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- MADRE BRUXA -


Mewcedrya começou a colocar os demais ingredientes no interior do caldeirão cujo conteúdo se misturava com cada vez mais velocidade. Devimyuu tentava supor o que seriam as misteriosas ramas, elixires e elementos triturados depositados ali.

Com a palma aberta sobre o caldeirão, a druidesa passou a entoar um encantamento num antigo dialeto bruxo, conforme a força de sua magia fazia a haste que mexia a mistura movimentar-se por si só.

Ela o recitava ininterruptamente. O brilho alaranjado encobriu por completo seus olhos, enquanto o fluxo de energia ao redor dela tornou-se tão forte que fazia esvoaçar seus longos e cacheados cabelos de ninfa. Seu transe atingira o nível máximo. Era como se a druidesa possuísse uma atmosfera própria a resguardá-la.

Devimyuu contemplava a mentora, extasiado. Já a tinha visto fazendo poções e praticando feitiços diversas vezes, no entanto, nunca presenciara a manifestação de sua parte bruxa de forma tão intensa. O jovem semideus estava sem palavras. A magnificência daquele momento etéreo era cada vez mais inebriante, conduzindo o jovem príncipe a uma sensação desconhecida, por mais que tentasse manter sua concentração. Quanto mais observava Mewcedrya invocando as forças sobrenaturais da antiga magia, mais a tal sensação parecia dominá-lo. Seu coração batia acelerado, seu corpo estava quente, e sua respiração quase ofegante entregava sua inquietação.

E de repente, nada mais ao redor lhe importava. Ele só tinha olhos para Mewcedrya. A imponência milenar das bruxas ancestrais remanescia na druidesa. Sua imagem aos olhos de Devimyuu nunca esteve tão exuberante, reverenciável, e de certa forma, sedutoramente excitante.

O jovem Lorde das Trevas acabava de ser tomado por um transe momentâneo de paixão do qual nenhum felin macho poderia escapar.

Porém, para sua sorte, Mewcedrya logo terminou a invocação do encantamento, livrando Devimyuu daquela sedução. Voltando a si, o príncipe sentiu uma forte pontada em sua cabeça assim que Mewcedrya parou de entoar o mantra ritualístico que recitava.

- Devimyuu, você está bem?

- Uh? O-o que... aconteceu?

Perguntou o garoto um pouco desnorteado, esfregando a testa sob a franja comprida e piscando os olhos várias vezes. Ele então encarou Mewcedrya, e a expressão em seu rosto pareceu mais confusa ainda.

- Cedrya... Não estranhe o que vou dizer, mas... Por que me sinto como se, há dez minutos atrás, eu estivesse completamente... apaixonado por você?

A druidesa lhe deu um olhar curioso.
- Você sentiu? Ora, ora... Quer dizer que o Agouro da Deflexão realmente funciona. Isso é bem interessante...

- Agouro do quê?
Questionou o adolescente.

- Da Deflexão. Faz parte das magias femininas de Mewwicked, possivelmente a única não letal de suas maldições. A Primeira Bruxa criou esse agouro para proteger nossos rituais, no caso de algum homem tentar nos espionar a fim de copiar nosso poder. Se isso acontecesse, ele seria tomado por uma paixão repentina e incontrolável, e não teria olhos para mais nada além da bruxa que o invocava. Seria um escravo da imagem dela até que o rito realizado terminasse.

- Espere... Então é por isso que não me lembro de nada? E eu sei que prestei atenção, mas agora não faço mais ideia de como era o mantra do feitiço que você tava recitando. Tudo que eu consigo lembrar é de me sentir obcecado por você... Que bizarro!

Devimyuu se sentia perplexo, mas ao mesmo tempo, impressionado.

Mewcedrya riu-se um pouco.
- Bem, eu sempre quis saber se o Agouro da Deflexão ainda funcionava depois de quase três mil anos, e agora eu tive a prova concreta que sim. Mas não se preocupe, porque o efeito é só momentâneo. Não se sente mais perdidamente apaixonado por mim, não é?

Ela brincou.

O príncipe arregalou os olhos.
- De jeito nenhum! - Exclamou, depois de perceber que talvez tivesse sido enfático demais - Quer dizer, não me leve a mal, Cedrya... Claro que você é tipo muito, muito bonita, mas, só existe uma garota que sempre terá meu coração. Além disso, você é minha mãe número três, então não rola, seria meio esquisito.

