✻Cᴀᴘɪ́ᴛᴜʟᴏ 19

  Ainda não era dia quando Lukas me acordou. Eu conseguia ver como as brechas da cortina não transmitiam nenhuma luz. Entretanto o abrigo já estava vazio.

Tentei me despreguiçar e me levantei devagar, para evitar vertigens. O Soldado Lukas colocou seu braço de apoio para que eu levantasse com menos dificuldade, e em silêncio, me acompanhou andando pelos corredores.

Eu o olhei de soslaio algumas vezes. Queria perguntar para ele onde todos estavam, que horas era e se tudo já tinha acabado, mas não tinha a coragem necessária, então permaneci quieta enquanto caminhava ao seu lado.

Eu estava tranquila, isso até ver o Salão do Palácio. Tinha caco de vidro para todo lado, então tive que tomar cuidado com onde pisava, e segurar parte de meu vestido para a barra não arrastar no chão que estava sujo.

Passei também pela Sala Principal do primeiro andar enquanto Lukas verificava alguns corpos. Os móveis estavam fora de lugar, e o estofado do sofá, rasgado. Havia objetos espalhados pelo chão, a maioria quebrados. Até cadeiras foram arremessadas.

Tudo estava uma bagunça, e presenciar aquela cena fazia meu coração tremer.

Subi as escadas para ir até o segundo andar. O Soldado continuou ao meu lado todo instante, e calado também observava como tudo havia ficado mais destruído do que de costume.

Nas paredes, reparei alguns dardos, e no meio do caminho, uma espada. O Palácio estava meio vazio e escuro, mas os criados já arrumavam e limpavam tudo.

Ao abrir a porta do meu quarto, percebi que os cacos de vidro não estavam mais lá e ele já estava limpo e arrumado como se nada tivesse acontecido, exceto pela cortina colocada no lugar da porta de vidro de correr da sacada.

Eu imaginava que logo eles colocariam uma porta nova para evitar perigo, provavelmente quando eu estivesse ausente.

Aproveitei aquele momento a sós para me deitar e descansar de verdade. Era difícil esvaziar a mente e relaxar, visto que imagens de guerra vinham constantemente em minha mente. O pior era pensar como seria enfrentar tudo isso como a Rainha do Reino.

Eu não conseguia arcar nem com minhas próprias responsabilidades mais básicas, quem dirá administrar um reino inteiro, enquanto eu mal conseguia decidir a cor do meu sapato.

Mas ao passar do tempo fui me acalmando, até conseguir dormir. Eu tirei apenas uma soneca, não demorei nem quarenta minutos direito. Assim que me levantei já fui comer alguma coisa.

Comi tão rápido quanto uma leoa faminta. Estava extremamente ansiosa pelo passeio na biblioteca, e assim que terminei minha refeição, corri pelos corredores em busca da minha mais nova companhia: o Soldado Lukas.

Ele estava na sua posição de sempre, atento a tudo ao seu redor. Quando me viu, levantou as sobrancelhas, e eu me aproximei com um sorriso animado.

— Vamos para a biblioteca agora mesmo! — Permaneci com as mãos atrás do meu corpo e um sorriso travesso, ficando nas pontas dos pés para alcançar aquele rapaz alto e de cabeça erguida.

— O quê?

— Ontem por causa do ataque nós não conseguimos ir à biblioteca, mas agora sim podemos. — Eu não pareci convencê-lo com minhas palavras. 

— Não sei não, Princesa — disse inseguro.

— Eu quero ir nessa biblioteca, mas e se acontecer algum ataque? Você tem que estar lá para me salvar. — Ele ficou pensativo, mas ainda assim minha apelação não pareceu suficiente. — Por favor.

E foi só pedir “por favor”, com educação, que ele cedeu. Ele não disse nada, mas o aceno com a cabeça e expressão facial demonstraram que ele estava de acordo, então o puxei pelo braço e acelerei os passos rumo à biblioteca.

— Princesa, calma! Não precisa correr. — Ele olhou para todos os lados nervoso.

— Precisa se aventurar um pouco, Soldado. — Eu ri e continuei puxando-o até chegar onde queria.

