- 07.2 -
Mewcedrya parecia cada vez mais confusa.
- Mas se você é um príncipe, por que estava fugindo do palácio?
- Porque lá eu nada mais era do que um prisioneiro e um escravo. E agora sou procurado por aquele maldito que está no trono.
Mewcedrya ergueu uma sobrancelha.
- Está falando de seu próprio pai?
- Mewpester NÃO é o meu pai! - O garoto gritou, levantando-se bruscamente, apoiando as duas mãos sobre a mesa.
A adulta apenas ficou o encarando receosa, e, percebendo que tinha se descontrolado, ele procurou voltar ao prumo e se acalmar. Suspirou, seguido de uma respiração profunda e sentou-se novamente.
- É uma longa história... tudo aconteceu bem antes de eu nascer. Meu pai verdadeiro era o legítimo herdeiro do trono, e além de rei, o pai dele era um dos bruxos mais poderosos que já existiram. E ao que parece, ele não gostou nada quando meu pai se apaixonou pela minha mãe, por ela ser metade fádica. Então meu pai simplesmente largou o trono e fugiu, se tornando um príncipe renegado pra poder ficar com ela. Me disseram que anos depois, meu avô foi derrotado e morto numa guerra no Mundo Puro, e que como ele não tinha outros herdeiros, o meio irmão bastardo da mulher dele - que é esse bosta do Mewpester - usurpou o trono. Com medo do meu pai vir tomar a coroa que por direito era dele, Mewpester mandou encontrá-lo, armou uma emboscada com pelotões do exército real e invadiu o lugar onde ele vivia com a gente. Meu pai era poderoso, mas não conseguiria dar conta de um exército sozinho por mais magia que tivesse. Ele morreu lutando pra que minha mãe pudesse fugir comigo; eu tinha nascido há poucos dias. Mas mesmo assim, ela acabou sendo encontrada, e levada como prisioneira pra ser concubina do nojento do Mewpester! Ela aceitou ir sem resistir, contando que pudesse me levar e que ninguém me machucasse...
Enfim era revelado a origem e o passado do garoto semideus que o destino trouxera até Mewcedrya. Tudo que Devimyuu contou foi lhe dito por sua madrinha, que ouvira toda a história diretamente da mãe do garoto.
A druidesa estava estupefata. Por viver na floresta há décadas e só sair dela no máximo uma vez por ano, há muito ela não tinha conhecimento do que se passava na capital régia. E essas informações nunca lhe fizeram falta, pois o que acontecia dentre a família real não era muito de seu interesse.
Mas agora era diferente. Tinha apresentado diante de si uma história envolvendo, amor, lutas, perda e traição - que acontecera bem de trás dos muros do palácio.
- Espere um pouco... Então seu pai é o tão falado príncipe herege?!
Devimyuu a olhou furiosamente.
- Não o chame assim! Estou cansado de todo mundo ficar insultando a minha família! O nome dele era Mewdoukkan! Se refira a ele pelo nome!
(Príncipe Mewdoukkan, pai do Lorde das Trevas)
Mewcedrya estremeceu, compreendendo os motivos do menino para ter se ofendido.
- Cla-claro, me desculpe, filhote de deus, eu não quis ofendê-lo. É que quando eu ainda vivia em Mahojtani, eu me lembro de ter ouvido comentários sobre o único herdeiro do rei estar ausente há muito tempo. Alguns diziam que ele estava numa missão de anos, mas no fundo, havia boatos que o príncipe tinha desertado, mas ninguém nunca soube o motivo. Então, foi isso que realmente aconteceu... Ele desistiu do trono pela sua mãe... - Mewcedrya não escondia o quanto estava pasmada. - É inacreditável, chega até a ser um pouco estranho... - ela sorriu suavemente. - Mas admiro muito o sentimento dele. Acho que é isso que os puros chamam de amor... Seu pai deve ter sido um homem bem admirável, e sem dúvidas muito corajoso.
O príncipe reverso deixou passar seu aborrecimento com a druidesa e baixou o olhar, com um assentir melancólico.
