Capítulo 26 | Adeus

Apertem o play logo de início, e bom choro!

O som do disparo rompeu o ar como um trovão, um ruído tão estridente que pareceu parar o tempo.

Na sala da lareira, Harry congelou. O peito subindo e descendo em desespero. Por um instante, ele não soube o que fazer. Apenas ficou ali, estático, ouvindo o eco da bala.

Sua mente foi tomada por uma lembrança ruim. Ele fechou os olhos com força e foi transportado para o dia em que seu Impala 1967 foi alvejado com quase 34 tiros. O alvo descoberto mais tarde, era o próprio pai. Desmond foi acertado com uma bala de raspão na cabeça.

Aquele frio ruim e agonia o apertavam o peito, e ele sentiu que existiam dois mundos. Um em seus braços naquele instante e o outro tão longe como se precisasse de sua proteção. Ele beijou a testa da mulher a sua frente, os lábios gelados e trêmulo.

Com os sentidos aguçados, ele saiu com pressa já com a sua arma nas mãos. A arma que seu pai lhe deu.

Ele não sabia o que encontraria, mas um medo ancestral tomou conta de seu corpo. Era o tipo de pavor que não se podia explicar, apenas sentir.

Ouviu-se mais um tiro, o fazendo parar abruptamente e tremer.

Com o tempo ainda em câmera lenta, a cena parecia retirada de um antigo filme de drama, com a vitrola tocando ao máximo a clássica "Contigo Partirei", na voz inesquecível de Andrea Bocelli.

Ainda na sala da lareira, Cora permanecia imóvel. O corpo rígido e as mãos trêmulas.

Sentiu-se completamente aliviada. Tão aliviada que chorou. Chorou de verdade como se houvesse se libertado de todos aqueles sentimentos ruins, que carregou por todos aqueles anos.

Aquele vazio que nunca se preenchia por completo, mesmo com o passar dos anos, o senso de pertencimento, a segurança e amor incondicional, não a machucavam mais.

Cora havia aprendido a ser forte antes do tempo, e agora naquele instante, ela se sentia ainda mais forte.

— Adeus, papai...

Ela murmurou, abrindo um sorriso genuíno em seus lábios contrastando com as lágrimas que ainda escorriam pelo rosto. Ela ergueu uma das mãos, limpando o rastro salgado com delicadeza, sentido-se livre.

Já no jardim, o cenário era completamente perturbador.

As mulheres da família buscavam refúgio debaixo das mesas. As mesmas mesas longas e vestidas nos tecidos claros que Anne havia escolhido com tanto carinho.

Os músicos instrumentistas já não tocavam mais e o que se ouvia era um misto de gritos e choros altos.

Desmond estava no chão, e seu terno branco e perfeitamente alvo, já possuía uma mancha vermelha enorme. Anne estava estancando a bala que ele havia recebido abaixo de uma das costelas.

Além de Desmond, outro corpo também estava no chão, mas este já sem vida, obtinha um furo certeiro no coração e dobrado em uma poça de sangue que se espalhava rapidamente pela grama. Lorenzo.

Liam e Zayn estavam com suas armas ainda apontadas para frente, as costas coladas enquanto procuravam com os olhos mais algum tipo de ameaça.

Foi quando enfim Harry chegou ao jardim, saindo pela saída mais rápida. A varanda. Quando seus olhos encontraram os olhos de Liam, teve certeza de jamais se esqueceria daquele dia. O rosto pálido e tenso do irmão do meio foi o suficiente para que Harry descesse os olhos para o pai, no chão.

Harry sentiu os joelhos fraquejarem, e o chão pareceu ceder sob ele.

— Pai!– gritou, a voz embargada. O homem correu até o pai, caindo de joelhos ao lado dele, como se pudesse segurá-lo na vida apenas com sua presença.

Desmond ainda estava consciente, mas seu rosto pálido e suado mostrava que o tempo era cruelmente curto. Anne soluçava enquanto pressionava a mão sobre a ferida aberta abaixo do peito de Desmond, o sangue escorrendo por entre seus dedos.

— Fique comigo... Por favor, Desmond, não faça isso!

