Capítulo 45 | Irmã
Londres, Inglaterra
4 horas após o sequestro
Anne Styles não gostava de ser chamada ao escritório. Aquela sala carregava os ecos do passado, segredos guardados nas paredes e lembranças difíceis enterradas em cada móvel. Quando um dos homens de Harry apareceu, avisando que ele queria vê-la imediatamente, Anne sabia que a conversa seria séria.
Ao abrir a porta, encontrou o filho de pé, de costas para ela, com os ombros tensos e uma arma na mão.
— Harry?– Anne perguntou, hesitante.— Você encontrou Louis?
Harry não respondeu. Virou-se lentamente, os olhos verdes faiscando de raiva e confusão.
— Você quer me explicar uma coisa, mãe?
Anne franziu a testa ao perceber o tom. Ele não estava apenas irritado, estava magoado. Mas quando seus olhos pousaram na arma, ela ergueu as sobrancelhas, incrédula.
— Oh, céus, Harry, isso é sério? Uma arma? Você acha que vai conseguir respostas da sua mãe com isso?– ela colocou as mãos na cintura.— Você parece um bebê de fraldas imitando o papai.
Harry cerrou os dentes, mas Anne continuou.
— O que foi?– ela zombou, gesticulando teatralmente enquanto caminhava até o sofá e se sentava.— Meu Deus, Desmond deve estar rolando no túmulo vendo você com essa pose dramática.
— Não teste minha paciência, mãe.– Harry rosnou, mas Anne deu de ombros.
— Harry, por favor. Você pode ser um chefe da máfia assustador, mas ainda é meu filho. E com essa arma, só parece que está tentando brincar de ser adulto.
Ele suspirou, fechando os olhos por um momento.
— Não estou brincando, mãe.– a voz dele saiu baixa, mas carregada de tensão.
Anne suspirou e se sentou no sofá, percebendo que havia cruzado uma linha.
— Está bem.– ela disse, erguendo as mãos em rendição.— O que está acontecendo?
— Um dos meus homens disse que você está trabalhando com Jason.
Anne piscou, confusa.
— Jason? Trabalhando com ele? Você perdeu o juízo?
— "Senhora Styles", foi isso que ele disse.– Harry apontou.— Que "Senhora Styles" é parceira de Jason. E você é a única Senhora Styles que eu conheço.
Anne ficou em silêncio por um momento, então soltou uma risada curta, incrédula.
— Harry, pelo amor de Deus. Você realmente acha que eu teria alguma coisa a ver com Jason?
Ele não respondeu, apenas a encarou com um olhar desconfiado. Anne suspirou pesadamente e passou a mão pelo rosto. Ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que contar a verdade.
Levantou-se e foi até o cofre embutido na parede, girando a combinação com mãos trêmulas.
— Está bem. Se você quer respostas, eu vou te dar respostas.
Anne permaneceu em silêncio por alguns segundos, os olhos fixos no livro como se estivesse se preparando para abrir uma ferida antiga demais.
Com dedos trêmulos, ela virou as páginas envelhecidas até encontrar a que procurava, retirando uma fotografia amarelada pelo tempo. Seu olhar era de uma dor resignada enquanto colocava a foto sobre a mesa.
— Essa é Cora.
Harry pegou a imagem com cuidado, como se ela pudesse desintegrar em suas mãos. Era de uma garotinha ruiva, com cachos desordenados e olhos que brilhavam como esmeraldas sob a luz. O sorriso inocente contrastava com a imagem da mulher que agora assombrava suas noites.
Ele soube imediatamente que era Cora, mas vê-la assim tão pequena, tão cheia de vida, foi um choque que ele não esperava.
— Por que... Ele guardou isso?– Harry murmurou, a voz carregada de confusão.
Anne suspirou, o olhar distante como se estivesse vendo o passado se desdobrar diante de si.
— Bem... Eu soube dessa foto a pouco tempo, e antes que me pergunte o porque seu pai tem isso... Bem, foi antes de tudo mudar.
— Antes do quê?– Harry questionou, sentindo a tensão aumentar em seu peito.
Anne respirou fundo, a dor evidente enquanto lutava contra as lágrimas que começavam a se acumular.
— Antes de seu pai destruí-la.
O impacto daquelas palavras fez Harry congelar. Ele fixou o olhar na mãe, esperando que ela continuasse, mas ao mesmo tempo temendo o que viria a seguir.
