7

Cansado de caminhar sem descanso, Zheth passou o braço pelo rosto para limpar o suor. Queria manter a maior distância possível da aldeia antes de parar para descansar, a temer encontrar com os rapazolas.

– "Que criatura mais ridícula. Com um coice deve desmontar em pedaços."

Inquieto, olhou para os lados. Acreditou que o medo e exaustão o deixavam escutar a voz a desfazer de sua pessoa, e tudo que queria era deixar as chacotas para trás.

Retirou uma fruta da sacola para se distrair, desejando que os barulhos de galhos e passos pertencessem a pequenos animais. Assim que se deparou com um imenso animal negro, quase gritou alto. A criatura ergueu o pescoço, os olhos amarelos encarando-o com verdadeiro desdém. Orgulho e robustez eram notáveis naquele focinho, e o livro de animais era bem explícito sobre quanto Graustros eram arrogantes e exigentes de respeito. Nunca cediam o lombo, nem mesmo para carregar uma sacola. Qualquer coisa poderia ofendê-los, o que resultaria em um coice. E como não eram cascos, mas garras ao fim de cada perna, um golpe poderia ser mortal.

– "Esse monte de ossos faz alguma coisa?" – perguntou alguém, e Zheth engoliu seco. – "Oh, ele sabe corar."

Tenso e envergonhado, lançou um olhar pelas árvores. Aflito de ser atacado pelo animal negro, que acompanhava todos os seus passos com completo descaso, continuou pelo caminho.

– "Parece um tipo bem medroso. Também, quem não ficaria apavorado tendo um corpo de puro osso? Chega a causar asco."

– Cala a boca! – berrou Zheth, virando-se zangado. Não havia ninguém. A única resposta foi o chiado do Graustro, que o encarou de olhos arregalados. Temeroso de ter assustado ou ofendido a criatura, ia dizer qualquer coisa, calando-se assim que uma pedra acertou sua orelha.

– "Merecia uma maior".

– Oh, quem está aqui? – sorriu o rapazola, aproximando-se com seu grupo. – Pensamos que não teríamos tempo de desejar-lhe boa viagem.

– Por favor, eu já deixei sua aldeia. – disse Zheth, sentindo-se ainda mais cansado. – Agora me deixa em paz... – pediu, logo recebendo um empurrão. Risadinhas se misturaram aos chiados do Graustro, que também parecia rir. – Eu não fiz nada... – ia dizer, e recebeu um tranco do animal, a cair de cara no chão.

– Grande Graustro, que golpe maravilhoso. – gargalhou o rapazola, fazendo grande reverência ao animal antes de sinalizar aos amigos. – Trouxemos um presente de despedida. – disse, mais que animado ao agarrar Zheth pelos cabeços e aproximar de seu ouvido. – Então escute. Receba o que merece e nunca mais apareça por aqui. Dejeto com dejeto.

Antes que Zheth respondesse, viraram um balde em sua cabeça, o cheiro ruim a invadir sua boca e nariz. As risadas e chiados ecoaram altos. Assim que tentou tirar o recipiente da cabeça, o grupo não apenas impediu, como passou a batucar contra o balde com força. Ao conseguir ficar de pé, começaram a empurrá-lo de um para o outro, deixando-o completamente zonzo, até mergulhar contra o chão novamente. Mais humilhado do que nunca, preferiu ficar caído, ainda de cabeça dentro do balde. Suportou as risadas que não pareciam ter fim, as gargalhadas chiantes do Graustro, assim como as chacotas e golpes. Sequer tentou impedir quando arrancaram sua mochila.

– Caso ouse retornar algum sol, estaremos esperando.

Zheth sequer se moveu, permaneceu caído até o silêncio se tornar absoluto, e só então afastou o balde da cabeça e se ajoelhou trêmulo. Ao menos não havia mais ninguém. Nem rapazes, nem Graustro, nem sua sacola. Completamente imundo, de roupa esfolada, dor de cabeça e corpo dolorido, cuspiu diversas vezes, sem retirar o gosto ruim da boca. Já não sabia para onde ir. Observou as marcas no chão, com os passos dos rapazes e as pegadas do Graustro, certo de que não seguiria por aquela direção, pois nunca voltaria para Kallemott. Cristialli estava certa em querer ir embora. Quase regressou para mandá-la partir de uma vez, mas faltou coragem de encarar aqueles rapazolas de novo.

