Ração para Gado
Mais um dia como todo os outros, uma correria, um ambiente sem muitas risadas ou piadas internas. O convívio era necessário, muitas roupas brancas, pessoas andando de jaleco com grandes tablets e falando coisas difíceis, semelhante até a um novo idioma. Realmente era um outro mundo. E ninguém sabia ao certo em que ponto tudo mudou. Se foi na União dos Países para instituir um novo bloco econômico onde instituiu várias moedas, o que culminou de pessoas terem o azar de ficarem com notas mais baixas e assim sendo jogadas as partes mais periféricas da região.
Se foi o grupo "Hackers" que vazou
uma série de abusos de pessoas poderosas que mantinham para si segredos frustrantes como manter o trabalho escravo de pessoas de outras etnias, o curso da rota estava indo de mal a pior, e a cada escândalo o mundo sucumbia. O presidente o mentor do Estado, era do mais fraudulento e desumano ser que poderia ocupar tamanho cargo, pessoas o vendo como um deus, por terem perdido completamente a fé em seu próprio Deus. As pessoas não tinham direitos de dizer o que pensavam de verdade. Havia pequenas leis que mascaravam de fato o que realmente eles queriam das pessoas. Mas resumindo. O mundo estava sucumbindo, até que veio uma praga sem precedentes. Uma doença que levou muitas vidas. A "doença da miséria". A chamavam assim porque um fato bem claro era, ela atingia pessoas mais pobres, e essa praga comia até os ossos de quem ela pegava para si. O governo não sabia o que dizer. Os homens próximos a ele começaram a divulgar a ideia de que era contagioso e que evitasse o contato com o público mais carente, pois se assim o fizessem, a raça humana venceria mais uma das pragas que sobraram do antigo Egito.
E nesse ambiente que está Elisa. Uma jovem, que está voltando a si, por incríveis fatores ela não se lembra de nada que aconteceu dentro desse período, parece uma certa amnésia por receio da decisão que tomara. As vezes o peso das nossas escolhas é tão grande que nos fazem perder a noção do que de fato é uma escolha. Ela se levantou de sua cadeira foi até a janela e ficou embasbacada com o tamanho do lugar em que ela estava, ela lembrava apenas do seu fascínio pela lua. Das vezes que observava atentamente com o seu pai. Era realmente a memória mais bonita que ela tinha de si mesma. Quando saiu da sala começou a observar os olhares sem vida dos seus colegas e acrescentado à um cheiro estranho no ambiente e ficou relutante, aonde de fato ela estava?
- Doutora Elisa, precisamos conversar com a senhora - disse uma moça ao fundo, Elisa ficou esperançosa de saber onde ela estava e quem era de fato.
- Sim, onde podemos conversar? - falou com a voz estarrecida.
- Vamos na sala de reuniões, precisamos acertar alguns pontos.
Ao chegar no lugar, ela ficou olhando ao redor e nos rostos das pessoas, para ver se por algum lampejo ela se lembraria de algo. Mas nada, tudo em vão. Ela se via dentro de um ambiente estranho, com pessoas que nitidamente não queriam estar ali, e ela nem sabia o porquê.
- Olá, amigos, tenho a alegria de dizer que os testes estão dando certo, em breve poderemos dizer ao público que temos a cura da "miséria". No começo foi difícil, a lei não nos autoriza mais fazer os testes com animais, e amigos, como foi difícil manipular as coisas nesses anos. O dinheiro não está sendo o suficiente nas negociações que de fato precisamos fechar. Mas doutora Elisa, você merece todo o crédito pela sua grandiosa mente. As pessoas nunca irão julgar o que fez por nós. A senhora salvou a humanidade! - Após um homem gordinho e baixo ter dito isso, vários aplausos preencheram o lugar e Elisa ficou impressionada, se era de fato alguém tão importante por que então ela se esqueceu de tudo?
E voltando à reunião, termos chatos foram usados com muita frequência. Era chato estar ali, ela olhava para o relógio e pensava no quanto ela queria sair correndo daquele lugar e entender porque a energia daquele ambiente era semelhante ao de um matadouro. Lembrava de ter rido e pensado no Matadouro 5, um livro que adorava, que tratava temas delicados com tamanha engenhosidade que ela mesma ficava admirada. "Mas por que raios eu sou uma doutora? Por que consigo lembrar do Matadouro 5 e outros livros que li quando era uma garotinha e não consigo me lembrar do que fiz ontem?" Tantos e tantos pensamentos que pareciam bloquear algo muito ruim que esse título "Doutora" lhe guardava.
