Conto 8 - Entre Cortinas (Piper Palace)
Autora: Piper Palace
Música-tema: Nicki Minaj - Bed (feat. Ariana Grande)
Classificação: 16+
Sinopse: Pequenos fragmentos do dia a dia de seu vizinho foi o suficiente para deixar Melissa completamente apaixonada.
A garota observa o casal há bastante tempo e começa a lhe incomodar o fato de saber quase que exatamente a hora que saem, chegam, comem ou trepam.
Ela sabia que algo estava errado. Seria apenas os sintomas de sua paixão um pouco descompassada ou tudo havia se tornado uma obsessão?
"(...) no entanto, depois de três dias de abstinência – sem ao menos chegar perto da janela – em um momento de fraqueza, abri a cortina as 18 horas".
***
Seu aspecto era sujo.
O macacão marrom encardido com várias manchas pretas, deixava sua aparência ainda mais asquerosa.
Isso deve ser graxa. Suas unhas devem ser todas sujas de graxa e seu cheiro deve ser horrível, insisti.
- Melissa, você ainda não está pronta? Vamos nos atrasar! Acelera o passo, minha filha!
Calcei as botas, peguei minha bolsa e, relutante, puxei mais uma vez a cortina para vê-lo. Dante já estava abraçando-a por trás, deixando suas mãos explorarem o corpo saliente da mulher.
Passei a mão no pescoço a fim de controlar um suor que rapidamente brotava. Não estava funcionando a "técnica do oposto" que vi na internet, pois nesse momento, eu só conseguia pensar que Dante poderia estar alisando meus longos cabelos castanhos, ou apertando meu corpo com força, deixando marcas vermelhas pela minha pele muito clara. O imagino apreciando meus olhos verdes e passando seus dedos pelo desenho da minha boca. Mordo os lábios sentindo o desejo crescer.
- Melissa!
Assustei-me com o grito que me fez fechar as cortinas rudemente. Apressada, busquei com o tato meus fones de ouvido na enorme bolsa que carregava. Mamãe, segurando a porta do elevador, já me lançava aquele olhar tão característico de desespero; ela odiava atrasos e adorava sermões. Elevadores eram perfeitos para o último. Aumentei a música de Janis Joplin no celular e esperei descer os 3 andares mais lentos do universo. Precisava tirá-los da cabeça.
***
- Parabéns, meu filho! Que missa mais linda! Estamos muito orgulhosas de você.
- Valeu, mãe.
- Daqui a alguns anos já é você, hein?
Pego a caixinha de água de coco na geladeira e me sirvo do liquido gelado.
- Alguns é bondade da senhora, mãe. São muitos. Meu Deus! Muitos!
- Passa rápido! Já está no segundo ano da faculdade, meu bem, e na sua residência você já estará trabalhando, ganhando seu próprio dinheiro, sendo uma médica de verdade! - diz com entusiasmo.
- Doutora "sovaco de bode"! Quem diria, hein?
- Quem diria você, "bafo de cobra"! Engenheiro, hein? Não dava mais que professor de matemática do 6º ano. - esnobo com um sorrisinho de escárnio.
- Agora pegou pesado. - diz meu irmão, colocando a mão no peito e fingindo indignação.
Sorrimos um para o outro antes que mamãe começasse seu sermão sobre "Deus habita num lar de paz - parte 34".
- Não me comessem com essas provocações. - mamãe se levanta do sofá com os sapatos na mão e para na entrada do corredor. - Como eu estava falando, o tempo passa rápido. Olhe só para o Junior! Parece que foi ontem que você começou a faculdade, não é filho?
- Não é bem assim, dona Karen. - responde meu irmão, vestindo suas proteções de pilotagem. - Na verdade, pareceu uma eternidade, Mel. Cinco anos de puro inferno.
- Viu, só? - provoquei mamãe.
Junior sorriu pra mim e jogou a mochila nas costas, enquanto mamãe fazia cara feia e resmungava como de costume.
- ... depois ela desanima! A Melissa precisa do nosso apoio, Junior! Não entendo como você pode ir trabalhar hoje. No dia da sua missa de formatura? Esse moto táxi se aproveita de você, isso sim! Quando sai o resultado daquela vaga...
Não cheguei a ouvir o resto do monólogo porque já estava com os fones de volta ao seu melhor lugar. Mandei um beijo para meu irmão e fui para o meu "lar sagrado".