Quando finalmente soltei sua mão, ele respirou melhor, ainda ofegante, mas logo endireitou sua postura.

Abri a porta e adentrei a biblioteca. Estava escuro, então acendi a luz. Ela era simplesmente enorme, do jeitinho que a mamãe gostava.

Nas três paredes da sala havia grandes prateleiras que iam do chão até quase encostar o teto. Elas estavam pintadas de branco, mas a tintura já estava desgastada, revelando a madeira marrom.

O piso era uma intercalação de quadradinhos branco e preto, e no centro tinha um lustre no teto. O lustre não era tão grande quanto o do Salão, mas era muito brilhante. Havia também algumas poltronas azuis espalhadas pela biblioteca, com estofados extremamente confortáveis e um design impecável.

Corri para abrir as extensas cortinas vermelhas. Elas eram iguais as do meu quarto, mas com o dobro do tamanho, isso porque uma das paredes era inteiramente coberta por janelas que iluminaram ainda mais a biblioteca.

— Este lugar precisa de uma limpeza! — comentei com as mãos na cintura, mas Lukas estava muito distraído observando perplexo as estantes.

— São tantos livros. Será possível ler todos eles? — Ele não tirou os olhos um segundo das estantes. Ele contemplava tanta beleza e grandeza que havia naquela biblioteca.

— Não sou uma leitora ácida, então nunca tentei. Mas não duvido que minha mãe tenha lido todos. Ela amava ler, era seu passatempo favorito, depois de tocar violino, claro. — Ele me olhou pela primeira vez diretamente.

— Ela devia ser incrível. — Sorriu, e senti meu coração se aquecer.

— Ela era sim. Eu puxei o espirito aventureiro dela, com a diferença que ela tinha limites e mesmo assim sempre agia graciosamente. — Suspirei. — Era simplesmente extraordinária.

Foi impossível evitar mais lembranças.

— Mamãe, eu não quero ler. Eu já leio demais nas aulas. Eu quero brincar! — Forcei um beiço de braços cruzados.

— Ah, meu amor, precisa parar um pouco. É elétrica demais, meu anjinho de cabelos vermelhos — disse com extrema calma, acariciando meu rostinho macio.

— Mas minha energia nunca acaba, mamãe. — Ela riu.

— Tenho medo que um dia você tenha um ataque cardíaco de tão animada. — Riu novamente, acariciando agora meu cabelo. — Minha princesa, precisa encontrar um equilíbrio. É bom que goste tanto de brincar, mas está na hora de sentar, descansar e fazer algo mais leve. O papai quer te encontrar calminha no jantar de hoje com os pais da Daiana. Você não quer fazer feio na frente deles, certo? — Movimentei a cabeça em sinal de não. Eu não aguentaria decepcionar os pais da Daiana. Era deles que dependia a nossa amizade.

— Prometo que vou me comportar, mamãe. — Admirei os olhos verdes invejáveis. Se existia alguém mais linda que a minha mãe, eu desconhecia.

Era bom ter os traços dela. Desde o cabelo ruivo, até a cor de pele e as sardas — apesar dela possuir o dobro de sardas que eu — a única coisa que não tive sorte foi em acabar recebendo os olhos castanhos do papai, embora fossem claros também.

— Boa menina! Viu como consegue se controlar? — Ela tinha razão. Eu não estava mais andando para lá e para cá ou batendo as perninhas.

— Só você e Margaret conseguem me tranquilizar. — Sorri meigamente e ela sorriu de volta.

— Agora vamos escolher um livro bem legal, que depois você vai tomar banho e eu irei trançar seu cabelo antes do jantar.

— Yup! — Dei pulinhos de alegria. — Ops. — Ao invés de me dar uma bronca, mamãe riu. — Vai ser com muitas flores, mamãe?

— Vai sim, meu anjo. Vou colocar muitas florzinhas no seu cabelo trançado, na cor que você escolher, desde que sejam pequenas e delicadas como você! Mas tem que se comportar.

— Não confia em mim, Rainha Isabel? — Coloquei as mãos na cintura de forma debochada.

— Claro que sim. — Ela apertou minhas bochechas e eu ri até ficar vermelha como um tomate.

