Capítulo 40 | Carta

[...]

A luz do sol aquecia as ruas movimentadas da cidade, mas Harry não parecia interessado em apreciar o clima agradável. Ele caminhava ao lado de Louis e Anne com a mandíbula travada, o olhar atento a cada movimento ao redor.

O homem estava angustiado, sabia que não era um bom momento para saírem da proteção que o grande casarão exalava. Os muros eram quase que impenetráveis, pois o maior triplicou a segurança com seus homens, e mais, os homens de Khalid.

Mas naquele dia pela manhã, Louis o infernizou para sair. Anne havia comentado na noite anterior que precisavam montar o enxoval do bebê, pois o parto estava muito perto.

Harry argumentou que chamaria a costureira da família, mas Louis não quis. Discutiram pela manhã e Louis chorou o suficiente para que Harry mudasse de ideia, mas obviamente iria acompanha-las.

Aquilo foi o suficiente para Louis engolir o restante do choro quase sem lágrimas e se aprontar com a sogra para saírem. Aquela proteção de Harry estava passando de todos os limites e Louis já estava de saco cheio.

O garoto imaginava ser por causa do bebê, talvez Harry não quisesse que nada acontecesse com o filho, já que no passado havia perdido um. Talvez fosse um trauma, quem sabe?

Louis era realmente inocente.

Por isso todas as vezes, o menor acabava tentando não se importar tanto com aquele exagero por parte do marido.

Quando enfim desceram do carro, Harry grudou em Louis como um chiclete velho. O garoto o observava de soslaio, os braços cruzados sobre a barriga já bem visível. 

— Você está me sufocando, Harry.– reclamou, enquanto eles passavam pela vitrine de uma loja de roupas infantis. 

— Estou protegendo você.– Harry respondeu sem olhar para a esposa, mantendo a atenção nas pessoas ao redor. 

Harry andava armado como costume por baixo daquele terno escuro bem alinhado. Mas havia alguns dias que o maior estava armado com duas armas, uma a cada lado.

Isso além de uma escolta de dois carros, e ao todo, 6 homens de confiança discretos o suficiente para Anne e nem mesmo Louis, notarem.

Ou seja, o cacheado estava preparado para um banho de sangue a qualquer instante.

Anne observando o clima entre os dois, interveio com um sorriso tranquilo. Quase no fim da gravidez os hormônios ficavam realmente agitados, e o filho precisava ter mais paciência com sua nora.

— Ah, Louis, deixe-o ser o cavaleiro protetor que ele quer ser. Não é todo dia que um homem da máfia carrega sacolas de bebê...

Louis soltou uma risada, finalmente espantando aquele clima péssimo. Mas Harry não pareceu achar graça. Ele estava mais sério do que o habitual, os olhos fixos em algo que só ele parecia enxergar. 

— Anne, leve-o para dentro. Eu vou ficar aqui.– Harry gesticulou para a porta da loja.

Na mesma hora, a mulher mais velha franziu discretamente o cenho da testa. O seu filho o chamar pelo nome não era algo comum.

— Oh, não. Você vem comigo, amor... Por favor.– Louis puxou Harry pelo braço, a determinação em seus olhos superando qualquer tentativa de resistência.— Se você não vier, eu choro!

Protestou, arrancando um suspiro alto de Harry.

Dentro da loja, a atmosfera era muito mais leve. Anne imediatamente começou a admirar os pequenos macacões e cobertores, enquanto Louis analisava cuidadosamente os tecidos e modelos, buscando algo que refletisse o amor que já sentia por aquele bebê. 

Ainda não sabiam o gênero, e por isso o ideal seria comprar cores mais claras. Anne estava realmente encantada com as roupas cheias de babados da loja.

Afinal, era o seu querido e já amado netinho que estava prestes a nascer.

Harry, no entanto, estava inquieto, lançando olhares para fora da loja e observando seus homens que permaneciam discretos, mas atentos. 

— Você pode relaxar um pouco?– Louis perguntou, franzindo o cenho enquanto segurava um minúsculo par de sapatinhos. 

Louis já estava de saco cheio, ao observar o rosto do marido. Harry estava estranho como nunca.

— Não quando você está aqui fora, tão exposto.– Harry respondeu rapidamente, o tom cortante. 

