Culpa 1
Por onde eu poderia começar? Ah, é claro, o espelho. Lembram-se dos fragmentos de vidro que formavam linhas abstratas no início do livro? Bom, deve-se imaginar que ele não foi sempre assim.
Foi num dia quente de junho, enquanto eu caminhava pelos caminhos tortos da escola, o uniforme colado ao meu corpo e o cabelo recém cortado. Cabeça baixa e pés se arrastando. Típico daqueles que não queriam estar num lugar como aquele.
Durante nossa vida, ouvimos dos mais velhos: você irá sentir falta da época da escola. Perdoe-me por destruir tão fantasia. Eu não vou sentir falta de nada.
Antes que me achem pessimista, acreditem, eu também tenho sentimentos alegres. Quer um exemplo? Bem, Daniel Duarte está passando na minha frente neste exato momento, com seu jeans apertado e cabelos num topete amado, os fones de ouvido permitindo que ele se perdesse em pensamentos que se misturavam aos tons sublimes das músicas que ele ouvia. Por um momento, meus olhos repousam sobre seu traseiro, redondo e firme naqueles jeans velhos. Meu rosto se esquenta e eu olho para os lados, assustados, o suor inundando minhas costas, doloridas pela mochila que carrego. De repente, perco-o em meio a multidão da escola pública. Puf. O momento de alegria e tensão passa de forma tão fugaz quanto surge.
Era comumente conhecido o fato de que Daniel Duarte tragava um cigarro todas as manhãs antes de ir para a segunda aula. Eu não me dava ao luxo de fumar. Não me dava ao luxo de ficar ao lado de Daniel Duarte. Até aquele dia. Até que os ventos trouxeram uma brisa inconsequente de uma coragem arrasadora. Não segui meus pensamentos. Permitir-me levar através das emoções, o coração palpitando violentamente, o ar tornando-se dolorido nos pulmões inflados enquanto eu subia as escadas para o terraço, evitando tocar no corrimão pegajoso. A porta de mental é a única coisa que me separa de Daniel. Embora nos conhecêssemos, não passávamos de amigos desconhecidos. Permita-me justificar o que digo: todos temos amigos desconhecidos. Consegue pensar numa pessoa que, embora se falem, a relação não passa disso? De diálogos forçados por um ambiente social? Bem, se você pensou numa pessoa, saiba que ela, talvez por acaso, venha mudar toda a sua vida.
Nunca pensei como Daniel Duarte poderia mudar tudo, até o momento em que tive coragem o suficiente e abri aquela porta.
O mormaço do ar de São Paulo envolve meu corpo. A mochila despenca de meu corpo enquanto minhas pernas se colocam a correr. Daniel está ali, há uma distância considerável entre nós, mas não tão grande quando comparada à altura da queda que ele teria tido se eu não o puxasse pelo braço.
O corpo do garoto cai sobre o meu, não há mais perigo. Ele não cairá mais do prédio. Antes que eu enxergue com clareza, a luz do sol transpassa os fios dos cabelos castanhos de Daniel, tornando-os dourados. Meus olhos piscam rapidamente. Ainda não sei o que ocorreu. O peso do corpo dele esmaga o meu, suas coxas pressionam as minhas enquanto sinto suas mãos tocando meu peito. Ele parece aturdido. Insano. Olhos fixos e ensandecidos pelo véu da morte. Antes que eu possa fazer algo, ele range os dentes e soca o chão em que estamos caídos.
- Por que você me agarrou!? – Ele questiona aos berros.
- O-O quê?
Ele se senta sob meu corpo. Sinto seu traseiro contra minha virilha. Engulo em seco, temendo que ele percebesse o volume crescente em minha calça.
- Não era para ninguém estar aqui! – Ele esbraveja e se levanta. Agradeço mentalmente e me obrigo a sentar, a barriga dolorida e as costas mais ainda, devido à queda repentina. – Merda! – Ele chuta sua mala, encostada ao lado do parapeito da escola, do qual ele tentara se jogar a poucos minutos.
- Está me culpando por salvar sua vida? - Ergo-me num súbito, as pernas questionando o movimento enquanto as obrigo a caminhar.
Imagino agora se você, leitor, já sabe o que acontece a seguir. Consegue sentir o bater das asas dos pombos que deixam seu poleiro, escondido no telhado? Ouve os carros na rua principal?
- Não pedi para ser salvo! – Retruca Daniel, os olhos castanhos perdidos em lágrimas confusas. Ele se agacha e balanceia o peso de seu corpo, encostando suas costas no parapeito, sentindo o calor sendo transmitido para seu corpo.
