Capítulo 41 | Lenha

[...]

O sol despontava no céu com uma claridade amena, prometendo um dia tranquilo. Já fazia alguns dias desde a chegada daquela carta.

Nos primeiros dias, Louis ficou paranóico. Fazia inúmeras perguntas a Harry, e claro, ficava ao lado do marido como se estivesse grudado por um imã. Isso é claro que tranquilizou o maior.

Tudo precisava dar certo, os homens de Khalid já estavam rastreando Jason, os últimos rastros apontavam para Veneza. Com isso, Harry conseguiu suspirar de alívio por alguns dias e voltou a dar atenção a esposa.

Louis estava no jardim, sentado em uma espreguiçadeira, enquanto Harry cortava lenha em um canto da propriedade. Era uma cena tão inusitada quanto comum, e Louis não conseguiu evitar a risada ao ver Harry tentando equilibrar um tronco maior do que o esperado. 

— Você está querendo se machucar ou só quer que eu fique viúva mais cedo?– o menor provocou, apoiando o queixo na mão observando o marido.

Harry largou o machado por um momento, passando a manga pela testa. 

— Viúva? Achei que você já tinha planos de me substituir. Talvez com o entregador que trouxe o pão outro dia.– ele respondeu, arqueando uma sobrancelha com um sorriso brincalhão. 

Louis revirou os olhos. 

— Ah, claro. Porque ele com certeza tem mais tempo livre para me ajudar com essa barriga.– disse, acariciando a curva saliente de forma teatral. 

Harry aproximou-se com passos lentos, os olhos brilhando com um misto de diversão e carinho. Ele se abaixou na frente de Louis, as mãos repousando de leve nos joelhos do outro. 

— Eu ajudo.– murmurou, a voz um pouco rouca. 

— Aham. Ajuda tanto que me proibiu de carregar sacolas semana passada.– Louis retrucou, mas sua voz perdeu firmeza quando Harry aproximou os lábios dos dele, deixando um beijo demorado e doce. 

O toque parecia desfazer qualquer tensão. Harry deslizou os dedos pela nuca de Louis, aprofundando o beijo enquanto o som dos pássaros ao redor se tornava um pano de fundo para aquele momento.

Quando se separaram, Louis suspirou e abriu os olhos, encontrando o sorriso convencido no rosto do marido. 

— Você devia parar de ser tão chato às vezes.– o garoto comentou, mas sem conseguir conter o sorriso que surgia em seus lábios. 

Harry riu, levantando-se e estendendo a mão. 

— Vamos. Prometo ser um pouco menos chato até a hora do almoço. 

Louis aceitou a mão que Harry lhe estendia, levantando-se com uma expressão que misturava sarcasmo e cansaço. 

— Só até o almoço? Generoso da sua parte.– respondeu, tentando soar irônico, mas havia uma suavidade em seu tom. 

Harry riu, o som baixo e relaxado, mas ao invés de soltar a mão de Louis, entrelaçou os dedos nos dele e os guiou lentamente em direção à casa. Isso é claro depois de pegar o cesto de lenhas cortadas com a mão que estava livre.

— Sabe que você gosta de mim assim mesmo.– murmurou Harry, enquanto ajudava Louis a caminhar para dentro.

Os dois subiram direto para o quarto. e Harry o fez se sentar com cuidado na beira do colchão. 

Louis não o respondeu de imediato. Ele observou Harry com uma expressão pensativa, seus olhos azuis intensos, quase indecifráveis. Mesmo quando o humor parecia mais leve entre eles, havia algo em Louis que ainda parecia inquieto. 

— Você está muito calada. O que foi?– Harry perguntou, ajoelhando-se à frente dele, as mãos pousadas nos joelhos de Louis. 

Louis desviou o olhar, focando em um ponto qualquer no chão. 

— Às vezes... Fico pensando.– começou hesitante, o tom mais baixo. 

— Pensando no quê?– Harry pressionou, seus olhos verdes preocupados. 

Louis suspirou, finalmente encarando-o. 

— Que você é ótimo com palavras.– ele disse, a voz saindo mais firme agora. — Mas às vezes eu só... Preciso ter certeza. 

— Certeza do quê?– Harry perguntou, o cenho franzido em confusão. 

— Que é de mim que você gosta, Harry.– Louis murmurou, a vulnerabilidade em sua voz finalmente aparecendo. — Que eu sou a única que você ama. 

