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— ENCONTRE-SE, SEMIDEUS  

Em silêncio, Mewcedrya aguardou até que o menino se acalmasse. A druidesa afagava suavemente seus cabelos rebeldes, enquanto ouvia seu choro abafado cessar pouco a pouco. Ela não fazia ideia de quanto tempo permaneceu ao lado dele, mas, de forma alguma se atreveria a deixá-lo.

Devimyuu lentamente ergueu a cabeça. Seus olhos, tão vermelhos quanto os de um felin que passara dias sem dormir. O focinho com coriza estava molhado, tal como todo o rosto, devido às lágrimas.

— Você deve me achar ridículo, não é? Um semideus fracote, que chora como um filhote assustado querendo a mamãe... — Ele fungava, limpando o rosto com as mãos. Mewcedrya sentiu o constrangimento em sua voz e seu olhar.

— Na verdade, eu te acho um menino corajoso que carrega o peso da morte dos pais, e que se sente na responsabilidade de vingá-los e retomar o que por direito é seu. É isso o que você deseja, não é?

— Eu não ligo muito pra essa coisa de trono... Mas, vou tomar a coroa do Mewpester, porque isso é o que mais importa pra ele, e eu vou tirar desse desgraçado tudo que ele mais ama, do mesmo jeito que ele fez comigo!

A druidesa olhou nos olhos do garoto. Nunca tinha o visto falar tão sério sobre algo como fizera agora.

— Se sente que esse é o seu destino, então você deve ir atrás dele, filhote de deus. Já sabe que passos seguir para alcançá-lo?

Ela se sentou ao lado dele, se servindo com um pouco do chá morno que restava na jarra de barro.

A pergunta da fêmea pegou Devimyuu desprevenido. Ele chegou a abrir a boca para falar, mas percebeu que não tinha uma resposta. Ele jurou se vingar de Mewpester e tinha certeza de que o cumpriria, no entanto, não fazia ideia de como.

Sua vida sofreu uma reviravolta inesperada desde que fugiu do castelo do odiado rei, há uma semana. A fuga de Devimyuu tinha por objetivo principal retornar para seu lar do passado, para a antiga família que o acolhera, e que antes ele acreditava também ser sua. Foi neles em quem tinha pensado cada dia infernal daquele ano aterrorizante, e foi na esperança de voltar para eles que quase sacrificou uma vida para fugir, quando descobriu ter mais de uma delas.

Contudo, percebeu que todo seu esforço foi em vão, quando foi impedido de retornar por ser o que era: o próximo Lorde das Trevas, o semideus arquemônio daquela era - escolhido de Ghanog para fazer com a Escuridão triunfasse sobre a Luz de Ghaceus. Um ser amaldiçoado cujo lugar não era com eles, e sim no mundo excluso e sujo que nasceu para dominar.

Devimyuu ficou destruído. Nunca havia desejado ser nada disso. Se pudesse, jamais escolheria ser um Lorde das Trevas. Mas ao seu ver, o que ele gostaria não importava. Tentar pertencer ao Bem também não. Suas ações e seus desejos não eram dignos de serem levados em consideração; afinal, ele não havia feito nada diferente de Kinmyuu quando seu detestável tio cravou sua espada celestial no peito de Devimyuu. Ele não foi morto pelo que tenha feito, e sim por ser o que era, sem qualquer chance de defesa.

A expulsão do antigo lar que trouxe sua primeira morte abalou por completo sua estrutura psicológica e emocional. Tudo o que ele tinha era muita raiva e um desejo sanguinário de vingança, mas nenhuma ideia de como cumpri-lo.

Entre a desilusão de se sentir traído e abandonado e fugir da guarda real que estava em sua caçada, ele não teve tempo nem condições de sequer pensar num plano inicial.

O que mais queria era vingar-se de Mewpester, vingar-se de todos que um dia foram a razão de suas lágrimas, porém, não sabia como fazê-lo, e agora tinha consciência disso.

— Eu... ainda não sei, mas... vou dar um jeito. — Respondeu o garoto, num tom seco.

— Você poderia se entregar, assim voltaria para o palácio e estaria mais perto dele para matá-lo... — Mewcedrya parecia pensativa com sua calma natural. Devimyuu olhava desacreditado para a druidesa assumindo uma pose analítica. — Mas, o que você deseja uma tomada de poder total, eu imagino que não vai conseguir isso sozinho, príncipe semideus. Pelo menos eu acho que não... Seu poder divino é bastante para tomar o trono sem ajuda?

— Não... Quer dizer, eu não sei, tá?! Descobri que sou o tal semideus dessa era há uma semana, ainda não sei o que eu posso ou não fazer! — Exclamou ele, abaixando novamente a cabeça sobre a mesa e a pressionando, frustrado.

Quanto mais Mewcedrya o fazia ver o quão perdido ele estava, mais irritado o novo Lorde das Trevas ficava consigo mesmo.

A druidesa arregalou os olhos.

— O que? Há uma semana?! Mas como assim, menino?! Você não deveria saber disso desde que nasceu?

