Capitulo 2 - Tormento

Lentamente seus sentidos começaram a retornar. Seus olhos se abriram e passearam pelo quarto, ela sentia uma energia pesada tomando conta de seu corpo e do ambiente.

Estranhamente, estava tudo quieto demais, nem o ventilador de teto estava fazendo o barulho de giro que deveria fazer. Lucky não estava a sua vista e isso a preocupou, afinal, a porta continuava fechada e a cama era baixa demais para ele conseguir se esconder debaixo.

- Lucky? - ela chamou pelo canino, esperando que o mesmo saísse de seu esconderijo para atender seu chamado, mas isso não ocorreu.

Intrigada, se levantou e olhou as horas no celular, era exatamente três da manhã e involuntariamente seu corpo se arrepiou por completo ao sentir a atmosfera do cômodo densa demais e o chão frio como gelo, como se algo estivesse a espreitar através das sombras .

Três da manhã. A hora do capeta. pensou. Quanta sorte a minha.

- Venha aqui rapaz. Não é hora de brincar.

Ela procurava incessantemente por seu cãozinho. Debaixo da cama, nos lençóis caídos pelo chão e no meio vazio da mesa do computador onde um dia já se encontrou a impressora. Nada do canino em lugar nenhum.

- Nada...

Um vento gélido entrou pela janela e balançou os cabelos e a camisola de Alisha. Ela se aproximou do guarda roupa e empurrou para a esquerda a terceira porta de correr, revelando roupas penduradas em um apoio horizontal feito de alumínio e um espaço vazio com apenas cinco pares de sapato e algo extremamente peludo encolhido.

- Você me assustou! Não faça mais isso. - diz pegando Lucky no colo, o mesmo pôs as patinhas em seus ombro e se encolheu com a cauda entre as pernas. - O que te assustou rapaz?

Em uma resposta inesperada, Lucky começou a latir e rosnar.

- Shiu. Não é hora de latir! Está tarde!

Alisha repreendeu o canino o pondo sentado no chão e dando um tapa de leve em seu focinho, mas ele não havia parado, pelo contrário, começou a latir mais alto.

A jovem iria abrir o outro lado do guarda roupas para poder pegar a focinheira anti-latido, mas um rosnado bestial ecoou atrás dela a fazendo parar. Imaginou ter sido Lucky, mas concluiu que não, afinal, ao contrário dos latidos irritantes do pequeno peludo, aquilo havia sido assustador.

Os latidos de Lucky estavam mais altos e aos poucos se tornavam mais agressivos enquanto havia sons de metal se quebrando e contorcendo. Alisha se virou devagar para ver de onde vinham aqueles sons perturbadores para os ouvidos.

A base da estatueta estava caída no chão, mas possuía apenas seu rochedo metálico. O poste do lado de fora da casa emitia uma luz que entrava por entre as cortinas. Graças a essa pequena iluminação, Alisha pode ver algo vermelho pontudo refletir no chão, e ao encarar aquela ponta ela foi, subitamente, puxada de volta para as sombras do outro lado do quarto. Mais que merda, porque essas coisas só acontecem comigo?

Seu coração estava batendo forte no peito como se gritasse desesperadamente para que ela corresse, mas como poderia correr? Aquele misterioso ser de cor vermelha estava entre ela e a saída da salvação. Ela se inclinou olhando para o chão, entrou notou que a janela era muito distante dele para ser considerada uma rota de fuga vantajosa. Uma queda dessa altura iria no mínimo me quebrar uma perna. Agora, sua única opção era se defender.

Com cuidado ela retirou todas as roupas penduradas do apoio e puxou aquela peça de metal que sustentava todas as roupas penduradas. Isso vai ter de servir.

- Pode aparecer! Nao tenho medo de você!

Haha. Uma grande mentira! pensou. Eu tô mais pra um frango assustado!

Como se aceitasse o desafio, uma onda de ar quente acompanhada de fumaça foi lançada em direção a Alisha com força o suficiente para fazer as cortinas balançarem ferozmente, como se estivesse havendo uma ventania dentro do cômodo.

