capítulo 4 ✓

Victória Oliveira

Quando chegamos em casa, Mônica foi diretamente para o seu quarto, ela veio o caminho todo calada, assim como eu e sei que essa notícia de ter que voltar para o Brasil trouxe preocupações a ela também. Alegou estar com dor de cabeça e eu a entendo, assim como ela estou apavorada só de pensar na possibilidade de estar de voltar no Brasil. Mas qual seria a chance de ser transferida para Goiânia? Principalmente para minha cidade natal? Com certeza seremos transferidas para São Paulo ou até o Rio de Janeiro que são as maiores cidades do país.

— Se acalma Victória, não tem por que ficar nervosa. — falei a mim mesma.

Para distrair minha mente, fui fazer algo que sempre faço quando estou nervosa. Faxina. Mas pelo que parece, não foi só eu que teve a ideia, já que a Mônica apareceu na sala com roupas simples e com um lenço na cabeça.

— Acho que precisamos de uma faxina! — falou e eu concordei.

Caminhamos para a cozinha calada, abrir a porta da área de serviço e pegamos tudo que iríamos precisar. Voltamos para a sala e deixamos as coisas no chão. Olhamos uma para outra e suspiramos.

— Vamos lá, no 3. — falou e colocou a mão para trás e fiz o mesmo, essa era a parte mais importante da faxina.

Par. — falei primeiro que ela.

Mônica cerrou os olhos e balançou a cabeça, seu olhar já mostrava que ela não havia gostado nada daquilo. Contamos a até 3 e como sempre eu ganhei, onde fiz uma dancinha para comemorar.

— Você rouba muito Vicky. — falou brava.

Sorrir do seu jeito e olhei em volta, pensando em por onde eu iria começar.

Sempre fizemos isso, Mônica gosta mais de limpar a sala, a cozinha e os banheiros e eu também, então para não ter brigas fazemos essa divisão. Se eu ganhar fico com essas partes e ela como perdeu vai limpar os quartos e a lavanderia. Agradeço por não ter roupa para lavar, fui esperta e lavei ontem.

Depois de brigar um pouco, já que ela sempre fica brava por perder, Mônica segue seu caminho para os quartos. Já eu vou para o banheiro de visita. A faxina vai começa por ele.

Quase 2 horas depois já limpamos tudo, ainda é cedo, mas como a Emanuelle vai para a casa do senhor Luiz e da dona Madalena, Mônica e eu decidimos almoçar na Jurema. Um restaurante no final da nossa rua, onde servem a melhor comida da cidade. Claro, ela também é brasileira, então já imaginam porque é o nosso restaurante preferido. Dona Jurema faz uma comida que deixa muito restaurante chique no chinelo.

— Já pensou no que vai acontecer se formos para o Brasil? — perguntou a Mônica quando saímos do nosso prédio.

Desde que chegamos do hospital é a primeira vez que ela toca no assunto.

— Estou tentando não pensar, Manu com certeza vai querer ver o pai. Isso para mim já é claro, afinal ela já passou 9 anos sem conhecê-lo pessoalmente e logo apenas uma fotografia, não vai mais adiantar. — falei a ela.

— Tem razão. Eu não quero ir, mas também não quero ficar longe de vocês, caso decida ir. — falou e eu segurei na sua mão, onde sem falar nada, ela entendeu o que eu queria passar a ela.

Força, confiança e um juramento de que não vamos nos separar.

Um casal passou por nós e nos olhou torto, por estarmos com as mãos dadas. Mônica, assim como eu, revirou os olhos. Eles me lembram até um vizinho nosso.

Assim que nos mudamos para o nosso prédio, o nosso vizinho pensou que éramos um casal. Já que ambas são solteiras e sempre estamos juntas. E o mais importante e insignificante para mim, ele nunca nos viu com homens.

