequena carta nada amistoda em cima da mesa: Estamos sem comida. Peguei meu arco e fui caçar. Alguém tem de botar comida nessa casa.
Amassou a carta, a jogando fora, e pegou sua lança, saindo de casa e procurando por ela.
- O campo é aberto demais pro arco, ela nao estaria protegida... - suspirou, tendo uma ideia de para onde ela foi, e vendo no chao as marcas da ferradura do seu cavalo por ela roubado como prova. - Merda.
Caminhou para a floresta, entrando e usando a lança para tirar as plantas e galhos do caminho. Em uma arvore, seu cavalo estava amarrado, pegando algumas maçãs no alto para comer. O lançeiro parou, olhando ao redor, procurando por rastros e encontrando pequenos galhos quebrados a frente, para entao seguir por aquele caminho, adentrando na floresta sombria.
As copas das árvores eram volumosas, impedindo que Grande parte da luz solar entrasse, tornando aquele lugar o habitat perfeito para animais perigosos. Podiam estar nas arvores, arbustos, pedras ou sombras, podiam estar em qualquer lugar e até mesmo alguém experiente em caça poderia ser pego distraido.
Sem dúvidas, aquele lugar era ótimo para conseguir comida o suficiente para dias, ou ate semanas, mas tambem, era um lugar ótimo para morrer e nunca ser encontrado.
Ouviu passos, parando de caminhar e se escondendo a sombra de uma arvore. Com a ponta da lança, afastou uma folha grande do seu rosto, vendo um grande animal pastar. Era quase do tamanho de um homem adulto, seu couro amarronzado era duro como uma armadura e os chifres em seu focinho nao hesitariam em rasgar alguém.
Rider estava escondida em um arbusto, com o arco montado e apontando a flecha diretamente para a cabeça do animal. Respirou fundo e segurou a respiraçao, mantendo o foco, entao atirou. A flecha cortou o ar, atingindo o couro do animal, penetrando e ficando presa. O animal urrou de dor, cambaleando e olhando diretamente para a garota. Rider sorriu, mas logo o sorriso desapareceu ao perceber que sua presa nao havia sido abatida, e estava furiosa.
- Rider, CORRE! - Lancer grita de seu esconderijo.
A garota se levantou, correndo pela mata com o animal atrás. A criatura era rapida, abaixando a cabeça para qur seus chifres acertassem a jovem arqueira. Nos limites da floresta, Rider tropeçou em uma raiz e rolou uma ladeira enlameada abaixo, caindo em um monte de galhos de arvores mortas e algumas pedras cheias de limo, cobertas por um pouco de água corrente.
O animal parou na beirada, pronto para descer, mas Rider puxou algumas flechas e começou a atirar contra ele, vendo-as ficarem presas em sua pele bem como a primeira vez. Pegou uma pedra ao lado, jogando no animal, que se enfureceu mais e começou a descer. Repentinamente, seu corpo tombou, caindo ladeira abaixo e esmagando o tronco morto e fazendo a jovem cair sobre seu cadaver, agora sem guela.
- Rider! Você esta bem?
- Estou... Lancer -ela choraminga. - Me ajuda.
O lanceiro desceu, a agarrando juntamente com o cadáver da caça e os tirando da vala, os pondo sobre a garupa de seu cavalo e os guiando de volta para casa. La, desceram do cavalo e Lancer começou a arrancar o couro do animal, separando a carne para aquecer na lareira. Enquanto isso, Rider entrou no banheiro, fechando a porta.
Trabalhando no jantar, o lanceiro esperou, e esperou. Resmungou, indo ate o banheiro e batendo na porta uma, duas, três vezes, chamando pela mais nova. Na quarta batida, a maçaneta girou e a porta abriu. Rider deu um passo em falso, caindo e sendo segurada pelos braços do mais velho, que percebeu uma grande quantidade de sangue em sua perna.
Ergueu sua saia, percebendo um ferimento grave e repleto de lama no interior de sua coxa. Imediatamente, arrancou um pedaço da saia da garota e enrolou o ferimento, o apertando para estancar o sangramento.
- Nao se mexa. Você vai ficar bem. So nao se mexa.
Tremula, Rider assentiu, permanecendo imovel em seu colo. O lanceiro pegou uma luminária e ascendeu sua vela, montando em seu cavalo e o fazendo cavalgar com velocidade pelo campo, adentrando em uma área distante da floresta. Um lugar protegido, onde o clima mudou radicalmente de ensolarado para fechado e chuvoso, como se todo o lugar estivesse amaldiçoado. A terra se transformando em lama a cada gota da chuva furiosa que caia do céu de Ophiocus. O tempo escuro impedia que qualquer um visse mais de um um quilômetro a frente.
