Capítulo 2: Clientes exigentes
Vampiros comem? Essa era uma pergunta que costumava ser alvo de intensas discussões. E não se referia, é claro, à óbvia necessidade de sangue. O debate girava em torno da possibilidade de tais seres consumirem outras coisas que não fossem o líquido rubro circulante no corpo dos humanos. Eles comeriam pizza? Teriam problema em provar biscoitos recheados? E refrigerante, bebem? Preferem suas carnes malpassadas? Essas questões fervilhavam nos fóruns online, alimentadas principalmente por humanos que nunca tiveram contato direto com esses seres. Mas Aria sabia a verdade: eles comiam.
Talvez o termo "comer" não fosse o mais adequado. Quando se come algo, supõe-se que se está retirando algum nutriente desse alimento, nem que seja apenas perigosas gramas de gordura saturada ou excesso de carboidratos! Mas para os vampiros, a comida humana não tinha nenhum valor nutricional. Em outras palavras, eles consumiam apenas pelo prazer, pela experiência sensorial de mastigar, degustar e sentir os sabores, algo que lembrava uma era antes da transformação, quando ainda eram humanos.
Enquanto Aria se aproximava da mesa, seus olhos captaram um prato de lagosta elaborado com sofisticação, um trabalho sem dúvida do próprio Petrus Lunaris. Ao lado, um macarrão coberto com um denso molho de tomate e frutos do mar, os pratos mais caros do cardápio. Mas, para os vampiros à mesa, esses pratos eram apenas um ornamento, mal tocados, como se fossem uma decoração à espera do verdadeiro banquete.
— E cadê o sangue que pedimos? — indagou o vampiro mais próximo da garçonete. Seus cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo firme, mas alguns fios caíam sobre sua testa pálida. Seus olhos, de um vermelho vívido, perfuravam a humana trêmula à sua frente.
— Sim, pedimos sangue do tipo B, com antígeno Rh-negativo, do tipo M... — acrescentou o outro vampiro, de cabelos curtos e penteados para trás, contando nos dedos enluvados de vermelho as especificidades dos grupos sanguíneos solicitados.
— Eu adoraria que o sangue também tivesse hemácias macrocíticas... — disse a vampira, lambendo os grossos lábios pintados com batom preto. — Adoro quando os glóbulos vermelhos têm o diâmetro aumentado...
Ela falava em um tom sedutor, fazendo os outros vampiros rirem, como se compartilhassem uma piada macabra que apenas eles compreendiam.
A vampira era uma visão hipnótica de morbidez e beleza. Seu longo cabelo negro caía em ondas perfeitamente esculpidas sobre os ombros, e seus olhos vermelhos faiscavam com um brilho predatório. A pele era pálida como mármore, quase translúcida sob a luz suave do restaurante, contrastando com o vestido vermelho-sangue que ela usava, feito de um tecido que parecia flutuar ao seu redor, como se estivesse vivo.
— Eu... Nós... Bem... Não sei se temos o sangue específico que os senhores desejam, digo... — a garçonete tentou manter a compostura, mas a tensão em sua voz era palpável.
— Como assim, não tem? — o primeiro vampiro perguntou, seu tom firme e frio. A humana tremeu ainda mais sob o peso de seu olhar predatório. — Aliás, qual é o seu tipo sanguíneo, querida?
— Se os senhores desejam tipos de sangue tão específicos, eu sugeriria um restaurante especializado, como os do bairro Crepúsculo... que, imagino, os senhores conhecem muito bem — interveio Aria, delicadamente, enquanto puxava a garçonete para trás de si e encarava o trio de vampiros com um sorriso cordial nos lábios. — Ao contrário desses estabelecimentos, não temos um banco de sangue. Somos um restaurante para humanos e, portanto, estamos sujeitos a certas limitações.
Aria sentiu a garçonete reprimir um suspiro de surpresa e nervosismo diante de tamanha ousadia ao confrontar criaturas tão poderosas.
— Peço desculpas por nossa evidente deficiência em oferecer o serviço que os senhores merecem — acrescentou rapidamente, suavizando suas palavras anteriores.