Detestava parecer um pimentão daquele jeito, mas ela sempre dizia que eu continuava linda.

— Agora vamos escolher um livro antes que o sol se ponha. — Ela voltou a olhar a estante. — Se seu pai estiver de bom humor, com certeza vai querer brincar com você de cavalinho e te dar muitas cócegas.

— Cócegas não! Eu nunca aguento. — Gargalhei. — Mamãe, mudando de assunto, por que o papai é tão sério na frente dos outros?

Ela pensou um pouco antes de responder.

— Ele é o rei e uma autoridade máxima desta nação, precisa manter uma postura séria. Ele não pode simplesmente te subir nas costas dele e brincar com você no meio de uma reunião, entende, docinho? — Pensei um pouco. Até fazia sentido.

— Entendi. — Voltei a sorrir. — Podemos comer morango com chocolate depois do jantar?

Eu não me cansava de fazer perguntas. Gostava de dizer tudo o que pensava.

— Se alimentar-se bem no jantar hoje, com certeza sim. — Dessa vez contive meus pulinhos e voltei a procurar um livro interessante na estante.

— Helena? — Me assustei com o Soldado chamando pelo meu nome mais uma vez.

Eu vivia distraída viajando no tempo!

— Me desculpe, estava no mundo da lua. — Sorri amarelo.

— Sem problemas, Princesa. — Afaguei meu próprio braço envergonhada. — Por onde podemos começar?

— Ah sim! Claro. — Olhei em volta roendo as unhas. — Bom, que tipo de livro gosta? Aqui tem de tudo.

— É que eu... já lhe expliquei que não leio.

— Ah! É mesmo. Perdão. — Senti minhas bochechas queimarem.

Droga! Devo estar vermelha.

— A senhorita lê bastante, não tem alguma sugestão? — perguntou, mas sem se desfazer de sua postura ereta.

— Bom, são tantos gêneros... mas tenho meus favoritos, sim! — Me aproximei da maior estante a fim de encontrar meus queridinhos.

— São muitos mesmo! — Ele se aproximou também, ainda perplexo com a variedade de livros da nossa biblioteca.

— Esta parte contém apenas literatura, nada de livros de estudos ou outras coisas. — Apontei para uma das estantes. — Estes aqui são os melhores que já li: A Bela e a Fera, O mágico de Oz, Peter Pan, O Pequeno Príncipe, Mulherzinhas, Anne de Green Gables, Orgulho e Preconceito, As Crônicas de Nárnia...

— Espera! As Crônicas de Nárnia? — Ele me interrompeu aparentemente chocado com minha lista.

— Sim. Por que está tão surpreso?

— Nada. — Dei de ombros e ignorei sua pergunta estranha.

— Bom, no momento só me recordo destes — disse e em seguida o olhei. Ele engoliu em seco.

— Acho que já ouvi falar de todos. São muitos mesmo. — Concordei com a cabeça.

— Acho que no fundo me identifico com parte de cada um deles. — Sorri involuntariamente.

— É tanta obra que até o teto teve que ser bem mais alto para caber tudo — comentou olhando para cima. — E apesar de estar meio largado, é tudo tão organizado.

— Eu e Margaret organizamos tudo juntas! — Me orgulhei com o que disse com a mão no peito. — Dividimos tudo por gêneros. Tem várias sessões: a dos clássicos, romances de época, romance contemporâneo, distopias e utopias, ficção cientifica, ficção adolescente, terror, suspense, humor, chick lit, aventura, fantasia, infanto juvenil, infantis, biografias e não ficção.

— Nunca vou me acostumar com isso. — Eu ri com a fala dele.

— Sei que um Palácio da Realeza é bem distante da realidade do povo, mas ainda assim não me entra na cabeça como você parece nunca ter visto isso nem na TV. — Sentei em uma das poltronas. — Você sempre morou por aqui, na vila, mesmo?

— É que... eu... Princesa, pode me mostrar alguns desses livros mais de perto? Tenho pressa para ir.

E mais uma vez ele fugiu das minhas perguntas. Será que minha curiosidade era tão chata e invasora assim, ou ele tinha algo a esconder?

Ou talvez os dois.

— Está bem. — Disfarcei minha indignação com meu sorriso posado habitual.

