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Naquela lua, a fogueira estava alta, a música animada. Os mais simpáticos se aproximavam para cumprimentá-lo, dar conselho ou ficar em sua companhia. As crianças até se aproximaram para lhe entregar presente e ele ficou realmente comovido pela surpresa.
Independente de sua hesitação, precisava ir embora. Encontraria coisas maravilhosas, sem dúvidas. E Mjehad garantiu que o caminho seria mais que seguro. Contudo, o medo persistia. Concentre-se nas coisas boas, seu covarde, esbravejou consigo mesmo.
Era difícil saber o que esperar em sua jornada. O nome que mais atraia sua atenção era o Prado da Grama Branca, imaginava um lugar bem pacífico e bonito. Duvidava encontrar as respostas, ainda assim fantasiou que recordaria de seu lar. Então retornaria para agradecer os Kallemottanos e entregar seu verdadeiro nome. Não sabia muito bem como se portar com Cristialli, e preferiu deixar para se preocupar ao regressar.
Com os pensamentos distantes, barriga cheia, e o aconchegante calor da fogueira, observou a fumaça do fogo a formar imagens diversas. Avistou um cavalo, feliz em ver aquele animal se aproximar. E não era mais fumaça, era seu querido amigo, são e salvo.
Um amontoado de risadas o acordou, e o cavalo se desfez. Virou-se para os lados, preocupado de alguém ter notado que estivera a sonhar enquanto Crizhad contava uma história. E verdade seja dita, fazer pouco de uma história daquela mulher resultava em ouvi-la resmungar zangada até a fogueira apagar e, possivelmente, muito além. Respirou aliviado por não receber a mínima atenção.
Aproveitou para encarar o fogo, com um misto de confusão e curiosidade. Queria acreditar que não havia apenas imaginado aquele animal. Talvez o conhecesse. Podia morar bem longe, já que Mjehad nunca lhe mostrou ou comentou sobre cavalos. Passeara entre as páginas do livro de animais por várias vezes e tinha certeza de não ter visto qualquer referência à espécie, por mais que tivessem semelhanças com Gávalos, Graustros, Guelópagos, Camivatolos e Unas. Gravou cada detalhe daquele animal, a forçar a mente em recordar seu nome.
– Vamos dançar?
Tão distraído, se sobressaltou com Cristialli, a mão estendida, o rosto sério. Sem querer entristecê-la, a seguiu para frente da fogueira. Nas últimas luas, ela sempre o chamava. Era difícil começar, ainda mais por ter de arcar com as expressões e deboches dos rapazolas, mas depois se soltava. Acabou por se sentir triste, afinal, Cristialli foi a melhor companhia que recebeu em Kallemott. Era ela quem lhe dava dicas ou defendia diante de alguma falha.
Estava atordoado, tanto pelo medo, pela fumaça da fogueira, pela dança, pela tristeza de não ter nada em seu interior e deixar o pouco que conseguiu em Kallemott. Não estava apaixonado, isso sabia com certeza. Ainda assim, Cristialli tinha grande significado para ele. Era triste deixá-la, contudo, não entendia como poderia seguir com ela. Não quando ele mesmo não tinha caminho. E sua memória poderia voltar a qualquer momento. Nada lhe daria maior prazer do que recordar o rumo de casa, e isso poderia significar uma aldeia da mesmice que a garota repudiava. Mais que nunca, se esforçou em lembrar qualquer coisa do passado.
Algo pareceu piscar e ele virou o rosto. Por todos os lados, fragmentos brilhavam como gotas de chuva, a aparecer e desaparecer no mesmo instante, reaparecendo em seguida em constante piscar. Pouco a pouco, conseguiu ver mais do que o brilho, o que o deixou ainda mais confuso e assustado. Avistou o fragmento de um teto alto e suntuoso antes de tornar a encarar o céu estrelado. Em outro faiscar, maravilhou-se pelos lustres gigantes. Vultos tocavam instrumentos diversos, nada semelhantes aos Kallemottanos. Paredes compridas, de um lado tomadas por gigantescas janelas, do outro de tapeçarias elegantes e pesadas. O chão de mármore reluzia majestoso. Pessoas dançavam em roupas elegantes. Se as imagens não sumissem tão rápidas, teria parado de dançar para observar aquela cena bonita. Foi com assombro que notou sua própria mão a mudar. Usava luvas brancas, um casaco cheio de detalhes dourados contra o tecido negro. O cabelo parecia mais longo e bem cuidado e, por estranho que pareça, podia se sentir mais alto. Um arrepio o atravessou ao se virar para Cristialli. A roupa de juta dava lugar a um vestido prateado. Ela também crescia de tamanho, a pele a clarear. Para sua inquietação, a face não se alterou em um piscar. Começou a mudar com lentidão. Seu coração socava o peito e o suor escorria frio. Sentia expectativa, curiosidade, medo, saudade, tantas coisas diante daquele rosto a retornar à sua frente que prendeu a respiração.
