In Your Shining Eyes
O reencontro com eles não poderia ter sido pior. Minha mãe já estava chorando antes mesmo de entrar no quarto, e disse o quanto me amava e o quanto estava grata por eu estar são e salvo. Não sei quanto a parte do "são", mas desta vez eu pude reagir e responder a ela sentindo minhas emoções. Meu pai me abraçou por três minutos inteiros além de pedir desculpas por algo que eu já nem lembrava mais que tinha acontecido. Caleb veio falar comigo sozinho, e foi o reencontro mais difícil até agora, pois por mais que ele estivesse emocionado ao me ver, também detecto uma decepção. Afinal, eu havia ido embora após ele ter feito tanto por mim. Eu não acho que posso reparar isso, mas também não quero que fique ressentimentos entre nós, por isso eu peço desculpas por aquilo, mesmo não tendo total arrependimento por o houve entre nós antes de entrar num avião para Arklin. E até antes.
O quarto fica silencioso por alguns minutos, quando me dão tempo e espaço para ficar sozinho. Quando me vejo no pequeno espelho do banheiro, tenho a sensação mais estranha. Parecia eu, do jeito que eu me lembrava antes de... Tudo. Mas também parecia outra pessoa. Meu cabelo havia crescido consideravelmente em dois meses apagado, chegando a altura das orelhas. Eu nao fazia ideia que meu cabelo tinha tantas ondulações. A barba eu consigo dar conta com uma gilete, embora ninguém estivesse muito confortável com a ideia de eu ter um objeto cortante. A água tem um cheiro metálico e terroso, mas estava limpa, ou talvez eu estivesse viajando demais. Assim que entro embaixo do chuveiro, era como se farpas entrassem em contato com a minha pele. Eu coloco somente minha mão embaixo da água, para ter certeza de que eu não estava ficando louco.
A diferença, era que minha mão trêmula sentia cada gota que caia sobre ela. Não era como antes, uma torrente suave, era muito mais sensorial. O estranhamento inicial me distraiu por tempo suficiente para que eu pudesse tomar banho e ignorar meu coração palpitante. A água não era dolorosa, não era dor, era apenas, "nítido" demais. Após o banho eu posso colocar roupas normais, e mesmo assim não me reconheço muito bem ao olhar no espelho novamente.
Há pessoas no quarto novamente, a maca havia sido removida e substituída por um sofá, onde minha família estava. Megan apareceu também, e Ruby e Emma. A doutora Leah Sullivan chega para falar alguma coisa, eu quero prestar atenção, mas não ouço nada. Não consigo me concentrar em uma só voz, eram tantos sons ao meu redor, tantas sensações, cheiros e luzes. Minha mãe põe a mão no meu ombro, me fazendo voltar momentaneamente a realidade. Consigo forçar um sorriso para tranquilizá-la. A doutora Leah termina de falar e me pergunta alguma coisa, e eu só confirmo com a cabeça, sem saber do que se trata. Ela se senta numa cadeira e liga a televisão na nossa frente. Duas pessoas aparecem na tela, e pelo contezto parece se tratar de uma entrevista:
— De certa forma, é semelhante. — uma mulher responde a pergunta — Não escolhemos por quem vamos nos apaixonar. A relação entre companheiros, sejam eles dois lobisomens ou não, é praticamente a mesma que a dos humanos. A diferença é que compartilham uma ligação espiritual, um vínculo profundo que vai além do que você pode imaginar. Por muito tempo, foram condicionados a se unirem com parceiros em potencial. Geralmente, a conexão imediata que sentem por outro ser de nossa espécie está ligada a feromônios poderosos e a uma enorme quantidade de processos químicos complexos que não vou explicar em detalhes agora pois o tempo é curto, mas falei sobre eles na palestra de ontem. Do ponto de vista da biologia, isso é chamado de "princípio da procriação", todas as espécies, inclusive humanos possuem. No nosso caso, também está profundamente atrelado as emoções, por isso o nome Vínculo Emocional Instintivo (VEI). Os lobos dentro de nós são atraídos por essa força magnética, que nos impulsiona a buscar uma ligação profunda com outro lobo compatível.
As pessoas ao meu redor parecem ouvir atentamente, noto suas expressões oscilando entre confusão e fascínio. A mulher na televisão volta a falar, e eles continuam prestando atenção, mas algo no ar chama minha atenção.