— Pegue estes aqui. A capa é linda e dura, com uma textura surreal. — Entreguei uns livros para ele, e ele os tocou impressionado.

Um tempo depois mostrando muitas obras e contando suas histórias, larguei os livros e me abanei com uma almofada, exausta.

— Nossa! Isso me lembra uma vez que eu tive a brilhante ideia de pegar um livro lá de cima. Eu era muito pequena, e alcançava muito menos que hoje, então tentei montar uma gambiarra empilhando vários objetos, e subi esticando o braço para pegar o que queria. Quando eu consegui tocar bem na ponta do livro, caí durinha no chão. Foi um tombo e tanto! Meu improviso foi um fracasso.

— O que te deu na cabeça para fazer isso? E você não se machucou? — Ele estava concentrado na minha história trágica, tão descontraído que seu corpo estava inclinado em minha direção.

Estávamos numa conversa totalmente informal. Eu já nem estava mais de pernas cruzadas como antes, e ele estava sentado na cadeira à minha frente com as mãos entrelaçadas, mas sem muita postura.

Se meu pai visse aquilo, ficaria louco!

— Eu não sei. Eu era muito peralta. Só sei que tive a sorte de cair de bunda no carpete macio. Eu até chorei de início, mas fui correndo arrumar tudo. Nem me preocupei com meu joelhinho ralado, eu só não podia deixar que meu pai visse aquilo. — Nós dois gargalhamos como nunca. Demoramos uns segundos para parar.

Acho que Lukas não conhecia esse lado divertido meu. Ele conhecia minha postura mimada e petulante, e eu a sua seríssima, no lugar da humorada que agora ele estava me revelando. 

Cada vez mais ele se tornava interessante.

— Eu sabia o tamanho da sua curiosidade, mas não imaginei que chegasse a tanto. — Ele riu mais um pouco. — Uma princesa mais bagunceira e teimosa que o comum.

— Eu era uma criança! — Me indignei com seu deboche. — Está zombando de sua Princesa, Soldado? — Arqueei a sobrancelha, irônica.

— Ah, desculpe-me, Vossa Alteza Real. — Sua reverência conseguiu soar ainda mais debochada que os comentários inconvenientes.

Mas confesso, eu gostava quando ele agia daquela maneira.

— Estou pasma! Completamente perplexa! — Imitei a voz enjoativa das minhas tias de quando eu era sincera demais nos banquetes em família. — Você merece cinquenta anos em um calabouço, soldado cruel — me expressei da forma mais dramática possível.

— Isso foi uma sentença? Devo estender as mãos para colocarem uma algema? — Sua expressão era impagável!

Eu não consegui mais segurar, caí na gargalhada de novo. Eu ria como condenada, e ele soltou alguns risos também, mas imediatamente os interrompeu, ficando sério novamente e olhando para a porta.

— Soldado Lukas! — Gregório chamou com o cenho franzido.

Não sei por que, mas nunca gostei daquele homem.

— Sim, senhor!? — Lukas levantou na velocidade da luz, reto da cabeça aos pés, e com uma das mãos sobre a cabeça em posição de sentido.

— Vamos ter uma reunião em dez minutos. Se apresse e compareça à Sala de Convenções do Campo de Treinamento — ordenou.

— Certo, chefe! — Lukas o reverenciou, e saiu, sem nem se despedir.

Entendo que ele estava na frente do Chefe da Guarda Real, e tinha que ir rapidamente se preparar para a reunião, mas queria ao menos um aceno.

E tudo voltou a ficar tão quieto. Mirei à minha volta e só vi muitos livros, mas apenas comigo ali para lê-los. O eco era entristecedor.

Ele mal havia saído dali, mas já sentia falta da sua companhia.

De início confesso que foi egoísmo meu. Eu só queria me aproximar dele porque não tinha mais ninguém para conversar, e não por quem ele era. Mas mesmo que tão de repente, eu fui o conhecendo melhor, e talvez estivesse gostando de fato de sua companhia.

Contudo mal me aproximei e já estava ficando sozinha novamente. Afinal, ele tinha mais o que fazer além de ouvir as baboseiras da filha do Rei.

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