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— ENTRE —

Dois troncos inteiriços posicionavam-se com um pilar de cada lado da porta de carvalho da cabana, sob uma extensão do telhado que formava uma cobertura sobre a entrada. Uma aldrava feita de madeira com um cristal vermelho incrustado posicionava-se no centro da simples, porém robusta porta.

Mewcedrya puxou e girou a argola de pedra presa na aldrava e com isso a porta se abriu. A fêmea fez um sinal com a mão para que Devimyuu passasse primeiro.

Com passos cuidadosos, o jovem semideus entrou. Assim que o fez, sentiu o cheiro do cozido que tomava o ambiente invadir seu focinho triangular. A druidesa de certo deixara algo apetitoso no fogo. O aroma fez o estômago vazio do adolescente faminto há dias se contorcer de tanto roncar, e sua boca salivou instantaneamente.

— Sente-se, semideus. — Ofereceu Mewcedrya, apontando para um banquinho de madeira ali próximo, enquanto pendurava sua bolsa de pele numa das três vergas pregadas atrás da porta.

Em silêncio, Devimyuu puxou o banco quadrado e sentou-se em posição de lótus. Sua inevitável curiosidade de garoto fez com observasse atentamente todo o interior da casa. Embora rústica por fora, a cabana se mostrava organizada e aconchegante por dentro. A mesma se dividia em dois cômodos de tamanho mediano.

Pelo que ele reparava, onde estavam deveria ser o correspondente a cozinha. Havia uma mesa de cedro negro no canto esquerdo, abaixo da janela, uma prateleira de madeira bem polida de três nichos mantinha algumas tigelas e copos de barro vazios no nível do meio, e no mais baixo, três cuias guardavam folhas, cogumelos já secos, especiarias e outros ingredientes usados pela fêmea para cozinhar.

Do outro lado, encontrava-se um forno de pedra; pendurado numa haste de metal em seu interior, um caldeirão de ferro era aquecido com fogo alimentado por lenha, e a fornalha soltava sua fumaça através de outra pequena janela logo acima. Ali próximo, uma tábua larga sobre dois cavaletes formava um balcão simples de madeira, com uma grande tina d'água em cima.

De onde estava sentado, Devimyuu conseguia ver um pouco dos fundos do outro cômodo, separado por meia parede de toras lixadas que estendiam até o teto da humilde cabana, ajudando na sustentação. Avistando uma cama de mogno cuja cabeceira era ornamentalmente feita de madeiras trançadas, com uma cômoda ao lado, uma estante de quina também de madeira e uma cadeira de balanço noutro canto, o adolescente concluiu que ali deveria ser o quarto de Mewcedrya.

Tudo no lar da druidesa remetia as matérias-primas da natureza com as quais sua mobília e utensílios foram constituídos. O príncipe das Trevas, que outrora passara sua vida num luxuoso castelo e os últimos doze meses dela num calabouço repulsivo, nunca tinha visto nada parecido em termos de simplicidade.

Numa viga larga em horizontal sob o telhado, penduravam-se lampiões de argila para iluminar o interior da casa. Só um deles precisou ser aceso, queimando gordura animal, visto que Mewcedrya deixara a porta aberta para a fraca luz cinzenta da tarde poder entrar.

— Logo estará tudo pronto para comermos. Peço que aguarde só mais um pouco. — Disse a fêmea.

Devimyuu assentiu, mantendo-se inexpressivo. Ele ficou imóvel no banco, observando a druidesa andar pelo cômodo apanhando o necessário para concluir a preparo da refeição, já que agora a serviria para dois.

Contudo, logo o menino se mostrou inquieto. Descruzou as pernas e começou a balançá-las freneticamente sobre o banco.

— Preciso ir ao banheiro... — O garoto finalmente falou.

— Fique à vontade. — Mewcedrya disse, apontando para fora, com um afiado cutelo de pedra polida em suas mãos, que usava para cortar no meio uma das kabóbras de seu jardim.

Não precisou muito para o reverso entender que o "banheiro" se tratava da própria natureza lá fora. Pelo estilo de vida de Mewcedrya aquilo não o surpreendia.

— Tome uma boa distância, por favor. Pediu a fêmea enquanto ele saía.

Devimyuu seguiu sempre olhando para trás ao se afastar da cabana. Podia avistar fumaça saindo da pequena chaminé ao topo da construção rústica. Tomou certa distância, mas não muita. Ele odiaria se perder novamente.

Parou atrás de uma árvore grossa, mas pensou melhor e desistiu da ideia, com receio de que ela despertasse como um monstro demoníaco e o devorasse.

"Se alguém fizesse xixi em mim, semideus ou não eu com certeza ia matá-lo..." Disse o garoto para si mesmo, enquanto se dirigia rumo a um arbusto noutro canto.

Ele olhou para os lados antes de se aliviar, em seguida se sentindo idiota por fazer isso, já que estava no meio de uma floresta, e os únicos telespectadores prováveis seriam insetos e talvez alguns animais escondidos nos galhos das árvores.

Mesmo assim, enquanto terminava, não podia deixar de sentir-se estranhamente observado. Olhou em volta novamente, analisando cada canto da mata com seu olhar felino, desde uma folha que se agitava no vento ou galho que sacudia, como se procurasse por algum maníaco prestes a atacá-lo.

Ao ajeitar o calção podia jurar que viu uma árvore mais baixa se mexendo, que em seguida mudara de lugar. Inculcado com aquilo, Devimyuu se perguntava se o que viu realmente acontecera ou se já estava sofrendo alucinações devido a fome. Com a existência de árvores-monstro que ganhavam vida e sabe-se lá que demais criaturas que habitavam a Floresta Maldita, o garoto semideus não ia esperar para ver qual das suas hipóteses estava correta.

Resolveu voltar depressa para a cabana da misteriosa druidesa, mas antes, parou e se concentrou de olhos fechados, com as mãos unidas formando um triângulo na altura do peito. O poder concentrado fez com que um talismã triangular de uma gema mágica verde se materializasse num cordão de ouro em seu pescoço, como um grande medalhão.

Devimyuu olhou o reluzente talismã, e suspirou enquanto o segurava sobre a palma de uma das mãos. Sentia-se seguro com a relíquia que a mãe dissera ser uma herança preciosa que seu pai deixara exclusivamente para ele.

"Espero que continue comigo de algum jeito, aonde quer que você esteja..."

O menino desejou em pensamento como numa prece, segurando fortemente a gema triangular junto ao peito. Após isso apertou o passo no caminho de volta, sempre olhando para trás, com a teimosa sensação de que algo o seguia.


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