Harry ficou em silêncio por um momento, o impacto daquelas palavras atingindo-o como um soco.

Sem hesitar, ele se aproximou, segurando o rosto de Louis com ambas as mãos e obrigando-o a olhar diretamente em seus olhos. 

— Louis.– ele começou, a voz grave e carregada de emoção.— Você é tudo. Absolutamente tudo. Não há ninguém, nem nunca vai haver, outra vez. 

Louis piscou algumas vezes, o brilho em seus olhos denunciando a batalha interna que enfrentava. 

— Murmure isso, mais uma vez.– ele pediu, baixinho, a voz quase falhando. — Por favor. 

Harry não hesitou. Ele encostou a testa na de Louis e, com a voz baixa e intensa, começou a repetir.

— Você é o única. A única que eu amo. A única que eu quero. A única. 

Louis fechou os olhos, deixando aquelas palavras o envolverem como um cobertor quente. Uma pequena lágrima escapou, mas ele sorriu, ainda que hesitante. 

— Às vezes, você acerta.– Louis murmurou, tentando esconder a emoção na voz. 

Harry riu baixinho, seus dedos deslizando suavemente pelas laterais do rosto de Louis. 

— Sempre vou acertar quando for sobre você.– ele disse, com a voz firme, antes de puxar Louis para um beijo suave e cheio de promessas silenciosas. 

Quando finalmente se afastaram, Louis o puxou para cima da cama, o cansaço emocional misturado com a necessidade de ter Harry por perto. Deitaram-se juntos, as mãos entrelaçadas enquanto o silêncio confortável os envolvia. 

Mas no fundo, Louis ainda sentia a ponta de incerteza que Cora havia plantado nele. Por ora, as palavras de Harry eram suficientes para mantê-lo tranquilo. Pelo menos até que o silêncio fosse quebrado novamente.

[...]

Já era noite quando Louis notou Harry se arrumando apressadamente no quarto.

O marido estava inquieto, abotoando a camisa com pressa enquanto murmurava algo ininteligível. Louis, ainda deitado na cama, o observava com atenção.

— Onde você vai?– ele perguntou, tentando soar casual, mas havia uma nota de desconfiança em sua voz.

— Assuntos importantes.– Harry respondeu rapidamente, sem sequer olhar para trás. Ele calçou as botas, pegou o casaco e saiu com passos firmes antes que Louis pudesse insistir.

Por alguns minutos, Louis ficou imóvel, a mente girando. A lembrança da carta de Cora queimava em sua mente como um alerta constante. E se Harry estava indo encontrá-la? E se... Ele ainda escondia algo?

A curiosidade e a dúvida foram mais fortes. Louis vestiu um casaco rapidamente, deslizou para fora do quarto e desceu as escadas silenciosamente. Ele não podia perder tempo. Assim que ouviu o som do motor do carro de Harry ligando, correu para fora, usando a porta dos fundos para não ser notado.

Na garagem, Louis se abaixou rapidamente atrás de um dos carros estacionados. Ele viu Harry abrir a porta do motorista, o rosto sério e focado enquanto verificava algo no celular. Com o coração batendo forte, Louis esgueirou-se para a parte traseira do veículo, entrando no porta-malas sem fazer barulho e puxando a tampa com cuidado.

O carro começou a se mover, e Louis se segurou enquanto a estrada irregular fazia o veículo balançar levemente. Ele sabia que era arriscado, mas precisava saber onde Harry estava indo.

Enquanto isso, no banco do motorista, Harry mantinha a expressão grave. Ele havia recebido uma ligação de um de seus homens de confiança, relatando que possivelmente haviam encontrado uma pista sobre as movimentações de Jason. Nada estava confirmado, mas era suficiente para deixá-lo alerta.

A viagem durou cerca de vinte minutos, e Louis, no escuro do porta-malas, tentava não pensar na falta de ar ou no desconforto crescente. Quando o carro finalmente parou, ele esperou pacientemente até ouvir a porta do motorista bater e os passos de Harry se afastarem.

Devagar, Louis abriu a tampa do porta-malas apenas o suficiente para espiar. Harry estava entrando em um armazém grande e aparentemente abandonado, as luzes de dentro piscando fracamente.

"Que diabos você está fazendo aqui, Harry?" Louis pensou, saindo do porta-malas com cuidado e se escondendo nas sombras.