Sentada na cama, me obrigo a abrir mais alguns livros e revisar os conteúdos de Epidemiologia. Medicina é um sonho antigo e não foi nada fácil entrar na Universidade Federal de Campinas; não posso me dar ao luxo do cansaço me abater. Depois de algumas anotações e um sono persistente, o barulho de um portão enferrujado tirou minha atenção dos Conceitos básicos de Imunização.
Vamos lá Melissa, você não precisa disso. Você não precisa disso.
Tento me concentrar a continuar meus estudos, contudo, quando se trata da vida de Dante, tudo se torna incontrolável.
Onze e onze.
Puxo levemente a cortina e o observo fechar o portão. Do 3º andar vejo perfeitamente a casa da frente. Com o muro baixo e o quintal descoberto, a vida do casal é totalmente escancarada para qualquer morador do prédio. As janelas de vidro sem nenhuma cortina, expõe uma privacidade muitas vezes... bem particular.
Não me lembro quando comecei a observá-los. Até parece que isso acontece a vida toda.
No início, com apenas 12 anos, me contentava em admirar aquela figura máscula. Com essa idade, minha curiosidade se resumia a assistir barracos e festas entre amigos. Mas em pouco tempo, ao assistir uma reconciliação calorosa, percebi que algo aflorava em mim. Quando encarei pela primeira vez as costas torneadas de Dante e senti uma excitação no ventre junto com a vontade descabida de tocá-lo, algo estranho acontecia com minha mente e meu corpo. Desde então, há cinco anos, aquele maldito Big Brother me corroe de corpo e alma.
Observá-los diariamente já fez parte da minha vida. Da minha rotina.
O dia que não estava em casa para vê-lo chegar do trabalho, ficava nervosa e mal humorada. Estudar para o vestibular foi um desafio. Considerei a possibilidade de destruir meu futuro por algo tão efêmero e compreendi a importância de ir estudar na biblioteca todas as tardes a fim de evitar distrações.
Sei o horário que almoçam, que acordam, que transam, que dormem. Sei quando costumam sair e que horas costumam voltar. Sei quando estão felizes ou quando brigaram. Não gosto de admitir que passei dos limites, no entanto, algo começa a me incomodar.
Nunca namorei. Nunca beijei na boca. Nunca achei que alguém estivesse aos pés de Dante. O que antes era apenas uma curiosidade, havia se tornado uma obsessão por ele. Somente ele.
Há quase um ano comecei a sentir ódio de sua mulher. Tudo naquela loira sem graça me irritava e meu coração acelerava de raiva quando Dante se aproximava dela com alguma intenção mais ardorosa. Aceitando o fato, pela primeira vez, de estar apaixonada por um desconhecido que possivelmente tem idade para ser meu pai, prometi a mim mesma que não me permitiria mais aquela vigilância. Busquei repetir em pensamento que eu precisava me desapegar, esquecer de sua vida e viver a minha, no entanto, depois de três dias de abstinência - sem ao menos chegar perto da janela - em um momento de fraqueza, abri a cortina as 18 horas. Aquela situação estava insustentável. Embora eu sentisse falta de um namorado, nunca me senti verdadeiramente atraída por nenhum garoto. Eu sempre colocava a porra do vizinho no meio e isso tinha que acabar. Começava a enfrentar a situação como uma viciada, sempre lutando para me afastar da janela e não ceder ao impulso de observá-los. Já cheguei a ficar horas sentada no parapeito da janela, entre um cappuccino e outro, observando-os em sua rotina. Perdia a noção do tempo enquanto me sentia inundada e preenchida com a imagem corpulenta e luxuriosa de Dante. Recentemente encontrei num blog a "técnica do oposto"; sempre que o vejo, procuro destacar apenas o pior do que vejo. É obvio que essa merda não está funcionando.
Enfim, depois de todas as promessas e juramentos, quando dou por mim, já estou entre as cortinas ansiando vê-lo.
Dante tira a roupa de F e a senta no capô do carro.
Já perdi a conta das cenas de sexo que presenciei nessa garagem. Passo a mão pelos meus seios atiçando mais o meu desejo. A primeira vez que me masturbei não tinha ideia do que estava fazendo. Sentei no parapeito e apertei a vagina a fim de amenizar o calor crescente no local, mas meu toque apenas incendiou ainda mais o meu desejo. Naquela época, eu tinha acabado de fazer 13 anos e acabara de descobrir a versão depravada do sexo.