Um passo pesado foi dado para fora das sombras. Era uma grande pata vermelha com garras pretas tão afiadas que perfuraram o piso, que rachou em volta e debaixo delas. Em seguida, o que foi revelado foi sua face: um focinho cumprido; pele escarlate; brilhantes olhos amarelos com pupilas vermelhas verticais; e chifres retorcidos de coloração vinho saindo do topo de sua cabeça, se alongando para trás em um ângulo de trinta graus entre sua pele dura e a estrutura óssea pontuda.

Seu corpo era escamoso, grande e robusto, praticamente duro como pedra. Seu pescoço era comprido e suas asas permaneciam fechadas contra o corpo, afinal, as paredes o impediam de abri-las; sua cauda estava dobrada do seu lado, descansando no chão; ele estava espremido no cômodo que era realmente pequeno para ele, limitando de forma significante sua liberdade de movimento.

Aqueles grandes olhos reptilianos se voltaram para a base metálica da pequena estatueta que jazia caída no chão, o animal levantou a pata e a desceu em cima da pequena estrutura a esmagando com ódio. Aí, o que aquela pecinha bonita te fez?

Alisha observou estupefata a atitude da fera a sua frente, seria mesmo possível aquele animal ser o dragão escarlate da sua nova estatueta? Ótimo, se for isso mesmo, agora nem dá pra devolver e trocar por outra coisa.

Lucky latia sem parar. Seus latidos eram altos e agudos o suficiente para acordar os vizinhos que viviam nas quatro casas mais próximas. Milagrosamente ninguém acordou ou reclamou do barulho, nem Richard que dorme no quarto ao lado. Como ninguém reclamou? Que estranho.

O canino avançou no grande lagarto para defender sua dona, a diferença de tamanho era absurda e isso foi o gatilho que fez Alisha apertar o cabo de alumínio com força.

Quando o dragão abaixou sua grande cabeça para agarrar Lucky pelas costas, ele sentiu vários golpes fortes no focinho o fazendo grunir em desconforto e se afastar. Era Alisha. Ódio transbordava do seu olhar enquanto batia no focinho do grande lagarto com o cabo de alumínio e gritava: "Não toque no meu cachorro!"

A fera abriu os olhos reptilianos e agarrou com uma pata dianteira o cabo que Alisha tinha nas mãos a fazendo larga-lo, o levando ao chão e o esmagando sobre seu peso em seguida, rachando ainda mais o piso.
O susto levou a humana a recuar e pegar seu cão no colo o abraçando apertado para o proteger do grande animal que tentou o abocanhar mais uma vez.

O dragão havia ficado preso no caminho estreito entre a cama e a mesa do computador, derrubando as prateleiras e tudo que havia nelas.

- MINHAS COISAS NÃO! SEU LAGARTO ESTUPIDO! - Alisha comeca a gritar vários insultos - VOCÊ É TÃO GORDO QUE QUANDO MUDA O CELULAR DE BOLSO ELE MUDA O DDD!

Irritado por causa espaço ser pequeno e dos insultos da garota, o dragão rugiu e abriu sua mandíbula, revelando uma língua grande e áspera e suas dezenas e mais dezenas de dentes amarelados e pontiagudos levemente retraídos para dentro com a função de rasgar impiedosamente a carne do que quer que esteja sendo abocanhado.

Então, do fundo da sua garganta banhada em uma escuridão mortal, surge um pequeno ponto de luz. Mas não era uma luz qualquer, era o aparecimento do fogo que reside dentro largos dos pulmões do dragão.

O cérebro de Alisha processou rapidamente o que sua visão captava, enviando imediatamente impulsos nervosos para todo o seu corpo a fazendo gritar de medo e saltar por cima da cama que havia sido retirada do devido lugar pelos movimentos do dragão.

De rabo de olho viu uma rajada de fogo atingir o guarda roupa o incendiando sem dó no mesmo instante com tudo o que estava dentro.

- MAIS QUE MERDAAAAAAAA ! QUAL SEU PROBLEMA COM MINHAS COISAS?! LAGARTIXA ESTÚPIDA!

Aproveitando a oportunidade, Alisha correu para fora do quarto carregando Lucky e se lamentando por seus belos objetos quebrados e suas roupas queimadas.

A luz do corredor piscava dando ao local um designe adequado para filme de terror ou suspense. Alisha correu para a porta do quarto de seu pai, Lucky começou a latir e se agitar novamente. Imaginando que Richard passava por situação parecida com a dela, Alisha girou a maçaneta e abriu a porta com um empurrão. A cena que encontrou fez com que as lágrimas impossíveis de serem contidas começassem a molhar todo o seu rosto e um grito de temor saísse do fundo de sua garganta.