— Eu não quero entrar em detalhes desse assunto, Mewcedrya. Já te contei demais do meu passado por hoje.

A voz do príncipe sombrio e seu olhar fatal mostravam seriedade. Mewcedrya achou melhor não provocá-lo.

— Certo, muito justo... Bem, se já está mais calmo, eu vou me retirar. Preciso ir até o riacho lavar algumas roupas. Fique à vontade, eu já volto.

Mewcedrya se dirigiu até o quarto para apanhar a cesta trançada que tinha confeccionado na noite anterior e colocou um manto amarronzado dentro dela, junto com outras peças pequenas. Devimyuu seguiu a adulta.

— Aí, você pode me dizer qual é o caminho pra eu sair dessa floresta? — Ele perguntou.

— Posso, mas, você já vai embora?

— Vou. Já passou da hora...

— Hmm... E pra onde você vai? — Ela o olhava fixamente enquanto segurava a cesta com roupas.

Devimyuu desviou o olhar e deu ombros.

— Sei lá, por aí...

— Achei que a guarda real estivesse o perseguindo. Ficar por aí não me parece muito seguro para um príncipe procurado.

— Eu me viro, posso cuidar deles. — Respondeu o futuro Lorde, sem levar fé nas próprias palavras que saíam de sua boca.

Mewcedrya respirou fundo e colocou a cesta sobre a cama.

— Eu não duvido que possa... Mas até quando, e a que custo, menino deus? Você se lembra de como chegou aqui. A floresta te poupou porque te considerou digno. Se não fosse isso, talvez você estivesse em maus lençóis agora com aqueles guardas. Como é que vai conseguir vingar a morte de seus pais se não evitar a sua própria? Acho que eles não iam gostar que se arriscasse desse jeito, já tem idade para ser um pouco mais prudente.

Devimyuu bufou, como um típico adolescente que não gostava do que ouvia. Ele odiava que os argumentos de Mewcedrya estivessem tão certos. E usar seus pais como exemplo fora um golpe muito baixo; baixo, porém sagaz.

— Ah é? E o que você sugere? Que eu fique me escondendo nessa floresta pra sempre?! — Ele indagou com um sarcasmo irritado.

A druidesa prosseguiu com sua serenidade que não se deixava afetar por chiliques do adolescente semidivino.

— Não. Que fique até estar pronto para seguir o seu destino. Não estará se escondendo, estará se preparando. Você pode até ser um semideus, mas de nada adiantará se não souber o significado disso e como usá-lo em seu favor. Creio que para derrotar um inimigo, é preciso conhecê-lo, e ao que parece, você não conhece nem a si mesmo, alteza.

O príncipe ficou em silêncio, pensativo. Por mais que seu orgulho o fizesse querer ignorar as palavras de Mewcedrya e simplesmente ir, no fundo o garoto sabia que a druidesa tinha razão. Não derrotaria Mewpester sem um plano, e não planejaria nada se estivesse ocupado em fugir da guarda real em cada esquina que dobrasse.

Tudo o que aprendeu na academia de magia ao longo dos anos antes de seu rapto não seriam o bastante servir ao seu novo propósito e seu novo eu. No entanto, era duro admitir que estava sem rumo, e pior ainda aceitar que precisava de ajuda.

Emburrado, Devimyuu também sentou-se na cama. Ele suspirou, e ficou olhando vagamente para o piso de madeira rústica sob seus pés, sem ter o que responder para a druidesa. Ele sequer tinha respostas nem para as inúmeras questões que inundavam sua mente: Que caminho seguir? Por onde começar? Que poderes ele tinha e como conseguiria alcançá-los?

Todas as suas perspectivas eram um quadro branco que ele não sabia preencher. Ele era um adolescente perdido - em todos os sentidos.

— Eu sou o novo Lorde das Trevas... Tenho que me virar sozinho, como um semideus de verdade faria.

Ele disse, depois de um bom tempo em silêncio.

— Você está mesmo certo disso? Porque não acho que os Lordes antecessores se tornaram o que foram sozinhos. Muito pelo contrário, como realezas rodeadas de privilégios e regalias, eles foram direcionados e treinados desde o berço para um dia desempenharem seu papel. Você não teve essa chance, mas poderia ter agora.

Devimyuu encobriu o rosto com as duas mãos, apoiando os cotovelos sobre as pernas, e soltou um longo suspiro.

— Eu... eu não sei...

— Olha, filhote de deus, o único te colocando pressão aqui é você mesmo. Por que não se dá um tempo para decidir? Eu vou até o riacho, e depois vou colher frutas para o almoço. Quer vir comigo? Talvez espairecer um pouco possa ajudá-lo a pensar melhor.

O garoto respondeu que não balançando a cabeça, então Mewcedrya simplesmente apanhou novamente a cesta e se retirou. Entretanto, ela mal tinha se afastado alguns metros da cabana quando ouviu passos apressados atrás de si, e uma voz jovial a chamando.

— Espera aí! — Devimyuu vinha correndo atrás dela e logo a alcançou. — Eu mudei de ideia... — Disse, um pouco encabulado.

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