Meus dedos passam pela borda do short e tocam a calcinha molhada. Pressiono meu clitóris pendendo a cabeça para trás. Penso que suas mãos grandes e pesadas poderiam estar passando pelo meu corpo e a barriga que agora é lambida poderia ser a minha. Enquanto F se contorce com a cara de Dante entre suas coxas, corro até a porta para trancá-la. Volto para o lugar que estava e deixo apenas uma fresta aberta da cortina. Vejo com perfeição seu pau sendo tirado da calça jeans e penetrando, sem muita cerimônia, a mulher descabelada. Dante é veloz e rude, o que me deixa ainda mais enlouquecida. Meus batimentos aumentam, o ar parece faltar e uma onda de prazer começa a chegar em desespero. Faltava pouco para meu clímax quando Dante olha para meu prédio.
- Puta que pariu!
Fecho a cortina com rapidez assim que vejo os olhos de Dante na minha direção. Com a pressa para sair da frente da janela, caio do parapeito e torço o pé. Meu Deus! Será que ele me viu? Ou será que só olhou aleatoriamente para o prédio? Me pareceu que... não, não pode ser. Eu sempre os vigio com muita cautela. Nunca os deixaria perceber. Mas talvez alguma vez eu tenha me entregado ao momento, fechado os olhos e.... Não! Chega! É claro que não me viu! Fico angustiada para ver se continuam trepando, mas os imagino com os braços cruzados me encarando. Aquilo me fez arrepiar por completo e ter a certeza que o sono não viria tão cedo.
***
Acordei cheia de olheiras, enxaqueca e uma puta dor no pé. O ocorrido da noite anterior não me fez nada bem, reforçando ainda mais minha necessidade de procurar ajuda psiquiátrica. Tomei um remédio pra aguentar as aulas da manhã, juntei os livros que deixei espalhados pelo chão do quarto e passei reto pela mesa do café sentindo minha cabeça explodir. Mamãe já não estava em casa. Uma mensagem para o grupo da família nos informava que seu plantão como chefe de enfermagem começou às 6 da manhã, já Júnior, que trabalhou a noite toda, estava em coma na sua cama.
As aulas são todas cansativas, estou com um mal humor do cão e percebo que meu dia de merda está só começando quando olho para a mão que acabou de aparecer no meu ombro.
- Mel, você vai na festa do Marcelo?
- Claro que não, Maria. Temos prova daqui a uma semana.
Não sou de amigos. Sou uma pessoa bem reservada, como diria mamãe. O mais próximo de amigos para mim são dois primos que vejo somente nas férias. Minha vida escolar toda foi uma mudança atrás da outra, dificultando ainda mais meu vínculo com as pessoas. Meu pai, tenente do exército, não ficava numa cidade por mais de dois anos. Após sua morte, há 5 anos, nos fixamos em Campinas.
Na faculdade, considerando uma sala com mais de cinquenta pessoas, me acho até bem descolada com meus 3 amigos. Amigos, assim.... colegas de estudos, pois não sou de amiguinhos. Já falei que sou muito reservada?
- Calma, amiga. Você sabia que precisa ficar os dois dias anteriores a prova sem estudar? Ou seja, acho...
- Isso não funciona comigo, acredite. Prefiro seguir com meu cronograma de estudos.
- Meu Deus, Melissa! Como você é CDF!
Termino de guardar meus livros e coloco a mochila nas costas. Odeio ter que dar satisfação dos meus planos, como se tudo já não tivesse sido analisado e estudado meticulosamente por mim.
- Até amanhã, Maria.
- Hoje ainda é segunda... você tem alguns dias para mudar de ideia. E tem mais uma coisa...
A loira que continuava me seguindo, puxa meu braço me fazendo parar. Aquela boca muito vermelha junto com uma cara insinuante demais a fez parecer uma atriz pornô e o pensamento que ela teria jeito para a coisa é inevitável.
Apenas elevo as sobrancelhas, bem cética, apostando minha vida que o assunto me interessará.
- O Thiago não está mais com a Bianca e....
Acertei...
- E eu não tenho nada a ver com isso.
- E ELE perguntou pra mim se você vai na festa! Amiga! Essa é a hora!
- Essa é a hora de quê? Na boa, Maria, o Thiago...
