- 13.1 -

- LULLABY -


- Eu compreendo que se sinta estúpido por carregar com você esse amor que não pode mais ser retribuído e apenas serve para despertar lembranças que o despedaçam por dentro. Mas, se essa é a sua fraqueza, posso dizer que também é a minha, crianço.

Mewcedrya disse ao afagar os cabelos dele. Devimyuu ergueu seu rosto repleto de incerteza e mágoa, e a encarou como se perguntasse o que ela queria dizer.

- Do que está falando?
Ele questionou, voltando a deitar a cabeça sobre os joelhos.

Mewcedrya sentou-se ao lado dele, encostando seu corpo contra a robusta parede de troncos escuros da velha cabana.
- Ouça meu caro príncipe. Eu já o conheço há tempo suficiente para saber que não está sendo sincero nem consigo mesmo. Como sua mentora, e principalmente, como alguém que realmente se importa contigo, cabe a mim dizer a verdade que você talvez esteja confuso demais para enxergar. Não que isso seja culpa sua...

Embora continuasse com a cabeça baixa, Devimyuu prestava atenção a cada palavra dita pela druidesa. Seu corpo se retraiu e ele apertou fortemente seus próprios braços quando Mewcedrya mencionou ele estar confuso.

Talvez não quisesse admitir, mas era a mais pura verdade. E de fato, ninguém poderia culpá-lo. Devimyuu era tão jovem, e nos últimos dois anos foi sujeitado a provações que abalariam a sanidade mental de qualquer felin adulto. Ele era praticamente uma criança quando sua vida sofreu uma reviravolta que não seria capaz de imaginar nem em seus mais sombrios e angustiantes pesadelos.
Catorze, apenas catorze anos quando tal inimaginável pesadelo se tornou real. Sua família, seu lar, seu futuro - de um instante para o outro, fora lhe tirado absolutamente tudo.

Mas ainda assim ele lutou. Não se deu por vencido e fez o impossível para ter tudo que perdera de volta. E em partes, conseguiu. Retornou ao Mundo Puro, mas não conseguira de fato retornar para seu lar. Ao finalmente atravessar o portal entre mundos, do outro lado o irremediavelmente racista irmão de seu pai adotivo o esperava. O esperava para dizer que ali não era mais seu lar, e que jamais havia sido.

Devimyuu podia esperar isso de Heimewdall. Afinal, o felin que deveria ser seu tio o desprezava e repudiava desde que descobriu sobre o garoto ser reverso.
Sua discriminação a Devimyuu fora tanta que levou Odimyuus a exonerar Heimewdall de seu cargo de vice-rei supremo, e convidá-lo de modo nada gentil a se retirar do palácio. Tudo em defesa de seu filho adotivo.

Era óbvio que o desejo de vingança lhe ardia. Devimyuu nem chegou a se surpreender ao perceber que as intenções de Heimewdall eram realmente matá-lo. Ele poderia lidar com isso. Mas, com o que não pôde lidar, foi o fato de Kinmyuu - seu venerado irmão mais velho, aquele que jurou sempre cuidar dele e protegê-lo - tomar o lado de seu abominável tio nisso.

Ele o renegou. Disse que nunca foi irmão de um demônio. Ele o segurou para que Heimewdall o atravessasse com sua espada celestial, enquanto sem entender o que poderia ter feito para despertar tamanho ódio de Kinmyuu, Devimyuu implorava para que seu irmão mais velho o salvasse.

Mas ele não salvou. Com o rosto pálido impassível e olhos vazios totalmente cobertos por um estranho brilho alaranjado, ele simplesmente assistiu parado Devimyuu agonizar sangrando até sua primeira morte.

A mente de Devimyuu entrava em colapso com cada segundo daquela lembrança. Raiva, angústia, tristeza... Seu interior era um misto incontrolável de tais sentimentos, somado a uma questão infernal que vinha atormantá-lo cada vez que fechava seus olhos: por que?