Saindo da reunião, ela já estava cansada, e com fome. Foi quando decidiu perguntar onde era a geladeira ou onde poderia comprar uma comida. Porém iria ficar óbvio que ela não estava se lembrando de nada. Ela sentia um aperto forte no peito quando pensava em revelar isso para alguém. De fato, olhando bem a situação, ela não sabia em quem confiar. Apenas em si mesma. Foi quando um jovem bonito se aproximou dela. Era algo, e tinha um cheiro que realmente era diferente daquele ambiente. Sorriso largo e olhos cor de oceano. Ela nem conseguiu ao certo o admirar direito que já foi abatida por um abraço forte e um beijo.
- Elisa, meu amor. Vamos almoçar? Estou com muita fome, e aquela reunião que Débora me disse em que você estava parecia não acabar nunca! - O homem estava sorrindo para Elisa. Ele era gentil. Segurava as mãos da pequena doutora. Que se impressionou por também não se lembrar dele. Mas agora que estava com alguém que de fato ela poderia se abrir. Ela decidiu que no almoço perguntaria as coisas certas e se obtivesse respostas o suficiente poderia voltar a sua rotina normal, ou foi o que ela esperava que acontecesse.
Enfim, Elisa se sentia mais confortável me seu almoço, mas algo ainda estava matutando em sua mente, porque raios ela não se lembrava do grande feito que o senhor gordinho havia mencionado, e por que raios aquele lugar não tinha janela? Parecia que ela estava dentro de um redoma sendo segura pelo seu título, e por um feito que se alguém pedisse detalhes ela passaria vergonha, iriam achar que ela usurpou de alguém, porque por mais que ela tentasse nada fluía, o rapaz falava e falava, o encanto imediato por ele se foi, dando lugar para as dúvidas que estava gritando em sua mente, seus olhos corriam por todo o ambiente, procurando por algo que dissesse a ela o que de fato estava acontecendo, e aquele medo de contar para alguém que ela não se lembrava de nada que era o que mais a incomodava, porque parecia algo dentro dela lhe dizendo que deveria estar atenta o tempo todo, mas ela não estava em um hospital? Ela não era importante ali? Por que então ela tinha que se esconder ou fingir que não precisa de ajuda se de fato ela estava clamando por ajuda? Eram muitas questões não respondidas, muitas, mesmo e mais do que ela conseguia organizar, uma vez leu que quando passamos por situações traumáticas nosso cérebro tem a mania de nos poupar de reviver lembranças que devem estar armazenadas em algum lugar numa espécie de “lixeira neural”. Ela sorriu, o jovem olhou para ela por um momento, e deu uma risada:
- Você está onde, hein, senhorita? Está muito pensativa desde que nos sentamos aqui, só eu estou falando – em tom de brincadeira, mas ela percebeu que ele não estava gostando da situação.
- Me perdoe, a cabeça está uma bagunça, me desculpa de verdade, parece que passou uma tempestade pelos meus pensamentos.
- Tudo bem, eu entendo, o processo que estamos passando é algo que nos deixa meio que me conflito, né? – ela queria mais do que nunca saber que diabos era esse processo.
- Você se lembra do que iremos fazer neste sábado? – Elisa não lembrava nem que dia era o que ela estava, imagina o que ela tinha marcado para sábado.
- Pode me refrescar a mente? E me desculpa novamente por isso, to precisando tomar algum remédio para dor de cabeça.
- Você disse a mesma coisa ontem. Está tudo bem mesmo? – ela se questionou no porquê ele ter falado isso para ela ontem e ter sido repetitivo hoje também, mas ignorou, ela percebia que ele era bem agitado e que se ela questionasse não seria o ideal.
- Esta sim, só é esse processo, meu Deus, as minhas pernas doem, muito mesmo – e ao esticar a perna percebeu marcas de um possível tombo, mas não deu tanta atenção, ela só queria saber que maldito trauma foi esse, e nada de ficar se questionando no processo que aquele rapaz repetitivo tinha comentado, até parecia que o príncipe se tornou um chato.