- O Thiago, o quê?
Viro-me para a voz grossa atrás de mim e a primeira coisa que vejo são olhos lindos. Olhos verdes. Ou seriam azuis? Ah, sei lá! O infeliz tem olhos bonitos. E o sorriso também, óbvio, afinal, todo mauricinho, galinha e filho da puta tem olhos e sorriso bonitos. Reparando pela primeira vez no rosto todo proporcional do rapaz, confesso que o playboy é bem bonitinho, mas... está a anos luz de distância de Dante. Nossa! Sem comparação. Deu até dó desse menino agora.
- O Thiago é um galinha.
- Eu?
- Eu estou falando do Thiago. Você é Thiago?
- Eu sou um Thiago... deve ser outro, só pode.
Eu vi um deboche naquela carinha de cretino? Um sorrisinho preso naquela boca cínica?
- Unhum.
Me viro e saio pelo corredor da faculdade sem me despedir. Esse garoto vai mesmo ser médico? Não posso acreditar numa coisa dessas.
- Te vejo na festa, Melzinha!
Melzinha??? Sério que esse idiota gritou isso? Nessas horas queria muito ser aquele tipo de ser humano elevado que simplesmente levanta o dedo do meio. Apenas ignoro e o xingo mentalmente por exatos 5 minutos.
Já mais calma, noto que meu pé não dói tanto como pela manhã. Começo a fazer anotações mentais sobre a matéria que terei que estudar quando chegar em casa.
Ao descer do ônibus, entro, no mercado e compro os itens para o jantar que mamãe me pediu por mensagem.
Já na fila, ao colocar as bandejas de carne, presunto e mussarela na esteira, desiquilibrei o restante dos itens deixando cair tudo no chão. A vontade de falar um palavrão veio tão rápido quanto foi embora, assim que me deparei com quem pegou o macarrão, pasta de dente e absorventes do chão. Dante.
Sempre temi encontrá-lo, uma vez que me sentia extremamente intima dele e não saberia como proceder. Isso seria bem estranho. E era. No entanto, em cinco anos, esta era a primeira vez que acontecia e percebo o quanto fui tola por me preocupar com uma experiência tão sublime como olhar em seus olhos. Olhos estes que pela primeira vez pude ver que eram esverdeados e não castanhos como sempre imaginara. Também era mais velho. O observando sempre de longe não parecia passar dos 35, já com essa proximidade, vejo algumas rugas ao lado dos olhos assim que sorri pra mim. Eu queria casar com ele naquela hora. Puxar sua camisa e dizer olhando fundo em seus olhos: "Larga aquela vaca e fica comigo!"
- Obrigada. - digo, já sentindo meu rosto pegar fogo.
- Eu também não gosto de carrinhos.
Ele coloca todos os produtos na esteira e reparo em suas mãos. Mãos limpas, unhas limpas. Queria perguntar porque ele sempre usa aquele macacão imundo, mas isso não faz o menor sentido. Dante me olha, ainda sorrindo, estreitando os olhos.
- Parece que eu te conheço...
Por favor, algum asteroide que possa cair exatamente aqui; AGORA!
- Acho que não. - digo já virando o rosto.
O nervosismo toma conta de mim e tenho dificuldades para abrir as malditas sacolinhas. Percebo que ele me olha vez ou outra e sem conseguir controlar o impulso e a oportunidade de olhá-lo novamente, viro-me vagarosa, temendo ser surpreendida. Meu Deus... como ele é charmoso. Dante tinha aquela beleza que não se cansa de olhar, sabe? Aquele tipo exato que você encararia por horas; examinando cada detalhe. Com um rosto masculino e anguloso, sobrancelhas grossas emolduravam traços com total harmonia e encanto. Um sorriso que se esquecera de recolher pendia em lábios finos e sensuais. Sua barba grossa era milimetricamente aparada, cabelos escuros e bagunçados e muito mais alto e forte do que sempre pareceu-me.
Ele pega um chocolate a sua frente e o analisa, quando se vira para mim, diz mostrando o doce:
- Esse é muito bom!
Pensei em dizer algo, como: "Adoraria lambuzar você com esse chocolate" ou "Nenhum chocolate é tão gostoso quanto você" mas, me mantive firme e forte, apenas arqueando a sobrancelha e escapando um sorrisinho. Até que... F chega. A loira safada que provoca meu Dante, dia e noite. A vadia é bonita. Porra! Ela é perfeita. A inveja tomou conta de mim e se apossou da minha alma. Ela me olha de cima a baixo e sorri gentil. É pra me sentir culpada?
