Capítulo 24 | Memorável
Desmond construiu aquela biblioteca como ninguém. Um completo refúgio de silêncio e nostalgia, sempre desejou que seus três filhos homens tivessem acesso aos melhores livros.
As prateleiras de madeira escura estavam cheias de volumes antigos, muitos deles carregados de histórias que atravessavam gerações. Desmond estava sentado em uma poltrona de couro, um livro pesado de capa marrom repousando em seu colo.
Ele abriu o volume com cuidado, como se o conteúdo fosse algo precioso e frágil. Lá dentro, escondida entre as páginas, estava uma foto antiga de uma menina.
Cora, ainda criança, com um sorriso tímido e cabelos ruivos caindo em cachos desajeitados sobre os ombros.
Desmond engoliu em seco, sentindo uma pontada profunda de arrependimento e culpa.
Seus dedos trêmulos tocaram a borda da fotografia, e ele fechou os olhos, permitindo que as lembranças o invadissem. Ele podia ter feito mais. Ele sabia disso. Se tivesse tomado decisões diferentes, talvez Cora não tivesse sido levada por tanta amargura.
Acabou olhando levemente o recado que ele mesmo havia escrito anos atrás, no verso da fotografia.
Perdonami per i miei errori.
(Perdoe-me pelos meus erros.)
Il mio amore per te è infinito e sincero,
(Meu amor por você é infinito e sincero)
anche quando sbaglio.
(mesmo quando eu erro.)
Sei e sarai sempre una parte di me.
(Você é e sempre será uma parte de mim.)
Papà.
Uma lágrima solitária escapou e deslizou pela sua bochecha. Ele limpou rapidamente, mas o som de passos na porta o tirou de sua introspecção.
— Papai?– a voz grave e reconfortante de Harry ecoou pela biblioteca do casarão.
Desmond ergueu o olhar, surpreso, e viu o filho encostado no batente da porta, com um sorriso curioso no rosto. Harry parecia genuinamente surpreso e, ao mesmo tempo, encantado.
— Você está... Chorando?– o filho mais velho do homem perguntou, caminhando até ele.
Desmond respirou fundo, fechando o livro rapidamente para esconder a foto. Ele limpou os olhos com a manga da camisa e tentou forçar um sorriso.
— Memórias antigas.– ele murmurou, tentando soar casual. — Apenas... Revisitando o passado.
Harry sorriu, achando a cena adorável. Para ele, ver seu pai se conectar emocionalmente com o passado era um sinal de que talvez Desmond estivesse, finalmente, se curando da dor que os anos lhe trouxeram. Depois daquele intenso ataque que sofreu, ver aquela cena era um verdadeiro alívio.
— Mamãe já está organizando sua festa de aniversário, sabia?– Harry comentou, sentando-se em uma poltrona próxima. — Será uma típica celebração italiana. Ela quer reunir toda a família, das três esposas.
Desmond ergueu uma sobrancelha, rindo baixo.
— Então teremos cantoria, comida demais e discussões acaloradas na mesa?
Harry gargalhou, apoiando o braço no encosto da poltrona.
— Esattamente, papà! E aposto que Anne já tem uma lista inteira de pratos.
O cacheado murmurou, adorava falar em sua língua materna. Todos os filhos de Desmond eram nascidos na poderosa Roma, capital italiana. Cosa Nostra nasceu lá.
— Ela sempre foi boa nisso.– Desmond murmurou, mas um pequeno sorriso escapou ao ver o entusiasmo do filho. O homem velho sabia o quanto o filho adorava as festividades, a casa cheia.
Harry sempre foi o filho que mais se assemelhava a si mesmo, Des sabia que a família estava sendo chefiada por alguém que havia nascido para tal. Estava no sangue.
— Talvez você devesse praticar um pouco o italiano.– Harry provocou, inclinando-se para a frente. — Vai precisar, especialmente se quiser impressionar suas esposas na festa. Precisa admitir, papai... Está enferrujado de tanto usar esse inglês britânico.
Desmond riu.
— Va bene, figlio mio. Ma ricorda, sono un uomo vecchio. Non parlo così bene come te. (Tudo bem, meu filho. Mas lembre-se, sou um homem velho. Não falo tão bem quanto você.)
Harry sorriu, balançando a cabeça.
— Allora, dovremo praticare insieme. Sei pronto? (Então, teremos que praticar juntos. Está pronto?)
