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- MALEDICTIO -
- Mas então, o que aconteceu com Mewwicked? E o que ela tem a ver com o Sétimo Ciclo?
Devimyuu perguntou com ares de ansiedade, trazendo o assunto principal de volta à tona.
- Dizem que uma das meias irmãs de Mewwicked por parte de mãe - filha de Ciphermew, era biotipo Psíquico, e portava grandes poderes de clarividência. Através de uma de suas visões, Mewwicked descobriu que seu pai viria ao encalço dela para executá-la. Ela sabia que não poderia lutar com ele, já que vinha acompanhado dos irmãos e sobrinhos dela. Seria impossível vencer todos. Fugir também não adiantaria; Samewhain seria capaz de encontrá-la onde quer que se escondesse. Já que não lhe restava outra escolha, Mewwicked decidiu que sua morte inevitável não seria em vão.
Levado por um súbito reflexo instintivo e involuntário, Devimyuu ergueu a mão para mentora como se estivesse numa sala de aula.
Mewcedrya imaginou que como o aluno aplicado que era, ele deveria sentir falta desse tipo de ambiente. Sendo assim, não questionou o motivo dele estar com a mão erguida, e apenas sorriu discretamente. Raros momentos como esse - onde o pouco que ainda restava de sua inocência juvenil se manifestava sem que ele percebesse - deixavam a druidesa um pouco comovida e ao mesmo tempo feliz, por vê-lo agindo como um simples menino curioso e inteligente de apenas dezesseis anos.
- Pode falar, querido. - Disse ela.
- Acho que sei o que aconteceu! Você disse que ela criava muitas maldições né? Então já que ela ia morrer mesmo, aposto usou a própria vida pra criar tipo a maior maldição de todas!
A suposição do príncipe estava correta. Mewcedrya já deveria estar acostumada, mas nunca deixava de se impressionar como ele chegava a conclusões precisas tão rapidamente.
- Ora ora... O que te fez supor isso?
- Lembra do ano passado, quando aquele feiticeiro da guarda real tava rondando a orla da floresta e você me ensinou a fazer os Embrulhos de Bruxa? Bom, de Bruxo, no meu caso, heh... Enfim, você disse que era essencial colocar os ossos de vultre* no saquinho porque a vida daquela criatura roubada por nós, iria garantir que a maldição do feitiço perdurasse enquanto continuasse escondido nas coisas dele...
Mewcedrya se recordou rapidamente da fatídica ocasião em que aquele tolo feiticeiro decidiu se arriscar a entrar na Floresta Maldita, muito provavelmente para averiguar se Devimyuu sobreviveu e ainda estava lá, a mando de Mewpester.
O sempre atento e protetor feldrin o notou, e alertou Mewcedrya daquela presença hostil. Quando ela e Devimyuu o rastrearam, o enorme brasão da corte bordado nas costas de seu manto facilmente denunciou seu objetivo. A druidesa e o príncipe procurado precisavam eliminá-lo imediatamente, porém, sem entregarem sua presença.
Sendo assim, Mewcedrya utilizou um Embrulho de Bruxa - itens encantados com uma maldição e selados com um feitiço, dentro de um pequeno saco de pano - e ensinou o seu aprendiz como fazê-lo. No dia seguinte, o feiticeiro - perdendo dentes apodrecidos cada vez que vomitava sangue, e com feridas necrosadas se abrindo em seus braços e pernas já sem pelos; deixou a floresta imediatamente, e dado o fato de não ter sobrevivido, mais nenhum enviado da guarda retornou desde então.
- Ah sim. Você colocou bastante rancor ao enfeitiçar aquele embrulho, e o resultado não poderia ter sido mais eficaz... Aliás, isso me lembra que curiosamente, quem criou os Embrulhos de Bruxa foi uma das filhas de Mewwicked. Só que agora, sua resposta me deixou ainda mais intrigada, filhote de deus. Por que lembrar desse episódio fez você supor o que aconteceu com ela?
