5 - A balada da cidade grande

Atlântida era constituída de cinco reinos: Érebo, Seláquia, Delfos, Octópia e Netuna (assim rebatizada quando Caleo deu o maior golpe de Estado ao subjugar Kaerius). Apesar de sua história ser marcada por guerras violentas, traições e trocas de poder entre as quatro raças, Atlântida viveu um período relativamente pacífico a partir do reinado de Kaerius, instituindo-se o Conselho Sirênico para que todos no reino tivessem direito à voz. Infelizmente, com o aumento exponencial da poluição marinha nas últimas décadas, muitos atlantes passaram a ver com maus olhos os caminhantes — assim denominados os humanos que viviam na superfície e também os responsáveis por toda aquela sujeira tóxica que matava atlantes ano após ano, com mais rapidez e eficiência que a guerra mais sangrenta da história. Rapidamente, o ódio e a intolerância germinaram entre os atlantes, sobretudo contra os sirênicos mestiços, aqueles que haviam nascido do cruzamento entre um sirênico puro com um caminhante. Os sirênicos puros os culpavam pela sua ruína e passaram a persegui-los com o intuito de restabelecer a ordem natural atlante.

Caleo era um dos braços direitos de Kaerius, mas não demorou muito para que sua sede de poder viesse à tona. Aproveitando-se da onda de insatisfação contra as políticas pacifistas e intercambistas de Kaerius, por baixo dos panos ele arquitetou uma conspiração para derrubar o rei, conseguindo muitos apoiadores para a sua causa. Por isso, quando descobriu-se que Kaerius mantinha um relacionamento secreto e extraconjugal com uma mulher caminhante, e que ela daria à luz uma mestiça, o golpe se concretizou. Uma herdeira mestiça era algo inaceitável, então Kaerius fora proclamado traidor da raça e os golpistas elegeram Caleo para assumir o trono provisoriamente e presidir o Conselho de Sentença. Como era de se esperar, o rei traidor foi condenado à morte e sua filha, Coral, banida para sempre de Atlântida. No entanto, Caleo não se contentaria apenas com isso. Após uma série de medidas arbitrárias, ele começou a perseguir Diana, a amada de Kaerius, e sua filha, o que culminou no acidente que matara a mãe e levara Coral a ir morar com a tia.

Petrus contou-lhe tudo isso enquanto mexia no cabelo de Coral. Virada contra o espelho para não ver o resultado final, ela tentava colocar as ideias em ordem enquanto era bombardeada por um tsunami de informações. Por mais absurda que a história fosse, a garota sentia em seu íntimo que aquela era a verdade. Finalmente a verdade que ela tanto buscou a vida toda. No entanto, o que descobriu não a confortava de modo algum. Saber da morte injusta do pai a devastava por completo. Era como perdê-lo pela segunda vez, definitiva e irreversivelmente.

— Foi por isso que fugiu de Atlântida? — conseguiu dizer por fim. — Para fugir do autoritarismo de Caleo?

— Em partes, sim. Atlântida não é mais o que costumava ser, Caleo acabou até mesmo com o programa de integração do Centro Acadêmico. Hoje em dia só sirênicos puros podem estudar lá.

— Você estudava nesse Centro?

— Sim — disse ele, soltando um suspiro saudosista. — Mas não foi esse o motivo real. Eu venho de uma família tradicional de delfines, meu destino era ser o próximo oráculo de Delfos, um delfine que adquire o dom da visão após realizar um ritual tribalista idiota. Mas eu não queria isso, não queria estar preso a uma vida que escolheram por mim. Eu queria me sentir livre, sair e conhecer o mundo além das muralhas de Caleo. O problema é que somos considerados traidores da raça quando saímos de Atlântida sem permissão, por isso eu não posso voltar, mesmo com o amuleto.

Coral pensou por um momento, lembrando-se que ele se referiu antes a sua pulseira de concha como um amuleto também.

— Como funciona essa história de amuleto? Cada atlante tem um?

Petrus virou-se de frente, limpando a mão suja de creme branco, que ele aplicava em cada mecha de cabelo de Coral, mostrando-lhe o brinco de pingente de golfinho que pendia de sua orelha esquerda.

— Sim, esse é o meu. Ele é feito de oricalco, um tipo de metal que só existe em Atlântida. Cada um deles é feito com algo tirado de lá. Nossos amuletos são o que nos ligam a nossa casa, por isso só através deles é possível chegar a Atlântida. No entanto, eles também lançam uma espécie de alerta, como um sonar, avisando que estamos voltando. Por isso é perigoso usá-lo enquanto Caleo estiver no poder.

— Uau, parece mesmo outro mundo — disse Coral com um ar sonhador, enquanto Petrus pegava um secador e um difusor para a finalização do cabelo. — Você acha que algum dia terei a chance de conhecê-la?

— Eu realmente espero que não — disse Petrus, ligando o difusor e inundando o ambiente com o som estridente e constante do aparelho.

