Capítulo 27 | Louis
[...]
A noite parecia não chegar ao fim. Cada segundo se arrastava com a intensidade de um peso que Louis não sabia como suportar. Quando retornou ao casarão, o vazio quase o engoliu.
Não havia sinal de Harry.
Nenhuma palavra deixada para trás. E, o que era mais devastador, nem mesmo Cora estava ali. Ou seja, já estava bem claro o que havia acontecido.
Louis sentiu as pernas fraquejarem quando subiu as escadas em direção ao quarto que anteriormente dividia com seu marido. O corredor parecia mais longo do que nunca, como se quisesse testá-lo, zombando de sua dor.
Ao entrar no quarto, a ausência de Harry foi como um soco. Os objetos estavam ali, mas ele não. O cheiro ainda preenchia o espaço, mas era apenas uma memória cruel de quem não estava mais ao alcance.
Louis se sentou na beira da cama, sentindo o peito apertar enquanto os pensamentos se embaralhavam. Tentou segurar as lágrimas, tentou ser forte, mas o silêncio ao seu redor era ensurdecedor. E naquele silêncio, tudo o que conseguia ouvir era o eco das palavras que Harry havia dito. E das que não havia.
"Porque eu escolho você, Louis. Eu escolho você todos os dias"
"Eu estou aqui, Louis. Sempre estarei"
A voz de Harry ecoava em sua mente, como se cada frase o machucasse mil vezes mais agora. Harry mentiu.
Louis pensava nisso enquanto lágrimas desciam por seu rosto. Não conseguia evitar imaginar onde Harry estava, o que estava fazendo, ou pior, com quem ele estava.
O garoto então se levantou de repente, a dor se transformando em raiva. Afinal, como Harry pôde o deixar assim?
Preso em todos aqueles sentimentos juntos, Louis abraçou o próprio corpo, a mão pousando instintivamente sobre a barriga.
— Você está aqui comigo...– murmurou, apertando a mão levemente contra si, tentando encontrar consolo no fato de carregar uma nova vida.
Mas a verdade é que naquele momento, nem mesmo isso parecia o suficiente para afastar a solidão. E ali Louis ficou durante bom tempo daquela fatídica noite.
Enquanto isso, em outro quarto do casarão, era Anne quem não conseguia dormir. Depois de horas enfrentando o luto no olhar de Trisha e Magnólia, e observando o corpo do marido ser levado, ela sentiu que seu coração estava em pedaços.
Sabia que ela e Desmond enfrentaram revelações horríveis recentemente. Mas estavam casados a mais 50 anos, era muita coisa para não sofrer a perca de um companheiro. O que mais doía era que todo aquele maldito segredo, precisava morrer com Desmond em seu túmulo.
Tomada por essa agitação, algo fez Anne se levantar. Ao passar pelo corredor, ouviu um soluço baixo vindo do quarto de Louis. Sua expressão rapidamente endureceu.
A mulher conhecia bem aquele som. Era o som de alguém sendo despedaçado.
Ao abrir a porta lentamente, viu a nora sentada no chão, as pernas encolhidas contra o peito, abraçando-se como se quisesse impedir que seu mundo desmoronasse completamente.
— Querida...– Anne chamou suavemente, mas a voz era firme. Louis levantou o olhar rapidamente, os olhos vermelhos e inchados. Ele tentou secar as lágrimas, mas era inútil.
— Anne, eu... Eu estou bem.
Mentiu miseravelmente, e por ser óbvio, Anne não acreditou nem por um segundo. Entrou enfim no quarto e fechou a porta atrás de si. Sentou-se ao lado dele, o vestido longo arrastando no chão.
— Ele foi embora, não foi?– Anne perguntou, não com tom de acusação, mas com a compreensão de alguém que conhecia a dor da perda.
Louis engoliu em seco, o choro ameaçando voltar.
— Eu não sei onde ele está. Nem... Nem com quem.
Louis murmurou mesmo que soubesse exatamente com quem o marido foi embora. Num instante sentiu-se humilhado, afinal, o marido havia ido embora com outra mulher, e pior, Louis ficou sozinho e grávido.
Anne respirou fundo, os olhos marejando.
— Talvez ele só precise de um tempo para processar tudo, querida. A perda do pai... É algo que Harry nunca imaginou enfrentar tão cedo.