- Olá - diz para mim, mostrando dentes brancos de "Sensodine Super White". Ela passa a mão no peitoral do meu vizinho e diz:
- Ro, eu não achei aquela ração que a Vic gosta.
Ro? Não! Por favor, eu não quero saber seu nome! Ele nunca se pareceu com nada que começasse com RO! Não acabe com minhas fantasias bem aqui, no caixa de um supermercado!
Com rapidez, coloco meu fone de ouvido que estava pendurado no pescoço e aumento o som. Saio sem olhar para trás, contudo, mesmo fora do mercado, retorno pela parede de vidro e mesmo com a voz de Janis gritando no meu ouvido não resisto em olhá-lo mais uma vez. Para minha surpresa, ele já estava me observando. Uma euforia me invadiu, fazendo-me sorrir para ele. Completando minha tarde mágica, fui agraciada por um belo sorriso de volta. Eu mal acreditava que aquilo estava acontecendo.
- "It don't makes no difference baby..."
Faço o caminho até meu prédio cantando e sorrindo feito uma retardada - eu sei - mas a alegria é grande demais, meu Deus! Ele falou comigo, me encarou, sorriu pra mim! Definitivamente eu amo aquele cara! Amo cada parte dele. E a voz? Aquela voz tão profunda que chego a senti-la roçar meu coração!
Faço um desvio rápido até a padaria e, chegando na minha rua vejo, ainda de longe, um grande tumulto. Tendo eu horror a bagunça e algazarra, atravesso rapidamente a rua e vou em direção ao meu prédio. Quando estou com a mão prestes a abrir o portão, ouço o porteiro gritar meu nome; ele encontra-se a frente das pessoas e acena para mim com os braços erguidos.
- Dona Melissa! Dona Melissa, ajuda aqui!
Assusto-me com o desespero daquele Senhor e atravesso a rua com certo pavor.
- O que foi, Seu Célio?
- Dona Melissa, ajude essa moça que...
Nesse momento não ouvi mais nada. F estava estirada no chão, sendo sua cabeça apoiada pelo braço forte de um homem. Dante virou-se e seus olhos brilhantes encontraram os meus; a surpresa foi recíproca.
- O que houve? - pergunto sussurrando, ainda sentindo a adrenalina do espanto.
- Ela apagou. Não consigo fazê-la acordar. - responde Dante, firme.
- Porque não a levou pra dentro?
Terminada a frase, meu coração deu uma batida forte demais. O ar faltou-me, o céu escureceu e tive a sensação de que sucumbiria naquela calçada.
Como raios eu saberia que ele morava naquela casa, se nós não nos conhecíamos? Eles poderiam ser apenas um casal que estava passando, certo?
Meu vizinho olhou-me desconfiado.
- Como?
- Quero dizer... - com rapidez, observo que as sacolas de compras estão espalhadas no caminho do portão. A chave também estava na fechadura - essas sacolas são suas?
Aponto para as sacolas e meu gesto é seguido por seus olhos. Dante não me responde, apenas afirma movendo a cabeça.
Nesse momento, F abre os olhos lentamente e sua voz soa dolorosamente fraca.
- Meu bebê...
***
Eu tentava não reparar em nada, mas era totalmente impossível. Imaginava a vida que levavam; que suco tomavam no café da manhã, se Dante gostava de ler o jornal na mesa, se eles tomavam banho juntos após o sexo e se transavam novamente debaixo do chuveiro. Imaginei os dois em um belo restaurante comemorando a gravidez de F. Dante sorria ainda mais e beijava sua mulher com paixão. Senti raiva e inveja daquela cena fantasiosa e me machuquei com a força que fechei as mãos. Senti ódio dele pela primeira vez.
Pus o copo de água sobre a bancada e uma foto do casal na geladeira chamou minha atenção. Eles estavam sérios, com cara de propaganda de roupa. Seu vestido de noiva era delicado e sexy, assim como F. Dante vestia um terno cinza que combinava perfeitamente com seus cabelos, barba e olhos. Passei o dedo sobre o homem que tirava meu sono todas as noites e por um impulso muito forte, puxei a foto do imã de melancia (que mal gosto do inferno) e coloquei debaixo do moletom.