– Covarde. – resmungou alto, chutando o balde para longe. – Covarde, covarde, covarde. – repetiu sem parar, andando a passos duros. Com lágrimas de vergonha e raiva, tropeçou pelo chão, tentou se erguer e acabou por cair de novo. Até o piar dos pássaros lhe pareceu um monte de risadas. Encolhido, forçou a cabeça. Queria recordar sua casa e ir embora. A não ser que sua casa quem o deixara no estado em que foi encontrado. Levou a mão ao bolso, incrédulo por encontrar o presente de Cristialli. – Errou ao me dar essa runa.

O choro escapou sem permissão. Permaneceu caído, e a sensação de solidão o esmagou com mais força que nunca desde que recobrara a consciência.

-

– "Cuidado!"

Assustado, Zheth ergueu a cabeça. Havia adormecido em algum momento. Pela cor do céu, o sol começava a se esconder no horizonte. Estremeceu enojado pelas moscas por seu corpo e se forçou a ficar de pé. Cheio de angústia, guardou a runa e se obrigou a dar o primeiro passo, depois o outro, a andar sem qualquer rumo. Ignorou a sede, ocupado apenas em seguir adiante, um passo por vez. A luz diminuía apressada, os pássaros se retiravam, e ele persistia a andar.

Tentou insistir pela escuridão, até tombar e ralar o joelho. Ao se apoiar ao tronco de uma árvore, esforçou em parar de ofegar e foi rodeado pelo silêncio. Às vezes sobressaltava-se com barulhos e estalos. Em determinado momento, teve certeza de escutar algum animal ser atacado e esgoelar até a morte. A tremedeira tomou seu corpo. Agarrado ao tronco, não conseguiu fechar os olhos, certo de que animais iriam saltar em sua direção.

À primeira claridade, ergueu o corpo dolorido e tornou a caminhar, sem nunca encontrar ninguém, apenas a companhia irritante das moscas. A boca reclamava seca, o estômago vazio. As árvores eram muito altas, e ele tinha certeza que não conseguiria escalar em busca de frutas, tampouco quis as que encontrou pelo chão, podres e bichadas.

Encontrou uma árvore com buraco e se encolheu dentro para passar a lua seguinte. Ao adormecer, sonhou com os rapazolas a correr e gritar em sua direção, e acordou apavorado. Só parou de tremer depois que o sol subiu.

Exausto, se obrigou a caminhar, cada vez mais devagar. Nem olhava para frente, apenas para o chão. De muito longe, escutou vozes a cantar. Tentou chamar por elas, sem conseguir resposta. Andou na direção, até cair. Então passou a se arrastar, o corpo cada vez mais pesado. Sequer tinha mais ânimo para afastar as moscas, e sua cabeça ficou completamente zonza pela dor e pelo barulho dos insetos. Provavelmente enlouqueceria antes de morrer.

Sem a menor ideia de quanto tempo demorou em chegar ao rio, avançou pela margem e afundou a boca para beber, engasgando em meio ao processo. Sem suportar mais escutar o zunir das moscas, mergulhou o corpo pelo raso, a se limpar da melhor forma possível. Pouco mais calmo, olhou ao redor, sem encontrar quem cantava a música aconchegante. Faminto, se aproximou das árvores, a recolher frutas caídas, sem se importar por estarem podres. Pensou escutar um chiado ao longe e gemeu desgostoso ao imaginar os rapazolas a retornar.

– "É aquele magrelo. Não sabia que era possível ficar mais magro ainda. Nem mais pálido. Com certeza é uma cena que nunca vi."

Cansado, Zheth comeu tantas frutas quanto conseguiu. Se ia ter de sofrer humilhação, que ao menos estivesse de barriga cheia.

– "Essa comida parece podre."

A mastigar com raiva, virou para trás. Só havia um Graustro, as orelhas arqueadas e os olhos curiosos.

– "É água do rio ou são lágrimas nos olhos? Só podem ser lágrimas. Bem disseram que não passava de um trapo inútil. Se bem que pode estar chorando por nunca ter visto nada tão magnífico quanto eu."

Incerto se suportaria ficar de pé, Zheth se arrastou para o lado e observou as redondezas. Afora o Graustro, não encontrou ninguém, nem mesmo sombra dos cantores incessantes.

– "Deve ter perdido alguma coisa para ficar olhando para todos os lados. Ou precisa de mais comida. Com certeza que precisa. Ahn... Até que esse lugar é bonito, nunca explorei esse lado direito. E meu bando está bem longe, posso baixar ao menor nível. Agora trate de pensar o que fazer. Eu posso seguir o magrelo, desde que Kafram não saiba. Afinal, não quero ser alvo de piadas... Ou então eu vou sozinho. Até parece que eu não vou saber o caminho. Não sei se esse magrelo vai saber. Parece faminto. Ao invés de comida podre, devia pegar peixes do rio. Se bem que parece tão inútil que é capaz de não conseguir pegar um."