Richard estava deitado na cama, de olhos arregalados e boca suavemente aberta como se ainda buscasse ar, suas mãos estavam em sua garganta, que possuía um profundo corte horizontal aberto. Ele havia lutado inutilmente para impedir que o sangue saísse aos montes de seu corpo.

Alisha levou uma mão aos lábios para conter o choro e gritos de ódio enquanto a outra segurava o inquieto Lucky, que queria correr para farejar o corpo imóvel sobre a cama e a poça que se enchia com os pingos de sangue que atravessavam o colchão.

O rugido do dragão irrompeu estridente por toda a casa. A jovem foi retirada de seus devaneios e correu para fora do quarto de seu falecido pai, encontrando o dragão passando pela porta do quarto em que estava, destruindo a parede para conseguir passar.

Ele olhou para Alisha e começou a ir em direção a ela, seu corpo massivo obrigando as paredes a quebrarem e recuarem para lhe fornecer uma passagem larga.

Alisha desceu a escada saltando os degraus para chegar ao térreo do duplex mais rápido. O dragão parou na escada, farejou de forma desconfiada a estrutura que a seu ver era frágil e pôs a pata no primeiro degrau, rachando o piso e fazendo sua poeira cair no chão. Ele hesitou descer e a adolescente se aproveitou disso, correndo para a porta da frente para sair e buscar abrigo.

Quando girou a chave e abriu a porta, ela deu de cara com o céu noturno totalmente distorcido, agora possuindo vários tons de verde e a lua era de um intenso vermelho sangue. Havia em sua frente uma garota usando um lindo vestido vintage rasgado e sujo, era ela mesma em sua frente. Era impossível não ser, a semelhança era tão grande que era assustador. Ah ótimo, me clonaram!

A Alisha a sua frente comprimiu os lábios e abriu a boca para falar algo, mas ao invés de palavras, sangue foi o que saiu por entre seus lábios.
As duas olharam para baixo, uma garra crustacea atravessava o estômago da cópia. Alisha olhou para trás de sua cópia e viu um ser humanoide de pele preta e gosmenta, com apenas um olho no centro do que deveria ser a testa e uma boca com todos os dentes retilíneos, pontiagudos e cegos.

Alisha recuou quando a coisa avançou em sua direção e voltou para dentro de casa batendo a porta atrás de si, impedindo que a criatura entrasse. Houve o som de algo desabando e uma cortina de fumaça se ergueu. A escada havia desmoronado com o peso do dragão, que agora estava no térreo e olhava fixamente para Alisha e Lucky.

- Maldição! - Alisha grita e corre para a cozinha que consistia em apenas um balcão, alguns armários embutidos, um fogão de quatro bocas, um microondas, uma geladeira pequena e um relógio cujos ponteiros eram parecidos com adagas, cujas lâminas são capazes de refletir o tempo e a morte inúmeras vezes sem cessar.

Ela tentou abrir a tranca da janela mas não teve sucesso, ela nunca havia conseguido abrir aquela janela, não tinha a "manha" que Richard tinha.

Não havia mais saída e Alisha sabia, apenas parou de tentar abrir a janela e se virou aceitando o destino que lhe estava reservado.
Encostou as costas na parede e se deixou escorregar até estar sentada no chão. Lucky tentava sair de seu colo para atacar o dragão, mas Alisha o prendia em um abraço apertado.
O dragão escarlate parou e sorriu mostrando seus dentes amarelados. Sua cabeça se abaixou e sua mandíbula se abriu completamente, ele estava pronto para engolir Alisha e Lucky em apenas uma mordida.

No entanto, não houve nada. Alisha abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi a garganta do dragão pairando sobre ela com as duas fileiras de dentes da parte inferior da mandíbula quase lhe tocando a pele.

O corpo de Alisha estava trêmulo, ela estava em estado de choque. Seus membros não reagiam às suas vontades, resultando na libertação do canino de seus braços. Seu olhar fitava o fundo da garganta do dragão, ela não se contraia nem emanava calor algum. Nem o próprio réptil movia um músculo sequer, era como se o mesmo houvesse sido parado no tempo.