- Obrigado.
Viro-me ofegante, receando o flagra, porém, Dante não percebera o furto. Coloco as mãos no bolso e o encaro.
- Não foi nada.
Dante se aproxima e coloca sua mão no meu ombro. Mesmo com uma blusa grossa entre nossa pele, pude sentir um calor vindo do peso de sua mão. Arrepiei cada pelo do meu corpo e lutei bravamente para não fechar os olhos de prazer. Meu coração batia forte e com a mesma ansiedade de uma prova difícil. Estávamos muito perto. Sua estrutura saltava pela camiseta preta e um perfume inebriante percorria meu sistema respiratório. Eu ia desmaiar a qualquer momento se continuasse ali. Antes que eu pudesse agir, ele tirou seu contato e caminhou até a sala, sentando-se no sofá. Meu corpo continuava elétrico, então, o segui.
- Foi muito! Me ajudou a trazer as sacolas, acalmou a Carla enquanto eu fui a farmácia. Isso foi muito, acredite.
Saber o nome de F não me afetava em nada. Para mim, ela continuava sendo tão insignificante quanto a letra aleatória de um alfabeto. A chamava de F, mas poderia ser X, L, não me importava.
Dante era uma pessoa serena, equilibrada. Sua voz era firme e mansa. Parecia um convite à luxúria. Ele poderia falar qualquer coisa que soaria sexy. Do preço da banana à uma briga de bar. Aquela proximidade tirava meu equilíbrio e concentração. Eu não me reconhecia perto daquele homem. Respirei fundo e busquei minha sanidade.
- Ela está bem. É normal quedas de pressão no início da gestação. 12 por 8 é muito bom. De qualquer forma, eu recomendaria levá-la ao médico.
- Mas você não é médica? O porteiro do seu prédio falou como se fosse.
Acho graça da pergunta pois pareceu realmente que ele pensara isso.
- Não, sou estudante ainda.
- É verdade. Você é muito jovem. Quantos anos tem? 20? 21?
Engulo seco.
-17.
Dante pareceu se assustar mais com a minha resposta do que eu com sua pergunta. Seus olhos brilhantes saltaram e seu peito encheu-se de ar. Eu não sabia o que pensar com todas essas reações, no entanto, sem dúvida alguma ele estava surpreso e frustrado.
- Na verdade, vou fazer 18 semana que vem. - falo sem pensar, como se precisasse justificar.
- Eu sabia que te conhecia. - diz sério.
Devo ter expressado minha surpresa com aquela afirmação repentina, pois ele logo continuou:
- No mercado... agora a pouco - gesticula - e eu vi quando você estava entrando no prédio da frente.
- Ah... sim...
- Você mora aqui há muito tempo? Devo ter te visto alguma vez aqui pelo bairro.
- Não. Alguns meses só . - digo rápido demais. Percebo que estou tremendo. - Eu preciso ir. - sussurro.
- Você não parece tão nova.
Isso é uma explicação para seus pensamentos e desejos? Já disse que sou uma garota reservada. Isso me dá tempo para observar as pessoas.
Dante ainda me encarara com os olhos surpresos e sorriu com leve desgosto. Desgosto? Será que estou vendo isso mesmo?
- Sempre dizem isso...
Sua maneira de sentar era tão convidativa que não percebi o quanto meu desejo estava explícito. Ele me encarava com a mesma intensidade que eu a ele. Naquele momento havia um feitiço que nos impedia de desviar nossos olhos; muitas coisas sendo ditas sem um som se quer sair de nossas bocas. De fato, eu havia perdido o juízo, e só dei por mim quando ouvi F - ou Carla, não importa - chamando Dante pelo seu nome: seu verdadeiro nome.
- Roger? Você está ai?
- Meu Deus, eu preciso ir!
Pego minha mochila e as sacolas no chão e vou até a porta um pouco atordoada com a revelação. Ele não tem nada de Roger! Pelo amor de Deus! Olha praquele cara! Ele é quase uma divindade de tão perfeito pra ter um nome desses.
Ainda estou pensando no assunto quando sinto uma mão pesada segurando meu braço, fazendo-me virar.
- Mais uma vez, obrigada.
- Roger?
Roger, não! Pare de chamá-lo assim, porra!
- Estou indo! - gritou nervoso.
