✻Cᴀᴘɪ́ᴛᴜʟᴏ 1

Ilha StoneLand, Solar Kingdom; 2046

  Morar no reino Solar Kingdom sempre foi um tanto quanto curioso quando se tratava de estilo de vida. Sempre me questionei como devia ser a vida na democracia, como era no resto do mundo todo, desde que a monarquia foi totalmente abolida.

Quando os últimos países — Inglaterra e Espanha — se abstiveram inteiramente da monarquia, o mais lógico seria fazermos o mesmo, mas meu avô, antigo rei de Solar Kingdom, preferiu manter as tradições e leis antigas.

Pouca foi a tecnologia que desfrutamos no Reino, já que meu avô quis tudo à moda antiga. O resto de toda a ilha de StoneLand optou por fazer praticamente o mesmo, logo que isso funcionou muito bem em Solar Kingdom.

Mas confesso que já estava acostumada com a ideia de que vivia em uma realidade diferente e distante do resto do mundo. O que de fato não parecia real para mim, era que um dia eu seria a rainha desse Reino.

Estagnei meus pensamentos quando enxerguei Margaret na janela do segundo andar, tentando chamar a minha atenção com seus gestos desesperados.

Gostaria mesmo de permanecer no jardim, mas já estava na hora de ir. Me despedi da linda flor que segurava em minhas mãos, e desse modo me levantei e segui até dentro das portas do Palácio.

O cheiro exalava por todo o local. Assim que vi os criados com bandejas para lá e para cá, me alegrei ao saber que minha fome logo seria saciada.

Prossegui pelo meu caminho até finalmente atravessar a porta dupla de madeira do meu quarto, então troquei minhas vestes rapidamente para o jantar.

Ao descer das escadas com carpete de tom azul turquesa, olhei o relógio de parede e apressei ainda mais meus passos. Ao sentar-me na cadeira, meus olhos brilharam quando avistei o prato principal.

Deliciei-me com minha refeição em silêncio, como já estava acostumada. Meu pai, como sempre, também se manteve silencioso durante todo o jantar, mas quando chegou na sobremesa, não hesitei em tirar minha curiosidade.

— O senhor terá tempo hoje, papai? — perguntei esperançosa.

— Infelizmente não, querida. Estou com muitos deveres para fazer — ele esclareceu sem tirar os olhos da sua louça de porcelana.

— Entendi. — Permaneci de cabeça baixa, sem esconder minha frustração. — E quando terei a oportunidade de ler o diário? O diário de Aaron Ávila. — Ele, então, deixou seu talher no prato e me olhou sério.

— Já falamos sobre isso, Helena. Você só terá acesso à sala secreta e o que há lá dentro quando se tornar rainha, e consequentemente apenas se casar-se.

— Mas isso não é justo, papai. Eu devia ter o direito de saber os segredos do Reino. Por que somente quando me casar? — Cruzei meus braços, demonstrando minha chateação. Ele respirou fundo antes de me responder.

— Essa é a tradição e você sabe que aqui todas as leis são cumpridas, sem exceção. Se está com tanta pressa em garantir seus direitos reais, aproveite e cumpra seus deveres também. Em breve você fará dezoito anos na festa do baile de máscaras, então entrará na idade de se casar. — Sorriu para tentar convencer-me.

— Me casar? — Revirei os olhos com um sorriso irônico. — Eu até gostaria de me casar, mas com esses pretendentes está difícil. Todos eles são extremamente chatos e desinteressantes.

— Se continuar exigente assim, nunca encontrará alguém. Não se esqueça, minha filha: se não encontrar um rapaz para se casar antes dos vinte anos, poderei escolher por você para o bem deste Reino. — Pausou para sorrir gentilmente como forma de agradecimento ao criado que despejou o suco em sua taça. — Pense nisso.

— Era só o que me faltava. — Bufei, ainda de braços cruzados.

— Eu sempre faço suas vontades, Helena. Mas quando se trata das leis reais, você sabe que não vou escolher agradá-la. — Retirou o guardanapo de seu colo. — Você precisa levar suas responsabilidades reais com mais leveza. Estou ficando velho, e você é minha sucessora. E tenho certeza que se eu consegui encontrar sua mãe, você também encontrará alguém para reinar ao seu lado.

