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Apesar dos receios, Kallemott não foi tão ruim quanto Zheth imaginou. Nunca seria considerado um Kallemottano, logo nunca seria exatamente bem-vindo, mas conforme entendia melhor a aldeia, foi mais fácil conviver e aprender o que precisava. A maioria era ranzinza e impaciente, principalmente o grupo mais jovem, sempre cheio de desprezo e ameaças, e Zheth fazia o possível para guardar distância segura de cada um. Uma minoria era mais pacífica e pronta para ajudá-lo, apesar de se ofenderem com a mínima palavra errada. A não ser Cristialli. A jovem era a mais descontraída e geralmente ria alto diante de suas gafes, o que acabou aproximando-os mais.

O mais notável em Kallemott era a devoção prestada à Írmia. Ninguém saia ou voltava para cama sem homenageá-la, além das honrarias durante as refeições. Ao sol, as famílias comiam na própria casa, e comida era deixada ao lado da estátua com algumas palavras. Ao luar, a refeição era sempre com toda a aldeia na praça central, encerrada com a canção à Írmia e comidas jogadas no fogo. Zheth era grato pelo alimento que recebia e não queria ser desrespeitoso com a crença deles, apesar de precisar se esforçar para não demonstrar desagrado ao entoar versos amorosos como 'minha querida ao solo amarelo', 'coração do meu deserto', 'amada dos meus sóis'. A frase final da canção, 'a beleza azul que se esconde atrás dos véus', sequer rimava com o restante da música e, por mais que não encontrasse motivo para considerar a frase engraçada, a garganta sempre coçava com a vontade de rir ao escutar as diversas vozes desafinadas a entoar aquele verso.

Não havia um líder certo na aldeia. Os mais cultos eram considerados os Mestres, e Kallemott possuía três. Eles quem ajudavam com conselhos, curas, ensinamentos, dentre outras tarefas. Mjehad estufou o peito ao contar que seu pai havia atravessado o mar para aprender com os próprios Mestres Yajiri, e como parecia de grande importância, Zheth demonstrou admiração mesmo sem saber o que significava. Cada Mestre possuía discípulos com quem se afastavam para aulas cotidianas em diferentes posições do sol. Certa vez, Zheth pediu para acompanhar uma aula por curiosidade, Mjehad soltou alta exclamação sobre quanto o pedido era ultrajante e desrespeitoso, e só restou pedir inúmeros perdões e não voltar a tocar no assunto.

O que mais lhe interessava, em todo caso, era Crônomis, e se esforçava para aprender de tudo na esperança de reconhecer alguma informação ou nome de seu passado.

Seu maior desagrado foi ao receber o mapa da ilha em que estava, Canovéraz. Era simples e destoante do que esperava, nada mais que um borrão com traços grossos e tortos, nomes escritos em letra ilegível. O melhor que pode fazer foi pedir tinta para suas próprias anotações em restos de panos. A ilha era considerada pacífica, mais habitada ao norte, com diversas aldeias sem muros, o que significava boas vindas para qualquer um que se aproximasse. Principalmente pelos rapazes mais jovens, pensou desgostoso.

Existia certo atrativo em sair para explorar a ilha. Além de tentar respostas, sentia curiosidade por alguns lugares, como Floresta dos Nerius, o Prado de Grama Branca, o Vale dos Graustros, o Corredor das Miltas. Não sabia muito o que esperar de cada lugar, a não ser, talvez, da grama branca.

O maior perigo da ilha estava ao sul, na Floresta das Bruscas, morada de animais selvagens, representada por um borrão disforme no mapa. Não era aconselhável viajar por aquela região sozinho. Outro fator diferente na ilha era a construção de uma cidade de pedras em uma área junto ao mar, pois vilas cercadas por muros eram consideradas ofensivas e, até mesmo, de mau agouro.

Após ouvir tudo que podia sobre a ilha, Zheth tentou conhecer mais sobre Crônomis. Era basicamente dividida em três partes: Crimbhiaghini, Dimávitá e as Treze Ilhas de Crihma.

Também conhecido por país pequeno, Crimbhiaghini era representado no lado esquerdo dos mapas, país de morada da poderosa Írmia, assim como dos Laerths e suas caravanas. Dimávitá, o país grande, não tinha o nome à toa de acordo com o desenho mal feito ao lado direito dos mapas. Mjehad propôs a Zheth explorar Canovéraz antes de maiores informações sobre os dois países.

Por fim, as Treze Ilhas de Crihma, encontradas entre os países pequeno e grande: Alcux, Nashuá, Canovéraz, Jafú, Honty, Quinovéirs, Guelópagos, Ririn, Unijus, Ezcárlia, Veji, Merum-Aruíta e Crihma.

Veji e Quinovéirs disputavam entre as maiores, mais perigosas e misteriosas. Já Ririn era a menor de todas, morada das Crilecolash, as fantásticas guerreiras de Ririn, que Zheth não fazia a menor ideia de quem poderiam ser.

Por mais que tentasse, não conseguia decorar os nomes das treze ilhas. Na verdade, até se confundia entre Crimbhiaghini, Dimávitá e Crihma, sentindo-se completamente perdido.

Era curioso ouvir e ler sobre lugares com vulcões, florestas douradas, mares de esmeraldas, prados coloridos, terras que tocavam as nuvens, picos afiados em meio ao mar, cordilheiras, cachoeiras, cânions e toda espécie de formações naturais. Zheth tinha certeza que só se atreveria a sair de Canovéraz ao recordar onde encontraria sua casa, principalmente ao conhecer a vasta fauna. Apesar de ter adorado receber um imenso livro cheio de rabiscos e explicações de tantos seres diversos, só de imaginar encontrar animais com tantas características e poderes estranhos fez seu corpo congelar.

Por várias vezes encontrou em livros referências à Jovem Sá, e por vezes Mjehad ou os aldeões a mencionavam ao explicar alguma coisa, apesar de nunca se aprofundarem no assunto. Ao que deduziu, a garota se sacrificou para salvar aquele mundo. Por mais curiosidade que sentisse, também temia ser desrespeitoso ao indagar a respeito. De qualquer forma, estava mais preocupado com sua própria história do que com lendas passadas.

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<3

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