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MEMORABILIA
(Parte um)
Capital Real Kurono - Mundo Reverso
18 meses atrás:
- Por favor, Devimyuu, chore baixo. Caso contrário, vão acabar nos pegando aqui...
Sussurrou Silmyuu, uma das fêmeas concubinas de Mewpester, e também a escolhida para ser madrinha de Devimyuu por sua falecida mãe.
- M-mas... Está doendo... isso arde... muito!
Balbuciou em lágrimas um Devimyuu de quase 15 anos de idade.
A fêmea adulta com ele realizava um curativo improvisado em suas costas marcadas. O sangramento havia parado há um ou dois dias, mas os cortes ainda não tinham cicatrizado.
Era muito cedo pela manhã; toda a corte do detestável Mewpester se encontrava quieta e silenciosa, dado o fato de reversos serem criaturas mais ativas à noite. Contudo, algumas das criadas e cozinheiras já estavam de pé, realizando suas penosas tarefas, além da troca da guarda que estava sempre a patrulhar.
Ela não deveria estar ali, e Devimyuu certamente não deveria interagir com ela. Escondidos sob a escadaria de uma das câmaras de suprimentos, Silmyuu temia que alguém os ouvisse e os pegasse.
Porém, compadecida pela dor dele, a fêmea suspirou pesarosa.
- Eu sei, Devimy, e sinto muito. Mas se eu não limpar esses ferimentos você pode pegar uma infecção. Então por favor, aguente. Você tem quase 15 anos, precisa ser forte e tentar conter o choro.
Devimyuu não respondeu. Silmyuu pôde perceber o garoto se segurando para não chorar, ou pelo menos, para não deixar que ela notasse. Pensou que talvez não deveria ter dito aquilo. Seu afilhado certamente não precisava se sentir submetido a mais uma humilhação.
A felin sentiu mal por ele. Devimyuu não estava acostumado àquele sofrimento, afinal, havia dito a ela que Mewpester o arrancara do lar feliz onde ele era amado e protegido; onde ninguém jamais o machucou, e onde não havia motivos para que ele tivesse pressa em crescer. Silmyuu não podia culpá-lo por se sentir uma criança assustada, ferida e com dores, que nada podia fazer além de derramar aquelas lágrimas. Pois no final de contas, era apenas isso que ele era.
- Olha, prometo que já está acabando... Aguente só mais um pouquinho, meu bem.
Ela procurou ser o mais gentil que poderia, acariciando os cabelos dele suavemente. Ainda de costas para ela, Devimyuu apenas assentiu de leve, cabisbaixo.
O garoto se encolheu pela dor ardente conforme a fêmea passou novamente o pedaço de pano umedecido com o resto do vinho que trouxera escondida do quarto de Mewpester, da noite anterior que fora obrigada a passar com o rei sórdido. Sabia que Devimyuu estava machucado, e aquela foi a melhor opção que encontrou para poder esterelizar seus ferimentos. Bêbado e no mais profundo sono, Mewpester sequer a viu deixar o quarto, quanto mais roubar o resto do que ficara em sua taça.
No entanto, Silmyuu notou marcas de queimaduras junto aos cortes. A rainha Jezemew de certo não tinha se contido em sua crueldade.
- Devimy...! Você tinha me dito que foi um corte... O que mais aquele diabo de mulher fez com você?!
Perguntou horrorizada, por mais que soubesse o quão sádica e desequilibrada Jezemew podia ser.
Um momentâneo silêncio desconfortante se deu. Devimyuu não queria falar; era se como descrever o acontecido fosse obrigá-lo reviver o momento. Sem contar o fato de que estava fora do calabouço há alguns meses, que foi quando Silmyuu o reencontrou. Ela disse ser sua madrinha, lhe contou sua história, contou a respeito do pai que ele nem fazia ideia de que existia e também sobre sua verdadeira mãe, que ela conhecera. Foi aí que o menino descobriu sobre seu talismã mágico e a herança que carregava. Silmyuu nunca lhe pareceu estar mentindo, e ela era a única que o tratava bem e fazia o que estava ao seu alcance para tentar cuidar dele. Não faria nada disso se realmente não fosse sua madrinha. Porém, ambos eram prisioneiros de formas diferentes. Não tinham liberdade ou o direito a tentarem construir uma convivência que o fizesse se sentir à vontade para se abrir plenamente com ela.
Ele preferia não ter que dizer, mas se sentiu obrigado, já que a pessoa que lhe perguntou era a mesma que cuidava de seus ferimentos e a única a se preocupar com ele naquele maldito castelo infernal.
- Ela usou... o açoite elétrico em mim...
Devimyuu por fim respondeu, mas sua voz soou tão baixa que por pouco não podia ser ouvida.
Jezemew era uma reversa de biotipo Elétrico. Todos da corte de seu marido a conheciam pelos momentos de seus surtos psicóticos onde em sua fúria descontrolada, invocava um chicote elétrico para açoitar aqueles que colocava como vítimas de seu ódio. Havia relatos de ter matado dessa forma mais de uma de suas servas particulares, pois pegara Mewpester dirigindo olhares de lascívia para elas. Dizia que as eliminava antes que fossem mais um objeto do desejo dele em seu harém, mais uma por quem seu parceiro desprezível a trocaria.
