3 - O delfine que falava demais
No dia seguinte, Coral acordou com uma dor de cabeça terrível. Tivera sonhos a noite toda, e em todos eles se afogava no mar. Em um deles, o que mais se lembrava, sua pulseira de concha a arrastava diretamente para o fundo e ela não conseguia se soltar, não importava o quanto lutasse. Ficava sempre com uma sensação angustiante, desesperadora, então acordava assustada e ofegante, até lembrar-se que estava em sua cama no hotel.
No entanto, por mais estranha e trágica que tivesse sido sua experiência no mar, Coral precisava se focar em sua triste realidade para resolver o que faria em sua última diária no hotel. Não lhe sobrara muito dinheiro, talvez sequer daria para voltar para casa. Não que ela estivesse ansiosa para voltar ao lugar onde sempre fora maltratada, pelo contrário. Mas a menos que decidisse virar andarilha em Santos, suas opções eram praticamente nulas.
Fosse como fosse, ela aproveitaria sua liberdade até o último minuto. Afastando os pensamentos ruins de sua mente, Coral vestiu-se com o mesmo biquíni do dia anterior, colocando um short jeans e uma camiseta branca com estampa da Mulher-Maravilha por cima. Em seguida, colocou os óculos e amarrou os cabelos em um rabo de cavalo alto. Pensou por um segundo se deveria continuar usando sua pulseira, então deu de ombros, abotoando-a novamente ao pulso. Não deixaria de usar a única lembrança de sua mãe por causa de um único acontecimento estranho, afinal o formigamento e a dor poderiam ser apenas fruto de sua imaginação.
Coral dirigiu-se primeiro ao restaurante, onde serviu-se de um farto café da manhã. Não sabia quando teria outra oportunidade de fazer uma refeição decente, então não se importou com os olhares de reprovação ao encher o prato com tudo o que tinha direito.
Enquanto comia como uma esfomeada, viu passar por sua mesa um garoto que destoava dos hóspedes esnobes ao redor: esguio e de estatura mediana, vestia uma camiseta rosa com bermuda verde água estampada de flamingos e um chinelo slide branco com a inscrição DG nos pés. Seus óculos de lentes redondas e esverdeadas escondiam a cor de seus olhos travessos, e uma mecha de seus cabelos, que desciam em cachos dourados, estavam atrás de sua orelha esquerda, deixando visível um brinco prata com pingente de golfinho. Tinha um rosto fino de traços andróginos que lhe conferiam uma aura atemporal, sendo difícil especular sua idade.
O garoto notou o olhar de Coral sobre si e, ao invés de se irritar, abriu-lhe um sorriso caloroso, deixando à mostra duas covinhas fofas e dentes quadrados e pequenos, afastados na frente. Coral não sabia o que fazer com aquele sorriso, então apenas ficou paralisada no lugar até o garoto seguir o seu caminho e desaparecer de vista.
Após o café, ela se dirigiu para a área da piscina. Afinal, nadar ali devia ser mais seguro que no mar, certo?
Coral tirou a roupa e os óculos, deixando-os sobre uma espreguiçadeira enquanto tomava coragem para entrar na água. Não tinha muita gente àquela hora da manhã, provavelmente a maioria dos hóspedes preferiam a praia, então ela tinha praticamente a piscina quase toda para ela.
Sentando-se na beirada de mármore, Coral colocou a ponta dos pés dentro d'água, estranhando em não senti-la fria. Na verdade, a temperatura era agradável, como se quisesse envolvê-la em um abraço quente, o que a fez pular sem pensar duas vezes. Sem os óculos e com a visão embaçada, os poucos banhistas que lhe faziam companhia não passavam de borrões entre os azulejos azuis. E sua pulseira não a incomodava como antes, o que a incentivou a prender a respiração para experimentar um primeiro mergulho.
Ela nadou de um lado a outro da piscina, sentindo a água acariciar sua pele em movimentos suaves e constantes. Era muito relaxante estar debaixo d'água, quase como se ali fosse seu habitat natural, por mais estranho que pudesse parecer, afinal tia Denise nunca a deixou entrar em uma piscina antes. Coral foi e voltou duas vezes, as pontas dos dedos explorando o fundo de azulejos, mas como ainda tinha fôlego, experimentou abrir os olhos.
Para a sua surpresa, percebeu que conseguia enxergar claramente cada corpo dentro da piscina, cada vão entre os azulejos, cada pequena ondulação da água a sua volta, como se nunca antes tivesse sido míope. Confusa, ela voltou para a superfície, só para descobrir que sua visão continuava péssima fora d'água.
Sua descoberta inusitada acendeu algo desconhecido dentro dela, uma ânsia de querer explorar mais, de saber mais sobre si mesma e do que era capaz. Como era sua primeira vez em uma piscina, Coral não fazia ideia do que estava acontecendo, embora tivesse uma leve impressão de que aquilo não era normal. Pelo pouco que sabia, ninguém conseguia ficar por tanto tempo debaixo d'água sem respirar, ou ter a visão milagrosamente melhorada ao entrar em contato com ela. Prendendo a respiração, ela mergulhou uma segunda vez, agora com os olhos abertos. A água era como uma tela nítida, não deixava a menor das poeiras escapar de sua visão.
Embora assustada, uma crescente empolgação foi tomando conta de seu ser. Sentia no fundo de seu coração que estava no caminho certo para entender quem era de fato. Ela nadou um pouco mais, atravessando a piscina como um peixe explorador inquieto, até que o som de uma voz cristalina ao fundo a fez estancar.
