Capítulo 14 | Trisha
O voo de volta foi desconfortavelmente longo, um silêncio quase palpável pairando entre os dois. Harry estava irredutível, mantendo sua postura rígida e impenetrável. Não trocou sequer uma palavra com a esposa durante todo o percurso, deixando claro que seu castigo não seria apenas a redução abrupta da lua de mel, mas também o gelo que ele manteria pelos próximos dias. Ele julgava necessário dar essa lição — uma lição que, em sua mente, reforçaria os limites de seu casamento.
Louis, por sua vez, estava cabisbaixo, consumido por um misto de vergonha e arrependimento. Seus olhos estavam inchados por conta das lágrimas que derramara em silêncio, e ele não ousava erguer a cabeça. Não conseguiu dormir nem por um minuto. Toda a viagem foi preenchida por pensamentos tortuosos sobre o que o futuro reservava. Ele se perguntava, desesperadamente, como seria sua vida se Harry decidisse ignorá-lo para sempre.
Quando o avião pousou e ambos caminharam em direção ao carro de luxo estacionado na entrada do aeroporto, Louis reuniu toda a coragem que tinha para tentar quebrar aquela barreira. Hesitante, estendeu a mão em direção ao marido, buscando contato, um gesto de reconciliação. Mas Harry, implacável, enfiou ambas as mãos nos bolsos do terno, sem sequer lançar um olhar para o garoto.
O coração de Louis se partiu naquele momento. Era como se uma onda de gelo o envolvesse por completo, esmagando qualquer esperança que ainda tinha. Ele engoliu a vontade de chorar mais uma vez, mantendo a compostura enquanto o motorista os levava de volta ao casarão. O trajeto foi silencioso, cada quilômetro percorrido aumentando o peso em seus ombros.
Quando finalmente chegaram, o carro estacionou na imponente entrada da mansão. Louis suspirou ao reconhecer os portões que tanto associava à sua nova vida. Porém, naquela situação, eles pareciam menos acolhedores e mais opressores.
Harry foi o primeiro a falar, sua voz saindo objetiva e carregada de frieza.
— Desça. Edgar vai ajudá-la com as malas até o nosso quarto. E não quero que conte nada à minha mãe sobre o motivo pelo qual precisei encurtar a nossa viagem.
Ele não se deu o trabalho de olhar para Louis enquanto falava, os olhos verdes fixos em algum ponto à frente. Sua postura era a de um homem calculista, decidido, como se as emoções do outro fossem irrelevantes naquele momento.
Louis assentiu com um aceno rápido, sem coragem de erguer a cabeça para encontrar o olhar do marido. Não confiava em sua própria voz para responder, temendo que ela entregasse o nó que sentia na garganta.
Harry continuou, a mesma frieza pontuando suas palavras:
— Chegarei no fim da tarde e desejo que esteja pronta para me receber.
Foi tudo o que disse antes de fazer um breve gesto para o motorista, indicando que poderia seguir. Louis obedeceu imediatamente, saindo do carro enquanto o segurança recolhia suas malas. Ele observou o automóvel acelerar e desaparecer pelo caminho de pedras que levava aos portões da propriedade.
Ficou parado ali por alguns segundos, sentindo-se esmagado pelo peso de suas emoções. A casa, que deveria representar segurança e conforto, parecia agora um lugar vazio, onde ele enfrentaria sua solidão até que Harry decidisse quebrar o gelo. Louis respirou fundo, tentando manter a calma, mas o aperto em seu peito o lembrava que aquilo não seria fácil.
Enquanto seguia para dentro da mansão, com Edgar atrás carregando suas malas, Louis só conseguia pensar em como poderia reconquistar a confiança de Harry. A ideia de passar os próximos dias naquela distância emocional o aterrorizava mais do que qualquer castigo físico que o marido pudesse aplicar. Afinal, o silêncio de Harry era mais cruel do que qualquer palavra dita em voz alta.
Durante o caminho até o quarto, felizmente o garoto não se esbarrou com ninguém. Caso contrário não iria conseguir segurar o choro. Quando enfim entrou em seu quarto, suspirou percebendo que estava em um cômodo diferente.
Era muito maior que o seu e o antigo quarto de Harry. A cama de casal o reconfortou de alguma maneira, pois pelo menos ainda a dividiria com o marido. Passou os olhos devagar por aquelas paredes escuras e altas e só então observou aquele maldito móvel ao lado da cama.