Mewcedrya não pôde deixar de sorrir ao ouvir aquela última frase. Sabia que o trauma da perda tornava difícil para Devimyuu expressar apego materno a ela. Contudo, mesmo assombrado por esse medo, o garoto acabava de reconhecê-la como uma terceira mãe. A druidesa de fato se sentiu emocionada, mas como todo reverso, não externava seu lado emotivo tão abertamente.

- Se acalme, crianço, eu só estava brincando. Você ainda é um garoto, permita-se relaxar um pouco. Sabe, entre os ensinamentos passados pela Primeira Bruxa, a busca de prazer é quase tão incentivada quanto a obtenção do poder. E isso me faz lembrar de um bom conselho. Sei que já passou por inúmeras angústias, mas você só tem dezesseis anos, então, não deixe que as aflições que sofreu impeçam que desfrute de qualquer prazer que possa usufruir.

Mewcedrya achava que aquele era apenas mais um ensinamento das bruxas que passava ao seu aprendiz. No entanto, ao se deparar com a face ruborizada e os olhos levemente arregalados dele, percebeu que possivelmente se expressou mal, e ainda sobre um assunto relativamente sensível.

- Espere! Não é bem o que está pensando! - Ela exclamou, gesticulando desesperadamente com as mãos.

Porém, sua tentativa falha de se explicar apenas fez o constrangimento do garoto aumentar.

- O-o que você acha que eu tô pensando?!
Devimyuu indagou, desviando o olhar abrupta e nervosamente.

Ele estava visivelmente desconfortável, e a cena toda tornou-se para Mewcedrya como um dejavú do momento em que o semideus adolescente a conheceu no espelho d'água na gruta de cristais; enquanto ela terminava seu banho sem se importar com a presença extremamente constrangida dele.

Mas agora tinha consciência da razão do embaraço de Devimyuu se dar devido às humilhações e assédios constantes de Jezemew para com ele. Desde a repugnante tentativa de abuso dela, qualquer assunto que remetesse minimamente ao sexual o deixava envergonhado e tenso.

A druidesa sentia por seu pupilo nesse caso. Ao seu ver, como um adolescente era direto de Devimyuu se mostrar curioso e interessado quanto a esse tópico, não incomodado. Mas graças à falecida rainha vil, parece que até esse direito lhe havia sido retirado. Mewcedrya não sabia se um dia conseguiria ajudá-lo a lidar com a aversão resultante daquele trauma, mas de qualquer forma, a última coisa que queria era deixá-lo se sentindo daquele jeito.

- Nada! Nada, querido! O que eu quis dizer foi que você ainda é só um menino, então, não se esqueça de que não há problema em buscar algo que faça você se sentir bem, que... que te divirta. Isso! Busque se divertir também, esse era o meu conselho. Apenas isso, está bem?

- Ah tá... - Felizmente, Devimyuu pareceu mais tranquilizado - Pra ser sincero, Cedrya, eu não acho que esse mundo tenha espaço para diversão. Eu não sei mais o que é isso desde que me arrastaram pra essa merda. Mas... O que estamos fazendo hoje chega bem perto. Você fez minhas comidas favoritas, fizemos um piquenique e você tá me ensinando a magia secreta das suas ancestrais, além de poderes druidas. Então por você, eu prometo tentar me divertir, mesmo que eu não consiga enxergar direito como.

A druidesa respirou aliviada ao ver que seu pupilo foi capaz de equilibrar suas emoções, e não se deixar ser tragado por traumas de seu passado. Ele estava focado no momento em que estavam tendo, e o ritual que ela tanto queria usar para também criar novas boas lembranças para ele poderia seguir como planejado.

- Obrigada, meu filhote de deus. Bem, que tal continuarmos? É hora de comermos este nosso preparo encantado.

A bolsa de linha que Mewcedrya trouxera estava encantada com um feitiço de expansão, de modo a carregar tudo o que precisariam para as duas noites que passariam no santuário ao ar livre. Sendo assim, de dentro da pequena abertura, a druidesa tirou duas tigelas de argila e uma concha de madeira, então serviu o cozido enfeitiçado de cogumelos e sementes para ela e Devimyuu.

- Muito bem, agora chegue mais perto.