Louis balançou a cabeça, a mão voltando a pousar sobre a barriga de forma inconsciente. Ele sentiu as palavras subirem pela garganta, mas quando saíram, foram quase um sussurro.
— Eu estou esperando um bebê, Anne.
O silêncio entre elas foi quase palpável, mas Louis se sentiu aliviado de dividir aquela informação com alguém. Era uma pena pois imaginava aquela revelação em outras circunstâncias mais felizes.
Anne olhou para o garoto, os olhos arregalados de surpresa, antes de cobrir a boca com a mão.
— Oh, minha querida...
As lágrimas que Louis vinha segurando, finalmente caíram livremente.
— E agora ele não está aqui. Eu não sei se ele vai voltar, Anne. Eu... Eu não sei se vou conseguir fazer isso sozinha.
Anne sentiu seu coração apertar e abraçou, envolvendo-o com força, como se quisesse protegê-lo de tudo. E sim, ela queria. Amava Louis como a filha que jamais teve.
— Louis, ele vai voltar. Harry pode ser muitas coisas, mas ele ama você. E ele vai amar esse bebê.– usou suas palavras doces de consolo. Mas não eram suficientes naquele momento.
Louis queria acreditar, queria desesperadamente que aquelas palavras fossem verdade. Mas a imagem de Harry abraçando Cora na sala da lareira o assombrava.
— E se ele não voltar?– Louis perguntou, sua voz quebrada, quase inaudível.
Anne não respondeu de imediato. Apertou-o um pouco mais forte, a própria dor refletida em seus olhos.
— Então nós vamos estar aqui para você. Sempre. Pra você e o meu netinho que vai chegar.
Anne abriu um sorriso fraco aquela noite, de forma genuína. Louis fechou os olhos, tentando encontrar conforto nas palavras de Anne. Mas tudo o que vinha a sua mente eram as promessas de Harry.
Ele não sabia se conseguiria confiar naquele homem novamente.
O que Louis não sabia, era de fato o que realmente fez Harry ir embora, e como ele fez aquilo.
Por isso, eu escritora irei contar para vocês...
Harry dirigiu sem rumo por horas, o motor do seu carro sendo o único som que preenchia o silêncio. Seus pensamentos eram um turbilhão, um emaranhado de dor, culpa e memórias que pareciam sufocá-lo.
Ele havia perdido o pai, um homem que mesmo com seus defeitos era a fundação de sua vida. Agora, Harry estava sem chão.
Cora estava ao seu lado, observando-o em silêncio. Sabia que não precisava dizer nada ainda. Harry estava vulnerável, e ela esperava pacientemente pelo momento certo para agir.
Eles chegaram a uma pequena pousada em uma estrada remota, longe de tudo e de todos. Harry entrou no quarto, largando o blaser e afrouxando a gravata. Sentou-se na cama com um suspiro pesado e pegou a garrafa de uísque que havia comprado no caminho.
— Não acha que já bebeu o suficiente?– Cora perguntou, a voz doce, quase maternal.
— Não.– Harry respondeu, sua voz rouca, o olhar perdido. Ele tomou outro gole, ignorando o olhar atento de Cora.
A garrafa já estava na metade, porque Harry começou a beber ainda dentro do carro.
A mulher se aproximou devagar, sentando-se ao lado dele, colocando uma mão suave em seu ombro.
— Harry... Eu sei que isso é difícil para você. Mas eu estou aqui.
Harry olhou para ela, seus olhos marejados pelo álcool e pela dor. Era quase impossível segurar seus sentimentos. Ele que sempre foi um homem fechado, naquele momento se sentia vulnerável.
— Você não entende, Cora. Você não faz ideia de como é... Perder alguém assim.
Ela inclinou a cabeça, como se ponderasse suas palavras, mas por dentro estava sorrindo. Ele estava se entregando, pouco a pouco.
— Talvez não entenda completamente, mas eu sei o que é sentir-se sozinha. E eu nunca quero que você se sinta assim, Harry. Não enquanto eu estiver aqui.
As palavras de Cora pareciam confortar o maior, ou talvez fosse apenas o efeito do álcool. Ele deixou a garrafa de lado e passou as mãos pelo rosto, exausto.