— Mas, papai, eu... — Quis contestar, mas fui interrompida.

— Regras são regras, Helena. Eu e sua mãe te explicamos muito bem sobre isso.  — Meu coração pesou ao ouvir sobre minha mãe novamente. Lembrar dela sempre me deixava cabisbaixa, por mais que eu tentasse evitar.

— Mas eu sou diferente da mamãe. Ela era uma mulher única, determinada e muito forte. — Meu pai cruzou os braços na mesa e refletiu massageando sua barba por uma fração de segundos.

— Ela era mesmo uma mulher extraordinária. E mesmo com tanta garra, não deixava de ser uma mulher delicada — relembrou olhando para o chão. Eu consegui perceber que ele estava com aquele mesmo sorriso da época que a mamãe ainda era viva.

— Nós podíamos recordar um pouco dela. Seria legal olhar algumas fotos antigas e....

— Majestade — um soldado chamou, adentrando a grande sala de jantar. — Precisamos do senhor para organizar uma estratégia que percebemos conter alguns equívocos.

— Desculpe-me, filha. Fica para outro dia. O dever me chama. — Levantou, deixando sua comida esfriando no prato. Permaneci em silêncio, com o semblante caído.

Meu pai seguiu o soldado após receber reverência de todos os empregados presentes ali. Eu apenas soltei um suspiro e me levantei.

— Tente compreender seu pai, minha menina. Ele é um homem um pouco ocupado — Margaret se manifestou ao notar minha insatisfação.

— Estou cansada, preciso me retirar. Com licença — falei e saí logo em seguida.

No caminho, só pude pensar na saudade que sentia da minha mãe e de como estava cansada daquela vida cheia de regras e sem sentido algum. Meu raciocínio era de que algum dia iríamos todos morrer, assim como minha mãe, e tudo que conquistamos viraria poeira.  A única diferença é que seríamos lembrados como “gente importante”.

Atravessei as portas de vidro que davam direto no jardim. O jardim sempre foi um lugar leve para mim. Um lugar que me fazia pensar melhor.

Inspirei o ar calmo enquanto observava a lua cheia. O vento fresco transpassava os meus fios vermelhos de cabelo, e por um instante me senti livre das responsabilidades que uma princesa, mais precisamente herdeira do trono, carregava sobre os ombros.

 — Helena. — No momento em que identifiquei a voz que ecoava no local, me virei, e confesso que quase chorei de alegria.

— Daiana! Você voltou! — exclamei em êxtase. Sem pensar duas vezes, corri na direção de Daiana sem dar importância às minhas vestimentas inapropriadas para me encontrar com uma princesa.

— Oi, Helena. — Sua voz soou abatida. Saí imediatamente do abraço e fitei seus olhos. Ela parecia nervosa, visto que mexia sem parar na sua mecha negra de cabelo, o que era um hábito comum quando estava em uma situação desconfortável.

— O que foi? Você não parece bem — perguntei duvidosa. Os lábios de Daiana estavam trêmulos, como se não conseguisse falar.

— Não podemos mais ser amigas. — Olhou no fundo dos meus olhos pela primeira vez naquela noite. — Sinto muito, Helena.

— Mas por quê? Eu fiz alguma coisa errada? Olha, Daiana, se for algo que eu fiz ou falei, me desculpa, eu... — Meu coração estava acelerado, e eu falava mais rápido do que o normal. Daiana, então, interrompeu-me.

— Não. O problema não está em você, Helena. Só não podemos mais ser amigas. Só isso. — Seus olhos baixos evitavam os meus. Eu não conseguia me conformar e muito menos crer em suas duras palavras.

— Só isso? — Pausei para obter respostas através do seu olhar. — Nós somos amigas desde pequenas. Vai acabar com nossa amizade sem nem ser sincera comigo? — Minha voz agora estava embargada. Daiana comprimiu seus lábios e respirou fundo. Eu só ouvia o som dos grilos e corujas do local, mas nada de Daiana.

— Eu não ia te contar, mas não vou conseguir esconder isso de você. — Minha mente estava uma confusão. Daiana mexia suas mãos repetidas vezes. — Meus pais e eu conversamos, e eles acham melhor que eu não seja amiga da filha do homem que é inimigo do nosso Reino.