O menor então suspirou e se aproximou do marido o suficiente para segurar seu rosto entre as mãos.

— Eu não estou tão frágil quanto você pensa.– retrucou, erguendo uma sobrancelha. 

Antes que Harry pudesse responder, uma mulher alta e bem-vestida esbarrou levemente em Louis, murmurando um pedido de desculpas educado. O menor apenas acenou com a cabeça, sem perceber que algo a mais havia acontecido. 

Anne voltou com os braços carregados de roupas, alheia à troca. 

— Acho que temos o suficiente para encher metade do armário. 

Louis sorriu, observando as peças escolhidas por Anne, mas Harry manteve-se em silêncio, ainda de olhos atentos à movimentação. 

Assim a manhã inteira se esvaiu, até que finalmente retornassem para casa.

Ao chegarem ao casarão, Louis se sentiu exausto. Ele deixou as sacolas no sofá e caminhou até a cozinha para beber água, enquanto Anne organizava as compras no quarto do casal e Harry desaparecia para falar com seus homens. 

Avistou Magnólia e sua mãe no sofá e as cumprimentou de forma educada, antes de ir em direção ao seu quarto onde sua sogra estava.

Quando abriu a porta, sorriu ao ver o delicado berço de madeira ao lado de sua cama. Realmente faltava pouco para seu bebezinho nascer.

Se aproximou de Anne na intenção de ajudar, afinal eram muitas sacolas. Foi guardando peça por peça e quando enfim terminaram, Anne o ajudou a preparar um banho de banheira quente.

Assim que feito, Louis agradeceu e Anne seguiu para seu próprio quarto para também se aprontar para o almoço.

Louis foi se despindo de peça por peça. E quando se encontrou nu, sorriu para o grande espelho ao se ver com sua imensa barriga.

O garoto estava radiante e muito bonito. Entrou naquela banheira com um verdadeiro suspiro de prazer, estava na temperatura perfeita.

Tonou seu banho tranquilamente e então logo depois se enrolou, secou-se com cuidado e foi se trocar com algo confortável.

Antes de sentar a cama, se lembrou das roupas jogadas no chão do banheiro e foi busca-las, obviamente tinha criados na casa, mas Louis tinha sido bem criado pelo pai.

Mas bem, sua atenção foi desviada em um momento um tanto rotineiro. Quando olhou para suas roupas jogadas ao chão, percebeu uma carta. Uma carta que parecia ter caído do bolso do grosso casaco que usou aquela manhã na cidade.

Ele o pegou, franzindo o cenho ao ver que estava endereçado a ele, com uma caligrafia feminina que imediatamente reconheceu. 

Cora. 

Louis sentiu o coração apertar, não podia acreditar que aquela mulher maldita ainda estava viva. Rapidamente voltou para o quarto e sentou-se a cama, ligando seu abajur.

O garoto abriu o envelope com dedos hesitantes, mas o conteúdo da carta não deixou dúvidas sobre a origem. 

Carta de Cora

Sentiu saudades minhas, Vita Mia?

Eu admito, estava completamente ansiosa para esse momento. Deve ser uma surpresa e tanto, não é? Descobrir que não estou enterrada em alguma cova esquecida como, talvez, você desejasse.

Não se preocupe, Louis, eu também não morri de amores pela ideia de te ver usurpar o lugar que era meu. 

Escrevo porque sei que, em algum lugar dessa sua cabecinha, você deve se perguntar o porquê Harry me manteve viva. E a resposta? Bom... digamos que alguns segredos são doces demais para serem compartilhados. 

Ele tem estado tão ocupado ultimamente, não é?

Saídas, conversas sussurradas, olhares desviados... Você já se perguntou para onde ele vai quando te deixa sozinha com sua barriga crescendo? Já passou pela sua cabeça que, talvez, nem tudo seja sobre negócios? 

Ah, Louis, se eu fosse você, começaria a prestar mais atenção. Talvez até seguir Harry. Não para me encontrar, claro, seria cruel demais da minha parte sugerir isso.

Mas quem sabe você descubra algo interessante. Afinal, velhos hábitos morrem dificilmente, e Harry sempre foi muito bom em manter a chama de uma paixão acesa... 

Com todo o carinho, 
Cora.