Chegou a sentir sua respiração pausar por alguns segundos. Antes de casarem, era realmente apenas um mistério prazeroso a se solucionar, mas agora casados e com a relação mexida, Cora parecia uma ameaça.
Louis simplesmente não podia ignorar o peso emocional que aquele móvel carregava, especialmente porque sabia o que Harry guardava nele. Entre os papéis importantes e objetos antigos, também estavam as lembranças de uma mulher que ele ainda não tinha coragem de mencionar pelo nome. Aquele pequeno detalhe o chateou, como uma lembrança incômoda de que ele talvez nunca fosse o único ocupando os pensamentos de Harry.
Afinal, porque Harry guardaria um mausoléu da antiga amada no quarto em que dividiria com sua própria esposa?
Louis suspirou, e com coragem se aproximou do móvel, sentando-se a cama. Forçou a abertura da gaveta, e xingou mentalmente por ela estar trancada.
Conseguia se lembrar perfeitamente do que havia encontrado lá dentro aquela noite e talvez, fosse aquela explosão de sentimentos pela manhã que tivesse o deixado sensível.
Ficou alguns minutos calado e pensativo, e quando estava prestes a forçar a abertura da gaveta para confirmar o que estava dentro, ouviu toques gentis na porta.
— Querida... Eu sei que deve estar cansada, mas Trisha está aqui e adoraria conhecê-la!– a voz de Anne saiu atenciosa e doce.
Louis suspirou, Anne vinha sendo tão carinhosa, jamais poderia negar. Encarou o móvel uma última vez e então se levantou, passou as mãos pela barra do vestido que usava e então seguiu em direção a porta.
[...]
Ao chegarem ao terraço ensolarado do casarão, Louis sentiu um misto de apreensão e desconforto. Não esperava que aquela tarde tomasse aquele rumo tão inesperado, mas ali estava ele, ao lado de Anne e de uma mulher que exalava uma presença marcante. Os cabelos castanhos escuros de Trisha Malik reluziam sob o sol, e sua postura carregava uma mistura de autoridade e serenidade que a tornava impossível de ignorar. Porém em seus lábios se abria um leve sorriso simpático.
— Louis, esta é Trisha Malik, uma amiga de longa data. Trisha, este é Louis, esposa de Harry.
Louis forçou um sorriso educado enquanto apertava a mão dela.
— É um prazer conhecê-la, Louis.– disse Trisha, com um sorriso caloroso. — Anne fala sempre muito bem de você.
— O prazer é meu.— respondeu ele, tentando soar natural, mas seu tom saiu um pouco tenso. Louis sentia-se deslocado e, mais ainda, surpreso ao conectar o sobrenome da mulher ao irmão de Harry. Ele realmente não esperava conhecer a mãe de Zayn.
Enquanto Anne tomava seu lugar à mesa, Louis tentava processar o motivo daquela visita. Ele se perguntava o que exatamente ela estava fazendo ali e, pior, qual seria o envolvimento de Harry nessa história. A lembrança da escrivaninha ainda pesava em sua mente, e ele estava inquieto com tudo o que vinha acontecendo desde o retorno da lua de mel.
A conversa entre Anne e Trisha parecia leve e descontraída, repleta de risadas e memórias de seus filhos, mas Louis permaneceu em silêncio, perdido em pensamentos. Ele não conseguia afastar da mente a preocupação com Zayn, a sensação de desconforto com a escrivaninha, o retorno abrupto da lua de mel e, sobretudo, a frieza que Harry demonstrava desde então.
Anne percebeu rapidamente o silêncio de Louis e decidiu intervir.
— Louis, você está tão quieta hoje. Está tudo bem?
Ele ergueu os olhos, pego de surpresa pela pergunta direta. Tentou esboçar um sorriso, mas falhou miseravelmente.
— Ah, sim... Está tudo bem. Só um pouco cansada, talvez.
Anne franziu o cenho, obviamente não convencida, mas optou por não pressioná-lo naquele momento.
— Como foi a lua de mel? Harry me disse que vocês voltaram mais cedo do que o planejado. Eu me lembro bem que ele havia comentado sobre um mês inteiro fora.– comentou ela, de forma aparentemente casual, mas com um olhar atento.