Alisha recobrou a consciência e sua primeira atitude fora olhar as horas. Os ponteiros do relógio da cozinha, eles não avançavam tampouco regrediam. Simplesmente permaneciam parados marcando a aparente eterna três e meia da madrugada.

Lucky mordia e arranhava as escamas do dragão paralisado até a altura que conseguia, portanto, mantinha seu foco em suas grandes patas.

Alisha olhou pelo vidro da janela, vendo que as nuvens não se moviam e pássaros não voavam, então se pôs de joelhos no chão e saiu engatinhando como uma criança para longe da mandíbula aberta do dragão.

Ao se levantar e alcançar a sala, notou que não fora apenas o réptil e o relógio que haviam parado; a poeira dos destroços da escada flutuavam paradas no ar, o fogo que deveria consumir todo o andar de cima havia parado de avançar e crepitar; tudo a sua volta havia sido consumido por um silêncio agonizante assim como antes.

Seguiu para a porta e girou a maçaneta, nada aconteceu.

A maçaneta não girou, nem estalou, e a porta não se abriu.

- Só pode estar de sacanagem com a minha cara! - Alisha começou a esmurrar a porta tentando a arrombar, mas não acontecia nada além dos sons de batidas na madeira. - Mas que merda!

Em um lampejo de raiva, Alisha chutou a porta com força esperando a arrombar.

- AAIIIIIIII! - ela se equilibra em uma perna enquanto massageia o pé machucado, seu equilíbrio errôneo a fazia pular de vez em quando a deixando com receio de cair.

Lucky havia ouvido o grito de sua dona e correu para socorre-la, agora o mesmo pulava nela e lambia seu pé descalço lhe fazendo cosquinhas.

- Para Lucky. - ela o afasta, mas o canino continuava a pular nela enquanto balançava sua cauda felpuda.

Ao olhar para as sombras, Alisha percebe que as mesmas se moviam de forma harmônica, quase como se belas mulheres com seus vestidos longos e coloridos estivessem dançando graciosamente com panos e fitas nas mãos. Extraordinariamente, Lucky nao latiu nem uma vez para aquelas sombras, isso, de alguma forma, deixou Alisha mais tranquila.

Surpreendentemente, as sombras começaram a sair daquela localização da sala e passaram assumir uma forma humanoide que trajava um grande manto negro que descia até os pés, cujo capuz lhe escondia totalmente o rosto.

- Noite difícil, não é verdade? - o ser pergunta, sua voz ecoando na mente da garota como palavras a serem sussurradas por alguem distante.

- Quem é você?

- Sua única salvação desta prisão.

- Que prisão? - A mente de Alisha Não parava de processar todas aquelas informações, era como se a mesma estivesse em um carrossel que girava rapidamente sem pausas. - Ô tio, Eu não tô presa nao.

- A típica ignorância humana. Mas não lhe culpo, é natural de sua espécie que utiliza desse baixo recurso mesmo que inconscientemente. - a sombra debocha da garota alto o suficiente para que ela ouvisse, Alisha não gostou nada daquilo. Já não fui com a cara dele. - Não estou aqui com o objetivo desnecessário de fazê-la simpatizar comigo, garota. Vim apenas porque o que lhe proponho, favorecerá ambos os lados. Você será liberta do looping infinito que é a prisão em que é mantida e terá sua...família de volta, e eu poderei ser livre novamente. Seremos libertos, mas para isso, terá de colaborar comigo.

- Colaborar? Com o que?

A sombra estendeu a mão para Alisha. Sua mão era inteiramente feita de sombras e parecia poder se desfazer em pó a qualquer momento, assim como todo o seu corpo.

- Apenas... Segure minha mão.

Alisha estendeu a mão para agarrar a da sombra. Ambas as mãos estavam quase se tocando, mas no último momento, Alisha afastou a mao com receio.

- Como posso saber que não está me enganando? Não há um contrato que garanta meus direitos caso você resolva meter o pé antes de cumprir com o acordo.

Um silêncio temporário se instaura entre eles, sendo então quebrado por uma gargalhada alta e rouca por parte da sombra.

- Qual a graça, ô pamonha? - ela interrompe a risada da figura a sua frente. - Eu acabei de ser perseguida por um dragão, meu pai foi morto, minha casa está vindo abaixo e eu ainda vi me matarem. Onde é que você está vendo graça pra estar rindo? Porque eu não estou vendo.

