Capítulo 42 | Mentiroso

A noite estava silenciosa, mas o coração de Louis pulsava alto o suficiente para preencher todo o quarto.

A segunda carta de Cora estava ali, repousando sobre sua cama como um espectro do passado. Ele não sabia como ela havia chegado ali, mas algo no brilho zombeteiro de seu envelope já o fazia estremecer. 

Louis pegou a carta com seus dedos trêmulos, sentindo o peso invisível das palavras que estavam por vir. Com um suspiro profundo, desdobrou o papel e começou a ler.

Carta de Cora

Sentiu minha falta? 

Imagino que sim, afinal, não é todos os dias que um fantasma do passado aparece para revirar sua vidinha perfeita. Sim, Louis, sou eu Cora, mais uma vez.

E não, você não está lendo uma das cartas de amor que troquei com Harry. Essa é só para você.

Primeiro, parabéns pela gravidez, parece que está indo bem, sua barriga está enorme. Que coisa linda!

Espero que esteja aproveitando bastante, porque essas últimas semanas devem ser muito especiais para você. O papai do bebê tem sido tão presente, hum? Ele é bom em fazer a gente se sentir única, não é? Mas, vamos combinar, ele tem mais de um talento especial.

Ele sabe dividir a atenção como ninguém.

É uma pena que tenha ido atrás dele apenas hoje a noite, teríamos nos visto se tivesse tentado ontem à noite.

Foi tão nostálgico rever Harry depois de tanto tempo. Ele ainda tem aquele jeito charmoso, não tem? Enfim, como eu sou generosa, quis deixar uma lembrancinha para você. Está no bolso do paletó que ele usou ontem.

Talvez ajude você a entender o que eu quero dizer quando falo que Harry nunca mudou realmente. Afinal, ele não é tão leal quanto parece, não é?

Com carinho, 
Cora.

Louis soltou a carta, sentindo o sangue ferver. Cora não o dava sossego. Como uma sombra persistente, ela sabia exatamente onde atacar para desestabilizá-lo, e agora não era diferente.

"Ele não é tão leal quanto parece, não é?" ecoava na mente de Louis como um zumbido irritante.

Ela sempre soube como plantar a dúvida, e, apesar de todos os esforços para não ceder, Louis se viu incapaz de ignorar. O olhar involuntariamente se voltou para o paletó de Harry, jogado displicentemente sobre a cadeira.

Louis hesitou. Era uma decisão difícil.

Confiar em Harry e ignorar a provocação venenosa de Cora ou ceder à tentação de investigar? Ele já havia prometido a si mesmo que não seria aquele tipo de pessoa, mas... E se fosse verdade?

Com passos lentos, mas carregados de tensão, Louis se aproximou da cadeira. Estendeu a mão, e os dedos roçaram o tecido do paletó, ainda impregnado com o perfume que Harry usava.

Um aroma que costumava acalma-lo, mas que naquele momento só servia para aumentar o turbilhão em sua mente.

Ele pegou o paletó, segurando-o como se fosse uma bomba prestes a explodir. Sua mão tremia levemente quando alcançou o bolso interno.

Sentiu algo macio ali dentro, algo que não deveria estar ali. Por um breve instante, considerou parar, deixar aquilo para lá, mas a curiosidade, ou talvez o medo, o venceu.

Quando puxou o objeto, o ar pareceu lhe faltar. Uma calcinha. Vermelha.

Louis ficou paralisado, o tecido sedoso entre seus dedos parecendo pesar toneladas. Aquilo só podia ser uma piada de mau gosto, algo plantado por Cora, certo? Mas e se não fosse? E se ela estivesse dizendo a verdade?

O rosto dele ficou vermelho, uma mistura de raiva e decepção queimando por dentro. Talvez houvesse uma explicação plausível, algo que não envolvesse traição. Mas quanto mais olhava para aquela peça de lingerie, mais a dúvida corroía seu peito. 

Ele se jogou na poltrona ao lado, a calcinha ainda em sua mão, o olhar perdido.

O que mais Louis não sabia?

Não demorou que seus olhos azuis se inundassem em lágrimas e a garganta começasse a doer.

Já no andar debaixo, Harry subia as escadas com passos pesados. Ainda estava tenso pelo susto de minutos atrás, quando Louis havia ido atrás dele, sozinho aquela hora da noite.