- Você está numa correria não é mesmo, vou te refrescar a mente, no sábado iremos no nosso jantar de noivado, me perdoe ficar repetindo isso, mas sinto que finge que esqueceu para eu sempre te lembrar, nosso jogo – ele realmente pensava assim, realmente. A euforia dele ao encher a boca para dizer a palavra noivado, Elisa por sua vez repetiu sem tanta animação:
- Nosso jogo, amor – ela era péssima atuando, era mesmo, mas nosso rapaz era “tapado.”
Será que não era ele o motivo do esquecimento, foi quando o sinal tocou e a conversa foi interrompida, ela não sabia para onde ir, mas uma colega pegou sua mão e a levou até uma porta que estava escrito “apenas pessoas permitidas,” e foi ali que ela encontrou outras pessoas mexendo em um computador enorme, como se estivessem fazendo algum cálculo, ela realmente não entendia o porquê de tanto aparelho para ver doenças ou qualquer coisa que eles tratassem ali, ela começou a suspeitar de algumas coisas, mas só observava, com muita atenção, os detalhes eram importantes.
- Nossa, doutora, a mesma expressão de ambiente desconhecido de ontem, aconteceu algo? – se aproximou uma mulher com saltos muito altos para aquele ambiente.
- Muitas coisas estão iguais a ontem, digamos que estou a base de remédios – deu uma risada sem graça.
- Mesma desculpa de ontem, mocinha, mas te entendo – será que ela tinha intimidade para falar assim com ela, foi a primeira coisa que ela se questionou, observando que o rapaz tinha saído de perto dela, agradeceu por isso, mas estremeceu por estar noiva dele, é a vida.
- Doutora Elisa, vamos precisar dar ração para o gado, a senhora quer acompanhar? Não se estou dando a porção correta, a senhora quase me orientou ontem, mas teve um... – quando a jovem estava prestes a dizer algo, a mulher que estava em torno dela fez um gestou de “não seja inconveniente.” Aquilo incomodou Elisa, que decidiu ver o que estava sendo dado para o gado. Quando ela de maneira muito esperta perguntou:
- Mas esse gado que temos aqui é calmo não e mesmo? Sempre tranquilos, admirável, também os tratamos tão bem.
- Sim, as vezes a gente temo desprazer de ouvi-los, mas logo o colocamos para dormir e tudo fica bem, para um bem maior – ela disse olhando para os olhos de Elisa, como ela gostava de estar perto de Elisa.
- A gente não maltrata né, vejo tantos lugares fazendo o mesmo que nós e fazendo com maldade – deu um sinal com os ombros, fingindo um orgulho.
- Eu não sabia que havia outros lugares como a gente, que legal! Mas eu imagino que não seja fácil desaparecer com as identidades do gado.
Elisa olhou com uma cara sem saber o que responder, gado com identidade, que coisa estranha. Ela olhou que as luzes estavam cada vez mais escassa, foi quando começou a escutar:
- Nos ajude, por favor, temos dignidade, esses experimentos nos machucam.
As vozes estavam cada vez mais altas, e Elisa começou a encolher a sua estatura até ficar completamente acuada.
- Quem são?
- Eles são o gado, doutora, a senhora fez a mesma pergunta ontem, está estranha, a senhora pode me ajudar com a medida da ração? – olhou para a Elisa, como se realmente precisasse da sua aceitação.
- Vocês vão me matar quando? Não aguento mais! – foi quando Elisa desviou seu olhar e viu um homem que era a expressão mais pesada de miséria que tinha visto em toda a sua vida, o homem estava muito magro e toda a composição de ossos estava amostra, era de doer os sentidos estar ali, e quando olhou ao seu redor. Todos, isso mesmo. Todos compartilhavam da mesma miséria.
Um misto de sentimentos veio. Como governo admitia isso? Como as pessoas que estavam na rua não sentiam falta? E no que essas cobaias poderiam ajudar? parecia que na verdade eles estavam matando essas pessoas aos poucos com a singela aprovação moral de que havia uma razão, mas mentiam para si, pois a razão não era de achar cura alguma, era de simplesmente dizimar pessoas miseráveis da terra, o que era assustador demais, e com uma força que ela não podia controlar, desmaiou e bom.
Nesse ambiente que está Elisa. Uma jovem, que está voltando a si, por incríveis fatores ela não se lembra de nada que aconteceu dentro desse período, parece uma certa amnésia por receio da decisão que tomara.
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