- Então, foi por causa dos ossos de vultre. Eu pensei; se a morte de uma simples ave consegue dar poder ao Embrulho a ponto de matar alguém, imagine o que uma maldição criada com a própria morte de quem a invocou poderia fazer... Seria um estrago de nível monumental, perfeito pra última vingança de Mewwicked. E já que uma maldição dela tem a ver com o Sétimo Ciclo, ela com certeza fez algo do tipo.
Mewcedrya encarava Devimyuu admirada. Por um instante, sentiu o desejo de novamente fazer parte de seu antigo coven, apenas para que todos pudessem ver que seu pupilo era o bruxo mais inteligente que qualquer um deles poderia sonhar ter como aprendiz. Ao pensar nisso, interiormente riu consigo mesma de quão delirante aquilo soava. Detestava o coven que seu pai a obrigara a fazer parte, pois nunca podia agir como si mesma em tal lugar restritivo, controlador e patriarcal.
Devimyuu nunca seria seu aprendiz lá, pois jamais permitiriam que ela como uma "reles" fêmea, ensinasse um jovem macho, ainda mais um com poderes tão promissores.
Aquilo fez Mewcedrya ponderar; um bruxo com a inteligência e o potencial de Devimyuu certamente mereceria o melhor dos ensinamentos, como dados aos filhos das famílias magistas das mais altas castas. Na realidade, ele mereceria muito mais, por ser um príncipe e legítimo herdeiro do trono. No entanto, a druidesa sabia que não importava de qual elite ou realeza fosse, ninguém poderia instruir Devimyuu como ela, pois ele era o seu filho, e ela o amava.
- E aí? Eu acertei ou tô viajando?
Devimyuu perguntou, ansioso pela confirmação dela.
A druidesa apenas sorriu, meneando lentamente a cabeça.
- Me diga uma única vez em que você não tenha acertado?
Questionou a fêmea com uma retórica.
A satisfação estampada no rosto do garoto por mais uma vez estar correto, era inegável. Seus lábios esboçavam um sutil sorriso de orgulho. A sensação de ainda ser o melhor em seus estudos - não importando de que tipo ou onde fossem - o fazia se lembrar de que pelo menos essa parte de quem foi ainda vivia. Todo o sofrimento, dor e injustiça que teve que suportar após ser raptado e se sentir rejeitado por sua família quase o destruíram por dentro. No entanto, a linha tênue entre abandonar a pessoa que foi e lutar para continuar sendo si mesmo, ganhava força para manter-se em momentos como esse. Uma parte pequena, porém crucial, da tão necessária força que o fazia seguir em frente.
A druidesa também o encarou orgulhosa, acreditando que um elogio era merecido.
- Foi bastante admirável você ter associado tão rápido as maldições que os Embrulhos carregam e a Maldição da Mãe Bruxa, lançada por Mewwicked justamente diante de sua morte inevitável, como você supôs. Conheci bruxos adultos e experientes que não teriam metade do raciocínio que você tem. Está de parabéns, filhote de deus.
- Ah, é mesmo? Então acho que eu mereço uma estrela, não?
Ele brincou.
Mewcedrya o olhou intrigada.
- Estrela? Se refere a figura que desenhamos dentro de um círculo para formar um pentagrama?
Invariavelmente nublado durante as curtas horas do dia e negro como um breu durante as longas noites, o céu do Mundo Reverso não possuía estrelas. Portanto, fazia sentido que para os reversos, a única referência a figura ilustrativa de uma estrela fosse o símbolo visto no interior de um pentagrama. E ainda assim, embora chamassem de 'estrela', para eles aquela imagem não tinha associação alguma com o que os puros conheciam como estrelas de fato, já que tais corpos celestes não existiam em sua dimensão.
- Sim e não... Parece com aquilo, mas é um pouco diferente. Imagina aquela forma sem o círculo e como um adesivo dourado... De qualquer jeito, não é nada demais. Eu só tava zoando quando disse que você devia me dar uma, porque meus professores costumavam fazer isso quando alguém acertava uma pergunta de magia muito difícil.
- Hmm... Interessante... E isso estipulava algum tipo de hierarquia a fim de colocar aquele que tivesse mais dessas estrelas como superior aos outros?