Por um momento, Coral não conseguiu dizer nada pois teve sua visão obstruída por um mar de cachos esvoaçantes. No entanto, assim que vislumbrou uma brecha, tratou de deixar claro sua indignação, gritando por cima do barulho alto:

— Era o lar do meu pai! Eu tenho o direito de conhecê-la!

Petrus não se deixou abalar.

— Se estivéssemos em um mundo justo, talvez. O que não é o caso. Acredite, a Atlântida real não é o mundo colorido e musical que vemos em A Pequena Sereia. Você não ia querer cruzar com um selaquiano, por exemplo, a raça menos confiável de Atlântida, como era se esperar de híbridos de tubarão. Não passam de um bando de traidores.

Coral não ficou satisfeita com a explicação. Há muito pouco atrás, Petrus condenava apaixonadamente a intolerância e o preconceito contra sirênicos mestiços, atribuindo a isso a ascensão de Caleo ao poder. Mas ele não estava fazendo a mesma coisa ao julgar uma raça inteira como "um bando de traidores"? Ele não percebia o quanto sua fala era contraditória?

No entanto, ela preferiu não dizer nada. Afinal, aquele era um mundo totalmente desconhecido e ela precisava saber um pouco mais antes de emitir uma opinião precipitada sobre algo. Além do mais, os movimentos de Petrus em seu cabelo se tornavam mais intensos, a obrigando a se segurar pelas bordas da cadeira giratória.

Quando finalmente o barulho cessou, Petrus fez os ajustes finais, aplicando em suas madeixas algumas gotas de um óleo desconhecido com um cheiro adocicado e suave incrível. Então ele a girou na cadeira, ajeitando os últimos fios. Coral quase caiu para trás assim que seus olhos fitaram sua imagem refletida no espelho.

Seu cabelo não estava nada como o horror que costumava ser. No lugar de mechas desmilinguidas, ondas perfeitas e sem frizz se desenhavam. Os fios estavam soltos e sedosos, e o brilho que emanava naturalmente deles destacava a cor de sua pele, dando-lhe um contraste bonito que ela nunca obteve usando chapinha.

— Uau, isso é... está tão...

— Maravilhoso? — completou Petrus, com um sorriso convencido. — É, eu sei.

— Como fez isso?

— Com o produto e a técnica certa, qualquer cabelo pode ficar bonito. Você só precisa parar de tentar ter o que não tem e valorizá-lo pelo que ele é.

Coral o agradeceu com um abraço apertado e eles riram contentes. Após mostrar-lhe os produtos que usou e fazê-la prometer que cuidaria melhor do próprio cabelo dali em diante, os dois começaram a se arrumar para a grande noite que os aguardava.


ψ


Fazia uma hora que eles estavam na boate e fazia uma hora que Petrus olhava para a tela do seu celular, a expressão mais azeda à medida que o tempo passava.

Não tinha sido muito difícil sair do hotel, Petrus vasculhou a área à procura dos octopos, mas eles já não estavam à vista, provavelmente desistiram da patrulha ao não conseguirem localizar Coral durante o dia. Mesmo assim, ela deixou a pulseira de concha no quarto por precaução. Sem o amuleto, seria mais difícil identificá-la.

A boate era grande e já estava lotada, apesar de ainda estar cedo. A música alta era animada e contagiante. Coral nunca tinha visto tanto homem junto na vida, alguns deles desfilavam de sunga pela pista de dança como se ainda estivessem na praia, os canhões de luzes coloridas passeando por suas peles bronzeadas expostas. Muitos deles tinham um bracelete trançado no antebraço esquerdo. Devia ser uma nova moda. Ela, por sua vez, se sentia incrível em sua roupa nova. O top preto com detalhes de renda, a saia midi preta com estampa de florzinhas brancas e fenda na lateral da perna esquerda e os coturnos comprados por Petrus haviam caído como uma luva. No entanto, seu entusiasmo murchou assim que percebeu que o delfine não se afastaria tão cedo do balcão do bar.

Petrus estava vestido com uma calça capri de alfaiataria cor creme, mocassins e uma camisa de linho. Por cima, um quimono colorido em tons pastéis com detalhes em dourado cobria até o meio de suas coxas, deixando o look sofisticado e elegante. Coral achava que sua cara amarrada era o único motivo por ele ainda não ter sido abordado por ninguém. Ela esperava que pelo menos pudessem dançar um pouco, caso contrário havia se arriscado por nada.

Após o que lhe pareceu uma eternidade, Petrus finalmente bateu no balcão com força, soltando um palavrão indignado.

— Quem esse babaca está pensando que é para me dar um perdido assim, sem mais nem menos? Ele nem é tão bonito assim!

Ao ouvir a raiva em sua voz, Coral abandonou qualquer esperança de curtir a noite com seu novo amigo.

— Hora de ir embora, então?

Petrus lançou-lhe um olhar abismado, como se a ideia de ir embora fosse algo absurdo.

— Tá maluca? Nem pensar! A noite está só começando.

— Mas eu pensei que você tinha vindo para encontrar ele...

— Coral, você ainda tem muito o que aprender. Nenhum homem vale a pena uma ruga sequer de preocupação, muito menos que eu desista de uma noite na balada por sua causa — disse, virando-se para o barman em seguida. — Uma dose dupla de tequila, por favor.