- O quê? Mas por que? O que aconteceu? Você respondeu pra ela novamente, Devimy?! Já disse para não fazer isso, ou ela vai acabar te matando!
Devimyuu cerrou as sobrancelhas; ele não gostava dos conselhos de Silmyuu para se acovardar. Embora às vezes cedesse, havia ocasiões em que ele simplesmente não conseguia se sujeitar a apenas obedecer e se calar.
- Eu não respondi pra aquela bruxa! Eu não fiz absolutamente nada! Eu não sei exatamente o que aconteceu, mas ela tava discutindo com o nojento do Mewpester; ele tava bêbado ou sei lá, e parece que falou algo sobre... sobre preferir a minha mãe biológica pra fazer... aquilo... - o menino engoliu seco, desconfortável. Ele só conhecia a mãe biológica por lembranças, mas isso era o bastante para tornar perturbador ter que relembrar daquelas palavras - ...então ele disse que não queria ela nem aquela noite nem noite nenhuma e saiu batendo a porta. Daí ela disse que a culpa era minha porque eu era "o filho daquela vadia" e veio descontar em mim...
Silmyuu se sentiu culpada por momentaneamente achar que Devimyuu poderia ter alguma culpa ou provocado a violência que sofreu.
- Aquela vaca maldita! Ela é um monstro doente! Uma louca!
Silmyuu estava indignada, mas não havia nada que pudesse fazer a respeito.
Terminando os curativos dele, a felin o virou para si, para poder olhar em seu rosto.
- Eu... realmente sinto muito por tudo isso, Devimyuu. E sinto também por não poder fazer nada pra evitar tudo o que esse demônio de mulher faz com você... Eu queria poder protegê-lo, queria poder fazer direito o que sua mãe pediu caso algo acontecesse com ela e cuidar de você, mas... eu nunca... eu nunca posso...
Silmyuu não conseguiu terminar, ela baixou a cabeça e cobriu os olhos com uma das mãos. Lágrimas intensas desciam sob suas pálpebras, conforme o choro começava a querer lhe provocar soluços pelo tamanho sentimento de falha, impotência e culpa que a consumia.
Devimyuu vestiu novamente a desgastada camisa de estopa que era obrigado a usar por sua condição de prisioneiro quase escravo. Ele aproximou-se da fêmea que ainda chorava quase em desespero com a cabeça apoiada sobre os joelhos, e a abraçou.
- Tá tudo bem, madrinha. Eu sei que você faz o que pode... Se tentasse fazer mais, aquele monstro podia machucar você e eu não quero isso. Esse castelo... esse mundo horroroso...! Tudo aqui é um verdadeiro pesadelo. Mas pelo menos eu tenho você. Obrigado por ser a única que se importa comigo aqui...
Silmyuu ergueu os olhos e o abraçou de volta. Por pouco não agarrou-se ao garoto com toda a força que tinha, mas felizmente, se lembrou que ele estava machucado.
- Ah, Devimyuu...! Você é tão corajoso, como sua mãe costumava dizer que seu pai biológico era. Eu sei que você não conviveu muito com ela, e talvez sinta como se nem conhecesse sua verdadeira mãe. Mas pode ter certeza que ela estaria muito orgulhosa de você agora.
- Talvez tenha razão. O pouco que eu me lembro dela...me deixa triste. Eu não tinha essas lembranças ruins antes de chegar aqui e... não gosto de ficar pensando nisso. Mas, se é o que você diz, então eu acredito.
Silmyuu assentiu, usando a manga comprida do robe que vestia para enxugar o rosto.
- Me desculpe pelo meu descontrole. Eu não devia ficar assim na sua frente. Disse para você ser forte e preciso dar o exemplo.
- Não precisa, eu não me importo com isso. Eu vou ser forte, madrinha. Forte o bastante pra voltar pra minha família, pra minha casa, e vou tirar nós dois daqui. Falta pouco, você vai ver.
Devimyuu trazia em sua voz um tom que deixou Silmyuu intrigada. Ele não soou como quem expressava um mero consolo ou uma esperança incerta. Tampouco retratava as expectativas ingênuas de seu lado infantil. Ele planejava alguma coisa.
- Como assim? Do que está falando?
- Eu vou abrir um portal para o Mundo Puro e voltar pra minha casa! E vou levar você comigo!
Silmyuu suspirou.
- Devimyuu... Nós não podemos abrir portais para o outro lado. Não temos poder para isso...
O príncipe se levantou, agitado.
- Eu tenho! Eu abri um na noite em que fui arrastado pra essa droga de lugar enquanto Mewpester me perseguia! E eu ia escapar! Eu teria conseguido, mas...! - o menino de repente parou, seu semblante mostrou-se triste e ao mesmo tempo preocupado, e sua voz tão jovial trazia profundo arrependimento - ... mas o Mewpester acertou o pulso do meu irmão, ele se machucou feio e... não conseguiu me puxar de volta...