Por que o Kinmyuu que antes ficara contra seu próprio tio e parecia estar disposto a se opor contra o mundo se preciso para ficar do lado dele, o traiu de tal forma tão hedionda? Ele havia fingindo seu amor fraterno durante todos aqueles anos? Poderia um semideus arcanjo da Luz ser tão dissimulado, frio e calculista a ponto planejar tal traição tão cruel?

Devimyuu nutria ódio por ele, contudo, ao mesmo tempo uma parte sua não podia acreditar. Chegou até a se perguntar se aquele arcanjo adolescente sedento por seu extermínio era mesmo o irmão que o amou um dia.
Mas Devimyuu o viu com seus próprios olhos, ouviu sua voz... E ninguém seria poderoso o bastante para controlar um semideus intangível como Kinmyuu contra sua vontade, seria?

Devimyuu acreditava que não. Acreditava que Kinmyuu se virara contra ele porque sua natureza nas Trevas o tornava o inimigo. Luz e Trevas - Bem e Mal. Ele havia nascido para representar o Mal e só lhe restava aceitar isso.

Mas então, por que simplesmente não conseguia? Por que não se entregava totalmente a Escuridão que pertencia e seguia em frente? Por que no fundo todas aquelas dúvidas e os conflitantes sentimentos por sua família adotiva sempre voltavam para o atormentar?

No último ano, vinha empenhado com todas as forças a ser o semideus das Sombras que deveria. Se obrigado a superar seu passado e se tornar o Arquemônio que nascera para ser.

Fracasso.

Mesmo depois de todo seu considerável progresso, ao final de cada dia era isso que sentia.

E ele não aguentava mais.

Em Devimyuu não restava estrutura emocional alguma para lidar com tamanho conflito que diariamente o torturava. Em nenhum adolescente haveria.

Ele só queria que aquilo acabasse.

E Mewcedrya sabia disso. Ela entendia realmente o porquê de seu aprendiz ter chegado a decisão radical que tinha tomado.

- Devim, peço que olhe para mim...

Devimyuu continuou imóvel.

- Por favor, querido. - Ela insistiu. Era a primeira vez que o chamava assim.

O jovem Lorde ergueu o rosto, afastando os cabelos bagunçados. A druidesa o encarava com o olhos tristes, porém, seu rosto se mostrava amável e compassivo. Na realidade, Devimyuu nunca a tinha visto com uma expressão tão puramente maternal.

- Você não precisa fingir ser algo que você não é. Não para mim, crianço. Então sejamos honestos... Você não quer se livrar de suas emoções porque acha que te tornam fraco. Só quer dar um fim nelas para assim também por um fim ao sofrimento que te causam, não é?

A fêmea gentilmente o tocou no rosto, acariciando entre os espinhos de sua bochecha. As íris de Devimyuu trepidavam mareadas e manchadas em vermelho pelas lágrimas que segurava. Queria concordar com Mewcedrya. Sabia que ela estava certa. Mas seus músculos pareciam congelados, com a resposta entalada em sua garganta.

No entanto, ele não precisava dizer nada. Seus olhos de angústia já davam a druidesa a certeza que tinha razão. Então ela desviou o olhar para baixo, e somente nesse momento, Devimyuu percebeu algo que parecia um pequeno volume cuidadosamente enrolado em uma manta amarronzada no colo de Mewcedrya.

- Eu sei bem como é isso, filhote. Posso entender perfeitamente a dor que você sente e seu desejo de só fazê-la parar...

Ela disse, conforme desenrolava o que estava envolto na manta, até que revelou seu conteúdo. Era uma peça costurada a mão com ramos e folhas bordados, e se parecia com uma pequenina túnica. Uma roupa feita para um bebê.

Devimyuu arregalou levemente os olhos. Uma ideia quase certa do que aquilo significaria veio de imediato a sua cabeça.

- Puros ou não, independente do que tenham feito, eles eram sua família... E você sente saudades deles, não é, crianço? Eu também sinto falta da minha... - Devimyuu olhou para Mewcedrya, e viu uma lágrima escorrer de seus olhos. Algo que nunca tinha presenciado desde que a conhecera.
- Antes, nessa casa, costumava ter um bebê... - Ela disse, com a voz embargada.

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