— Ela é sua irmã, Harry.
Por um momento, o mundo parou. O peso daquelas palavras caiu sobre ele como um golpe brutal. Ele olhou de volta para a foto, como se tentasse encontrar algum traço que confirmasse aquela verdade, mas tudo o que encontrou foi uma criança desconhecida, uma sombra de alguém que ele jurou odiar.
— O quê?– ele finalmente conseguiu sussurrar, a voz rouca, quase inaudível.
Anne fechou os olhos, segurando o choro que ameaçava romper. Ela sabia que essa verdade seria difícil de contar, mas o impacto que causava em Harry era ainda pior do que imaginava.
— Antes de se casar comigo, Desmond teve um caso. Foi rápido, mas dessa relação nasceu Cora. Ele nunca quis falar muito sobre isso... Acho que ele sentia vergonha.
Harry balançou a cabeça, tentando processar.
— E ele a abandonou?– ele perguntou, a raiva começando a subir à superfície.
Anne hesitou, limpando uma lágrima que finalmente escorreu.
— Ele soube dela anos depois. Quando finalmente a encontrou, tentou se aproximar, tentou corrigir o erro... Mas ela já estava magoada demais. Cresceu sem ele, Harry. Cresceu ouvindo que ele não a queria. E quando ele finalmente apareceu, foi tarde demais.
Harry olhou para a foto novamente, sentindo um nó apertar sua garganta. Ele pensou nas últimas palavras de Desmond antes de morrer.
"Diga a ela que eu sinto muito."
Agora, aquelas palavras faziam sentido. Mas ao mesmo tempo, só aumentavam sua raiva.
— Ele só complicou tudo, não é?– Harry disse, a voz carregada de frustração.— Ele não tentou de verdade.
Anne assentiu, agora incapaz de segurar as lágrimas.
— Ele não soube como. Desmond era um homem de orgulho, mas também de culpa. Ele falava dela às vezes, sabia? À noite, quando achava que eu já estava dormindo... Ele dizia o quanto queria consertar as coisas, mas nunca encontrou um jeito.
Harry soltou a foto na mesa, a cabeça baixa enquanto uma mistura de raiva e tristeza o dominava.
— E agora ela quer vingança.
Anne segurou o olhar de Harry por um longo momento, tentando medir a reação do filho. Ele estava imóvel, mas ela podia ver a tempestade se formando por trás de seus olhos.
Finalmente, Harry quebrou o silêncio.
— O que eu não entendo...– ele começou, com a voz firme, mas carregada de confusão. — É como Cora forjou sua própria morte e ainda apareceu na minha vida anos depois. Ela me contou que foi mantida prisioneira por anos... Que foi torturada por um homem. Foi tudo mentira?
Anne inclinou a cabeça, ponderando por um instante antes de responder.
— Tortura emocional, talvez. Mas, fisicamente? Harry, isso é típico de Cora. Manipulação sempre foi a arma mais eficaz dela. Ela é inteligente... E cruel.
Harry franziu o cenho, seu tom de voz se tornando mais agudo.
— Então, você está dizendo que não houve homem nenhum? Que ela inventou isso tudo?
Anne deu um suspiro profundo, balançando a cabeça lentamente.
— Não posso afirmar com certeza... Mas, considerando o histórico dela, é provável que tenha mentido. Ela queria se aproximar de você, Harry. Precisava de uma narrativa convincente. E você, com seu coração grande e culpado... Caiu exatamente onde ela queria.
Harry passou uma mão trêmula pelo rosto, tentando processar a revelação.
— Eu... Eu ouvi os tiros! Céus eu chorei a maldita morte dela!
Anne hesitou, seus olhos encararam o filho.
— Seu pai fez isso por você, Harry.
— Por mim?– a incredulidade em sua voz era evidente.
Anne assentiu, desviando o olhar para a fotografia sobre a mesa.
— Você era pequeno na época. Desmond estava desesperado para proteger sua família. Ele sabia que, com o ódio que Cora nutria por ele, ela poderia se voltar contra todos nós... Inclusive você. Ele me disse que forjar a morte dela era a única maneira de garantir que ela não viesse atrás de nós.
Harry ficou em silêncio, os punhos cerrados.
— E o que aconteceu com ela depois?
Anne suspirou, inclinando-se para o lado do cofre e retirando outro envelope.