Coral franziu o cenho.

— Tequila? Isso não é meio forte?

— Depois de uma decepção dessas, é o mínimo que eu mereço.

Coral balançou a cabeça, incerta se deixá-lo embebedar seria uma opção segura. No entanto, antes que pudesse fazer algo a respeito, um sujeito de cabelos negros e olhos intensos e profundos se aproximou do balcão, abordando Petrus de maneira bastante sugestiva.

— Posso te pagar essa? Você parece estressado, quem sabe uma companhia não te ajude a relaxar um pouco?

Petrus o avaliou de cima a baixo com indiferença, como se aquele tipo de abordagem fosse uma constante em sua rotina.

— Desculpe, não aceito drinks de caras de quem não sei o nome.

O sujeito deu um sorrisinho de canto, passando uma mão pelos cabelos para fazer charme.

— Problema que pode ser resolvido facilmente. Sou o Cláudio, muito prazer.

Então, como se aquela fosse a palavra-chave para abrir todas as portas do céu, Petrus abriu um sorriso enorme, deixando à mostra todos os dentes pequenos e quadrados.

— Petrus.

O barman chegou com a bebida e Cláudio pediu outra igual para si. Só então pareceu notar a presença de Coral.

— Posso pedir uma para você também?

— Não — cortou Petrus antes que ela pudesse aceitar. — Ela não tem idade para beber.

Cláudio abriu um sorrisinho zombeteiro.

— Você costuma trazer sua irmãzinha para a balada?

Petrus terminou de tomar um gole demorado de tequila, limpando a boca com as costas da mão.

— Ela não é minha irmãzinha.

— Ah, não? Então quem é? Se é que posso saber, é claro...

Aquele papo furado começava a irritar Coral. Ela estava prestes a dizer uma resposta malcriada quando Oxytocin, da Billie Eilish, começou a tocar na pista de dança e Petrus soltou um grito estridente de empolgação.

— Para tudo, é a minha música! — E puxando o braço de Cláudio. — Você tem que dançar essa comigo, não aceito não como resposta!

— Estou aqui para isso.

Coral não sabia se Petrus tinha feito o convite para desviar a atenção dela ou se a bebida já começava a fazer efeito, fazendo-o perder a razão. Ela estava um pouco magoada por ele preferir dançar com um cara que mal conhecia e deixá-la de escanteio, mas por outro lado não queria ficar de vela no meio da pista de dança.

Eles começaram a se afastar, então Petrus voltou por um momento, lembrando-se de repente que não estava sozinho.

— Você não vai ficar chateada se eu for, vai? Podemos nos divertir juntos mais tarde.

— Não — mentiu ela, forçando um sorriso. — Pode ir.

Ele despediu-se com um beijo estalado em sua bochecha.

— Você é a melhor! E lembre-se: nunca confie em selaquianos!

Coral balançou a cabeça, rindo do amigo, e só então notou que Cláudio lhe lançava um olhar penetrante, causando-lhe um arrepio na espinha. Tinha alguma coisa de errado com aquele cara ou era só impressão sua?

Ela decidiu deixar para lá. Petrus certamente saberia se cuidar sozinho.

No entanto, quanto mais tempo passava sozinha no balcão do bar, mais estranha se sentia. A batida da música parecia penetrar-lhe os ossos e as luzes psicodélicas a deixavam tonta mesmo sem beber uma única gota de álcool. Os caras com o bracelete trançado pareciam se multiplicar ao seu redor. Será que havia algum tipo de droga no ar daquela boate? Coral começou a pensar que devia ter ficado no quarto do hotel.

De repente, um cara esguio, alto e de músculos bem definidos parou ao seu lado no balcão, esquadrinhando o interior do bar. De pele morena, longos cabelos lisos e negros, uma calça jeans surrada e regata branca — como se ele tivesse vestido a primeira coisa que encontrou no guarda-roupa —, apenas sua presença física era o suficiente para intimidar qualquer um, ainda que ele não encarasse a pessoa.

— Um... — experimentou ele quando o barman finalmente resolveu atendê-lo. — Gim fortificante?

O barman piscou duas vezes.

— Você quer dizer gim tônica?

O sujeito franziu a testa, parecendo irritado consigo mesmo, como se tivesse praticado a tarde toda como pedir a bebida, só para falhar no final.

— Isso, foi o que eu disse.

O barman se afastou para preparar o drinque, se acabando de rir. Coral deu uma espiada de lado. Ele tinha algo pendurado no pescoço, uma forma triangular em marfim amarrada em um cordão de couro. Uma forma que se parecia muito com um dente...

Sem aviso, ele a atravessou com um olhar, como uma flecha de alta precisão. Coral sentiu o coração saltar para a boca. Aquele cara sabia ser intenso...

E claramente havia se aproximado dela por algum motivo. Aquele dente... ela já tinha visto dentes assim antes. Era grande, pontiagudo, cortante. Um dente de predador. Um dente de tubarão!, ela percebeu com um sobressalto.

— Você é selaquiano!

Não era uma pergunta.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top