Capítulo 48 | Isca

O esconderijo onde Cora e Jason haviam se refugiado era simples, mas funcional. As paredes úmidas e o cheiro de madeira velha criavam um ambiente opressivo, mas era o único lugar onde poderiam planejar sem serem encontrados — pelo menos por enquanto. 

Um prédio abandonado em Eastbourne.

Jason estava sentado em uma poltrona desgastada, os olhos fixos em Cora enquanto ela andava de um lado para o outro, o rosto marcado por uma expressão sombria. Seus movimentos eram rápidos, determinados, mas havia algo a mais. Uma frieza que parecia consumir a sala. 

— Não podemos continuar fugindo.– Jason murmurou, quebrando o silêncio.— Eles vão nos encontrar. É questão de tempo. 

Cora parou abruptamente, virando-se para ele com os olhos faiscando. 

— É por isso que precisamos ser mais espertos.– ela retrucou.— Harry pode ter escapado até agora, mas ele tem uma fraqueza que sempre ignorou. 

Jason arqueou uma sobrancelha, intrigado. 

— Louis? 

— Não.– Cora sorriu, mas não era um sorriso de alegria, era afiado, cruel.— Anne. 

Jason franziu o cenho, inclinando-se para a frente. 

— Anne? O que ela tem a ver com isso? 

Cora cruzou os braços, inclinando a cabeça levemente, como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança. 

— Anne é o coração de tudo.– ela começou.— Sem ela, Harry nunca teria se tornado quem é. Foi ela quem o manteve forte, quem o guiou. Se a arrancarmos da equação, todo o castelo desmorona. 

Jason observou-a por um momento, seus olhos escurecendo. Ele já estava um pouco cansado de toda aquela vingança, quase havia sido morto no último confronto.

— E o que exatamente você tem em mente? 

Cora sorriu de forma quase diabólica, aproximando-se dele. 

— Uma armadilha.– ela disse, com uma voz baixa e perigosa.— Vamos usá-la como isca. Harry virá correndo para salvá-la, e então... 

Ela não precisou terminar a frase. Jason entendeu exatamente o que ela queria dizer. 

— Isso é arriscado.– ele murmurou.— Anne não é uma idiota, e Harry vai estar preparado. 

— É arriscado.– Cora concordou, com uma chama de determinação nos olhos.— Mas é a nossa melhor chance. 

Jason se levantou, passando a mão pelo cabelo enquanto olhava para o chão. 

— Você está disposta a arriscar tudo, por isso? 

Cora deu um passo à frente, pegando o queixo de Jason com uma das mãos e forçando-o a olhar para ela. 

— Eu já perdi tudo.– ela disse, sua voz carregada de ódio e dor.— Agora, só quero vê-los pagar. 

Jason segurou a mão dela, mas seu toque foi mais suave. 

Jason não sabia exatamente quando havia começado a se perder nos olhos de Cora. Talvez fosse na noite em que a viu, pela primeira vez, atirando sem hesitar em um dos capangas de Harry, o rosto frio e determinado.

Ou talvez tivesse sido na noite em que ela contou, com lágrimas falsas escorrendo por seu rosto, sobre como sua vida foi tirada de suas mãos por um pai que nunca a quis e um irmão que roubou tudo o que deveria ser dela.

Ele se lembrava bem daquela noite.

Veneza, Itália
Algum tempo antes

O esconderijo estava mais silencioso do que de costume, os outros homens já dormiam ou estavam fora em alguma missão. Cora, no entanto, parecia alheia ao mundo. Sentada em uma cadeira de madeira velha, ela fitava um copo de uísque com uma intensidade que fazia parecer que poderia derretê-lo.

— Você nunca relaxa?– Jason havia perguntado, se aproximando com um sorriso leve.

Ela ergueu os olhos lentamente, como se tivesse sido tirada de um transe.

— Relaxar é para quem não tem contas a acertar.– respondeu, seca.

Jason não esperava menos. Cora era uma força da natureza, algo que ele havia aprendido logo nas primeiras semanas ao seu lado.

Mas naquela noite, havia algo diferente. Algo quebrado.

— Quer falar sobre isso?– ele perguntou, com mais suavidade.

Ela hesitou por um momento, mas então começou a falar. Sobre Desmond. Sobre Harry. Sobre o abandono, a rejeição, e a constante sensação de que nunca seria suficiente. Jason ouviu tudo com atenção, seu coração apertando cada vez mais.

