O Rapaz Misterioso - 1
Tudo era escuridão. Então se fez luz.
Seus olhos entreabriram de forma lenta e pesada, sem foco para definir os vultos que o visitavam. Ao conseguir se mexer, a dor se espalhou com força suficiente para retorná-lo à escuridão. Sem noção de tempo e espaço, não entendia o que estava acontecendo, onde estava, quem eram os estranhos e, o mais assustador, quem ele era.
O temor inicial pelos vultos sem rostos diminuiu com o passar do tempo, pois de uma forma ou outra estavam a ajudar, amenizando a dor, fome e sede. Nunca conseguia falar com eles, pois a boca só soltava um ou outro gemido. Se conseguisse uma frase, pediria para não mais ser deixado sozinho, pois os pesadelos frequentes o despertavam em agonia e medo, cada vez mais vívidos, repletos de destroços, corpos mutilados e gritos. Esforçava-se para espantar o sono, contudo, cedo ou tarde, mergulhava na escuridão de desespero.
Assim que outro sonho mórbido o despertou com o coração a espancar o peito, respirou fundo em se encontrar naquele quarto que, mesmo ainda estranho, lhe oferecia um mínimo de segurança por não estar mais entre escombros de morte. Tentou chamar por ajuda, a voz tão rouca e baixa que só alguém ajoelhado ao seu lado poderia escutar.
A virar o pescoço para o lado, lambeu os lábios secos ao avistar a cumbuca que parecia longe, a lançar um tímido reflexo ondulado no teto de palha. Sentia-se sedento que, mesmo o mínimo mover a arder seu interior, passou a se arrastar pelo chão. Com dolorido esforço e lentidão, por vezes com pausas para recuperar o fôlego e acalmar as dores, sequer acreditou ao finalmente alcançar a vasilha. Arquejou sem forças ao avistar o fantasma pálido e mal tratado a refletir pela água, com olhos negros e fundos, a expressão miserável. Pior do que esquecer o próprio rosto, era descobri-lo como o de um cadáver. Aproximou a boca de seu feio reflexo e sorveu a água fresca com a rapidez que a garganta permitiu, o que resultou em um engasgo doloroso e o derrubou sobre o pote.
– Por Írmia! – exclamou uma voz, apressando-se ao seu lado.
Apesar de a cabeça rodopiar, sentiu leve segurança ao ser recolocado sobre a cama de palha por aquele homem moreno e robusto. Era um de seus constantes visitantes, sempre a usar o tom baixo para acalmá-lo, mesmo que os olhos azuis estivessem cheios de tensão. A mulher que chegou logo atrás também já lhe era familiar, com sua voz estridente e ranzinza, por vezes audível além das paredes. Ela colocou nova água sobre a cumbuca e o homem lhe deu de beber com lentidão para evitar novo sufoco. Com a garganta revoltada pela falta de uso, precisou se esforçar muito para gaguejar um agradecimento.
– Por Írmia, você fala nossa língua! – exclamou o homem, não demorando em se apresentar como Mjehad, e sua esposa Crizhad. – Por Írmia, quem é você?
A sentir o rosto enrubescer com os olhos cheios d'água, meneou a cabeça, sem conseguir balbuciar que não fazia a menor ideia. Esforçou-se por qualquer lampejo de lembrança, sentindo-se solitário por não encontrar sequer uma faísca.
– Não se preocupe, vai ficar bem. – disse o homem, remexendo nas bandagens para tratar dos ferimentos de seu corpo magro. – Precisa repousar, rapaz misterioso. Tivemos medo que não sobrevivesse, entretanto, tem melhorado em ritmo além do esperado.
O rapaz persistiu em silêncio, sem concordar com a frase. Não bastasse o corpo a arder por inteiro, o medo o deixava cada vez mais desesperado, com perguntas a se amontoar em sua cabeça vazia, e nenhuma coragem para pronunciá-las em voz alta.
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