Em seu festino, parou o cavalo e o amarrou debaixo de uma arvore, protegido de grande parte da chuva. Com Rider no colo, Lancer entrou em uma gruta inundada pela agua, caminhando por ela enquanto mantinha a garota erguida para nao se molhar.
Se mover estava dificil. Sentia suas botas grudando no chão do túnel. A água, na altura da cintura, entrando em sua calça. Por sorte, o vidro da luminaria protegia a vrla, mantendo-a acesa naquelas condições.
Perto da saida, ouviu vozes, rodas e cavalos. Apagou a vela, parando em um determinado local e olhando para cima. O teto era terra e pedras, no entanto, havia um buraco tapado com um ladrilho solto. Quando restou apenas o som da chiva contra os ladrilhos, ele saiu do túnel com Rider no colo, fechando a passagem e se esgueirando com ela pelas ruas de Ophiocus.
Suspirou, aliviado por nao ter sido visto, ou sua passagem de anos teria sido descoberta. Olhou ao redor, procurando o castelo, e quando finalmente o encontrou, deu a volta nos muros, chegando ate a ala dos curandeiros: uma casa fora dos limites do castelo, no entanto, ainda conectado a ele por um corredor coberto.
Bateu na porta, sendo atendido pelo mestre dos curandeiros, que apontava para ele uma de suas laminas de cirurgia.
- Por favor, Marcon, nao faça isso. - Marcon ergue uma sobrancelha, olhando para a garota em seus braços. - Voce é um guerreiro, sabe que é desonroso matar alguem fraco e desarmado. Mas tambem é um curandeiro, sabe que nao pode recusar ajudar alguem, mesmo que seja um inimigo.
O curandeiro olhou em seus olhos, buscando alguma faisca de más intenções, mas nao encontrou nada além de desespero. Derrotado, abriu completamente a porta, levando ambos para dentro antes que algum guarda o visse.
- Bote ela na mesa. O que ela tem?
- Ela tem um ferimento na perna esquerda. Esta feio.
Marcon retirou a faixa que ja havia sido uma saia, e olhou as condições do ferimento. Era inegavel que ela havia sido perfurada por algo, mais especificamente por um pedaço de madeira morta. A arteria havia sido perfurada, o procedimento séria cuidadoso, mas isso nao abalou o curandeiro, que a cedou para a poupar daquela dor.
As horas se passaram. Cada hora parecia uma eternidade para o lanceiro que caminhava pela ala, buscando remédios para que a garota tomasse quando retornasse com ele para casa. Ergueu o olhar interessado quando Marcon finalmente o chamou, dizendo que havia terminado de cuidar dela.
Como ele previu, ela precisaria de descanso, remédios e boa alimentação. Mais um tempo se passou, Lancer nao saiu apesar de Marcon dizer que ele estava contaminando seu local de trabalho com a lama das suas roupas. Entao, o curandeiro desistiu e o deixou ficar, permanecendo atento a cada movimento do lanceiro.
- Por que tanta chuva?
Marcon o olha, nada surpreso pela tentativa de Lancer de puxar conversa. O silencio tambem o pertubava.
- As chuvas começaram um dia depois da morte de Zithar. Dizem que ela jogou uma maldiçao sobre nós. Esta tudo alagado, significa que ninguem pode trabalhar. A comida esta se tornando escassa.
- Acha que foi mesmo ela?
- Acho. A chuva parou quando Alisha estava aqui. Quando ela saiu, voltou a chover. - ele suspira, olhando para a rua alagada. - Por que fez tudo aquilo?
- Aquilo o que?
- Todos confiavam em você.
- Ah, aquilo. - Lancer da de ombros. - Eu nao posso dizer. Mas saiba que eu nao quero o mal de vocês. Se quisesse, nao teria trazido Alisha pra você, nem estaria cuidando da garota.
- Voce poderia ter usado suas pasagens secretas pra salvar Zithar.
- Nao me culpe so por que voce nao foi capaz de tirar a bunda do lugar e salvar ela!
Marcon o encara.
- Voce acha que eu nao queria? Acha que eu nao queria subir la e salvar minha amiga?! Eu queria, Lancer!
- Entao porque nao fez?
- Eu nao podia! Estou preso a um juramento. Eu nao posso lutar contra a realeza. Mas voce pode. Voce nao é mais preso a um juramento.
- Nao se iluda com isso, Marcon. - o lanceiro leva a mao ao pescoço, o acariciando como se sentisse uma forte dor muscular. - Ha anos eu nao sei o que é ser livre. Queria ser como você. Livre, capaz de salvar vidas. Eu tentei, e olha onde estou agora: na sala da enfermaria por que a criança quase morreu por que esqueci de botar comida em casa.
- Entao por que cuida dela?
- Estava a ensinando a se proteger.
- Pra ela ser livre...
- É. Eu tentei, mas acho que falhei.
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