— O quê? É sério que vamos acabar com nossa amizade fundamentadas na política imposta pelos nossos pais? — Neguei com a cabeça, ainda incrédula. — E sem contar que seus pais foram quem traíram o meu quando fizeram aliança com o nosso maior rival.

— Agora a culpa é dos meus pais? Eles não são obrigados a se aliar a um país com leis absurdas. — Eu estava pronta para contestar, mas Daiana se corrigiu antes que eu pudesse. — Olha, não vim aqui para brigar. Eu juro que gostaria de manter nossos laços, mas você sabe que eu priorizo a obediência aos meus pais.

— Então é isso? Você vai embora e vai fingir que nunca planejamos subir no altar juntas? Que nunca planejamos que nossos futuros filhos seriam melhores amigos como nós somos? — a questionei com água nos olhos. — Ou talvez como nós éramos...

— Eu realmente sinto muito, Helena. — Pausou para respirar fundo. — Adeus.

— Não! Daiana, por favor. Eu faço o que você quiser. Daiana, não vá! Eu só tenho você. — Berrei em meio ao choro desesperado que percorria pelas minhas bochechas. Mas já era tarde demais. Daiana já havia ido embora.

Meu choro estava incontrolável. Eu não tinha ninguém, e minha vida não possuía sentido algum. Eu perdi a minha mãe, que mesmo que tenha sido há muito tempo, ainda me doía. Perdi minha única e melhor amiga, e ainda por cima teria que lidar com a ausência do meu pai e sua pressão para que eu me casasse.

Nada mais parecia valer a pena para mim.

Depois de muito espernear, deitada em minha macia e sofisticada cama, olhei para o vazio daquele quarto me recordando da difícil cena no jardim.

No momento em que vi Margaret sentar-se ao meu lado enquanto trazia consigo roupas dobradas, suspirei.

— Helena, sei que nada tem sido muito fácil para você, principalmente nessa idade cheia de mudanças e decisões. — Deixou as roupas limpas em minha cama. — Mas tente lembrar do que a sua mãe lhe ensinou, minha menina.

— Quando eu era apenas uma menininha, nunca imaginei que teria tantas responsabilidades assim, e muito menos que elas afetariam minha vida pessoal. — Olhei para ela com um olhar baixo. Sua expressão de dó era perceptível.

— Entendo. Ser princesa de um dos maiores reinos de StoneLand não é nada fácil. As responsabilidades podem se tornar um peso, às vezes, mas se você encontrar uma forma de descansar e se refugiar, talvez tudo possa ser mais leve. — Levantei meu olhar para Margaret.

Minha mãe estava certa ao confiar tanto nela, e em não a deixar apenas como uma criada comum. Margaret era como da família. Não conseguia me imaginar sem os sábios conselhos que aquela mulher de cabelos brancos me dava.

— Obrigada pelas palavras de consolo, mas como e onde eu encontraria essa paz? — indaguei confusa. Margaret me olhou um pouco aflita.

— Helena, apenas tente descansar. Está tarde e amanhã será um novo dia — disse ignorando meu questionamento anterior.

— Está bem, Margaret. Te vejo amanhã — falei enquanto ajeitava minhas cobertas e ela me olhou com seu olhar de repreensão.

— Precisa parar de me chamar pelo primeiro nome, de forma tão informal. Imagine você me chamando assim na frente de alguém importante — afirmou fazendo inúmeros gestos com as mãos.

— Desculpe-me, Marga... Oh, não! Quis dizer senhorita Sanchez. — Ri com sua feição de reprovação. Enquanto Margaret estava parada com as mãos na cintura me observando, eu gargalhava com minha fala provocativa.

— Vá dormir, mocinha — mandou, desligando a luz do meu abajur.

— Boa noite, madame — debochei observando Margaret fechar a porta com os olhos sobre mim, como se quisesse me dar uma bronca, mas não pudesse porque já havia passado de seu horário.

Respirei fundo e me aconcheguei em minha cama. Eu pelo menos tinha Margaret para me distrair. Eu vivia brincando com ela, entretanto, no fundo, ela era como uma segunda mãe para mim.

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