Capítulo 21 | Lamentável
O sol estava alto no céu, iluminando o campo que se estendia ao longe, com a brisa fresca trazendo um toque de primavera ao dia. Era raro que o casarão estivesse tão calmo, sem as tensões e olhares curiosos que sempre os cercavam. Pela primeira vez em muito tempo, Harry e Louis estavam sozinhos e em paz.
Naquele momento, os dois estavam no quarto, os lençóis bagunçados e os corpos entrelaçados. A luz do sol filtrava-se pelas cortinas semifechadas, projetando padrões suaves na parede. Louis, com as pálpebras ainda pesadas pelo sono, acordou primeiro. Ele virou o rosto lentamente, como se não quisesse interromper o silêncio confortável que envolvia o ambiente. Quando seus olhos pousaram em Harry, não conseguiu conter uma risada baixa e carinhosa. O marido dormia de boca aberta, uma visão que, por mais comum que fosse, sempre o fazia sorrir.
Harry parecia sentir a atenção de Louis sobre ele. Como se adivinhasse que havia sido pego em flagrante, abriu os olhos lentamente e piscou algumas vezes para se livrar da névoa do sono. Assim que seus olhos encontraram os de Louis, um sorriso preguiçoso surgiu em seu rosto. Sem dizer uma palavra, ele se virou para o lado, apoiando-se nos cotovelos, enquanto observava o rosto de Louis com uma intensidade tranquila.
— Bom dia, dorminhoco.– Louis murmurou, sua voz suave, ainda carregada de sono.
— Bom dia para você também.– respondeu Harry, sua voz rouca e relaxada. Ele esticou a mão e começou a passar os dedos pelos cabelos longos e bagunçados de Louis, um gesto que se tornara quase automático para ele.
Louis fechou os olhos por um momento, inclinando-se levemente contra o toque de Harry. Era um carinho simples, mas que carregava algo muito maior, a sensação de conforto, de pertencimento. Aquele momento, longe de tudo e de todos, era só deles, e Louis se viu desejando que pudesse durar para sempre.
— Você sabe que está com o cabelo completamente desarrumado, né?– provocou Harry, um sorriso brincalhão dançando em seus lábios.
Louis abriu os olhos, arqueando uma sobrancelha enquanto levava a mão ao próprio cabelo.
— Olha quem fala!– respondeu ele, rindo.— O seu parece um ninho de pássaros!
Harry riu alto, sua gargalhada enchendo o quarto com uma leveza que contrastava com a quietude anterior. Era algo que Louis adorava. Adorava a maneira como o marido conseguia transformar qualquer momento simples em algo especial, algo memorável.
— Você sabia que, você ronca?– Harry provocou, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios. Ele adorava irritar a esposa, se tornou um de seus passatempos favoritos pelas manhãs.
Louis revirou os olhos, empurrando levemente o peito de Harry.
— E você sabia que dorme de boca aberta e fala dormindo?– retrucou, o tom sarcástico já tão natural quanto respirar.— Algo sobre "Querida, por favor, não me deixe...", soa familiar pra você?
Harry gargalhou, mas havia um leve rubor em suas bochechas. Ele se inclinou, mordiscando a ponta do nariz de Louis de maneira brincalhona.
— Então você está dizendo que até dormindo eu sou devoto a você? Que curioso.
Louis tentou conter o sorriso, mas falhou miseravelmente, seus olhos brilhando enquanto tentava manter a pose de superioridade.
— Ou apenas um bobo desesperado.
— Um bobo apaixonado, talvez.– Harry respondeu sem hesitar, o sorriso suavizando enquanto ele traçava o maxilar de Louis com o dedo.
A leve tensão do momento se dissolveu quando Louis puxou Harry pela nuca, seus lábios se encontrando em um beijo calmo e preguiçoso, como se tivessem todo o tempo do mundo.
Era realmente curioso como aquela chavinha podia girar. Uma hora se provocando, em outra se comendo de forma gostosa e... Escandalosa. Louis realmente gostava da pegada firme que o marido tinha, especialmente pela manhã.
O silêncio confortável voltou a se instalar, enquanto eles permaneciam ali, deitados lado a lado, os dedos de Harry ainda brincando distraidamente com os cabelos de Louis. O mundo lá fora podia esperar. Por enquanto, tudo o que importava era o calor do sol, a brisa fresca entrando pela janela e a presença um do outro. Cada risada, cada toque, cada olhar trocado era uma lembrança que eles sabiam que guardariam para sempre.