— Papai, por favor...– Harry segurou a mão do pai, apertando-a com força. — Olha para mim. Você vai ficar bem, eu juro. Eu juro!

Desmond piscou lentamente, os olhos focando no rosto do filho. Um sorriso fraco apareceu em seus lábios, mas parecia mais um adeus do que qualquer esperança.

— Meu menino...– a voz saiu rouca, quase inaudível.

O portão de trás rangeu devagar e Louis saiu ainda assustado. Seu rosto tomado pelo pânico. Ele parou ao ver a cena, sentindo o sangue congelar nas veias. Sua mão instintivamente foi até a barriga, e o pavor de perder mais do que podia suportar o paralisou.

Louis nunca havia passado por tamanho trauma antes, a não ser a sensação de quase perder o próprio pai. E agora estava ali, observando o amor da sua vida passar pela mesma coisa, mais uma vez. Só que dessa vez parecia ser a última.

Anne virou-se para Louis, os olhos desesperados.

— Ele está morrendo... Louis, ele está indo embora!

Louis caiu de joelhos ao lado dela, abraçando-a por trás, como se pudesse de alguma forma protegê-la daquela dor insuportável. Ele segurou as lágrimas por um instante, mas elas vieram em torrentes, quentes e salgadas, enquanto sua mão tremia ao tocar o ombro da sogra. Todos pareciam saber que não haveria tempo para socorrer o patriarca.

Desmond tossiu, o sangue manchando seus lábios. Seus olhos buscaram algo no vazio antes de finalmente pousarem em Harry.

— Me desculpe...

— Não me peça desculpas!– Harry gritou, segurando o rosto do pai. — Você vai viver. Nós vamos te salvar, eu prometo!

Desmond balançou a cabeça fracamente, um sorriso triste nos lábios.

— Não... Meu tempo acabou, meu filho. Mas... Diga a ela...– sua voz falhou, e ele pareceu perder o foco.
— Diga a ela que eu... Sinto muito.

Os olhos de Desmond se fecharam lentamente, e seu corpo relaxou de uma maneira que todos entenderam.

O grito de Harry foi visceral, cortando o ar como uma lâmina.

Ele se jogou sobre o pai, abraçando-o com força, como se pudesse trazê-lo de volta apenas com a intensidade de seu amor.

Anne caiu para trás, o corpo tremendo em soluços, enquanto Trisha a puxava para seus braços. Louis sentiu uma dor intensa na barriga e cobriu a área instintivamente, apertando-se enquanto lágrimas escorriam.

Liam e Zayn estavam parados, incapazes de se mover, de falar.

Harry segurava o corpo de Desmond, ajoelhado no chão frio, o sangue quente manchando suas mãos e roupas. Desmond parecia tão pequeno, tão frágil, e isso o devastava.

Ele balançou o corpo do pai, como se pudesse trazer de volta o calor, como se pudesse puxá-lo de volta do abismo para onde estava indo. 

Zayn e Liam, até então parados, largaram as armas devagar e caminharam até o irmão mais velho. Liam ajoelhou-se ao lado de Harry, a mão trêmula pousando em seu ombro.

— Harry... Ele se foi, irmão. 

Zayn ficou de pé, os punhos cerrados ao lado do corpo. Seu rosto estava pálido, mas seus olhos brilhavam com lágrimas que ele se recusava a derramar.

— Ele foi um bom homem. Melhor do que nós merecíamos. 

Harry não conseguia responder. Ele estava preso naquela dor, no peso esmagador da perda. Ele apertava o corpo de Desmond contra si, como se nunca fosse soltar.

O mais velho dos irmãos fechou os olhos por um momento e a memória veio com a força de uma onda, esmagando-o. 

Londres, Inglaterra
24 anos antes

Era uma tarde dourada na velha Londres, Harry tinha seus oito anos de idade. Ele se lembrava claramente do cheiro da grama cortada e do som das risadas que enchiam o jardim da imensa casa onde nasceu.

Desmond estava empurrando-o no balanço improvisado que construíra, usando uma corda e o galho mais forte da árvore do quintal. O garoto tinha total certeza de que o pai era a pessoa a qual ele mais amava. Desmond era um bom pai a ele.