Com o casaco apertado ao redor do corpo, ele começou a seguir o marido, mantendo-se próximo às paredes externas do armazém. A porta estava ligeiramente aberta, e Louis espiou por uma fresta.

Harry estava no centro do lugar, conversando com dois homens de aparência intimidante. Ele gesticulava enquanto um deles mostrava algo em um tablet, mas Louis não conseguia ouvir claramente o que diziam.

Não havia nem sinal da ruiva, nada tão interessante ou que fizesse Louis suspeitar do marido. Suspirou baixo e então se virou para voltar ao carro.

De repente, uma mão pesada pousou em seu ombro. Louis engoliu um grito e virou-se rapidamente, encontrando o olhar firme e nada surpreso de Harry.

— Louis.– a voz dele era baixa, mas carregada de exasperação.— O que você pensa que está fazendo?

Louis, sem outra saída, decidiu improvisar. Ele realmente tinha um bom superpoder.

— Eu... Eu estava com saudades.– ele murmurou, tentando soar casual, embora a expressão de Harry deixasse claro que ele não estava convencido.

Harry estreitou os olhos, cruzando os braços.

— Saudade? A ponto de se esconder no meu carro? Céus, você simplesmente não deve sair a essa hora de casa, poderia ter se machucado!

A voz de Harry estava nervosa o suficiente para que ele não tivesse controle do tom que ela saía. Suas mãos grandes seguravam agora Louis pelos dois braços.

Louis engoliu em seco, mas manteve a pose.

— Você saiu sem explicar nada. O que esperava que eu fizesse?

Harry suspirou, passando uma mão pelo rosto antes de segurá-lo pelo braço com firmeza mais uma vez, mas sem machucar.

— Você não pode fazer isso, Louis. Não agora.

— Não posso por que?– Louis rebateu, sua voz tingida de algo mais profundo do que curiosidade.

Harry suspirou mais uma vez, a frustração evidente.

— Eu vou te levar para casa. Depois conversamos.

Louis queria protestar, mas a firmeza no tom de Harry o fez hesitar. Ele estreitou os olhos, cruzando os braços como quem ainda ponderava suas opções, mas a postura resoluta do marido o fez soltar um suspiro derrotado.

— Tudo bem. Mas essa conversa vai acontecer.– murmurou Louis, com o olhar carregado de uma desconfiança mal disfarçada.

Harry não respondeu. Apenas segurou o braço de Louis com firmeza, não como um gesto brusco, mas protetor e o guiou de volta ao carro.

O caminho de volta foi envolto em um silêncio espesso. Louis, com o olhar fixo na janela, parecia absorto em seus pensamentos. "O que ele estava fazendo naquele armazém? Quem eram aqueles homens? Por que ele simplesmente não me diz nada?", pensava ele, o coração pesado com perguntas que se recusavam a ter respostas.

Harry, ao volante, parecia igualmente tenso. Ele mantinha o olhar na estrada, mas a linha firme em sua mandíbula e as mãos apertadas ao redor do volante diziam que a conversa que viria a seguir seria tudo menos fácil.

Quando finalmente chegaram à propriedade, Harry desligou o motor e soltou um longo suspiro. Virando-se para Louis, ele falou, com a voz baixa:

— Suba para o quarto. Eu já vou.

Louis o encarou por um momento, hesitando. Parecia que queria dizer algo, mas acabou apenas assentindo, saindo do carro sem uma palavra.

A casa estava em silêncio, quase sufocante, enquanto Louis subia as escadas em passos lentos. Cada degrau parecia pesado, carregado de um pressentimento que ele não conseguia ignorar.

Quando entrou no quarto, Louis soltou um suspiro profundo, como se tentasse aliviar a tensão acumulada naquelas últimas horas. Ele fechou a porta, pronto para se jogar na cama e tentar organizar os próprios pensamentos, mas a visão à sua frente o fez parar bruscamente.

Sobre a cama, uma carta estava cuidadosamente posicionada, a caligrafia familiar imediatamente reconhecível.

Seu coração disparou. O quarto pareceu girar por um instante enquanto ele encarava o papel, uma mistura de raiva e medo tomando conta de seu corpo. Ele sabia exatamente de quem era antes mesmo de tocar a carta.

O incômodo nos olhos ja se fazia presente, aquela mulher mesmo de longe, destruía seu casamento.

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