Louis terminou de ler a carta com o coração disparado, o sangue correndo rápido demais para o seu gosto. As palavras de Cora tinham a consistência de um bote, cada frase uma provocação cuidadosamente arquitetada para mexer com ele. 

E bem, Louis conseguia até mesmo sentir a mordida forte daquela jiboia em formato de mulher. Aquela carta o atingiu como um maldito veneno correndo pelas veias.

Ela estava viva.

Isso, por si só, já era um choque. Mas o que realmente o incomodava era o tom implícito nas palavras, a insinuação de que Harry poderia estar se encontrando com ela. 

Não podia ser. Harry jamais faria isso, não é? 

Louis apertou as mãos no encosto da cama, como se isso fosse impedi-lo de desabar. A mente parecia brincar com ele, trazendo flashes de momentos em que Harry hesitara em explicar algo ou evitara certos detalhes. Mas, ao mesmo tempo, lembrava-se das promessas. Ele havia pedido perdão, havia jurado que agora seriam apenas eles dois e o bebê. Que tudo ficaria bem. 

Então, por que essa dúvida o corroía? 

Louis sentiu os olhos marejarem, a garganta apertada. Só de imaginar Harry traindo essa confiança tão frágil, o peito parecia se partir ao meio. Ele queria acreditar, precisava acreditar. Lembrou-se de Anne, sempre tão serena e maternal, dizendo que Harry finalmente resolvera aquele problema que tanto os atormentara. Mas, e se isso fosse apenas uma desculpa? Uma maneira de acalmar Louis enquanto ele mantinha ambas as vidas em paralelo? 

— Não, Harry não teria coragem de fazer uma coisa dessas...– ele sussurrou para si mesmo, mas as palavras soaram mais como uma súplica do que uma certeza. 

Ainda assim, a dúvida havia se instalado. Pequena, mas devastadora, como uma semente plantada em solo fértil, crescendo em cada silêncio, em cada ausência que antes ele ignorava. Louis precisava de respostas. E, mais do que isso, precisava acreditar que o homem que ele tanto amava ainda era digno dessa confiança. 

O som de passos no corredor o tirou do transe, e Louis rapidamente secou os olhos e escondeu a carta embaixo de seu travesseiro. A tempo de Harry aparecer na porta do quarto, os olhos cansados, mas alertas. 

— Tudo bem?– ele perguntou, parando quando viu Louis ali na cama.

— Sim.– respondeu a esposa com firmeza, embora sua voz traísse um pouco de tensão. O garoto olhou para Harry, que o observava com atenção. 

Forçou um sorriso e se levantou, indo até o marido e o abraçando apertado. Aquilo tudo não podia ser verdade.

Harry estreitou os olhos, mas retribuiu o abraço sentindo um resquício de paz. Beijou o topo da cabeça da esposa e então suspirou.

— Vou tomar um banho. Então descemos juntos para o almoço, tudo bem?– perguntou casualmente, partindo devagar o abraço e enfim tirando seu blaser devagar. 

Louis balançou a cabeça, mas não respondeu. Assim que Harry desapareceu no banheiro, ele soltou um suspiro pesado, sentando-se na beirada da cama com a mente tomada por dúvidas. A respiração saiu trêmula, o peso dos últimos minutos se acomodando em seus ombros como um fardo impossível de carregar.

Se Harry sabia que Cora estava viva, por que não havia contado a ele?

Eles sempre compartilharam tudo, mesmo as verdades mais dolorosas, então por que Harry escolheria manter isso em segredo?

Pior ainda, se ela estava viva, o que mais poderia estar escondido?

O pensamento era um nó em sua mente, apertando mais a cada tentativa de desvendar os mistérios que pareciam surgir em cada espaço de sua mente.

Será que Harry estava protegendo Cora?

Ele olhou para o espaço vazio do quarto, onde os ecos das memórias e palavras não ditas pareciam dançar. A presença de Harry, que ele normalmente encontrava tão reconfortante, agora parecia enigmática, carregada de segredos que ameaçavam corroer a confiança entre eles.

E enquanto a água do chuveiro começou a correr ao fundo, Louis passou as mãos pelo rosto, tentando afastar o peso da incerteza, mas sem sucesso. Havia perguntas que precisavam de respostas.

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