Capítulo 20 | Fraco

O som da música ao vivo dos violinos sendo ajustados e o murmúrio dos convidados ecoavam pelos jardins bem-cuidados, onde arcos de flores adornavam o caminho que levava ao altar.

A família poderosa dos rapazes ocupavam metade das cadeiras, enquanto a família igualmente influente de Magnólia, ocupava todo o resto. Desmond estava ao lado do filho mais novo, extremamente orgulhoso por aquela aliança.

Harry também se sentia orgulhoso, afinal a decisão havia sido sua.

Ainda dentro do casarão as mulheres aguardavam a noiva. Louis, porém, estava no quarto, observando-se no espelho com uma expressão impassível.

O vestido bordô abraçava seu corpo com perfeição, o espartilho realçando sua silhueta e a saia fluindo com elegância pelo chão. Ele sabia exatamente o impacto que causaria, e era esse impacto que ele desejava. 

— Louis, você está pronto?– Anne chamou do corredor, mas hesitou ao entrar no quarto. Seus olhos pousaram no vestido, e ela parou abruptamente.— O que... O que é isso? 

— Apenas algo que achei apropriado para a ocasião.– Louis respondeu friamente, ajustando a alça do vestido e passando as mãos levemente no saiote, se sentia poderoso.

Anne quis protestar, mas desistiu. O tom de voz do garoto não deixava espaço para discussões. Ela sabia que qualquer palavra seria ignorada, então apenas deu um passo para trás e deixou que Louis passasse. 

Quando Louis enfim seguiu para o ambiente onde havia se montado a cerimônia, o burburinho cessou. Todos os olhares se voltaram para ele. As mulheres que haviam chego com Anne, cochicharam entre si, e os homens o observaram com admiração velada.

O vestido bordô, vibrante e ousado, destoava completamente dos tons claros e delicados que dominavam o ambiente. 

Mas obviamente, nenhum olhar foi mais intenso do que o de Harry. 

Ele estava parado ao lado de Zayn, ambos cumprimentando os convidados que se aproximavam. Quando seus olhos encontraram Louis, ele congelou.

O choque foi imediato, como se todo o ar tivesse sido retirado a força de seus pulmões. 

O vestido. A cor. O corte. Era idêntico ao que Cora usara na noite em que a apresentou ao pai, na noite em que tudo desmoronou. Conseguiu se lembrar perfeitamente e com todos os detalhes.

Harry sentiu o peito apertar. A sensação era sufocante. Ele não sabia se era raiva, dor ou uma mistura cruel dos dois. 

Louis percebeu a reação dele e ergueu o queixo com um ar de desafio. Ele sabia que tinha conseguido o que queria. 

Zayn, ao lado de Harry, notou a tensão e rapidamente desviou o olhar de Louis. A presença do vestido o incomodava, mas ele sabia que aquilo não era para ele. Era para Harry. 

Aquele circo só foi desmontado, quando Magnólia apareceu. Uma visão em branco enquanto caminhava pelo caminho de rosas brancas em direção ao altar, com um sorriso deslumbrante, capturando a atenção de todos os presentes. 

Durante a cerimônia, Harry mal conseguia se concentrar. Seus olhos sempre voltavam para Louis, sentado entre os convidados com uma postura impecável. Ele parecia distante, inalcançável, mas também... Cruel. 

Quando a cerimônia terminou e os convidados se moveram para o salão de festas, Harry finalmente encontrou coragem para se aproximar de Louis. Esperou que as mulheres se afastassem um pouco dele e então com uma falsa gentileza, segurou seu antebraço e aproximou os lábios de sua orelha.

— O que você acha que está fazendo?– ele sussurrou, a voz baixa e carregada de emoção. Harry sentia que podia explodir a qualquer instante.

Louis virou-se lentamente para ele, um sorriso irônico no rosto. 

— Apenas aproveitando o evento, querido. Algum problema? 

Harry o encarou, os olhos escuros repletos de frustração e mágoa.

— Você sabe o que está fazendo, Louis. 

O garoto sorriu de forma cínica, por estarem a frente dos familiares do mais velho.

— Sei, sim. Estou apenas lembrando você do que realmente importa.– Louis respondeu, aproximando-se do marido apenas o suficiente para sussurrar.— Mas parece que você ainda não entendeu. 

