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— SOCORRO —

Mewcedrya aproximou-se de Devimyuu, que pressionava fortemente o estômago com o braço livre, ao passo que o outro permanecia imóvel. O garoto colocava para fora até o que não tinha comido. Seu corpo todo formigava e estava quente, ele ardia em febre, resultados da intoxicação.

— Não sinto meu braço... me ajuda... — O menino pediu, entre uma tossida e outra. Sua respiração estava falha.

— Vou cuidar disso! — Exclamou Mewcedrya. Já sabia do que se tratava ao ver a gosma que tomava o braço de Devimyuu e os sintomas que ele apresentava.

A druidesa rapidamente pegou o frasco, com a seiva misteriosa que jogou nas roupas antes de lavá-las e virou o resto de seu conteúdo no braço afetado do menino. Ela o esfregou com as mãos, o espalhando, depois recitou certas palavras em voz baixa. Um brilho esverdeado piscou em volta do braço inerte. Devimyuu se segurava para não vomitar mais enquanto ela estava ali próxima, fazendo o possível feitiço que o curaria.

— Rápido, vem comigo!

Ela conduziu o semideus adolescente ao riacho, e entrou com ele. A febre do garoto fazia seu jovem corpo arder quente como se estivesse numa fornalha. Já as águas que lhes batiam na altura do peito corriam terrivelmente frias, o choque térmico fez com que Devimyuu se sentisse ainda pior, e agora tremendo de frio e suando ao mesmo tempo.

Mewcedrya não parecia se afetar pela temperatura gélida da água. Talvez estivesse acostumada, ou preocupada demais com Devimyuu para se incomodar com isso.
— Prenda a respiração, príncipe! Você vai ter que mergulhar a cabeça...

Devimyuu mal teve tempo de sequer pensar em protestar quando a druidesa o segurou e o empurrou contra o fundo do riacho, submergindo sua cabeça e deixando as mãos pressionadas sobre ela para mantê-lo debaixo d'água.

Mewcedrya recitou um feitiço nos dez segundos em que o manteve submerso; tempo que para o garoto pareceu uma eternidade onde ele se afogaria a qualquer momento.

Ela enfim o ergueu da água, mas fez com que ele mantivesse o braço imerso na correnteza durante alguns segundos.
Encharcado, Devimyuu puxava o ar dos pulmões com força, recuperando o fôlego através do focinho e boca, ainda tremendo de frio.

— Se acalme, respire devagar. Veja se consegue levantar o braço. — Sugeriu a adulta que continuava em seu auxílio.

O príncipe das Trevas precisou de uns instantes para se recuperar do choque da submersão forçada em águas geladas. Ele ainda passava mal, mas, logo sentiu os movimentos do braço voltarem aos poucos. Ao erguê-lo da água, percebeu que não havia mais resquícios da gosma preta que antes parecia colada em seu pelo. Restavam algumas marcas leves de queimadura, mas as mesmas não doíam tanto e não pareciam ferimentos sérios.

— Como se sente? Ainda com náuseas? — A druidesa delicadamente afastou a franja lateral ensopada que sempre lhe cobria um dos olhos, a jogando para atrás de sua orelha pontuda e triangular.

Devimyuu negou com a cabeça. Ele respirava pesado, mas logo se controlou e começou a puxar o ar mais calmamente. O mal estar do envenenamento diminuía gradativamente conforme as águas turvas e agitadas o banhavam.

Mewcedrya tocou em sua testa, e constatou que ele ainda estava quente.

— Continua febril, mas tenho certeza que a intoxicação passou. Venha, vamos sair.

O príncipe a seguiu e sentou-se na beira do riacho, arfando e tentando se recuperar. Mewcedrya apanhou sua bolsa de pele e tirou dela uma semente oval que colocou na palma de uma de suas mãos. Ela a cobriu com a outra, novamente recitou palavras desconhecidas e imediatamente um ramo verde claro brotou da semente germinada.

— Dê seu braço, crianço. — Ela enrolou o ramo como uma atadura, da mesma forma que fizera quando o resgatou e curou. — Pronto, algumas horas com isso e as queimaduras sumirão.

— Parece que salvou minha vida outra vez... obrigado... — Disse Devimyuu, passando as mãos no rosto para tirar o excesso de água.

Mewcedrya achava curioso toda vez que o garoto lhe agradecia.
— Isso não te mataria, mas a intoxicação traria consequências graves, e nunca mais nasceria pelo nesse seu braço. No entanto, não há de quê, príncipe semideus. — Ela respondeu com um sorriso sutil.

— O que eram as coisas que me atacaram? Você sabe, não sabe? — O adolescente falava tremido devido aos calafrios que sentia.

— Sei. São chamados de Darutts. São pragas d'água, mas não chegam a ser o que há de mais perigoso nessa floresta.

Devimyuu contabilizou. Até então sabia de Tererrores, Lowfes e agora os ditos Darutts - os seres mais repugnantes que já havia visto. Porém, se eles não eram o que de mais perigoso existente na floresta, no momento ele não gostaria de saber o que ocupava o primeiro lugar naquela cadeia alimentar amaldiçoada.

— Me pareceram bem perigosos. — Refutou o príncipe das Trevas.

— O único olho é seu ponto fraco, e só atacam em grupos presas desavisadas. Como foi que chegaram até você? Deveriam ter pressentido que não era um alvo páreo...

— Um deles... m-...mi-atchim! — Ele espirrou no meio da frase. Era muito provável que ficasse doente, em vista das roupas e cabelos encharcados e da febre.

— Depois você me explica tudo. É melhor voltarmos pra cabana. Vou cuidar de você.