Os vampiros trocaram olhares entre si, e então seus olhares afiados se voltaram para Aria. Tentaram intimidá-la como fizeram com a garçonete anterior, mas Aria manteve a cabeça erguida, ainda exibindo o falso sorriso amigável e profissional. Ela sabia que estava caminhando em uma corda bamba, mas não podia demonstrar medo.
Finalmente, o vampiro de luvas suspirou longamente e deu de ombros.
— Fazer o quê? Sabíamos que não teríamos um serviço de qualidade quando viemos aqui... — disse ele, cutucando a lagosta com um garfo de prata, algo que Aria notou não era oferecido a qualquer cliente.
— A ideia não foi minha. Eu disse que preferia dançar no Covil — resmungou a vampira, lançando um olhar aborrecido para o vampiro de rabo de cavalo enquanto enrolava o macarrão no garfo com movimentos graciosos, mas desinteressados.
— Vocês podem parar de reclamar? Vamos conseguir o nosso sangue de qualquer maneira! — disse o vampiro, batendo na mesa com força, fazendo os pratos tremerem.
— Sim, o sangue requisitado está a caminho — Aria afirmou, lançando um olhar de soslaio para a garçonete atrás de si, indicando com um leve aceno de cabeça que ela deveria ir à cozinha buscar o sangue e, com sorte, se livrar logo daqueles clientes incômodos. — Além disso, desejam mais alguma coisa?
— Aquilo que vocês humanos comem... o que é gelado? — perguntou o vampiro de luvas, gesticulando com as mãos como se tentasse descrever o que não conseguia lembrar.
— Sorvete? — Aria inquiriu, erguendo uma sobrancelha.
— Isso, exatamente! — respondeu ele, abrindo um sorriso que revelou seus caninos afiados.
— Qual sabor, senhor?
— Todos os tipos — disse a vampira, sua voz soando como uma ordem.
Aria assentiu e fez uma pequena reverência, indicando que traria o pedido solicitado o mais rápido possível. Ela se afastou, mas ainda sentia o peso dos olhares dos vampiros sobre ela, algo que a irritava levemente. Mesmo assim, manteve a compostura enquanto se dirigia à cozinha, sabendo que tinha, ao menos por enquanto, contornado uma situação potencialmente perigosa.
~**~
— Ora, ora, vejo que você ainda está inteira... — comentou Petrus Lunaris assim que Aria entrou na cozinha, ofegante. Uma mecha solta de seu cabelo escuro caiu sobre seu rosto pálido enquanto ela tentava recobrar o fôlego.
Aria caminhou até o chefe, sem hesitar, e arrancou da mão dele a garrafa de vinho que ele provavelmente estava usando para marinar algum prato sofisticado. Sem pensar duas vezes, levou a garrafa aos lábios e deu um longo gole, sentindo o líquido quente deslizar por sua garganta, na tentativa de acalmar as batidas frenéticas de seu coração.
— Não fique tão desapontado por me ver sã e salva... — murmurou ela, devolvendo a garrafa a Petrus, que apenas ergueu uma sobrancelha, observando o gesto atrevido de sua subordinada.
— Salva, vejo que está. Mas sã? Isso já é algo que podemos discutir... — retrucou ele, com um leve sorriso sarcástico nos lábios.
Aria soltou um suspiro profundo, o álcool começando a aquietar sua mente turbulenta.
— Desculpe... — disse ela, inspirando fundo. — É que esses vampiros... sempre conseguem me tirar do sério.
Mesmo sendo uma das poucas pessoas imunes ao poder de mesmerismo dos vampiros, isso não significava que sua raiva e nervosismo não a afetavam. A verdade era que o comportamento deles a corroía por dentro. Ver aqueles seres pedirem os melhores pratos do cardápio apenas para ignorá-los, ocuparem os melhores lugares do restaurante como se fossem donos do mundo, e ainda assustarem os funcionários por pura diversão... E ela? Ela era forçada a sorrir, a agir como se tudo fosse normal. Nada a fazia perder a calma mais rápido.
— Eles sequer tocaram na lagosta ou no macarrão? — perguntou Petrus, seus olhos pequenos, escondidos em meio à sua face ampla e rosada, faiscando de frustração.