Antes que Harry pudesse responder, Louis se afastou, desaparecendo entre os convidados. Harry ficou parado, tentando controlar as emoções que ameaçavam transbordar. 

Sentiu os próprios olhos arderem e os punhos se fecharem com uma força descomunal. Iria ser quase impossível de suportar o fim do casamento do irmão até que pudesse tirar satisfação com a esposa da forma que realmente desejava.

Louis havia ultrapassado todos os limites. Todos eles como um maldito trator.

O casamento de Zayn e Magnólia continuou como planejado, mas para Harry, a noite estava longe de terminar. A imagem de Louis naquele vestido bordô ficaria gravada em sua mente como um lembrete cruel do passado e do presente que ele não conseguia controlar. 

[...]

Lentamente a festa foi chegando ao fim. Zayn curtiu mais do que deveria e embarcou no carro ao lado da esposa, já um pouco alto. Bebeu todas.

Mas não era isso o principal ponto da noite. Quando enfim o casal se foi, Harry virou seu copo de uísque de uma vez, e sabendo que a esposa o esperava em seu escritório, avançou até o mesmo em passos firmes.

Havia pedido a sua mãe que mandasse sua esposa ao escritório e que também o substituísse como anfitrião e se despedisse de seus familiares em seu nome.

O escritório estava mergulhado em sombras, iluminado apenas pela luz suave da lareira crepitante. Harry entrou em passos firmes, a tensão irradiando a cada passo.

Louis já estava ali, de pé junto à mesa, segurando uma taça de vinho. O garoto não parecia intimidado pela presença do marido. Pelo contrário, seu olhar desafiador era quase um convite para o confronto inevitável. 

— Feche a porta.– Louis ordenou, a voz fria e controlada. 

Harry obedeceu, fechando-a com um estrondo que fez as paredes tremerem. Mas Louis não tremeu.

— O que você queria provar hoje, Louis?– Harry começou, as palavras impregnadas de raiva. 

Louis levou a taça aos lábios e tomou um gole lento, antes de responder com bastante indiferença.

— Provar? Não sei do que você está falando. 

Harry deu dois passos rápidos à frente, sua postura rígida. A respiração dele era quase como se tivesse corrido uma maratona.

— Não brinque comigo. Aquele vestido...– ele quase cuspiu as palavras.— Você sabia exatamente o que estava fazendo! Tentando me provocar, tentando testar a porra dos meus limites!

— Então meus parabéns a mim mesmo. Parece que funcionou.– Louis rebateu, o tom carregado de sarcasmo. Não sentia medo.

Harry finalmente riu, um som curto e sem humor. 

— Você acha que isso é a porra de um jogo? Você tem ideia de como fez todos olharem para você? Como humilhou sua própria família? 

Louis deu um passo à frente, encarando-o com olhos brilhando de emoção contida. 

— Família? Que família, Harry? Uma que prefere viver de segredos e aparências?– o garoto balançou a cabeça, soltando um riso amargo.— Eu só fiz o que todos vocês já fazem, usar a hipocrisia como traje. 

Aquilo irritou Harry profundamente.

— Louis, chega!– o maior gritou, a voz ecoando no ambiente. 

— Não me diga o que fazer!– Louis devolveu, a voz cortante e na mesma altura.— Você não tem esse direito, Harry! Não depois de tudo!

— Depois de tudo o quê?– Harry perguntou, a raiva misturada com confusão. 

Louis hesitou por um momento, mas então avançou, pressionando o dedo contra o peito do marido. 

— Eu sei sobre tudo Harry. Sei sobre a adorada e idolatrada... Cora.

O nome caiu no silêncio da sala como uma pedra em um lago calmo. O rosto de Harry congelou, a surpresa evidente. 

— C-como você...

— Eu sei.– Louis respondeu, a voz trêmula.— Sei sobre ela, sobre o quanto você a ama. Sei que ainda pensa nela. 

— Isso não é verdade!– Harry rebateu, a voz mais alta do que pretendia. 

— Não minta para mim!– Louis gritou, a emoção finalmente transbordando.— Você a ama, e eu sou apenas... A maldita segunda opção.

Harry levantou a mão instintivamente, a raiva o consumindo, mas parou no meio do gesto, horrorizado consigo mesmo. 

— Me bata.– Louis desafiou, as lágrimas escorrendo por seu rosto.— Termine o que começou. 