— Mais alto, papai! Mais alto!– Harry gritava, as pernas balançando no ar, os braços estendidos como se pudesse tocar as nuvens. E a gargalhada costumeira de quando brincava ao lado do pai.

Desmond ria alto, o tipo de riso que fazia Harry se sentir seguro, invencível.

— Cuidado, meu menino! Não vá querer voar muito longe, ou nunca mais vai querer voltar pra casa.

Eles brincaram até o sol começar a se pôr. Quando Harry finalmente desceu do balanço, ofegante e suado, Desmond o pegou nos braços e o jogou para o alto, o que fez o garoto gritar de emoção.

Harry nunca esqueceu a sensação de ser segurado por mãos tão fortes, tão protetoras.

— Um dia, você vai ser maior que eu, Harry. E eu quero que você saiba que tudo o que eu fiz foi pra você ser o homem que merece ser.– Desmond dissera, com o tom sério, mas cheio de ternura. 

O homem sempre soube que seu filho mais velho o daria orgulho. Da mesma forma que deu ao avô de Harry, seu pai.

Londres, Inglaterra
Tempos atuais

De volta ao presente, Harry abriu os olhos. Lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto enquanto olhava para o homem à sua frente. O homem que ele amava mais do que podia expressar, o homem que nunca imaginou perder tão cedo.

Naquele momento, tudo o que ele tinha era a lembrança do pai. As risadas, os ensinamentos, os momentos que agora pareciam tão distantes. Ele era o menino no balanço de novo, mas desta vez, não havia ninguém para segurá-lo se ele caísse.

Seu peito parecia esmagado sob o peso de uma dor que ele nunca havia conhecido. Aquele homem que sempre fora a sua fortaleza agora jazia inerte em seus braços, e a realidade de que ele não ouviria mais sua voz, suas risadas ou seus conselhos o atingiu como uma lâmina fria.

Ele desviou o olhar, quase incapaz de suportar a visão, e encontrou sua mãe. Anne estava ajoelhada no chão, os olhos marejados e perdidos, o rosto molhado de lágrimas. A dor que ela carregava era a mesma que a dele, mas parecia ainda mais profunda, mais crua.

Ele quis abraçá-la, mas não conseguia soltar Desmond. Suas mãos não obedeciam. Sua mente não queria aceitar.

Algo o tocou suavemente na coxa, tirando-o daquele transe. Ele olhou para baixo, os olhos embaçados, e então encontrou aqueles olhos azuis.

Louis estava ali, abaixado ao seu lado, silencioso. Seu rosto carregava uma expressão de tristeza e preocupação genuína, mas também de força. Era um olhar acolhedor.

Ele não disse nada, apenas estendeu a mão para Harry, tocando-o com delicadeza, como se quisesse dizer "eu estou aqui, e você não está sozinho."

Harry sentiu a intensidade daquele gesto simples, e isso o fez vacilar. Por um instante, ele quis se jogar nos braços de Louis, se deixar ser carregado por aquela força tranquila. Mas o peso do momento o puxou de volta, lembrando-o de que a realidade era cruel demais para oferecer refúgio.

Seu pai estava morto.

Aquele fato o atingiu como um golpe seco no peito, e Harry sentiu sua respiração falhar.

Harry sabia que agora teria que carregar o fardo que vinha junto com aquele adeus. Não era apenas a perda devastadora do pai, mas também o peso da responsabilidade que Desmond deixava para trás. Harry deveria manter a família unida, proteger todos eles, ser o alicerce. Mas naquele momento, ele não se sentia forte. Sentia-se quebrado.

E como se isso não fosse o suficiente, havia outra sombra pairando sobre ele. Cora.

Ela estava de volta, viva, contra todas as expectativas, e ele não sabia como lidar com isso. Parte de si estava tomada pela saudade e pela confusão, enquanto outra parte não conseguia ignorar a sensação de que algo não estava certo.

A lembrança dela, de seus olhos marejados, de suas palavras doces e quebradas, o assombrava. Harry não sabia como explicar, mas havia algo em sua presença que parecia errado.

Respirou fundo, com dificuldade, antes de se levantar lentamente, os ombros curvados pelo peso do luto.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top