— E quando essa possível ligação é quebrada, os efeitos são extremamente desagradáveis — a mulher na tv faz uma pausa, escolhendo cuidadosamente minhas palavras. — É como se uma parte de nós fosse arrancada, deixando um vazio doloroso. Nosso lobo interior se sente perdido e desorientado, buscando incessantemente por uma conexão que foi interrompida. É uma experiência angustiante, que afeta tanto a mente quanto o corpo.
Sinto mãos nos meus ombros e tapinhas nas costas, mas uma vibração vinda do lado de fora faz meu corpo inteiro relaxar. Então era isso que estávamos fazendo, assistindo mais uma palestra educativa. Eu já ouvi um discurso parecido da primeira vez, e não estou a fim de ouvir de novo. No entanto, eu consigo ouvir mais nitidamente quando a mulher na televisão fala algo que não havia sido dito antes:
— Mas há algum tempo, alguns de nós tentaram lutar contra esse instinto primitivo. Os dados não mentem, no mundo todo há lobisomems se apaixonando por seres humanos antes mesmo que seus lobos pudessem detectar outros lobos compatíveis para se obcecarem. É uma situação incomum, que desafia as tradições e expectativas da nossa espécie. No passado, acreditávamos que a deusa da Lua era quem designava os companheiros, mas hoje em dia os avanços científicos comprovam que há um processo químico, físico, biológico que ocasiona esse processo...
Um perfume sútil e inebriante invade p ambiente. Eu tenho certeza que ninguém mais pode sentí-lo além de mim, pois se pudessem já teriam saído desta sala para ir encontrar a origem.
Minha intuição fica mais forte, e eu me levanto antes que alguém pudesse reagir ou me impedir de sair. No entanto, posso ouví-los me chamando. Acho que posso distinguir a voz da dra. Sullivan dizendo para me deixarem sair, mas tudo fica para trás. Só tenho certeza de uma coisa. Eu nunca andei por esse hospital antes, mas sei o caminho que me leva até ela. A medida que avanço pelos corredores, acho que ouvi alguém dizer que eu deveria ir devagar, mas de novo, não tenho certeza, não presto atenção.
Eu desço mais um lance de escadas, ou simplesmente pulo para o andar de baixo, assustando um monte de gente no caminho. Um segurança tenta me parar ao entrar no meu caminho, mas ele se move tão lentamente que eu não tenho problemas em desviar dele.
Na entrada do hospital, seu cheiro fica mais forte, um cheiro suave, arrebatador, irresistível. Eu me aproximo dela, mas logo fico paralisado. Não consigo desviar meus olhos dela, na verdade, não existe mais ninguém além dela. Estou perto o suficiente para que ela note minha presença.
Preeya olha para mim com olhos cheios de surpresa e apreensão. Seu sorriso doce se abre para mim e seus olhos se enchem de lágrimas. Ela aperta as mãos, seus dedos entrelaçados em um gesto de nervosismo. Ela começa a dar pequenos passos na minha direção, e eu vou até ela sem esperar que ela chegue mais perto. Minhas mãos vão involuntariamente até seu rosto, mas não chego a tocá-la, seria muito invasivo, ela não é "minha". Preeya ri parecendo feliz ao perceber o que eu queria fazer, mas ela põe seus braços ao meu redor, me abraçando. Eu não hesito em abraçá-la de volta, eu a aperto com mais força. Sinto seus dedos me apertando, e em seguida suas unhas em minhas costas, me arranhando levemente como se para chamar minha atenção. Eu a solto, dando um passo para trás.
— Você estava me apertando — ela ri enquanto seca algumas lágrimas.
— Me desculpe — digo, não apenas pelo aperto, mas a angústia que sinto junto a felicidade e alívio de vê-la não permite que eu fique exatamente feliz.
Minha mente conturbada me lembra de que eu fui embora, de que a deixei para trás sem pensar duas vezes. Eu havia ido ver outra mulher em um outro estado, do outro lado do país. Uma que eu nem suporto mais lembrar e para que?
Engulo em seco diante do silêncio esquisito entre nós. Era bom vê-la, no entanto não consigo deixar o pensamento de lado. Me sinto péssimo só de estar próximo a ela. Quero continuar a abraçando, quero beijá-la e dizer tudo o que eu sentia antes que fosse tarde, mas um murmurinho atrás de mim chama a atenção dela. Me viro parra olhar também e vejo meus familiares chegando ao saguão. Eles somente acenam para Preeya com semblantes desconfortáveis. É só então que percebo os olhares de todas no saguão do hospital e de repente eu caio na real. Era como se eu tivesse acabado de acordar de um transe.