- Eu realmente preciso ir. - digo ofegante. Meu coração parecia saltar do peito mais uma vez e eu não sabia como reagir com tanto desejo sufocado.
- Tudo bem.
Antes de me soltar, Dante se aproximou e pude deslumbrar de seu rosto por magníficos segundos. Ele cheirava bem, tinha a pele bonita, lábios apetitosos e estes estavam prestes a encostar nos meus. Senti rapidamente o ar quente saindo de sua boca e no momento seguinte, desviou o rosto, beijando-me a face. Lábios macios e molhados marcavam minha pele, um desejo cruel me esmagava e o ar saiu arrastado.
Dante me olhou mais uma vez e sorriu vagaroso. Vendo F atrás de Dante com a mão no ventre foi o impulso que precisava para sair daquele lugar.
***
- Nem acredito que hoje você jantará em casa! Fiz aquele frango que você adora, minha filha!
- Obrigada, mãe, mas quem queria uma filha médica era você.
- De fato, esses plantões são péssimos para a união da família. O Thiago não vem?
- Não, hoje quem está de plantão é ele.
- Sol e lua... Um casamento assim só dará certo com base nos ensinamentos de Deus, viu?
- Mamãe! Por favor! Casamento? Que horror!
- Eu só quis dizer que... deixa pra lá. Vai tomar um banho enquanto eu termino tudo aqui. Vamos aproveitar e comemorar um ano que o Junior está na Construtora! Ele já está chegando.
O banho, definitivamente, é uma das melhores invenções da vida. Estirada na cama, me sentindo quase morta depois de 48 horas no hospital, desisto de tentar estabelecer alguma coerência com meus pensamentos. Não é fácil ter que estudar para as provas e ainda fazer os plantões da residência. O pronto socorro, muitas vezes é assustador, mas na maior parte do tempo é o que me faz sentir viva e cheia de energia.
O jantar estava maravilhoso. Meu irmão está feliz com seu progresso na empresa e mamãe radiante com meu namoro com o Thiago. Sobre ele, prefiro não entrar em detalhes, apenas que, surpreendentemente ele é uma boa companhia.
Mal acredito que terei 48 horas de folga e só penso em dormir até o meio dia de amanhã. Com o quarto escuro, abro a gaveta do criado mudo e pego a foto de Dante. Beijo seu rosto sério, estabelecendo o ritual de quase um ano.
Jogo o edredom sobre meu corpo e me pergunto se meu vizinho ainda estará vivo, pois nunca mais o vi. Acredito que seja Deus agindo na preservação de uma família feliz.
O sono chega de mansinho, Dante começa a aparecer nos meus sonhos como de costume, contudo, um barulho forte me desperta. Fico um pouco confusa sem saber se ainda estou sonhando ou se o barulho veio de onde me lembrara. Aquele portão enferrujado não seria esquecido tão facilmente. Meio cambaleando, corro até a janela e então os vejo. Enquanto Dante fecha o portão pesado, F sai do carro com um bebê muito embrulhadinho em cobertores e se encaminha para dentro da casa. Aprecio meu amado sentindo os olhos marejados. Uma saudade dolorosa apertou meu coração com crueldade e a vontade de tocá-lo percorreu cada centímetro do meu corpo.
Antes de entrar na casa, Dante olha para o prédio a sua frente; o meu prédio. Fico paralisada sem saber se me escondo ou fecho as cortinas e vou dormir. Definitivamente, eu deveria ter saído de seu campo de visão de imediato, no entanto, esse pensamento correu tão rápido que quase nem existiu, pois quando dei por mim, eu me aproximava do parapeito, deixando a luz da rua me tomar por completo. Dante colocou as mãos no bolso do casaco e focalizou em mim. Ele estava exatamente como da última vez que o vi. Nossos olhos se encararam fazendo meu peito doer com o vigor que meu coração batia. Apertei com força a manta sobre mim e ficamos assim por longos segundos. Minha mente estava calma e serena com a tranquilidade de sua presença. Mais uma vez, palavras sendo ditas sem que as mesmas fossem usadas. Antes de se recolher, Dante me deixou o mesmo sorriso lento que deixara a quase um ano atrás, fazendo meu coração transbordar de felicidade. Nesse momento, tive a certeza que ele sempre soube.
***FIM***
PARTE 2 - POV Dante
Breve.
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