– Não como peixe.

O Graustro chiou alto, as orelhas completamente em pé. Zheth se encolheu com medo de levar algum golpe.

– "Esta, sim, é uma cena que nunca vi. Não é possível. Acho que corri demais, fiquei cansado e agora estou imaginando coisas. Apesar de que Graustros nunca se cansam."

Zheth permaneceu quieto. Não tinha dúvidas que aqueles resmungos pertenciam ao Graustro, por mais que não visse nenhum movimento em seu focinho negro. Preferiu aproveitar a distração do animal para se firmar em suas pernas. A fome e sede diminuíram apesar de ainda persistir bambo e com dor de cabeça. Provavelmente sofreria mais tarde devido às frutas murchas, só não queria pensar nisso agora. Sua roupa estava ralada em diversos pontos, além de não exatamente limpa por mais que estivesse ensopada d'água, mas não havia o que fazer. Começou a andar, certo de que não teria problemas se sempre beirasse o rio. Com sorte, encontraria comida melhor e de fácil acesso do que ao alto das árvores ou putrefata no chão.

– "Que era magrelo eu já sabia, só não imaginava o quanto fedia. Por baixo dessa roupa, as costelas são tão aparentes. Ahn, como é fracote e sem carne."

Zheth tentava não escutar. Prendia a atenção na música incessante dos cantores desconhecidos, os peixes a nadar dentro do rio, o céu a escurecer, a brisa nas árvores. Qualquer coisa para desviar a cabeça, contudo, era como se o animal usasse o seu cérebro para resmungar. Primeiro ficou muito nervoso. Depois se sentiu desanimado. Recordou os rapazes, o medo ao se perder sozinho e sem comida, o pesadelo, o quanto desejava não ter saído do quarto desde que despertara. Não sou apenas covarde, pensou infeliz. Sou completamente inútil.

– "O magrelo está vazando de novo. Se bem que se eu tivesse esse corpo, passaria todo o sol a chorar também."

– Agradeço sua preocupação, agora chega. Não aguento mais ouvir que sou magrelo, sem carne, só osso, fracote, covarde...

– "Eu não estou preocupado. Tampouco o chamei de covarde. Ao menos, não me lembro. Se bem que magrelo assim deve ser mesmo." – Zheth agarrou os cabelos, a soltar um berro. – "Magrelo eu já sabia, loucura não. E como chora alto."

Enganara-se ao pensar que ficaria louco com as moscas. Aquele animal a falar sem parar dentro de sua cabeça era muito mais atormentador. Por mais que as pernas ardessem e não sentisse nenhuma disposição, correu tanto quanto possível. Ao perder o fôlego, se recostou a uma árvore, aflito em estar novamente em meio à escuridão. Nem o cansaço, nem a música baixa e calma dos misteriosos cantores o deixava com sono. Ao sair de Kallemott, sentia um mínimo de confiança. Agora estava mais que humilhado, totalmente perdido, a se sentir inútil e duvidar quantos sóis mais suportaria.

Iria procurar por alguém e pedir direções para chegar na grama branca, na esperança de se animar ao avistar o lugar. Cogitou perguntar ao Graustro, no entanto, a criatura poderia muito bem mentir para rir de sua cara ou, ainda pior, para levá-lo para seu bando se divertir. Quase ao mesmo tempo em que pensou no animal, escutou um estalo e imaginou a criatura a se aproximar. Pelo menos não escutava mais magrelos em sua cabeça.

– "Pega o magrelo!"

O grito e o chiado alto fez Zheth pular de susto. Com a lua a refletir sobre o riacho, vislumbrou um vulto a rosnar para o enorme volume negro que era o Graustro. Após uma rápida troca de garras, a outra criatura fugiu e o Graustro empinou a cabeça, cheio de si. Zheth demorou a recuperar o ar, revestido de suor.

– O... O que? – sua voz pareceu um guincho.

– "Apenas uma Sireua. São fáceis de afugentar, eu sempre consigo afugentá-las. Só que se ela atacasse o magrelo, eu não precisaria me esforçar com criatura tão inferior. Nem sei como ela chegou perto sem eu notar antes. Acho que é porque esse magrelo fede tanto que atrapalha meu faro."

– Eu não ouvi você antes, estava dormindo? – perguntou Zheth. Qualquer coisa para mudar o rumo da conversa.