A pergunta fez o coração de Louis apertar. Ele hesitou, procurando as palavras certas, sem saber como explicar sem revelar demais. Afinal, o garoto não gostaria de ainda mais problemas com seu marido, ele havia sido claro sobre Louis não dizer nada.
— Foi...– o garoto respirou fundo, desviando o olhar.
— Foi boa, mas acho que tínhamos outras coisas para resolver.
Sua voz saiu baixa, quase murmurada, e ele sabia que não tinha sido muito convincente. Anne trocou um olhar rápido com Trisha, que manteve um sorriso educado, mas não comentou nada.
— Bem, às vezes a vida exige mudanças nos planos.– disse Trisha, tentando aliviar o clima. A mulher realmente não gostaria que Louis se envergonhasse caso algo não houvesse sido como desejava.
Louis assentiu, mas sentiu a inquietação crescer ainda mais. A atenção silenciosa de Anne parecia perfurá-lo, como se ela pudesse ver através de sua fachada. Ele apenas rezava para que a conversa tomasse outro rumo rapidamente.
Então, como se o universo tivesse ouvido seus pensamentos, Trisha mencionou algo que o fez congelar.
— Eu vim para ajudar Zayn com os preparativos do casamento. É uma correria, mas tudo está se encaixando.
Louis arregalou os olhos, claramente surpreso.
— Casamento?– perguntou ele, a voz ligeiramente mais alta do que pretendia.
Aquilo o pegou desprevenido, e o estômago revirou de imediato. Então era isso. A punição de Harry para Zayn... Casamento.
— Sim, Harry mencionou que Zayn precisava se estabelecer, e tudo aconteceu muito rápido.– explicou Trisha, sorrindo com satisfação. — Parece que encontraram a noiva perfeita para ele!
A mulher comemorava com entusiasmo, claramente orgulhosa. Fazia semanas que estava insistindo para que o filho tomasse um rumo mais sério, e a ideia de um casamento representava não apenas estabilidade, mas também prestígio e poder dentro da família. Para ela, era tudo o que sempre quisera para Zayn. E além disso, sabia que o pai de Zayn se sentiria orgulhoso do filho assim que viesse os netos.
Já Louis sentiu o coração disparar. A palavra "rápido" ecoava em sua mente, e ele não precisou de mais explicações para entender o que estava acontecendo. Harry.
Aquilo tinha a marca dele. Era a forma calculista e fria do marido de agir, e agora estava claro que Zayn havia sido arrastado para um casamento forçado. Era tudo o que o moreno jamais queria para si mesmo, e agora estava sendo obrigado.
Anne percebeu a mudança no semblante de Louis e pousou a mão sobre a dele, em um gesto que pretendia ser tranquilizador.
— Harry tem suas razões, Louis. Ele nunca faz nada sem pensar.
Mas aquelas palavras não trouxeram consolo. Louis forçou um sorriso, mas dentro de si, sentia-se despedaçado. Não era apenas o peso das ações de Harry que o incomodava, mas também o impacto que isso teria em Zayn.
Ele lembrava-se nitidamente da conversa que tiveram naquela tarde no hotel. Zayn não queria casar. Aquilo não fazia parte de seus planos, e agora ele estava sendo forçado a sacrificar seus próprios desejos.
O desconforto era tão grande que Louis não conseguiu sustentar a conversa por mais tempo.
— Isso é... Ótimo. Eu... Se me derem licença, preciso ir ao banheiro.– murmurou, levantando-se de forma um pouco apressada. Louis realmente precisava sair logo dali.
Ao entrar no casarão, sentiu-se desnorteado. Seus pensamentos estavam em turbilhão, e ele mal conseguia se concentrar no caminho de volta ao quarto. Quando menos esperava, deu de cara com alguém.
Seu peito colidiu contra algo firme, e ele sentiu mãos segurarem seus ombros para equilibrá-lo.
Exatamente como da primeira vez que se encontraram naqueles extensos corredores.
Quando Louis levantou o rosto, viu os olhos castanhos de Zayn, cheios de uma mistura de surpresa e melancolia. Louis sentiu um aperto no peito, uma profunda pena invadindo-o.
— Louis...– disse Zayn, sua voz baixa, quase um sussurro. E naquele instante, Louis soube que precisava fazer algo. Mesmo que não soubesse o quê.
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