— E então — ela volta a puxar assunto — Quer dar uma volta?
Meu olhar se volta para ela, e eu me perco diante daqueles traços. Um sentimento inexplicável toma conta de mim ao olhar para ela, ao ouvir sua voz. Seu cabelo estava bem mais curto do que eu me lembrava, antes ia até o ombro, agora não passava das orelhas, mas ela manteve a franja lateral que contornava seu lindo rosto. Seus olhos brilhantes e castanhos eram hipnotizantes, e faziam parar o tempo. Subitamente me ocorre o pensamento de que se eu estivesse num filme, eu com certeza estaria babando.
— Acho que a gente tem bastante conversa para colocar em dia — Preeya dá um soquinho lento no meu ombro enquanto morde o lábio inferior — O que acha?
Foi preciso um esforço grande para que eu me concentrasse em suas palavras para notar que ela estava tentando fazer eu me mover. Finalmente tomo uma atitude e concordo com a cabeça.
— Ok, vamos — ela convida com mais um daqueles sorrisos doces.
Aquilo era demais para mim. A proximidade já tornava difícil respirar, seu cheiro era tentador, viciante. Quando chegamos do lado de fora do hospital tenho a impressão de que a luz do sol se pondo já não era tão forte, e não somente pelo dia nublado e pela neblina que cobria as árvores ao redor. Preeya ofuscava completamente todo o resto, até mesmo os sons pareciam abafados quando estou próximo a ela. O desconforto infelizmente não fica mais ameno do lado de fora do hospital. Eu não vinha a alcateia de Monttoise há muito tempo, na verdade sempre tentei evitá-la. Tenho lembranças muito antigas desse lugar, e eu nunca gostei muito de estar em meio a esse ambiente.
— Nick, eu… — ela começa, parecendo um pouco incerta — Eu tô tão feliz em te ver. Quer dizer... Você me assustou muitas vezes esse ano...
— Me desculpe, eu não queria — abaixo a cabeça.
— Tá tudo bem, de verdade. Não precisamos falar sobre isso. — Preeya tenta colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha mas o comprimento estava muito curto. Ela da uma risada breve e sem graça — Eu vivo esquecendo.
— Você tá linda — comento, observando suas bochechas ficarem rosadas de repente. Ela ficava adorável desse jeito. Era uma pena eu só ter conhecido esse seu lado depois do que houve comigo. Preeya costumava ser bem confiante e decidida, e não me deixava elogiá-la facilmente. Todos os seus lados são perfeitos, e eu me sinto grato por conhecer mais um.
— Ah, puxa, obrigada, você gostou mesmo? — ela parece não acreditar em mim — Meu ex não gostou nada, e terminou comigo logo depois, mas acho que era só um pretexto já que ele era um babaca...
— Eu amo seu cabelo — digo sem pensar duas vezes — Amo seus olhos, amo sua pele, amo sua boca. Amo seu corpo, amo seu jeito. Eu amo você.
Sua boca entreaberta deixa escapar um suspiro. Posso ouvir seus batimentos ficando acelerados.
— Eu sei que é meio do nada mas, é a verdade. — continuo — Não aguento mais guardar esse sentimento só para mim, eu estou sufocando, e estive assim por meses sem você. Eu não espero que você me perdoe, ou que me aceite, eu só... Eu só tinha que te falar porque não quero perder outra oportunidade. Não faz ideia do quanto eu quis você, do quanto eu... Eu também não espero que acredite nisso. Nos meses em que estive dopado eu só conseguia pensar minimamente quando estava do seu lado. Eu sentia saudades e nem ao menos me lembrava de como era o sentimento. Eu amei você desde a primeira vez em que te vi naquele bar. Sei que só tomei decisões ruins e é por isso que vim parar aqui. Sei que fui um otário, um filho da puta e eu não me importei com mais nada porque só queria sentir algo novamente. Eu estava tentando achar um sentido para minha vida e ao invés disso eu achei você. Eu via você o tempo todo. Eu vi você quando estava inconsciente naquela cama. Eu ouvi você me chamando e quando acordei...