- Acho que a ideia não era bem essa, mas não nego que ter várias no meu caderno fazia eu ficar me achando, heh.
Ele disse com leve ironia.
"Ele diz que é brincadeira, mas isso parece realmente importante para ele..."
A druidesa pensou. Olhando em volta, no solo da floresta onde estavam sentados, parecia procurar alguma coisa. Ela não teria como arrumar um dos tais adesivos dourados, mas talvez tivesse algo para substituí-lo.
- Eu não tenho esse tipo de estrela, mas posso te dar uma coisa... Aqui está.
Mewcedrya mantinha mãos fechadas em formato de concha. Era perceptível que há poucos instantes germinava algo ali dentro com seu poder mágico da natureza. A fêmea logo as abriu, oferecendo a pequena planta recém brotada para seu pupilo.
- Hm? Isso é um trevo negro?
- Um trevo negro de cinco folhas, já que desenhos de estrela tem cinco pontas. Será que serve como um substituto?
A druidesa o encarava com gentileza, mas ao mesmo tempo, ansiedade e seriedade. Seu olhar transparecia que ela se sentia um pouco em dívida com ele, e Devimyuu não queria que sua mentora se afligisse de tal forma por causa de uma brincadeira.
- Poxa, valeu Cedry. Foi muito legal da sua parte, mas não precisava ter se preocupado... As estrelas não eram tão importantes, eram só adesivos num caderno, uma bobeira de criança. Como eu disse, eu só tava zoando em falar pra você me dar uma...
- Oh... Então você não o quer? - Ela recuou um pouco as mãos, aparentando estar um pouco confusa.
Devimyuu rapidamente esticou ambas as mãos segurando delicadamente as dela, apanhando com cuidado o trevo negro em suas palmas.
- Pera, eu não disse isso. Eu só não queria que você se preocupasse a ponto de se dar esse trabalho. Com toda certeza sempre vou querer qualquer coisa que você faça pra mim...
O bruxo adolescente admirava com atenção o trevo de cinco folhas entre seus dedos. Cuidadosamente, ele o guardou entre as páginas do caderno que lhe servia como grimório.
- Isso foi mil vezes melhor do que qualquer estrela boba que eu já tenha ganho. Vou deixá-lo sempre aqui comigo. Muito obrigado, Cedry, eu adorei, de verdade.
Devimyuu sorria encabulado, disfarçando e expressão em seu rosto e apoiando uma mão atrás da cabeça.
Mewcedrya vinha tratando o jovem Arquemônio como sua própria cria desde que o conhecera. No entanto, no início de sua convivência, não era de seu feitio demonstrar semelhantes atos de ternura com o menino, por mais que se afeiçoasse a ele. Salvo raras exceções, reversos não eram criados rodeados de afeto e ensinados desde o berço a demonstrarem e receberem carinho, como os puros. Sendo assim, esse era o tratamento que ela considerava adequado dar a ele.
Porém, o lado terno e afetuoso da druidesa foi desabrochando cada vez mais, conforme seu relacionamento com o príncipe perdido se desenvolvia. Mais do que alimento, roupas, e um lugar seguro onde viver, estava claro que aquele garoto magoado, órfão e sozinho precisava do carinho dela. E por mais que as dores da perda o tenham feito se fechar em si mesmo por um longo período, ainda assim ele era mais carinhoso com ela do que qualquer outro adolescente seria; fosse por uma palavra ou simplesmente um olhar.
Mewcedrya queria retribuir esse carinho reprimido por parte dele, demonstrando todo o afeto materno que ficou sufocado em seu peito desde que perdera seu filho de sangue.
Toda vez que ela o tratava com tamanho amor, Devimyuu tinha vontade de simplesmente correr até ela e abraçá-la. Contudo, o medo de amar e ser deixado ainda o assombrava, fazendo com que todas as vezes, ele optasse por se conter, assim como fez naquele exato momento.
"Quem sabe na próxima... " Pensou ele, voltando a se concentrar na lição bruxa de sua nova figura materna.
* Vultre: Ave de rapina reversa equivalente a um abutre.
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