— Eles tiraram tudo de mim.– ela concluiu, sua voz baixa, quase um sussurro.— E eu vou fazer eles pagarem por isso.

Jason não sabia o que dizer. Ele apenas colocou uma mão sobre a dela, um gesto que era mais de apoio do que de intimidade. Mas Cora, em um movimento rápido e inesperado, se inclinou para frente e o beijou.

O beijo era quente, cheio de urgência e uma raiva que parecia transbordar. Jason ficou surpreso, mas não recuou. Ele cedeu, porque naquele momento, era tudo o que ele queria.

Aquela noite foi a primeira vez que dormiram juntos.

Jason acordou horas depois com Cora ainda em seus braços, seus cabelos ruivos espalhados sobre o travesseiro improvisado. Ele a observou por longos minutos, sentindo algo que ele não sentia há muito tempo, paz.

Mas para Cora, aquilo não significava nada além de estratégia.

Cada toque, cada palavra sussurrada no escuro, era meticulosamente planejado. Ela sabia que Jason faria qualquer coisa por ela, exatamente como Lorenzo havia feito antes dele.

E de fato, Jason estava completamente enfeitiçado. Ele começou a ignorar suas próprias ambições, seus próprios planos, para focar apenas nos dela.

Se Cora pedisse para ele entrar em uma sala cheia de inimigos com uma bomba presa ao peito, ele o faria sem questionar.

— Você é tudo para mim.– ele disse uma vez, enquanto ela acariciava distraidamente seu rosto.

— E você é leal.– ela respondeu, com um pequeno sorriso que ele interpretou como carinho, mas que era apenas mais uma de suas máscaras.

Cora sabia exatamente o que estava fazendo.

Jason era apenas uma peça no tabuleiro, um instrumento para alcançar sua vingança. E, como Lorenzo antes dele, Jason seria descartado quando não fosse mais útil.

Mas, por enquanto, ela deixava que ele a adorasse. Porque sabia que o amor dele, por mais ingênuo e desesperado que fosse, ainda tinha sua utilidade.

Eastbourne, Inglaterra
Tempos atuais

— Você fala como se fosse só vingança.– ele disse, num tom quase magoado.— Mas e nós? 

Cora soltou uma risada curta, amarga, soltando-se dele. 

— Nós? Jason, você acha que isso é um conto de fadas? Que vamos fugir para algum lugar paradisíaco depois de tudo isso? 

Jason ficou em silêncio, mas o brilho em seus olhos deixou claro que ele havia pensado exatamente nisso. 

— Eu amo você, Cora.– ele finalmente disse, sua voz carregada de emoção. 

Ela congelou por um momento, encarando-o como se ele tivesse acabado de dizer algo absurdo. Então, riu. 

— Não seja patético.– ela respondeu, com frieza.— O amor não tem lugar aqui. Só a vingança. 

Jason desviou o olhar, o maxilar trincado, mas não disse mais nada. Ele sabia que, mesmo que Cora o rejeitasse, continuaria ao lado dela. 

— E como pretende atrair Anne?– ele perguntou, mudando o foco. 

— Anne não vai precisar ser atraída.– Cora explicou, voltando ao plano.— Vamos atacar o casarão novamente, mas desta vez com mais estratégia. Um pequeno grupo vai invadir e sequestrar Anne enquanto o resto cria distrações do lado de fora. 

Jason assentiu lentamente, absorvendo cada palavra. 

— E Harry? 

Cora sorriu. 

— Ele vai vir. Sempre vem. E, quando vier, será o fim dele. 

A sala mergulhou em silêncio novamente, mas dessa vez estava carregada com a promessa de sangue e destruição.

Londres, Inglaterra
Tempos atuais

Louis estava sentado no sofá da sala principal, acariciando a barriga levemente arredondada enquanto observava Harry andar de um lado para o outro, tenso.

Anne e Zayn estavam na cozinha, tentando evitar o pior, mas o clima no casarão era de tensão palpável. Desde o resgate, Harry não havia relaxado por um segundo.

— Você precisa parar, Harry.– Louis disse, a voz suave, mas firme. Ele sabia que as palavras poderiam ser ignoradas, mas não conseguia ficar calado.

Harry parou e olhou para o marido, o cenho franzido.

— Parar? Louis, eles invadiram nossa casa. Tentaram tirar você de mim. Se eu parar, eles vencem.

Louis suspirou. Sabia que Harry tinha razão, mas a intensidade do marido o preocupava. Aproximou-se devagar, segurando a mão de Harry.