Acho ridículo uma pessoa deduzir algo de outra sem nunca tê-la conhecido ou falado com ela. Mas, infelizmente é o que a maioria faz, julga pela aparência ou pelo que parece ser. Na faculdade fui muito julgada por estar grávida e solteira, o que me deixa com raiva, é que mesmo em pleno século XXI a mulher é crucificada por não ser o que a sociedade quer que ela seja ou faça.

Mônica é minha melhor amiga, minha irmã. Ela me ajudou desde o começo que cheguei aqui. Por anos, ela foi a única a me dar apoio, não vou deixar. Me afastar dela não é uma opção, então doa a quem doer, estaremos juntas sempre.

Mônica me tira dos meus devaneios, quando, ainda de mãos dadas, joga minha mão para frente e para trás.

— Faremos o seguinte, conversamos com a Manu e só depois decidimos se iremos ou não. — falou e eu concordei.

Seguimos para o restaurante e logo Jurema veio nos servir. Como sempre com seu avental e sua touca na cabeça e um grande sorriso no rosto. Ela é sempre gentil, e assim que nos conhecemos nos demos bem logo de cara.

— Pensei que estariam no hospital uma hora dessas. Hoje é dia de feijoada, já até separei a de vocês para o Ronan entregar mais tarde. — falou e a Mônica já pegou em sua mão e beijou.

— Jurema, você é um anjo. Estamos liberadas essa semana, mas pode trazer o que separou que comeremos aqui mesmo. — falou e ela concordou saindo em seguida.

— Ainda bem que teve a ideia de pedi para ela separar o nosso em dia de feijoada. — falei a Mônica.

— Claro. Sempre que a gente vinha já tinha acabado tudo. Precisava ser esperta loira. — falou sorrindo e eu sorri do seu jeito doido.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem para a minha filha, não contei que não estou no hospital, quero falar apenas quando ela chegar em casa. Meu celular logo vibra, é uma mensagem dela. Contando que acabou de chegar na casa dos avós e que vai comer lasanha.

Nego com a cabeça e digito uma última mensagem a ela antes de comer.

— Dona Madalena fez lasanha para o almoço. — falei a Mônica.

— Não é novidade, já que a baixinha deles vai passar a tarde lá. Dona Madalena gosta de mimar nossa menina. — falou sorrindo e eu concordei.

Nossa menina é usada por mim e pela Mônica desde que ela nasceu. Ela sempre será nossa, sei que se um dia eu chegar a faltar, minha filha vai ter uma pessoa maravilhosa cuidando dela. Assim como eu tive quando meus pais faleceram.

Nosso almoço foi repleto de brincadeiras. Dona Jurema logo se juntou a nós e começou a contar as confusões que rolou no restaurante no final de semana. E só fomos para casa, quando já estava fechando. Aproveitamos e ajudamos ela e o filho, Ronan, a limpar tudo.

— Obrigada minhas filhas. Deus abençoe. — ela agradeceu antes de irmos embora.

Faltava pouco mais de uma hora para a Manu chegar, então fomos para o mercadinho em frente o restaurante e compramos algumas coisas.

Assim que chegamos em casa, logo a Manu chegou com senhor Luiz e dona Madalena. Eles ficaram um pouco e logo foram embora.

Pedi que minha filha fosse tomar banho e que voltasse em seguida. Precisava conversar com ela de agora que a mesma está aqui, não vou adiar para mais tarde.

— O que acha que ela vai dizer? — perguntei a Mônica nervosa.

— Não sei Vicky, vamos esperar a chegar e vê. Fica calma! — falou e eu concordei.

Demorou alguns minutos, e quando finalmente minha filha voltou ela já estava com seu pijama de urso. Presente da Mônica a ela.

— Deve estar cansada né baixinha, ainda é cedo e já está de pijama. — falou Mônica tentando amenizar o clima tenso.

— Madrinha, hoje é o dia do filme. Esqueceu? — falou colocando a mão na cintura.