— Eu sinto que estou desmoronando.– admitiu.
Cora se aproximou, envolvendo-o em um abraço que parecia genuíno, mas dentro de si, ela sabia que esse era o momento perfeito para cravar suas unhas nele.
Beijou suavemente sua têmpora, descendo para o canto da boca até capturar seus lábios.
Harry não resistiu.
Talvez fosse a saudade, talvez fosse a bebida, talvez fosse apenas o desespero por algum conforto. O beijo se intensificou, e logo Cora estava o deitando na cama.
Quando conseguiu retirar as roupas de Harry, peça a peça, Cora sentiu a euforia crescer dentro dela. Seu plano estava funcionando. Harry estava finalmente de volta ao seu alcance, exatamente onde ela queria que ele estivesse.
Ela precisava ir até o fim daquilo, mesmo que o corpo de Harry estivesse mole, ou que talvez ele não lembrasse de tudo. Ela iria toca-lo.
Mas então, no meio do ato, o chamado saiu dos lábios de Harry como um sussurro.
— Louis...– Harry gemeu baixo.
Cora parou instantaneamente, os olhos arregalados e as mãos apoiadas no peito dele. Mas não era possível!
Percebeu que o homem estava desconexo, não era o momento para ter aquela maldita conversa do porque ele falou o nome de outra enquanto estavam transando.
Cora, não precisava ouvir nada mais. Ela já havia entendido. Harry ainda estava apaixonado por Louis, e isso a enchia de ódio.
A mulher se esforçou para enfim chegarem ao ápice e para que ela pudesse sair de cima de Harry. Cora apertou os dedos contra os lençóis, o peito subindo e descendo com a respiração pesada de frustração.
Harry agora estava deitado ao lado dela, os olhos semicerrados, preso entre o torpor do álcool e o início de um sono agitado.
Ela encarou o teto por alguns instantes, mordendo o lábio até sentir o gosto metálico de sangue.
Como ele podia? Depois de tudo que passou para chegar até ali, depois de tudo que fez para trazê-lo de volta... E ele ainda chamava por... Aquela vadiazinha.
Cora se lembrava perfeitamente de ver a esposa com aquele vestido azul, momentos antes de estar com Harry na sala da lareira. Aquilo não estava nos seus planos.
Cora não podia competir com outra pessoa ao coração de Harry.
O impulso inicial da mulher foi se levantar e sair do quarto, mas ela sabia que isso seria um erro. Não podia se dar ao luxo de perder o controle agora. Harry estava vulnerável, perdido no luto e na bebida, e ela precisava mantê-lo assim, dependente dela.
— Está tudo bem, meu amor...– ela sussurrou, mesmo que soubesse que ele não a escutava.
Cora ajustou os lençóis ao redor dele com mãos trêmulas, respirando fundo para controlar sua raiva. Sua expressão suavizou-se em uma máscara de paciência e cuidado, mas por dentro, os pensamentos giravam em um turbilhão de ódio e determinação.
Ela ficaria.
Não importava o quanto aquele nome ecoasse na sua cabeça como um insulto, ela ficaria. Harry seria dela, por completo, e ela não deixaria ninguém, nem mesmo Louis, estragar isso.
Com um último olhar para o rosto de Harry, ela se deitou ao lado dele, ajustando seu corpo para ficar o mais perto possível, como uma sombra que não o abandonaria. Mantinha-se próxima, seus dedos acariciando suavemente o lençol, um gesto que parecia inocente, mas carregava uma intenção clara, esperar o momento exato para apertar ainda mais as correntes invisíveis que o prendiam a ela.
O silêncio da madrugada envolvia o quarto, quebrado apenas pela respiração ritmada de Harry, agora entregue ao sono. Foi nesse instante que Cora permitiu que sua mente começasse a operar. Louis. O nome era como uma pedra no sapato, irritante e impossível de ignorar.
Ele era um problema, uma presença incômoda que ameaçava a estabilidade de tudo o que ela construíra.
Ela apertou os lábios, revivendo mentalmente os olhares que os dois trocaram no início da festa. Não precisava de muito para perceber a intensidade que emanava entre eles, como uma força gravitacional invisível. Harry estava apaixonado.
Isso a enfurecia, mas também a fazia calcular os próximos passos com mais cuidado.
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