— Eu não estou pedindo para você parar de proteger a nossa família.– disse, olhando direto nos olhos do cacheado.— Estou pedindo para você lembrar que não está sozinho.

Harry tentou responder, mas as palavras ficaram presas na garganta. Louis sempre tinha essa capacidade de desarmá-lo.

— Me deixe ajudar.– Louis insistiu.— Não quero mais ser alguém que você sente que precisa proteger o tempo todo. Eu sou sua esposa, Harry. Se vamos lutar, vamos lutar juntos.

Harry hesitou, o coração apertado ao ver a determinação nos olhos de Louis.

— Você não entende, Louis. Se algo acontecer com você ou com o bebê...

— Nada vai acontecer.– Louis o interrompeu, com firmeza.— Porque eu confio em você. E você precisa confiar em mim também.

Harry respirou fundo, a tensão nos ombros diminuindo levemente.

— Tudo bem.– ele cedeu, finalmente. — Mas você me promete que vai ficar atrás de mim. Sempre?

Louis sorriu de lado.

— Prometo.

[...]

Horas depois, Khalid chegou ao casarão com informações importantes. Ele e Harry conversavam no escritório, revisando as movimentações recentes, quando um dos homens de confiança entrou apressado.

— Senhor Styles, encontramos algo.– disse o homem, estendendo um tablet.

Harry pegou o aparelho e analisou as imagens. Eram fotos tiradas de um prédio na periferia de Eastbourne. No meio delas, um detalhe chamou sua atenção, uma figura conhecida entrando no local.

— Jason.– Harry murmurou, apertando os dentes.

Khalid se aproximou, olhando a imagem.

— E parece que ele não está sozinho.– o amigo apontou para a figura ruiva ao fundo da imagem.

Cora.

— É uma armadilha.– Khalid concluiu, cruzando os braços.

Harry assentiu.

— Claro que é. Mas agora sabemos onde eles estão.– ele disse, a determinação clara em sua voz.

Louis, que estava ao lado da porta ouvindo a conversa, entrou no escritório de prontidão.

— Se vocês sabem onde eles estão, o que estamos esperando?– ele perguntou.

— Louis...– Harry começou, mas Louis levantou a mão, interrompendo-o.

— Eu prometi ficar atrás de você, mas isso não significa que vou ficar parado enquanto você vai enfrentar esses dois sozinho.

Khalid olhou para Harry, um pequeno sorriso surgindo em seu rosto.

— Parece que ela já decidiu, Styles.– comentou, divertido.

Harry continuou incrédulo encarando a esposa.

— Mas você ficou maluca? Não vou levar uma grávida para o meio de um tiroteio! Fique aqui e vá tricotar com Magnólia.

O maior murmurou enquanto procurava sua pistola na gaveta.

— O que você disse?

O menor barrigudinho na porta murmurou com um tom ácido. E reinou-se um silêncio.

[...]

— Você vai ficar aqui no carro, sua teimosa!– Harry exclamou, tentando manter o tom firme enquanto olhava para Louis, que cruzava os braços com uma expressão teimosa.

— Harry, eu não sou de vidro.– Louis retrucou, revirando os olhos.— E francamente, você sabe que eu vou acabar saindo se algo der errado.

Harry massageou as têmporas, já sentindo a dor de cabeça se aproximar.

— Louis...– Harry começou, exasperado.

— Harry.– Louis o interrompeu, imitando seu tom com um sorriso sarcástico.

Harry olhou bem para os olhos de Louis.

— Prometa que não vai sair, Louis. Prometa!

— Prometo.

Assim o cacheado suspirou e voltou a pensar no plano. Era bem simples. Cercar o prédio e cortar qualquer rota de fuga. Khalid lideraria uma equipe pela lateral esquerda, enquanto Harry, e uma segunda equipe se posicionariam pelo lado direito.

Quando chegaram finalmente ao local, o ambiente parecia quieto demais, um silêncio que só fazia a tensão aumentar. Harry virou-se para Louis, segurando suas mãos com força.

— Fique aqui. Estou falando sério, Louis.

— Harry, já ouvi. Não vou sair. — Ele disse, mas o olhar desafiador no rosto entregava outra coisa.

Harry respirou fundo. Ele deu um rápido beijo na testa de Louis e saiu do carro antes de dar o sinal para Khalid.

Lá dentro, o tiroteio começou quase instantaneamente. E em meio ao caos, Harry podia jurar que tinha visto a ruiva correr para um dos quartos e desembestou atrás.

Ele estava completamente certo.

— Acabou, Cora.

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