Eu sento ao lado dele, confuso, de cenho franzido. Ele olha para mim, envergonhado no mesmo nível de sua raiva. Ele quer me socar. Me espancar, talvez. Impedi seu plano, talvez, tão bem arquitetado.
-Por que me puxou? – Indagou ele.
- Não poderia te deixar cair.
- Na verdade, deveria.
- O que estava fazendo? – Indagou, as mãos suando e o coração acelerado.
Daniel deixa um riso sarcástico escapar por entre seus lábios finos, os dentes esbranquiçados perfeitamente alinhados.
- Acho que era meio óbvio o que eu estava fazendo, não? - Daniel se aproxima de meu rosto, sinto o cheiro de nicotina em seus lábios, o suor se misturando ao tabaco. – Eu queria morrer. – Então, antes de se sentar novamente, ele me beija, suas mãos largas agarrando minha nuca, pressionando-me contra seus lábios, ao gosto a fumaça de seus lábios perdendo-se na minha, sua língua explorando minha boca antes de nos separarmos. Ele dá um salto, de repente, e dispara em linha reta, apanhando sua mala e disparando em linha reta, abrindo a porta metálica e desaparecendo do meu campo visual.
Percebe como me perdi? Será que você, leitor, foi capaz de entender o quanto minha vida passou a ser destruída depois disso? Não, é claro que não. Até porque nem mesmo eu soube que minha vida estava sendo destruída. Talvez, se os lábios cheios de nicotina de Daniel Duarte não fossem tão viciantes quanto o gosto de seu corpo, eu tivesse percebido quem se escondia através das pilastras da caixa d'água da escola. Eu não deveria estar ali. Nunca nem ao menos fora até ali, mas a vida é curiosa. A vida nada mais é do que um espectador fúnebre que anseia por nossa essência. Depois daquela manhã quente, a vida já havia me tomado por completo.
...
Gosto de pensar nos dominós quando imagino os erros de minha vida. Um atrás do outro. Uma sequência de desastres inimagináveis que nunca deveriam ter ocorrido. Bom, o primeiro desastre depois daquele beijo ocorreu enquanto caminhava em direção à segunda aula. Adoraria ter assistido ao que quer que fosse que meu professor de geografia tivesse para ensinar. Mas as mãos cruéis de João Vitor planejavam algo diferente. Elas me agarram antes que eu alcançasse a sala de aula, jogando-me na direção do banheiro masculino.
Me apoio rapidamente na pia de granito. Me olho no espelho. Veias saltadas. Mãos doloridas pelo impacto. Deixo minha mala cair e procuro por algo para me defender. Encontro livros e, finalmente, uma lapiseira. Sinto seu metal frio no instante em que João entra, um chute acertando meu rosto, lançando-me contra a lata de lixo.
- Eu sabia que aquela bixa não ia conseguir. – Ele agacha, seu cabelo raspado deixando seu rosto ainda maior. – Mas foi uma surpresa descobrir que você também é um viadinho. – Ele antes de chutar minhas costelas. Eu grito. A ajuda não vem. Ela nunca vem. É quase como se os gritos fossem abafados pela atmosfera, como se as moléculas de ar começassem a sufocar minha voz ao invés de ampliar o seu alcance.
João não me permitiu explicar. Não me permitiu dizer nada. Lembro-me apenas de sentir um soco logo antes de furá-lo na coxa, a ponta da lapiseira cravando-se na pele dele. Ele guincha igual a um porco por alguns segundos apenas para, depois, agarrar minha nuca e lançar-me contra o espelho, minha cabeça chocando-se contra o vidro, estilhaçando-o. Os pequenos cacos entram por debaixo de minha pele e parecem dançar em minha carne, cortando-a rapidamente. Por fim, antes dele sair dali, João Vitor dá uma risada, largando-me naquele banheiro imundo.
Não há ninguém para me ajudar. Não há quem se importe. Por fim, limpo o sangue que escorre por meu rosto, culpando a mim mesmo por ser quem eu era. As lágrimas escorrendo, doendo mais do que os cortes. Assim, eu deixo aquela escola, cabeça baixa e passos arrastados, do mesmo jeito que eu entrara. Olho para cima. Vejo o sol, sinto seu calor e observo o parapeito. Talvez eu devesse ter deixado Daniel Duarte cair. Talvez...
*A culpa 2 sai amanhã pessoal!!!!
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top