Silmyuu sabia que Devimyuu se referia ao filho da família que o havia adotado. Ele já havia contado sobre o tão adorado irmão nas poucas vezes em que conseguiram conversar por um período mais longo, escondidos dos guardas. Pelo modo que falava, ficava claro que ele e o irmão adotivo eram muito apegados. Talvez fosse de quem Devimyuu sentisse mais falta, e aparentemente, se culpava pelo que aconteceu ao mais velho quando este tentou puxá-lo para fora do portal na noite de seu rapto.
Com um golpe a distância, Mewpester havia conseguido acertá-lo, usando seu poder de biotipo Metálico para constituir uma maça composta por uma esfera de metal maciço com espinhos cortantes, pendurada por uma corrente.
O ataque certeiro atingiu o irmão adotivo, no pulso, o quebrando, e os espinhos laminados provocaram cortes profundos que de imediato o fizeram perder uma grande quantidade de sangue. O impacto violento fez com que ele deixasse a mão de Devimyuu escorregar, e graças a isso, Mewpester conseguiu puxá-lo de volta para dentro. O portal se fechou, e a partir dali o destino do jovem Arquemônio foi selado.
Devimyuu se lembrava de cada instante daquele momento, o momento onde perdeu tudo; onde foi capturado e aquele pesadelo tortuoso começou. Todavia, apesar de todo o peso do que aconteceu a si, ele ainda se preocupava muito com o irmão mais velho que foi ferido - mesmo tendo se passado um ano - e esperava que ele tivesse ficado bem.
Silmyuu observava a expressão aflita em seu rosto ao mencioná-lo.
- Devimy, eu entendo que você deseja mais do que qualquer coisa voltar para a família de puros que te adotou... Mas mesmo que tenha esse poder, essas coleiras de contenção que usamos impedem nossos poderes naturais. Como poderá abrir um portal se sua magia está bloqueada?
- Bom, a minha pode estar, mas a do meu colar não. - O menino se concentrou, e logo o talismã mágico lhe deixado pelo pai reapareceu em seu pescoço. - Você me contou que minha mãe biológica disse que o meu outro... quer dizer, que o meu primeiro pai deixou esse amuleto encantado pra mim, pra me proteger, e que ele era um bruxo, não é?
- Mais do que isso. Era um príncipe. Você é o verdadeiro herdeiro do trono, não Mewnibbal. - Disse a fêmea, se referindo ao filho adulto de Mewpester, seu primogênito.
- Já disse que eu não ligo pra esse trono. Eu odeio esse mundo, esse palácio, odeio TUDO aqui! Eu já pertenço a uma família real no Mundo Puro e é só de lá que eu quero ser um príncipe! Eu sei que sou um reverso, mas meu lugar não é aqui. Eu vou voltar pra o meu reino de verdade e vou usar a magia desse colar pra isso!
Silmyuu até entendia a angústia de Devimyuu em querer se livrar de todo o sofrimento que vinha passando sob as mãos cruéis de Mewpester e sua rainha amargurada e vil. No entanto, Devimyuu estava longe há um ano. Ele era o semideus da profecia de Ghanog, e ela não conseguia entender como ele ainda podia ser tão apegado a uma família da espécie que foi destinado a destruir, já condenada pelo simples fato de sua existência.
- E você consegue mesmo fazer isso?
O ímpeto de Devimyuu pareceu cair um pouco. O garoto suspirou, com certa frustração em seus olhos.
- Bom... Eu ainda não sei exatamente como. Estou bolando estratégias, pensando nas estatísticas pra fazer funcionar. Mas eu tenho que conseguir, eu vou fazer isso dar certo a todo custo! Magia vem dos sentimentos e, se meu pai biológico tinha sentimentos por mim, ele ia querer me ver feliz, me ver com as pessoas que me amam tanto quanto meus primeiros pais. Então a magia dele nesse colar vai me ajudar a reencontrá-los. Enquanto eu pensar neles, eu sei que tenho uma chance, e isso é tudo que eu preciso.
Silmyuu apenas assentiu, permanecendo calada. Não sabia o que dizer, e não queria destruir as esperanças dele. Mas não acreditava muito na relação de magia e sentimentos, e toda a fé que o jovem Devimyuu colocava nisso. As coisas não eram assim no Mundo Reverso, e ela havia presenciado atos demasiado medonhos e cruéis pelas mãos daqueles que possuíam magia para crer que ela poderia reunir e proteger no lugar de dominar e oprimir.
E também duvidava dos sentimentos da tal família de puros para com Devimyuu. Ele dizia ter sido adotado por um rei, o rei mais poderoso dentre todos os outros governantes dos puros, seu soberano absoluto. Então por que, sendo alguém com tanto poder, magnificência e recursos a disposição, ainda não tinha atravessado a fronteira entre dimensões acompanhado de um exército colossal para resgatar o filho que supostamente tanto amava?
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