Desmond riu novamente, mas dessa vez sua expressão era mais leve, e por um momento, ele conseguiu esquecer o peso que carregava.
— Sempre pronto per te, figlio mio. (Sempre pronto pra você, meu filho.)
O vínculo entre eles parecia inabalável, e Harry, sem perceber, deu ao pai um breve momento de paz em meio à tempestade interna que ele carregava.
O cacheado se aproximou do pai e o envolveu em um abraço apertado, sua maior missão com toda a certeza, era ser guardião do pai para o resto de seus dias. Harry o protegeria com a sua vida, conforme foi ensinado.
[...]
Londres, Inglaterra
Muitos anos antes
No mesmo dia em que Harry veio ao mundo, o silêncio do fim daquela tarde no imenso casarão dos Styles foi quebrado por batidas insistentes na porta da frente.
Desmond, que até então lia tranquilamente em seu escritório, levantou-se contrariado e caminhou até a entrada. Quando abriu a porta, o rosto que encontrou o fez empalidecer.
Era uma mulher de aparência cansada, mas ainda bonita, com os olhos marcados pela dureza de quem enfrentou muitas batalhas. Ao seu lado, uma garotinha de cabelos ruivos e olhar curioso, agarrada à saia da mãe.
— O que diabos você está fazendo aqui?– Desmond perguntou, abaixando a voz, enquanto olhava em volta para se certificar de que nenhum criado estava por perto.
— Precisamos conversar.– a mulher respondeu, firme. — Eu não tenho mais para onde ir, Desmond. Você prometeu cuidar de nós.
O homem deu um passo à frente, fechando parcialmente a porta atrás de si. Ele nem mesmo pensou em suas palavras antes de proferi-las.
— Eu não prometi nada!– ele rebateu, entre dentes.
— Você sabia o que isso era desde o início. Não deveria ter vindo. Se Anne descobrir...
— Anne?– a mulher interrompeu, sua voz subindo em indignação. — Enquanto você vive com sua esposa perfeita, sua filha... Nossa filha... — ela apontou para a garotinha, que apertou os lábios em silêncio.— Está passando fome!
Desmond olhou para a menina por um breve momento, mas desviou rapidamente o olhar. Ele não queria ver o reflexo de seus próprios erros naquela criança.
A verdade é que errou feio ao trair a esposa em um momento, talvez dois, de estresse no casamento.
Ele e Anne haviam se casado recentemente, e a vida de casados era complicada, especialmente para Desmond que estava assumindo os negócios do pai.
O estresse, a pressão e claro, a dificuldade para Anne engravidar resultaram em erros irreparáveis por parte do homem. Erros que estavam ali em sua frente e precisavam ser esquecidos.
— Você acha que pode aparecer aqui e destruir tudo o que eu construí? Não vai acontecer.– ele se aproximou mais, abaixando a voz para um sussurro ameaçador.
— Se você tentar algo, eu acabarei com você.
A mulher deu um passo para trás, mas não deixou de encará-lo com ódio. As lágrimas já molhando as bochechas.
— Você é um covarde, Desmond. E um homem podre.
— Vá embora.– ele ordenou, fechando a porta com força, sem sequer olhar para a menina uma última vez.
Em seguida ouviu um estrondo de um trovão e percebeu que ainda chovia. O choro estridente do pequeno Harry ecoou pelo andar de cima e então ouviu a esposa o chamar. Com isso voltou a realidade e correu ao chamado de Anne, tentando apagar a imagem das duas na porta minutos antes.
Depois daquela noite, o homem não voltou mais a ver a amante, e muito menos a garotinha que ela dizia ser sua filha.
Cora cresceu vendo a mãe se debater contra a pobreza, recorrendo ao mesmo triste destino que ela anos depois, se prostituindo para sobreviver.
A menina perdeu a mãe aos 12 anos, uma doença incurável naquela época, tuberculose. Quando isso aconteceu, a sua raiva pelo pai ausente só aumentou.
Ela jurou que, um dia, faria Desmond pagar.
Quando se tornou adulta, Cora se tornou uma mulher ambiciosa e manipuladora, capaz de usar sua beleza e inteligência para atingir seus objetivos. E ali naquele momento, ela percebeu que possuía a oportunidade perfeita de relembrar ao pai de que ainda existia.