- Teu senso de humor é incrível, Hyd. Achando que as leis e atitudes humanas se aplicam nesta situação.

- E não se aplicam? Porque pelo que eu sei, estamos no mundo humano, e sabe, ele tem um nome bem bosta, é Terra. Então o intruso aqui é você, e é obrigado a seguir as leis daqui. Assim como eu teria de seguir as leis do seu mundo, seja lá qual for. - A sombra parou de rir assumindo uma postura séria para a garota mau humorada. - O que foi? Eu sou apenas uma humana insipiente.

O ser humanoïde feito de sombras olhava fixamente para a garota a sua frente, ele estava sério mas sua energia continuava tranquila, quase induzindo Alisha a se tranquilizar.

- Pois você é tão estúpida a ponto de não perceber que não está em seu mundo, porém, também não está no meu. É um tipo de "Aqui não Aqui", você deve conhecer, já possui a capacidade de ver as Essências Vitais que por este plano vagam. - ele percebe o olhar confuso da jovem e faz questão de não conter um sorriso vitorioso - Eu sei de muitas coisas sobre pessoas como você.

Alisha ignora sua fala.

- Você não respondeu minha pergunta.

- Eu quero liberdade, ir pra lá e pra cá, mas para isso, preciso de sua ajuda. E voce Apenas me ajudará se eu cumprir o que foi acordado. Em suma, não tenho motivos para a tapear.

Ainda hesitante Alisha aproxima a mão novamente. Quando as duas mãos finalmente se tocaram em um aperto de mão, um trovão irrompe do lado de fora iluminando toda a casa enquanto uma ventania entra quebrando as janelas fazendo vidro voar para todos os lados, assustando Alisha e a fazendo proteger o rosto com os braços. Lucky também se assustou e se encolheu com sua cauda entre as pernas, logo o mesmo começou a latir enquanto olhava para a janela em questão.

- Quem é você?

Alisha precisa gritar para que sua voz sobressaia sobre o som do vento e dos trovões. A sombra apenas sorri:

- Um amigo.

Subitamente o vento se tornou mais forte, erguendo o cabelo de Alisha sem dificuldade alguma. Os olhos da garota brilharam ao ver o fogo voltando a consumir toda a casa, o tempo havia voltado a correr, e parecia estar mais acelerado do que deveria.

Os sons a sua volta se tornaram distantes. O carrossel, que era a mente de Alisha, girava cada vez mais rápido fazendo a jovem ver tudo turvo e andar cambaleante e se apoiando pelas paredes para conseguir apoio. Os latidos de Lucky ecoavam distantes, até que houve um único latido mais agudo e nada a mais depois.

- Lucky? - o cãozinho nao responde. - Lucky! Cadê você?

Ela se dirigiu para a porta, já sem ouvir e quase sem enxergar. Suas pernas falharam no trabalho de a locomover e ela caiu sem conseguir se reerguer para sair de casa.

O chão começou a tremer, uma tremedeira que ela reconhecia muito bem, o dragão havia voltado a se mover quando foi dada a continuidade para o tempo.

A porta estava a sua frente, a maçaneta jazia a um braço de distância. Alisha esticou o braço e agarrou a maçaneta que se recusou a girar para a abrir a porta sem se importar com os esforços da adolescente, até que suas mãos começaram a falhar assim como suas pernas.

Mesmo enxergando tudo embasado, ela pôde ver dois pilares vermelhos ao seu lado e algo pingava na pele da jovem. Ela não conseguia ver o que era, mas aquele cheiro de ferro não negava, era sangue.
Com dificuldade sua mente processou a informação. Ela havia perdido tudo: Seu lar, seu pai, seu cachorro. O que mais lhe restara além da morte?

Alisha se desatou a chorar pensando em Lucky, que provavelmente foi devorado enquanto tentava confrontar o dragão para a proteger.

- Mate-me... - ela olha diretamente para o alto para encarar suas vermelhas e indiferentes pupilas verticais. Alisha puxa o ar com força para estufar o peito com uma raiva tão inquebrável quanto diamante bruto. - Mate-me e minha Essência Vital retornará apenas para arrancar-lhe escama por escama.

A coragem de enfrentar o dragão daquele jeito surgiu do nada, mas já estava a dominando por completo a tornando uma criatura difícil de se abater.