Mostro a ela a marca da mordida na minha mão. A doutora Sullivan pediu para outros médicos examinarem, mas nenhum conseguiu explicar o surgimento daquilo, não que eu precisasse de uma explicação.
— Mas o que é isso? — ela olha preocupada.
— Foi você, em forma de uma loba prateada, eu vi…
— Nick, eu não sou uma…
— Eu sei — digo. Eu sabia que era ela, sempre soube, mas era difícil explicar para outra pessoa.
Abaixo a cabeça me sentindo um idiota. A culpa era esmagadora. Como eu podia estar me declarando para uma mulher humana depois ter ido encontrar uma suposta companheira chamada Irina? Nada daquilo fazia sentido, mas também nada mais importava. Preeya estava aqui agora e eu precisava dizer, mesmo se não desse em nada. Eu não poderia deixá-la ir embora sem que soubesse como eu realmente me sinto, mesmo que ela nunca corresponda. Por mais dilacerante que a ideia parecesse, eu não me importo com as consequências.
— Eu também sonhei com você — ela admite, quebrando o silêncio inquietante — Só que no meu sonho… Nossa isso é loucura…
— O que? — ergo os olhos na direção dela.
— No meu sonho você era o lobo, e você… você não disse nada só… Só sei que estava indo embora — sua voz começa a ficar embargada e seus olhos ficam marejados.
Eu me aproximo alguns passos, querendo desesperadamente abraçá-la, mas ela ergue a mão e eu entendo que ela tinha algo mais a dizer:
— Eu já havia sonhado com você antes só que… Nesses sonhos eram como se fossem memórias e de repente… Pararam. Eu nunca mais tive sonhos com você depois que você foi rejeitado por aquela mulher, e aí você foi embora e em uma noite quando eu tava saindo do trabalho o Lucas me ligou e disse que você estava internado de novo. Eu vim te visitar várias vezes. O meu ex dizia coisas idiotas e eu mandei ele ir se foder… Enfim… Uma noite eu simplesmente sonhei com um lobo. Eu nunca vi sua outra forma mas eu sabia que era você. Você estava por perto, eu toquei em você, eu senti o pelo macio e quente e eu me senti protegida. De repente você encostou a testa na minha e depois do nada começou a se afastar… Você tava indo para longe e de algum jeito eu sabia que você não ia mais voltar. De alguma forma eu sabia. Aí eu corri até você e tentei te parar. Eu pulei em você, te bati, te sacudi. Eu tava desesperada e aí eu meio que mordi você. Aí você parou. Você parou e ficou olhando para mim.
Preeya põe fim a distância entre nós e me abraça. Eu demoro alguns segundos para corresponder, minhas mãos trêmulas a envolvem e minha visão se torna turva. Meus olhos se enchem de lágrimas e eu tento não demonstrar, mas é impossível. Eu aproximo meu rosto do seu pescoço, inalando seu perfume, seu cheiro tão intrínseco, tão perfeito, tão bom. Ficamos um bom tempo assim, até que Preeya volte a dizer:
— Depois do sonho eu acordei, e eu liguei para o seu irmão às cinco horas da manhã para perguntar sobre você. Ele me disse que tinha acabado de receber uma ligação, você teve uma parada cardíaca e os médicos tiveram que reanimar você. Eu senti, eu sabia que era real e foi, mas eu não fazia ideia de que você tinha me visto de alguma forma… Quer dizer, como isso é possível?
— Preeya, olhe para mim — eu a chamo, segurando seu queixo e afastando suas lágrimas com gentil — Você é a minha companheira. Eu não sei o que deu em mim, mas não vou fugir da responsabilidade. Deixei você aqui, tentei fugir do sentimento, não sei como posso reparar isso mas eu não vou parar de tentar.
— Isso não importa mais, Nick! Pelo amor de deus, eu rejeitei você. Você se declarou para mim antes, você cantou Make It Last Forever para mim naquele bar na frente de todo mundo e tudo o que eu fiz foi te magoar. Eu queria tanto sair com você, sempre te achei lindo e carismático, e... Droga, eu estraguei tudo. Eu queria, eu sempre quis mas eu fiquei com medo.
Não consigo evitar sorrir em meio às lágrimas. Era recíproco afinal. Apesar da culpa não ter diminuído, suas palavras me confortam um pouco.
— Isso não importa mais, Pree — devolvo sua resposta — Você está aqui agora, e eu sei que tudo vai ficar bem. Você me salvou.
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