Mais tarde, depois de se arrumarem e dividirem um gostoso e relaxante banho de banheira, Harry surgiu com uma ideia, digamos, um tanto sorrateira.
— Vamos cavalgar. Faz tempo que você não me deixa te vencer em algo.
— Me vencer?– Louis arqueou uma sobrancelha, já animado com aquela ideia.— Você só pode estar sonhando, Harry. Como sempre.
O sorriso de Harry se alargou.
— Prepare-se para perder, querida.
Quando ambos desceram ao estábulo e montaram no par de cavalos já devidamente selados, os dois cavalos correram lado a lado, os risos ecoando pelo campo aberto.
Louis estava na frente, mas Harry, sendo competitivo como sempre, forçou uma aceleração, passando por ele apenas para ouvir as reclamações de Louis.
— Trapaceiro!– Louis gritou, desacelerando ao perceber que Harry realmente tinha ganhado.
Quando finalmente pararam mais afastado do casarão, Louis desceu do cavalo com um resmungo, tentando ignorar o sorriso de vitória no rosto de Harry.
— Eu deixei você ganhar.– ele disse, cruzando os braços.
Harry se aproximou, envolvendo os braços ao redor da cintura de Louis e puxando-o para perto.
— Claro que deixou.– murmurou rindo, os olhos brilhando enquanto olhava para os lábios de Louis.
— Mas quer saber? Não me importo em perder, desde que eu ainda tenha você no final.
Louis revirou os olhos, mas seu sorriso entregou tudo.
— Você é insuportável.
— E você me ama por isso.
Harry o beijou ali mesmo, com o sol iluminando seus rostos e o campo ao redor parecendo tão vasto quanto os sentimentos que compartilhavam.
— Certo... Agora que estamos aqui, vou te ensinar a usar uma dessas.– Harry murmurou quando se afastaram, e devagar tirou a sua arma da cintura.
— Não mesmo. Não acredito que me trouxe aqui para isso... É sério?– Louis cruzou os braços, inclinando a cabeça.— Isso é a sua ideia de romance? Me ensinar a atirar?
Harry, com aquele sorriso convencido que Louis odiava amar, deu de ombros. Ele segurava a arma com a mesma naturalidade de quem segurava um livro, e o olhar nos olhos verdes era de puro desafio.
— Você é minha esposa, querida. Precisa saber se defender.– ele respondeu, aproximando-se e estendendo a arma para Louis.— Além disso, você fica linda quando tenta me impressionar.
Louis arqueou uma sobrancelha, tentando ignorar a maneira como a voz baixa de Harry fazia sua pele arrepiar. Demorou longos minutos e então ainda meio desconfiado, pegou a arma com hesitação, olhando para o objeto como se pudesse explodir a qualquer momento.
— Eu não preciso de uma arma para me defender. Tenho uma língua afiada o suficiente para derrubar qualquer um.– retrucou, enquanto Harry ria suavemente.
— Ah, eu sei disso melhor do que ninguém.– Harry deu um passo à frente, posicionando-se atrás de Louis. Ele segurou os pulsos da esposa, guiando seus movimentos.— Mas isso aqui é sobre precisão, querida. Vamos ver se você consegue acertar aquele tronco.
Louis revirou os olhos, mas deixou que Harry ajustasse sua postura. Ele sentiu o calor do corpo de Harry contra suas costas, e a proximidade fez seu coração bater mais rápido, embora ele nunca admitisse isso em voz alta.
— Você é péssimo nisso, sabia?– Louis murmurou, tentando parecer indiferente, mesmo com o perfume amadeirado de Harry invadindo seus sentidos.
— Péssimo em quê? Ser um excelente professor ou fazer você corar?– Harry sussurrou no ouvido dele, e Louis quase perdeu a paciência.
— Harry, se você não calar a boca...
— Você vai fazer o quê? Atirar em mim?– Harry riu, apertando mais as mãos de Louis ao redor da arma.
— Porque isso seria interessante.
Louis bufou, mas concentrou-se no alvo à sua frente. Ele respirou fundo e apertou o gatilho. O tiro passou longe do tronco, fazendo Harry gargalhar enquanto soltava os ombros de Louis.