Ah é, o dia do filme. Mônica e Manu tem o dia do filme, toda segunda. É o dia que eu costumava fazer plantões quando trabalhava no meu antigo emprego, então elas fizeram essa programação para as segundas. O que me deixa feliz, já que acaba entretendo ela um pouco.

— Verdade baixinha. E o que vamos vê hoje? — perguntou a Mônica a ela.

Olhei para ela e a mesma sorriu, foi aí que entende. Mônica estava me dando tempo para que eu me acalmasse. Ela sabe que a possibilidade de voltar ao Brasil mexe comigo. Assim como mexe com ela também, foi lá que a Mônica viveu os piores anos da vida dela, então se para mim é difícil, para ela é mil vezes mais.

— Não sei, na hora a gente decide dinda. — falou se sentando.

Sem ter mais para onde correr, respiro fundo antes de começar a falar.

— Filha, temos uma coisa importante para falar com você e sua opinião é importante para nós duas. — comecei. Minha filha me olha como se não entendesse nada.

— Gatinha, é o seguinte. — Mônica tomou a frente, quando viu que não conseguir prosseguir. — Recebemos uma proposta para ir para o Brasil e quere.... — antes que ela pudesse terminar de falar, Mônica foi interrompida por um grito da Emanuelle, nos assustando.

— Eu vou conhecer o meu pai, mãe? Obrigada mãe, eu queria te pedi, mas não sabia como falar a você. Vou contar para o vovô e para vovó. — falou ainda gritando e pulando de alegria e correu para o quarto.

— É. Parece que a animação dela, já responde nossa pergunta. — falou a Mônica olhando para minha filha, que corria para seu quarto.

— Pois é! — falei, ainda estática.

As horas se passaram e a Manu não voltou para a sala. Até mesmo esqueceu completamente do dia do filme. Mônica assim que viu que ela não voltaria tão cedo, foi para o seu quarto e eu, bom, eu fiquei ainda sentada na sala, processando tudo o que tinha acontecido.

A noite chegou e eu ainda estava no mesmo lugar. Da sala dava para ouvir os gritos animados da minha filha e isso só me deu mais certeza daquilo que eu já sabia, ela sente falta do Liam. Quer conhecê-lo e não posso negar a ela esse direito. Mesmo tendo medo do que pode ocorrer assim que pisamos os pés no Brasil, preciso fazer isso pela minha filha.

Decidida, levantei e fui diretamente para o quarto da Mônica, do corredor vi que minha filha ainda falava ao celular. Com certeza contando a "novidade" para seus amigos de escola. Acho que ela ainda nem se deu conta que vamos para outro país, e que pode ser que não voltamos mais para cá.

Entrei no quarto da Nicky depois dela me dar permissão para entrar, a mesma estava colocando umas coisas dentro de uma caixa. Assim que viu que era eu, foi para sua cama e se sentou nela.

— Parece que as coisas agora vão mudar. — falei a ela, me sentando na outra ponta da cama.

— Pois é! Vou sentir saudade desse lugar, fomos felizes aqui. —falou e eu concordei.

Até que me dei conta do que ela estava falando e a encarei com os olhos arregalados.

— Você vai? — perguntei surpresa.

— Achou que eu ficaria aqui sem vocês? Por favor! Vocês duas são minha família e vou estar onde vocês estiverem. É claro que só se vocês me quiserem. — falou sorrindo e eu me levantei rapidamente e a abracei.

Tudo pode acontecer a nossa ida ao Brasil, mas sei que terei ela para me ajudar, assim como ela sempre terá a mim para ajudá-la. Afinal, irmãs servem para essas coisas.

Ainda precisava saber dos detalhes da viagem, para onde iríamos e qual hospital iríamos trabalhar. Mas, isso só iremos saber na sexta. Até lá, só precisamos arrumar nossa mudança e confirma nossa ida para o Brasil.

Seja o que Deus quiser.

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