Poderia ter acontecido o pior. Sentia-se desgastado, mas não sabia ao certo se era pelo susto ou pelo que vinha se acumulando.

Harry sabia que toda aquela angústia, no fundo, era medo disfarçado. O pensamento de algo acontecer a esposa e de vê-la se colocando em risco por impulso era insuportável.

Mas explicar isso a Louis era como falar com uma parede. Ele parecia incapaz de entender que sua preocupação não era uma forma de controle, mas de cuidado. 

Chegando ao topo da escada, ele parou por um instante, os dedos apertando o corrimão. Era estranho como aquele espaço, agora parecia carregado de muita tensão.

Quando Harry entrou no quarto, encontrou Louis parado no meio do cômodo, segurando algo nas mãos com seus dedos trêmulos. 

— Louis? O que está acontecendo? 

A expressão de Harry mudou logo, quando percebeu as bochechas molhadas da esposa.

— O que está acontecendo?– Louis repetiu, a voz começando baixa, mas subindo até um grito. Ele jogou a calcinha contra o peito de Harry.— Isso está acontecendo! 

Harry pegou o tecido, o maior estava completamente confuso quando olhou bem para o que Louis o havia arremessado.

— O que diabos é isso? 

— Não se faça de idiota, Harry!– Louis avançou, empurrando o peito dele com ambas as mãos.— Você foi se encontrar com ela, não foi? Ela está viva, Harry! E você sabia! 

O corpo do cacheado paralisou por um instante.

— Do que você está falando? Com quem eu fui me encontrar? 

— CORA!– Louis berrou, as lágrimas já escorrendo pelo rosto com mais intensidade agora.— Você mentiu para mim! Disse que ela estava fora de nossas vidas, mas agora ela deixa... Isso no seu bolso! 

Harry olhou para a calcinha em suas mãos mais uma vez, a confusão dando lugar à compreensão. 

— Você acha que isso é dela? Louis, eu nem sei como isso veio parar aqui! 

— Mentiroso!– Louis gritou novamente, batendo no peito de Harry.— Eu confiei em você! Eu te perdoei! 

Harry tentou segurar as mãos dele, preocupado, mas Louis estava inconsolável, já soluçando alto.

— Você é patético, Harry! Me faz sentir como uma idiota todos os dias! 

Louis se sentiu verdadeiramente magoado, mas de repente, ele parou, sua mão voando para o pé da barriga. Curvou-se levemente, ofegante, e Harry o segurou imediatamente. 

— Louis, o que foi? 

— Está doendo...– ele murmurou entre choro, a voz baixa e fraca. 

Anne logo então apareceu na porta, atraída pelos gritos que com toda certeza havia ecoado por todo o corredor. Pois Zayn e Magnólia já se encontravam de pé e na porta do quarto.

— O que está acontecendo aqui?– o moreno questionou com o rosto tenso.

Harry, com o rosto pálido e confuso, suspirou encarando o irmão.

— Ela está com dor. Algo está errado! 

Anne se aproximou mais, calma mas firme, colocando a mão na testa de Louis e depois sobre sua barriga. 

— Ela precisa descansar. Louis, você não pode se estressar assim. O bebê sente tudo. 

A mulher murmurou segurando o garoto pelos ombros.

— Eu não... Confio mais nele, Anne.– Louis sussurrou, com os olhos marejados. 

Na mesma hora Magnólia se desvencilhou do marido e correu até a sogra.

— Nós resolvemos isso depois. Agora você precisa respirar. Vamos. 

Anne e Magnólia, com cuidado, ajudaram Louis a sair do quarto. Anne rapidamente lançou um olhar gelado para Harry.

O mais velho ficou parado no quarto, olhando a calcinha vermelha no chão. Zayn o encarou com certo desprezo antes de dar meia volta para ir ver se precisariam da sua ajuda.

Harry ainda sozinho no quarto, ficou tentando juntar as peças do que havia acontecido. O olhar fixo na calcinha vermelha jogada no chão e uma carta aberta sobre a mesa de cabeceira.

O maior logo se aproximou e então pegou o papel nas mãos e em rápidos segundos leu todo o seu conteúdo. Suas mãos chegaram a esbranquiçar de tanta raiva.

Bateu com força o punho no móvel onde estava a carta sentindo o osso de sua mão tremer.

Aquela maldita mulher...

Sem nem mesmo pensar duas vezes, pegou o seu telefone. 