Para sua surpresa, o dragão sorriu com escárnio:

- Muita coragem para um pequeno corpo. Uma humana com o coração cheio, admiro sua atitude. - sua voz era estrondosa em sua mente, o corpo de Alisha se Arrepiou mas ela não perdeu a postura. - Mas é uma pena que não servirá de nada agora.

A mandíbula do dragão se abriu e encontrou rapidamente o rosto de Alisha com um rugido, fazendo tudo escurecer para a garota.

Apenas um som pôde ser ouvido. Era agudo que se repetia várias vezes consecutivas. Alisha ignorou o som e se virou de lado se cobrindo até os ombros. Então, algo áspero e molhado lhe tocava o rosto, principalmente sua boca. Ao abrir os olhos ela vê pêlos pretos e um par de olhos castanhos, a boca estava entre aberta com a língua para fora e seu nariz bem molhado. Os olhos de Alisha se arregalam e ela se levanta rapidamente pegando o canino no colo e o envolvendo num abraço.

- Você está bem. - Lucky começou a tentar sair de seu colo e ela o deixou no chão enquanto olhava todo o quarto que estava intacto. - Que pesadelo...

Estava tudo em seu lugar. O guarda roupa estava inteiro, as prateleiras e as estatuetas em seu lugar, a estátua do dragão escarlate também estava em seu lugar, sem qualquer indício de ter ganho vida. Alisha Foi até a Janela e a abriu, seus cabelos foram bagunçados pela doce brisa matinal, o sol nascia por entre os prédios e os vizinhos já se arrumavam para irem trabalhar naquela manhã de sexta feira.

Só então ela percebeu, o som que não a deixara continuar dormindo fora do despertador do seu celular que ainda apitava e estava conectado no carregador. Alisha desligou o despertador e retirou o carregador da tomada.

- ALISHA! VEM COMER! - o grito familiar de Richard ecoa pela casa e enche os tímpanos de Alisha, a fazendo abrir um sorriso.

- JA ESTOU INDO PAPAI!

Deixando tudo de lado, a jovem correu para o andar debaixo e encontrou seu café da manhã pronto no balcão. Seu pai lhe havia preparado um misto quente com cappuccino. O cheiro estava divino, isso fez o estômago de Alisha roncar de fome.

Richard encheu a tigela de Lucky com ração e se virou para Alisha lhe dizendo um "bom dia", que foi retribuído pela garota com um caloroso abraço pegando o homem desprevenido.

- Algum problema filha?

- Nenhum pai. So fiquei com vontade de te abraçar.

Era embaraçoso dizer que sonhou que o encontrou morto na cama, ela temia que realmente se tornasse realidade e acabasse perdendo todos daquela casa.

- Agora vá comer antes que o café da manhã esfrie. Não quero que se atrase para a aula de novo.

- Pai... Poderia cogitar a ideia de... Eu não ir para a escola? - ela o solta e abre um sorriso tímido, Richard apenas a olha.

- Não.

- tá. Tudo bem. Você ganhou. Tô indo comer. - sem nem discutir ela se senta e começa a comer.

A comida estava deliciosa assim como nós dias anteriores, mas nesta manhã, parecia que estava muito mais saboroso. Talvez porque ela sentiu o sabor da morte mesmo que em sonho.
Tirando o sonho esquisito, tudo foi de acordo com todos os dias. Café da manhã, banho, vestir a farda e pegar a bolsa. Quando foi pegar a chave dentro da gaveta da mesinha do computador, uma energia estranha a desestabilizou, foi a mesma que havia sentido no início do sonho tumultuoso.

Seus olhos encontraram o livro, ele parecia que iria engolir Alisha no momento em que fosse aberto, isso a fez ficar com um pé atrás com ele.

- Sinto muito Sr.Mingzhi, mas eu vou me livrar disso.

Notas da autora:
Olá aventuzueiros.
Bom, aqui está o capítulo dois de Daechya.
Eu realmente espero que vocês estejam gostando de história.
Então, o que será que Alisha fará para se livrar do livro? Será que o livro é o causador do tormento?
Então, o que vocês acham?
Por favor, me digam. Preciso realmente desse feedback.
Bom, nos vemos no próximo capítulo (que talvez nao saia mês que vem porque estou pensando seriamente em postar quando os capítulos estiverem prontos para não os deixar esperando muito).

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