- É claro que ele foi, mas graças àquele maldito do Mewpester eu nem pude conhecê-lo. Meus pais verdadeiros estão mortos por causa dele... Esse desgraçado de merda me tirou a única família que teria me aceitado de verdade! Mas eu ainda vou fazê-lo pagar por isso, nem que seja a última coisa que eu faça!
Um misto de pesar com a fúria do mais puro ódio refletiam-se nas íris douradas do garoto semideus. Sua ira era quase palpável.
Por um lado, Mewcedrya sentia grande reverência pelo poder sombrio que seu furor exalava, mas por outro, estava sensibilizada pela história daquele jovem príncipe injustiçado.
- Você disse pais... Então suponho que ele também assassinou sua mãe... - Comentou a adulta com tristeza, se levantando e sutilmente se aproximando do garoto à mesa.
- Foi... - Devimyuu afastou o prato de argila com o resto das broas que estava em sua frente. Não sentia mais nenhum apetite para comer. - Quando eu tinha uns quatro anos, eu vi aquele maldito covarde matar a minha mãe a sangue frio... Parece que ele queria fazer alguma coisa comigo, e ela fugiu pra tentar me salvar...
Mewcedrya não sabia se deveria, mas se arriscou a colocar a mão sobre o ombro do menino para ampará-lo. Agora ela entendia o motivo de na noite anterior ele ter fugido descontrolado para o meio da floresta após citar sua mãe. O peso do trauma que carregava era demais para suportar.
- Que coisa horrível... Eu realmente sinto muito por sua mãe, filhote príncipe... Nem imagino a dor que você deve carregar pela perda dela... - Com a mesma mão que o amparava, Mewcedrya o afagou levemente, enquanto oferecia seus sentimentos.
Devimyuu ainda sentia a raiva por Mewpester arder com fulgor em seu coração destruído. No entanto, mais uma vez, o amuleto herdado do pai se materializou por conta própria. Ao olhar para ele, a dor do herdeiro das sombras conseguiu ser maior do que sua raiva. Naquele momento, ele não queria mais mortes, não queria mais poder e nem vingança - a única coisa que ele desejava, era estar mais uma vez nos braços de sua verdadeira família.
Ele balançou lentamente a cabeça. Lágrimas da mais profunda dor escorriam sem parar por seu rosto.
- Eu só lembro algumas coisas dela... Sei que ela era linda e que ela me amava. Já o meu pai verdadeiro, eu só sei o nome e o pouco que minha madrinha soube pela minha mãe e me contou. Através delas eu soube que meu pai deixou esse talismã mágico de proteção pra mim na noite do ataque. Costumava ser dele. Ele sabia que poderia morrer e... queria que uma parte dele continuasse comigo. Então, eu tenho certeza que ele me amava, afinal, se sacrificou pra tentar salvar minha mãe e a mim... Eu não tenho muitas lembranças da minha família de verdade, minha única família, aliás, já que a segunda que eu tinha me abandonou... Aqueles traidores nunca gostaram de mim de verdade! Então, mesmo quase não tendo ficado com eles, eu... sinto muita falta da minha verdadeira família... Eles sim me amavam, eles nunca me deixariam pra morrer por eu ser o que eu sou! E eu faria tudo, qualquer coisa... pra ter meus pais de volta...
Não suportando mais conter toda angústia e solidão que carregava, o semideus adolescente esqueceu-se de seu ódio e seu orgulho, e debruçou a cabeça sobre a mesa, onde pôs-se a chorar profundamente.
Sem saber o que dizer, a druidesa testemunhou o pranto do príncipe em silêncio. Seu coração - que para uma reversa não era tão mau - se via despedaçado só de olhar para Devimyuu.
Embora fosse o semideus daquela era, ele também era um garoto que sofria como a maior vítima de eventos trágicos que fugiam de seu controle.
Naquele momento, Mewcedrya não conseguia enxergá-lo mais como uma entidade profética que chegara ao mundo - ela via somente um menino órfão, magoado e sozinho.
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