Harry recuou, a mão tremendo ao lado do corpo, as lágrimas começando a cair. 

— Eu nunca... Eu não poderia... 

— Claro que não poderia. Você é fraco.

A voz de Louis estava quebrada, mas suas palavras cortantes como uma faca. 

— Eu te amo, Louis.– a confissão saiu de Harry como uma explosão, cheia de dor e arrependimento. 

Louis piscou, surpreso, mas logo balançou a cabeça, rindo amargamente. 

— Não diga isso. Não me machuque mais do que já fez...

— É verdade.– Harry insistiu, os olhos fixos nos de Louis, brilhando com lágrimas.— Eu te amo. Eu só não sei como provar isso para você. 

Louis ficou em silêncio, o peito subindo e descendo rapidamente. Então, ele finalmente murmurou, quase inaudível.

— Eu também te amo, Harry. 

A sala caiu em um silêncio pesado, ambos chorando em meio à confissão que deveria ser libertadora, mas parecia apenas intensificar a dor entre eles.

A respiração pesada de ambos preenchia o silêncio do escritório, os corpos ainda próximos, como se não quisessem romper o elo que acabavam de reconstruir. Harry segurou o rosto de Louis, os dedos deslizando pela pele quente enquanto seus olhos verdes buscavam os azuis da esposa.

— Eu preciso que você entenda uma coisa, Louis.– a voz de Harry estava baixa, mas firme, carregada de uma sinceridade que parecia cortar o ar entre eles.

Louis permaneceu em silêncio, a cautela evidente no olhar enquanto esperava o que Harry tinha a dizer.

— Cora está morta.– Harry afirmou, e, pela primeira vez, não havia tristeza em seu tom. Apenas uma aceitação resignada.— E com ela, todo o passado que eu carregava.

Louis tentou desviar o olhar, mas Harry não deixou.

— Olhe para mim, Louis.– ele pediu, a voz um pouco mais suave, mas ainda cheia de determinação. Quando os olhos de Louis encontraram os seus novamente, ele continuou.— Eu não estou mais preso a ela. Não estou mais preso ao que ela significou ou ao que poderia ter sido.

Harry fez uma pausa, o polegar acariciando a bochecha de Louis com delicadeza.

— Tudo o que eu quero agora está bem aqui, na minha frente. Você.

Louis sentiu o peito apertar com aquelas palavras, mas não conseguiu evitar o tom defensivo que sempre surgia quando estava vulnerável.

— E como eu sei que isso não vai mudar? Que você não vai se lembrar dela na próxima vez que brigarmos?

Harry soltou um suspiro, mas não recuou. Ele segurou as mãos de Louis, apertando-as com força.

— Porque eu escolho você, Louis. Eu escolho você todos os dias, mesmo quando não sei como mostrar isso direito.

Louis mordeu o lábio, as palavras de Harry fazendo algo se mexer dentro dele, uma mistura de esperança e medo.

— Eu só quero ser suficiente para você, Harry.

— Você é mais do que suficiente.– Harry respondeu sem hesitar, a intensidade em seus olhos quase esmagadora.— Você é a única coisa que faz todo o resto valer a pena.

Antes que Louis pudesse responder, Harry o puxou para um beijo, este mais calmo, mas carregado de significado. Suas bocas se moveram juntas em um ritmo lento, como se estivessem selando a promessa feita entre eles.

Quando finalmente se separaram, Harry tocou a testa de Louis com a sua, os dois ainda ofegantes.

— Vamos começar de novo. Sem passado, sem fantasmas. Só você e eu.

Louis fechou os olhos, permitindo-se acreditar, mesmo que uma parte dele ainda duvidasse.

— Só você e eu.– ele repetiu baixinho, como uma promessa mútua, antes de puxar Harry para perto novamente.

Dessa vez, quando seus corpos se uniram sobre a mesa do escritório, não era apenas desejo. Era uma necessidade quase desesperada de reconstruir algo que parecia ter sido quebrado desde o início.

Harry fez questão de tocar Louis com um cuidado que beirava a reverência, como se estivesse reafirmando sua escolha com cada gesto.

— Eu estou aqui, Louis. Sempre estarei.– ele murmurou contra os lábios do menor, enquanto ambos se perdiam na intensidade de seus sentimentos, reconstruindo seu amor pedaço por pedaço.

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