— Ele a mandou embora. Deu a ela uma fortuna, dinheiro suficiente para recomeçar em qualquer lugar do mundo. Só que... Acho que você já sabe o que aconteceu a partir daí.
Harry soltou um riso amargo.
— Ela não recomeçou. Ela só usou isso para alimentar ainda mais o ódio.
Anne finalmente levantou os olhos, agora brilhando com lágrimas contidas.
— Desmond acreditava que estava protegendo você, Harry. Mas a verdade é que ele só adiou o inevitável.
Harry deu um passo para trás, tentando processar tudo.
— Então, ele sabia. Sabia que um dia isso poderia voltar para nós... E você sabia disso o tempo todo?– ele perguntou, a voz falhando, quase um sussurro.
Anne respirou fundo, desviando o olhar antes de encará-lo novamente, as lágrimas ameaçando voltar.
— Sim. — ela admitiu com dificuldade, sua voz baixa, mas firme. — Mas não sabia como te contar.
Harry deu um passo para trás, soltando um riso seco, nervoso, passando a mão pelos cabelos e depois pelo rosto. Era como se ele estivesse tentando encontrar algo, qualquer coisa, que o ancorasse naquele momento.
— Então, enquanto tudo isso estava acontecendo, enquanto ela se aproximava de mim, enquanto eu a deixei viver... — ele pausou, apertando as têmporas como se estivesse tentando manter o controle. — Você sabia?
Anne assentiu novamente, suas mãos agora unidas em um gesto de culpa e arrependimento.
— Eu tentei proteger você, Harry. Tentei proteger todos nós.
Harry bufou, balançando a cabeça em incredulidade, o peso da revelação caindo sobre ele como uma avalanche. Todo aquele tempo, vivendo sob o mesmo teto que Anne, compartilhando refeições, momentos e silêncios, tudo isso enquanto ela carregava esse segredo.
E agora, pensar que Anne sabia quem Cora era o tempo todo e, permitir que ele mantivesse aquela mulher viva por perto, era demais para processar.
— Proteger?– ele soltou, sua voz aumentando.
— Proteger de quê, exatamente? Da verdade?
Anne estremeceu, mas manteve a postura, mesmo que sua voz agora tremesse.
— Eu sabia que ela estava magoada, que tinha ódio de Desmond, mas nunca pensei que ela fosse chegar a isso... Trabalhar com Jason. Tentando destruir tudo...
Harry interrompeu, sua voz carregada de desespero.
— E está... Está com a minha esposa!
Ele gritou as últimas palavras, finalmente dizendo em voz alta o que sua mente ainda não queria processar. O peso dessa revelação caiu sobre ele como uma avalanche, e o desespero estampado em seu rosto era quase insuportável para Anne.
— Ela não vai parar, Harry.– Anne disse, sua voz mais firme agora, apesar das lágrimas que escorriam.
— Você precisa estar preparado. Cora é perigosa. Ela sempre foi.
Harry encarou a foto mais uma vez, a imagem daquela garotinha inocente agora se transformando em um símbolo do caos que ameaçava sua família. Ele devolveu a fotografia à mesa com um gesto brusco, os dedos tremendo de raiva e determinação.
— Eu vou encontrá-la.– ele finalmente disse, cada palavra saindo pesada, carregada de uma promessa sombria.— E vou acabar com isso.
Anne, em um gesto hesitante, tentou alcançar o ombro do filho, mas ele recuou, os olhos frios e distantes.
— Obrigado pelas respostas, Anne.– ele disse, o tom frio e calculado.— Mas agora, deixe-me fazer o que preciso fazer.
Anne o observou sair do escritório, os passos dele ecoando pela casa como marteladas em seu coração. Ela permaneceu ali, sozinha, olhando para o livro de Desmond e a foto desbotada sobre a mesa.
Finalmente, ela deixou o peso da culpa a dominar, cobrindo o rosto com as mãos enquanto soluços escapavam de sua garganta. O segredo que ela guardara durante todos aqueles anos agora não apenas havia destruído sua relação com o filho, mas também colocara sua família inteira em risco.
Do lado de fora, Harry desceu as escadas como uma tempestade, sua mente já arquitetando os próximos passos. Ele não tinha tempo para emoções agora, não enquanto Louis ainda estava nas mãos de Cora e Jason.
Mas no fundo, em algum lugar enterrado sob a raiva e a frieza, ele sabia que jamais poderia olhar para Anne da mesma forma novamente.
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