— Absolutamente lamentável.– Harry provocou, o tom cheio de diversão.
— Talvez eu devesse usar isso em você mesmo.– Louis retrucou, virando-se com a arma ainda em mãos, embora claramente não tivesse a intenção de atirar.
— Não duvido que você seja capaz, mas se vai fazer isso, ao menos me deixe beijar você uma última vez.
Louis tentou manter a expressão impassível, mas o sorriso que surgiu em seus lábios o traiu.
— Você é insuportável.
Harry não respondeu, apenas puxou Louis pela cintura, suas mãos firmes enquanto inclinava a cabeça para capturar os lábios da esposa em um beijo intenso. O campo ao redor parecia desaparecer enquanto o beijo se aprofundava, as provocações sendo esquecidas por um momento.
Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes, os olhos fixos um no outro.
— Então, quem foi que acabou impressionado, afinal?– Harry perguntou, o sorriso de pura provocação ainda presente.
— Não me teste, Styles.– Louis respondeu, mas seu tom já não tinha tanto desafio quanto antes.
— Vou aceitar isso como uma vitória.
Os dois acabaram sentados na grama, com Harry tentando explicar mais sobre como manusear a arma, enquanto Louis continuava a zombar de cada tentativa frustrada. O sol começava a se pôr, e a atmosfera ao redor deles parecia carregada de algo ao mesmo tempo leve e intenso.
Quando Louis finalmente conseguiu acertar o tronco, Harry o pegou no colo, girando-o no ar enquanto ria alto, ignorando os protestos indignados do garoto.
— Pare de agir como uma criança!– Louis gritou, mas estava rindo, algo que Harry percebeu e guardou para si como uma pequena vitória.
Harry se sentia extremamente sortudo. Olhou para Louis com um sorriso no rosto, sentindo uma onda de satisfação, o sol estava se pondo, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados, e o cenário ao redor parecia refletir a paz que ele sentia naquele momento.
Era uma tranquilidade simples, mas profundamente gratificante.
Enquanto girava Louis no ar, ouvindo seus gritos de protesto misturados com risadas, Harry pensou em como a vida havia se transformado desde que ele decidira se comprometer com sua família. Ele nunca imaginou que teria algo tão firme, tão sólido, como o relacionamento que construíra com sua esposa. A sensação de pertencimento era algo que ele nunca experimentara plenamente antes.
Nem mesmo ao lado de Cora.
Mas, à medida que as risadas diminuíam e Louis finalmente se soltava dos braços de Harry, ele percebeu algo mais.
O garoto estava mais solto, mais à vontade, e isso fazia seu coração se aquecer. As provocações e a forma como Louis o desafiava eram, de certa forma, a sua maneira de buscar proximidade. Harry sabia disso, mas também reconhecia que havia uma parte dele que ainda queria ver Louis crescer, amadurecer, e talvez entender melhor a responsabilidade que estava assumindo ao construir algo mais sério com sua esposa.
Harry observou o horizonte por um momento, suas mãos ainda suando levemente pela empolgação do jogo. Mas o sorriso no rosto de Louis e o ambiente descontraído ajudavam a aliviar a tensão que ele sentia no fundo de sua mente. Sabia que as coisas nunca seriam simples, mas ele estava disposto a lutar por elas.
— Eu sou muito sortudo.
Murmurou Harry, sentindo o peso da palavra de forma diferente. Não era apenas por ter uma família unida, mas pela jornada que ele sabia que ainda estava por vir. Cada momento como esse, cada risada, cada conversa com Louis, fazia ele se sentir mais conectado, mais completo.
Harry não pôde deixar de refletir sobre os caminhos que a vida o levara. O que ele mais temia depois de toda aquela briga que tiveram, no fundo, era perder essas pequenas vitórias cotidianas. Mas ele sabia que, com o tempo, tudo se encaixaria. A confiança que ele estava construindo com sua esposa, mesmo que fosse testada por pequenas dúvidas, valia mais do que qualquer insegurança.
Ele continuaria lutando por isso, com uma convicção que o fazia sorrir por dentro. E, naquele momento, rodeado pela simplicidade daquela tarde e pela presença da mulher que ele amava, ele sentiu que a vida, apesar das dificuldades e inseguranças, estava exatamente onde deveria estar.
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