O caminho de volta foi um pouco desgastante para Devimyuu. Ele tremia de frio e o focinho escorria, entre tosses e espirros. O clima da floresta colaborava para sua piora. O sol reverso já era fraco por natureza, e bem no coração da mata onde estavam, seus raios cinzentos mal conseguiam atravessar as copas das árvores de folhagem amarronzada. E a constante brisa fúnebre que soprava na floresta como o último suspiro de um morto só fazia as roupas molhadas de Devimyuu ficarem mais geladas, grudadas em seu corpo magro.

Quase meia hora de caminhada depois, ambos chegaram até a cabana. Mewcedrya foi de imediato até o forno de pedra e acendeu a lenha embaixo dele, colocando água no caldeirão de ferro para aquecer. Ela mandou que Devimyuu fosse para o quarto, e se livrasse das roupas encharcadas.

Noutra ocasião, ele protestaria afirmando não ter mais nada pra vestir e se recusando a ficar despido. No entanto, estava com frio e molhado demais para contestar a druidesa. Ele tirou absolutamente tudo e cobriu-se com a colcha fina que cobria a cama de Mewcedrya, que podia ouvi-lo espirrar da cozinha.

— Eu devia ter providenciado mais de uma muda de roupa pra você... vou cuidar disso depois. — Disse a fêmea, que veio até o quarto apanhar as vestes dele a fim de colocá-las para secar.
— Como se sente?

Ela perguntou, colocando a mão sobre a testa de Devimyuu para checar sua temperatura. Ele ainda queimava em febre e sentia calafrios.

— C-com frio... — Balbuciou o garoto, se encolhendo sob a colcha antiga que não lhe aquecia nem um pouco.

Mewcedrya foi até um baú de madeira que ficava ao lado da prateleira de livros. O abriu e tirou dali o que parecia um cobertor feito da pele de um velho lowfe de pelos marrons.

Ela disse para Devimyuu se deitar e o cobriu. Em seguida, enrolou um tecido menor em sua cabeça para conter os longos cabelos encharcados.
O felin adolescente não estava mais tremendo de tanto frio, mas ainda se sentia mal.

Oscilações radicais entre hipotermia e febre, e também fraqueza, eram resultados adversos da contaminação da gosma dos darutts, que permaneciam mesmo que a vítima estivesse livre das toxinas venenosas do ataque dos seres, como era o caso do príncipe das Trevas.

Devimyuu observava Mewcedrya cobri-lo cuidadosamente, o acomodando sobre a cama e cuidando para que nenhuma parte de seu corpo ficasse de fora do cobertor. Talvez fosse uma alucinação da febre, contudo, o príncipe podia jurar que via em seu rosto um olhar quase maternal de preocupação e empatia.

Uma saudade infernal da mãe adotiva bateu-lhe no peito. Devimyuu não queria pensar nela, afinal tudo indicava que ela havia o abandonado.
Ele gostaria de odiá-la, porém, todas as vezes que tentava, lhe vinham as lembranças de todos os momentos em que ele podia jurar que ela realmente o amava - cada beijo na hora de dormir e ao acordar,    todos os carinhos que demonstrava, e a forma atenciosa como o recebia da escola e ouvia contar sobre cada detalhe de seu dia.

Devimyuu não entendia como alguém que parecia lhe amar tanto pôde rejeitá-lo e simplesmente dar-lhe as costas. Talvez ela não tenha tido escolha e portanto não tinha culpa.
Kinmyuu, Heimewdall e Mewpester eram os verdadeiros culpados - pelo menos era assim que o garoto pensava.

Mais alguns pensamentos desconexos entre nostalgia e vingança vieram a mente do adolescente. Estes foram interrompidos pela voz de Mewcedrya dizendo que voltava logo. Com os olhos semicerrados ele fracamente assentiu, os fechando em seguida, desejando que lhe viesse um sono repentino que o livrasse daqueles malditos picos de quentura e calafrios simultâneos.

Um tempo depois - que ele não sabia quanto - a druidesa retornou com um frasco de algum tipo de tônico. Ela se aproximou da cama, e sem esperar que ele tentasse tomar por si mesmo, enfiou uma grande colherada em sua boca, como se ele fosse um pequeno filhote.

O gosto era amargo e o tônico espesso. Devimyuu fez uma careta, e insinuou que queria cuspí-lo, mas Mewcedrya o fitou com um olhar severo que o fez engolir.

— Credo... isso é horrível... — reclamou o adolescente, tossindo e colocando a língua para fora como se isso fosse livrar do gosto ruim.

— É, eu sei. Mas é o que vai curá-lo dessas oscilações de hipotermia e febre. Agora deite e descanse, vai estar melhor quando acordar.

Ela o acomodou novamente, ajeitando a ponta do cobertor que o cobria até o pescoço. Colocou um tipo de esponja vegetal úmida sobre a testa dele, e uma tigela de argila com um líquido fumegante no chão próximo ao pé da cama.

A fumaça do líquido na tigela queimava com um cheiro levemente cítrico e repousante, que subia direto ao focinho do príncipe deitado. Embalado pelo aroma daquele incenso natural, o futuro Lorde fechou os olhos, sua mente foi levada para longe do mal estar que sentia. Ele adormeceu logo depois.

Passadas algumas horas, Devimyuu despertou. Ele dormiu tão calmamente que por um instante achou estar novamente em seu antigo lar num palácio. Abriu os olhos lentamente, obviamente percebeu que estava na cabana da druidesa da floresta, não num castelo luxuoso. Porém, não sentiu-se desapontado. Na realidade, estava muito feliz por isso.

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