— Não, só queriam saber do sangue... Ah, e agora querem sorvete. Imagino que não vão comer também — respondeu Aria, com uma ponta de amargura na voz.
Petrus bufou, claramente irritado. A ideia de seus pratos não receberem ao menos uma crítica — fosse ela positiva ou negativa — parecia uma afronta ao seu ego.
— Pois sim, pelo menos pagam bem... — resmungou ele, fazendo um gesto rápido com a mão. Os auxiliares de cozinha e chefs, atentos, imediatamente interpretaram a ordem silenciosa e começaram a preparar os melhores sorvetes disponíveis, já sabendo que, mais uma vez, a comida seria provavelmente ignorada.
— Quanto ao sangue... — Petrus estalou os dedos e, quase instantaneamente, um garçom surgiu carregando uma vasilha de prata com um aparato de banho-maria. Dentro do recipiente, várias garrafas de vidro delicadamente embaladas mantinham um líquido vermelho-escuro. O sangue, aquecido à temperatura perfeita de 36 a 37°C — a temperatura corporal normal de um humano — era cuidadosamente mantido no ponto ideal para ser degustado pelos paladares exigentes dos vampiros.
Aria olhou para aquilo com desprezo. Sabia que uma daquelas garrafas provavelmente continha o sangue de Maria, pronto para ser oferecido àqueles vampiros insaciáveis. Cada garrafa era fina e elegante, quase como uma miniatura de garrafa de vinho raro, mas o conteúdo era muito mais precioso — e perturbador. A preparação cuidadosa, o banho-maria controlando a temperatura, tudo era feito para preservar a qualidade do sangue, como se fosse uma iguaria gourmet, servida da maneira mais impecável.
— Não consigo entender por que eles pedem isso aqui — resmungou Aria, a voz baixa, mas carregada de amargura. — Eles já não recebem em suas casas as doações de sangue que somos forçados a fazer?
De fato, todos os humanos residentes na cidade de Sombra Alta eram obrigados, mensalmente, a doar sangue para o banco de sangue municipal. Esse sistema era a forma de "tributo" que a população pagava aos seus benfeitores vampíricos, garantindo que as criaturas tivessem o sustento necessário para continuar protegendo a cidade — ou, ao menos, era assim que os vampiros justificavam. Em tese, esse sistema fornecia sangue o suficiente para que eles nunca precisassem sair de seus luxuosos lares para procurar mais. No entanto, alguns vampiros sempre exigiam algo mais...
Petrus bufou diante da falta de entendimento de Aria, entregando-lhe a travessa com as garrafas no banho-maria. O peso repentino quase a fez deixá-la cair, mas ela firmou os pés no chão e ajustou o equilíbrio.
— Aria, a questão é a experiência... — explicou Petrus, um tom de paciência forçada em sua voz. — Não se trata apenas do ato de beber sangue. É sobre o ambiente, o espetáculo... e os olhares dos outros.
— Agora, vá lá e sirva nossos exigentes clientes. E lembre-se de sorrir! — Ele deu um sorriso largo, que transformou seu rosto em uma caricatura amigável e divertida — mas era tudo falsidade, Aria sabia disso. Havia algo de inquietante naquela expressão forçada.
Aria revirou os olhos, mas assentiu, mordendo a língua para evitar uma resposta sarcástica. Com um suspiro resignado, ela se ajustou ao peso da travessa, tentando manter a compostura e o sorriso profissional no rosto. Era um jogo de equilíbrio: entre manter as garrafas estáveis e manter sua máscara inabalável.
Com passos firmes, mas cautelosos, Aria atravessou a cozinha e empurrou as portas vai-e-vem, entrando no salão. O peso das garrafas parecia crescer a cada passo, mas ela se obrigou a caminhar com elegância, enquanto sentia os olhares penetrantes dos vampiros já fixos em sua direção. Aquilo a irritava profundamente — ser tratada como um entretenimento, um capricho. Mas ela sabia que, naquele mundo sombrio, sorrir e servir era o único escudo que tinha contra os mestres de Sombra Alta.
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