– Qual o problema? – perguntou a garota.
Todos os brilhos e fragmentos sumiram. Além de um nó na garganta, Zheth sentiu o buraco em seu interior crescer ainda mais. Olhou para os lados, à procura, porém só havia a fogueira, os Kallemottanos, e a feia madeira no formato da encapuzada.
– Só estou nervoso com tudo. – disse sem jeito.
– Nem sempre isso é ruim. – ela olhou em volta antes de tornar a encará-lo com os olhos azuis faiscando. – Fico feliz por ter esperado, Zheth. Foi uma honra conhecê-lo, rapaz misterioso. – com um sorriso triste, o puxou para mais perto. – Não partirei agora, ou irão atrás de você. Vou entender se não voltar. Esperarei dez sóis contados, depois deixarei Kallemott.
– Não tenha ideias precipitadas.
– Não. – riu ela, aproximando-se mais. – Faz muito que aguardo. Acho que, no fundo, eu tinha medo de realmente partir. A Jovem Sá disse que alguém especial me daria forças. E estava certa.
Talvez Mjehad tenha se incomodado com a cena, pois pareceu apressado em terminar tudo para Zheth ter uma boa lua de descanso. Existia afobação pela aldeia, certamente sem se conter de expectativa em se livrar do rapaz misterioso. Havia sorrisos ao entoar a música à Írmia, e mais comida do que o normal foi colocada no fogo antes de seguirem para suas casas.
Mesmo sem sono, Zheth agradeceu mentalmente ao deitar no sossego de sua cama. Revirou a runa pela mão, tenso e a sentir frio na barriga só de imaginar o sol seguinte. Preferiu desviar os pensamentos para o cavalo e os fragmentos do salão, esforçando-se em gravar cada detalhe e recordar qualquer coisa mais sobre aquele lugar. A adormecer com a runa na mão, sonhou com as pessoas a valsar. Após um som ensurdecedor, o salão desmoronou em ruínas. Em meio à escuridão, um vulto passou a sibilar furioso. E uma voz berrou ao seu ouvido.
"Cuidado!"
Zheth deu um pulo, olhando para os lados com apreensão. Não adiantou alegar que foi sonho e insistir em dormir mais, pois os olhos se recusaram a fechar. Queria acreditar que suava e tremia de ansiedade pelo sol seguinte enquanto se remexia sem parar pela cama, até desistir e sair da casa.
Com a cabeça a rodopiar em preocupações e emoções estranhas, sequer notou o tom arroxeado do céu. O cavalo ou qualquer fragmento poderia bailar em sua frente que não notaria. Andou em infindáveis círculos, depois sentou à soleira da porta em completo silêncio. Divagava distante, alheio aos pássaros que começaram a cantar. Ao menos até se assustar com Mjehad a exclamar "Por Írmia" tão alto.
– Por Írmia, o que faz aqui? – perguntou o homem, e existia desconforto em seu rosto. – Caso sinta-se despreparado, pode adiar a partida.
– Não, não é necessário. – gaguejou a tentar esconder o medo, ainda perturbado com o sonho.
– Então vá comer e certificar que nada está faltando.
Distante, Zheth meneou a cabeça e adentrou a cozinha. Apesar de não ter fome, forçou algo para dentro e só depois percebeu ter se esquecido de fazer qualquer coisa por Írmia. Ficou aliviado por Crizhad estar ocupada demais em checar as sacolas pela enésima vez, sempre a retirar alguma coisa da mochila com um meneio de cabeça, como se considerasse que seria muita coisa para um rapaz misterioso. Pelo menos ela não notou seu ato desrespeitoso com Írmia, o que foi uma tremenda sorte.
Após tudo preparado, Zheth não se sentia nada disposto. Alguns poucos Kallemottanos se despediram, e Zheth foi sincero ao agradecer cada um. Após as últimas trocas de amenidades, partiu em direção ao norte. Ao se voltar para aldeia e erguer a mão, Cristialli era a única a persistir ali para acenar de volta.
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