Ainda sentados de frente um para o outro com o caldeirão de cobre entre eles, Devimyuu se aproximou de Mewcedrya. Então ela mordeu a ponta do próprio dedo, e com a outra mão, afastou a comprida franja lateral do príncipe, e com seu próprio sangue, desenhou uma pequena linha horizontal curvilínea em sua testa, representando uma meia lua. Em seguida, tomou ambas as mãos dele e proferiu as seguintes palavras:

- Lua rubra, noite escura, sombras profundas e segredos sombrios. De sustos sinuosos ao lamento dos mortos, faremos com que os homens tremam. Á todas as Grandes, mães bruxas e irmãs. Feitiço ancestral, magia antiga, guie e liberte as filhas - e o filho de sangue divino - que clamam.

Mewcedrya obviamente havia incluído a parte que mencionou o filho divino; já que o feitiço que recitava era parte de um ritual milenar que só fora realizado de uma bruxa para outra até então.

Em respeito a solenidade daquele momento, o príncipe se manteve pacientemente em silêncio, aguardando pelas ordens da mentora.

Ela por fim entregou a tigela cheia a ele.
- Agora sim. Tome de uma vez tudo que conseguir, e não se preocupe com o que sobrar, pois iremos usá-lo.

Não foi difícil para Devimyuu obedecer, afinal, ele já estava com fome, e o cozido enfeitiçado muito se parecia com as sopas de cogumelos que Mewcedrya costumava preparar.

- Estava bom? - Ela perguntou.

- Sim, gostoso como sempre.

Respondeu Devimyuu ao terminar, parecendo muito bem saciado.

Restou um pouco menos que um terço no interior da tigela dele. Mewcedrya, que também já havia tomado sua porção, desmaterializou o caldeirão de cobre junto às gemas de salamandra embaixo do mesmo. Estendendo a mão sobre o solo, fez com que a terra se movimentasse e sozinha abrisse um pequeno buraco.

- Eu preciso de uma mecha do seu cabelo.

- De que tamanho? - Indagou Devimyuu com certo receio.

- Você não vai gostar disso, mas de um tamanho considerável... Com licença...

- Não, Cedrya, pera aí! Deixa que eu tir...!

Devimyuu não teve muito tempo de apelar para que ele mesmo cortasse. Quando deu por si, com uma pequena adaga afiada, Mewcedrya já tinha tirado o tanto que precisava da parte que estava presa num rabo de cavalo, para o descontentamento do garoto.

"Por que ela tirou logo de cima?! Agora vai ficar tudo desigual..."

Ele pensou, se lamentando.

O jovem Lorde das Trevas detinha certa vaidade nesse aspecto. Seus suntuosos e longos cabelos negros deixariam até mesmo muitas fêmeas com inveja. No entanto, ceder um pouco deles era um preço pequeno a se pagar quando comparado aos poderes ancestrais que lhe estavam sendo ensinados.

A druidesa apanhou as mechas recém cortadas e as colocou dentro do buraco na terra. Em seguida, pegou os restos do cozido encantado e os derramou por cima das mesmas. Por fim, usou seus poderes novamente para fazer com que tudo fosse enterrado.

- Perfeito. Agora, enquanto nos preparamos para a próxima parte, eu responderei a sua importante pergunta.
Disse Mewcedrya.

O semideus adolescente ergueu uma sobrancelha.
- Pergunta? Mas eu ainda não fiz nenhuma...

A fêmea adulta, que já o conhecia muito bem, apenas lhe sorriu sutilmente com toda sagacidade.
- Então está me dizendo que já sabe do que se trata o sétimo Ciclo Mágico?

Atento aos processos do ritual e procurando não interromper, Devimyuu acabou deixando para depois essa exata pergunta que faria a Mewcedrya. Mas agora, era chegado o momento. Sua mentora como de costume estava certa; ele queria muito saber do que o sétimo Ciclo Mágico se tratava.

- Eu tô formando umas hipóteses, mas na verdade ainda não sei. Eu tava mesmo esperando a hora certa pra te perguntar. Você acertou, de novo...

Devimyuu olhou para ela e sorriu ladino, se perguntando como Mewcedrya quase sempre sabia a maioria das coisas que se passavam por sua jovem mente. Era como se essa fosse outra prova para ele de que Mewcedrya verdadeiramente se tornara mais uma de suas mães.

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