Aos 17 anos, Harry Styles era apenas um garoto bonito, confiante e completamente alheio ao olhar afiado de Cora, que o observava de longe durante uma tarde em que ele cavalgava nos campos da propriedade da família.
— Então esse é o filho perfeito?– Cora murmurou para si mesma, os lábios se curvando em um sorriso malicioso.
Ela soube, naquele momento, que ele seria sua ferramenta perfeita para atingir o pai que tanto odiava. Era irônico e delicioso.
— Não se preocupe, Desmond. Eu vou destruir tudo o que você ama... A começar por ele.
Naquele mesmo dia, seu plano começou a tomar forma, e ela passou os meses seguintes se aproximando do mundo de Harry. Admitiu-se a si mesma que foi muito fácil enganar o pobre garoto com juras de amor e momentos íntimos. Cora foi seu primeiro beijo, seu primeiro amor e sua primeira transa.
Veneza, Itália
Tempos atuais
Em um luxuoso hotel em Veneza, com vista para os canais iluminados pela luz da lua, Cora estava debruçada sobre uma taça de vinho.
A mulher estava inquieta, os dedos tamborilando na mesa de mármore enquanto observava o homem à sua frente. Ela nunca foi uma mulher de um homem só, jamais conseguiu amar alguém a não ser a própria mãe, mas percebeu que precisava de segurança.
Um italiano de quase dois metros de altura e músculos imensos, parecia uma ótima escolha.
— Não posso continuar assim, Lorenzo.– ela declarou, sua voz um misto de tédio e irritação. — Essa cidade está me sugando tudo e não me dando nada em troca.
Lorenzo, um homem de aparência rude, mas com olhos brilhando de devoção, se remexeu na cadeira. Ele era completamente submisso a Cora, apaixonado de uma forma obsessiva.
— O que você quer que eu faça, mia cara?– ele perguntou, preocupado. — Só diga. E eu farei qualquer coisa.
Cora sorriu de lado, um sorriso calculado, e se levantou, caminhando até ele em passos lentos e graciosos.
— Precisamos de dinheiro. Muito dinheiro. E, felizmente, eu sei exatamente onde conseguir.– ela colocou a mão no ombro dele, o olhando com falsa doçura.
— Londres?– Lorenzo deduziu, franzindo o cenho. Cora mencionava aquele lugar com tanta frequência que não havia outro para chutar.
— Exato.– a mulher respondeu, voltando a se afastar. — Preciso participar de um evento especial. Uma reunião de família, digamos assim.
— Família?
Ela riu, uma risada seca e sem humor, enquanto se servia de mais vinho.
— Não é exatamente o tipo de família que você imagina, querido.– ela tomou um gole antes de continuar. — Quero que você venha comigo. Vamos fazer algo... Memorável.
A ruiva sorria largo, se aproximou do homem e sentou-se em seu colo com uma animação bastante óbvia.
— Memorável?– Lorenzo inclinou a cabeça. — O que você quer dizer com isso?
Cora se aproximou um pouco mais, segurou o rosto do homem e acariciou suas bochechas, os olhos brilhando com uma combinação perigosa de vingança e determinação.
— Preciso de uma arma. Algo pequeno, discreto. Você vai me ajudar com isso, certo?
Lorenzo hesitou por um momento, mas sua lealdade à mulher que adorava logo o venceu. E ele rodou os braços pela cintura de sua amada.
— Claro, farei o que você pedir. Mas por quê?
Cora colocou a taça sobre a mesa e inclinou-se, segurando o rosto de Lorenzo entre as mãos, mais uma vez.
— Porque vou precisar levar um presente de aniversário adiantado, meu amor.
A mulher encarou os olhos do homem a sua frente. Havia finalmente chego a hora do seu querido papai pagar com a vida, tudo o que ela viveu.
Tudo já estava planejado:
1. Matar o papai.
2. Reconquistar o idiota do filho.
3. Fazer a limpa no maldito cofre.
— Um homem me fez muito mal, Lorenzo. E você vai me ajudar a acabar com ele.
Os olhos de Lorenzo brilharam com uma mistura de confusão e excitação. Ele assentiu, incapaz de negar qualquer coisa à mulher que o dominava por completo.
— Considere feito.
Cora sorriu novamente, mas desta vez, o sorriso era frio, cruel. Mal conseguia imaginar o rosto de Desmond quando a visse mais uma vez.
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