Culpa 5



E agora retornamos ao patético banheiro com cheiro de mijo, hormônios, e almas condenadas. Senti-me na necessidade de ouvi-lo, caro leitor, culpando-me incansavelmente apenas para perceber que o maior erro da minha vida foi meu. Eu cometi o maior erro. Eu. Ninguém mais. Então, ao pedir que você me culpasse, eu o transformei num monstro desalmado que cavoucou as entranhas do meu ser em busca de motivos para me culpar. Mas agora eu já sei a verdade e ainda lhe falta uma culpa, caro leitor. Pelo que irá me culpar? Culpe-me por ter amado de maneira errada, se é que existe uma. Culpe-me por não ter aproveitado tanto quanto deveria. Culpe-me por tê-lo deixado ir. Culpe-me por ter beijado Daniel Duarte. Foda-se. Você pode me culpar por milhares de motivos. Ainda assim, não me importarei. Agora, preste atenção em algo, caro leitor. Percebe o que acaba de fazer? Acaba de entregar-se ao seu monstro interior.

Você deve estar xingando o autor de maneira escandalosamente silenciosa, mas não o culpe. Você já culpou os outros por demais. Por que agora você não culpa a si mesmo? Minha vida foi destruída pois preferia culpar os outros por aquilo que fazia, mas na verdade, eu era o único culpado. Assim como você, leitor, contudo você ainda pode mudar. Peço perdão se, agora, você está com raiva. Se está dizendo que este livro é uma merda. Bom...a minha vida foi uma merda. Você viu isso. Você leu e me acompanhou até aqui, neste banheiro imundo.

Mas, no final, quem sou eu? Bom...sou um, e sou milhares. Os erros que cometi sucumbiram meus pensamentos numa atmosfera fria a qual chamamos docemente de depressão. É isso que nos aguarda no amargo fim? Prefiro pensar que não, mas as culpas que me atribuiu destroem meu ser aos poucos. De forma imperceptível aos olhos humanos. Pedi para que fizesse isso comigo, mas lembre-se que não sou real. As culpas que jogou sobre mim foram tão vazias quanto a vontade do homem de culpar o próximo. De culpar aquilo que julga diferente. Afinal, aonde seremos levados se continuarmos a seguir os mesmos passos? A mesma trilha que corta a floresta de fumaça e cimento? Acredito que já saiba a resposta. O ser humano é autodestrutivo e tende a caçar aquilo que lhe parece distinto da sua percepção do comum. Se a destruição é o que aguarda aos normais, então eu, caro leitor, prefiro me considerar o erro na sociedade. A ovelha negra. A bixa. O viadinho. O bambi. Mocinha. Baitola. Baba fronha. Fanta. Chame-me pelos piores nomes que conseguir. A minha alma não será tocada e a sua voz se perderá entre as multidões daqueles iguais a mim. Pode negar nossa existência, se isso o ajuda a dormir à noite. Fique à vontade. Faça das suas palavras seu travesseiro, e veja o quanto ele é frio. Olhe ao redor. Ainda acha que estamos sozinhos? Olhe para o espelho, veja o fantasma de sua alma vazia. Peço perdão se você, leitor, não deveria estar lendo isso, mas a verdade é que já passou o tempo daqueles iguais a mim se esconderem. Por uma eternidade, sangramos por nossa diferença. Não mais. Mas, se você é alguém que realmente acha que pessoas como eu estão erradas, que não deveríamos existir...bom, sente-se, fique à vontade, alimente sua alma vazia e culpe-me cinco vezes.


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