– "Claro que não, pensa que sou ignorante como você? Só um idiota para dormir ao lado do rio, onde criaturas certamente vão passar para beber. Como estava escurecendo quando saiu a correr e se jogar contra a árvore, imaginei que queria silêncio e deixei meus pensamentos elevados."

– Elevados?

De acordo com o Graustro, a espécie se comunicava por pensamentos que poucas criaturas escutavam e, ainda menos, entendiam. Existiam diversos níveis, dos mais baixos aos mais elevados. Zheth só não imaginava como se pensava de um ou de outro jeito.

– "Não sei o que acha difícil de entender. É questão de usar mais ou menos energia. Sinceramente, não sei como poderia explicar melhor. Se esse magrelo não estivesse falando minha língua, o consideraria bem mais que um grande idiota."

Zheth soltou um suspiro, a revirar os olhos. Assim que notou o animal a erguer a cabeça, se levantou amedrontado.

– "Espero que meu faro esteja errado. Não que meu faro erre, eu nunca erro nada... Também nunca fujo de nada, só quero me afastar daqui."

Um grito agudo chegou do meio das árvores. A engolir seco, Zheth se esforçou para seguir o Graustro, a se distanciar do som de animais a comer. Seu estômago protestou mais que as pernas, pois era muito esforço para pouca comida. A considerar parar e descansar um pouco, longo uivo ecoou, arrancando um guincho do Graustro, que passou a correr apavorado. Diante daquela reação, Zheth obrigou o corpo a segui-lo. Não demorou a mancar, o peito a arder, golpeado pelo coração descontrolado.

 "Aproveita esse magrelo lerdo, Iasam. Não vai render muito tempo, mas será o bastante para correr. Não que eu não possa enfrentar um bando de Fuilins, é óbvio que eu consigo. Só que são criaturas inferiores demais para gastar minhas garras nelas."

A revirar os olhos, Zheth lutava para continuar. Por mais que não gostasse de se afastar do rio e embrenhar pela mata, imaginou que o Graustro conhecia lugar mais seguro. Não era difícil segui-lo, pois além do caminho demarcado pelas garras, havia o som das patas contra o chão ou o corpo a acertar galhos e troncos. Era de estranhar não atrair qualquer outro animal. A não ser que fiquem com medo de tanto barulho.

Sequer acreditou quando alcançou o Graustro, que passara a caminhar mais sossegado. Zheth também tentou se acalmar, ainda mais com as pernas que agora reclamavam mais que o estômago. Queria aproveitar o tamanho e o faro do animal para se manter a salvo e fez de tudo para ignorar os comentários que o outro pensava a seu respeito.

– "Será que o magrelo tem nome? Deve ser tão feio quanto sua cara."

– Zheth. – respondeu sem pensar. – Até recordar meu verdadeiro nome, sou Zheth.

– "Ahn... Será que ele escutou aquela parte? Zheth, que horroroso. Não vou dizer o meu para criatura inferior. Uma pena, pois é tão bonito. Iasam Brat. Nunca sei se o mais bonito é meu nome, minha aparência ou minha força."

– Posso perguntar por que apareceu aqui? – perguntou curioso.

– "E desde quando preciso dar os meus motivos para criaturas inferiores, magrelo fedorento? Adoraria dizer que vim à sua procura para rir. Todos rolaram pela grama quando Kafram contou tudo que aconteceu. Ele se divertiu à beça."

Zheth segurou a runa no bolso, a se sentir triste.

– Cristialli sabe disso?

– "Não sei o nome da maioria de vocês de duas pernas, mas é impossível que os rapazes não contem história tão engraçada aos demais."

– Sabe como chego na grama branca? – perguntou, a tentar não soar nervoso. Nem se importava com a resposta, só queria deixar o Graustro ocupado com outra coisa. Não sentia mais vontade de ver lugar algum.

– "Não passa de grama branca, magrelo, devia pensar em algo mais interessante para fazer."

– O problema é que não sei nada. Não tenho recordações, nem sei quem sou.

– "Não precisa lembrar para saber que é um magrelo pálido, de aspecto fraco e inútil."

A respirar fundo, Zheth pensou seriamente em se perder pelas árvores a ter de ouvir qualquer outra coisa mais. Entretanto, volta e meia o som de caça chegava a seus ouvidos, junto aos guinchos do animal que perecia sob dentadas. Desanimado e de pernas doloridas, persistiu a avançar atrás do Graustro, decidido a seguir sozinho ao nascer do sol.

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