— Quero todos os meus homens em alerta agora.– sua voz era baixa, controlada, mas carregada de fúria.
— Localizem Cora imediatamente. Ela não pode ter ido longe. 

Harry se trocou rapidamente, colocando a arma no lugar, os passos firmes ecoando pela casa enquanto descia as escadas. Ele passou por Anne e Louis no corredor, lançando apenas um breve olhar preocupado para a esposa, mas não disse nada. Não podia. Não agora. 

Saindo da propriedade, entrou em seu carro, acelerando pelas ruas escuras enquanto fazia outra ligação. 

— Quero cobertura total. Cora precisa ser encontrada hoje. Vocês ouviram? Hoje! 

A cada quilômetro percorrido, sua raiva crescia. Harry sabia que não podia voltar para casa sem respostas. Cora tinha cruzado uma linha que ele não podia ignorar.

E, enquanto a cidade passava como um borrão, só um lugar vinha à mente, um lugar onde ele sempre encontrava clareza e refúgio.

No quarto suavemente iluminado, Louis estava deitado na cama com um cobertor leve cobrindo-o até a cintura. Sua respiração era profunda, tentando se acalmar depois do episódio intenso que quase o levou ao hospital. Anne estava sentada ao lado dele, sua mão repousando sobre a barriga arredondada de Louis, num gesto carinhoso e protetor.

— Respire fundo, querida.– ela disse suavemente, os olhos carregados de preocupação.

Louis assentiu, mas sua mente ainda estava em turbilhão. Ele olhou para o teto, apertando os lábios.

— Anne... Eu não quero mais estar aqui.

Anne ergueu as sobrancelhas, esperando que ele continuasse. Louis virou a cabeça para ela, a expressão misturando mágoa e medo.

— Eu encontrei uma carta. Duas, na verdade. Ambas deixadas por Cora.

A mulher congelou ao ouvir o nome, mas permaneceu calma, incentivando-o a prosseguir com um leve aceno de cabeça.

— A primeira dizia que ela ainda estava viva.– Louis hesitou, os olhos brilhando de lágrimas contidas.
— Que ela e Harry... Que talvez eles ainda se vejam. E hoje... Hoje, havia outra carta.

Anne franziu o cenho.

— O que essa dizia?

Louis desviou o olhar, mordendo o lábio inferior como se a confissão fosse pesarosa demais.

— Ela insinuou...– ele fez uma pausa, a respiração tremendo.— Que ela esteve com Harry recentemente. Que deixou uma prova no paletó dele.

Anne inclinou-se para mais perto, a voz firme.

— E o que você encontrou?

— Uma calcinha.– Louis disse baixinho, como se as palavras fossem veneno.— No bolso do paletó dele.

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase insuportável. Anne apertou a mão dele com mais força, sua expressão indecifrável.

— Louis, você não acha que...

— Eu não sei o que pensar!– ele explodiu, a voz embargada. — Eu quero acreditar nele, quero acreditar que ele nunca faria isso, mas... Ele tem saído escondido à noite. Recebe ligações estranhas, fala baixinho ao telefone. Como posso não duvidar?

Anne suspirou, fechando os olhos por um momento antes de responder.

— Harry não é perfeito, Louis.– ela começou, escolhendo cuidadosamente as palavras.— Mas ele te ama.

— E se isso tiver mudado?– Louis questionou, a voz trêmula.

Anne se inclinou, colocando as mãos nos ombros dele.

— Olhe para mim, Louis.– ela disse firmemente.
— Cora é uma manipuladora, sempre foi. Ela quer plantar dúvidas em sua cabeça. Ela sabe que vocês dois juntos são fortes demais para ela enfrentar.

Louis passou as mãos pelo rosto, exasperado.

— Então por que ele está se escondendo? Por que ele saiu de novo, agora mesmo?

Anne hesitou por um momento, claramente pensando em algo. Então, inclinou-se para mais perto, sua expressão mudando para uma seriedade que Louis nunca havia visto antes.

— Há algo que você e Harry precisam saber.

— O quê?

Anne respirou fundo, olhando-o diretamente nos olhos.

— É só sobre Cora. E sobre Desmond... E o que aconteceu anos atrás.

A mulher parou, a voz abaixando para um sussurro.

— Há segredos que podem explicar tudo isso, mas vocês precisam ouvir de mim antes que seja tarde demais.

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