— ...Aquele atlante não estava lá por acaso... talvez esteja na hora de me mudar de novo... ah, tubarões me mordam, podia ser pior... podia ser um selaquiano...
Coral sentiu o coração disparar, virando-se na tentativa de localizar a fonte daquela voz. Não fazia ideia do que aquelas palavras significavam, mas estava certa de que elas não deveriam ter saído tão nitidamente no fundo da piscina. Era uma questão de física.
— Quem disse isso? — ela experimentou dizer, para testar sua própria voz e para tentar estabelecer uma comunicação com quem quer que fosse.
No entanto, a voz estranha se calou assim que a sua se fez ouvir, tão nítida e clara quanto a primeira. Coral encontrou o mesmo rosto do garoto das covinhas fofas do café da manhã encarando-a com incredulidade, seus cachos formando uma moldura ondulante em torno do rosto assustado. Antes que ela pudesse se aproximar, ele voltou para a superfície, nadando apressado para a borda da piscina.
— Ei, espere! — Coral gritou, também de volta à superfície, nadando o máximo que podia para alcançá-lo. — Volte aqui, vamos conversar.
O garoto, porém, recolheu suas roupas apressadamente, os óculos tortos no rosto, recusando-se terminantemente a dar qualquer explicação. Coral foi atrás dele, pingando água e ignorando os protestos do funcionário do hotel. Era proibido entrar nas dependências do prédio molhada e em trajes de banho, mas ela não podia deixá-lo escapar. Além do mais, se estava quebrando as regras, ele também estava e Coral precisava saber o porquê.
O garoto correu ao longo de um corredor comprido e acarpetado, deixando pegadas molhadas pelo caminho, até entrar em um cômodo pela lateral direita. Havia uma placa na soleira da porta que Coral não conseguiu ler porque estava sem os óculos. Porém, assim que entrou, descobriu tratar-se de um banheiro. Uma das cabines estava trancada e ela se dirigiu diretamente a ela, batendo à porta sem muita paciência.
— Ei, saia já daí!
— Aqui é o banheiro masculino, você não pode entrar aqui!
— Eu não ligo a mínima para isso. Venha aqui fora, eu só quero conversar.
— Não tenho nada para conversar com você. Pode dizer ao meu pai que não vou voltar para casa, não importa quantas sereias ele mande atrás de mim.
O choque a atingiu em cheio. Aquilo era tão descabido que a fez pensar que talvez estivesse falando com algum fugitivo do hospício.
— Sereias? Do que está falando?
— Não tente desconversar, eu vi o seu amuleto, sei que é uma atlante também. Está aqui por minha causa, veio a mando do meu pai, só pode. A menos que... não, não haveria motivos para Caleo vir atrás de um delfine de baixo escalão como eu. Não faria sentido...
Coral lançou um olhar involuntário a sua pulseira de concha. Seria ela o tal amuleto de que ele falava?
— O que você diz é que não faz sentido — tentou ela mais uma vez. — Não entendi uma palavra do que disse, nem sei o que significa ser um atlante.
— Acha que sou idiota? É claro que está dizendo isso para me testar, mas não vou cair no seu jogo. Um atlante não saber o que é ser um atlante, essa é boa...
Cansada, Coral escorou-se na parede lateral, soltando um longo suspiro.
— Mas eu realmente não sei... Olha, desde que cheguei a Santos, coisas estranhas tem acontecido comigo e quando te ouvi no fundo da piscina... Sei lá, só achei que talvez pudesse me explicar alguma coisa.
O garoto permaneceu em silêncio por um tempo, como se estivesse tentando juntar as peças de um intrincado quebra-cabeças em sua mente. Quando enfim voltou a falar, abandonou o tom defensivo de antes, assumindo um tom incerto de incredulidade e confusão.
— Desde quando chegou... Você não é daqui?
Coral aproveitou a brecha para tentar ganhar sua confiança.
— Não... quer dizer, sim, eu nasci aqui, mas depois que minha mãe morreu em um acidente de carro eu fui levada para o interior, para ser criada com a minha tia Denise.
Um novo silêncio caiu sobre eles, denso e incômodo. Coral trocou o peso de suas pernas, observando a palidez de sua pele. Estava abafado dentro do banheiro, a água da piscina misturando-se com o suor salgado em uma papa grudenta.
Então, lentamente, ela ouviu o barulho do trinco sendo puxado, uma fresta da porta abrindo-se para revelar o rosto espantado do garoto. Seus cachos dourados estavam bagunçados no topo de sua cabeça e seu rosto pálido e olhos arregalados lhe conferiam um aspecto que beirava a insanidade. Coral esperou que ele falasse algo.
— Como... como é o seu nome?
— Coral. E o seu?
Ele, no entanto, soltou um grunhido de dor ao ouvir o nome, o rosto ficando tão pálido quanto um fantasma. Por um instante, Coral temeu que desmaiasse ali mesmo.
— Não pode ser, esse nome... é um nome comum, certo? Deve haver centenas de garotas chamadas Corais...
— Não, na verdade é um nome bem raro, nunca conheci outra Coral antes...
— Mas isso não quer dizer que não existam outras... afinal, qual a probabilidade disso acontecer? No entanto, você definitivamente é uma atlante, mesmo se não tivesse o amuleto, você me ouviu... e-espera, o seu pai... você tem um pai, certo?
— Devo ter em algum lugar, mas não sei quem ele é.
— Bolhas! Não pode ser! — Ele agarrava seus cabelos de forma desesperada, puxando os cachos com força. — Não, não, não, não, de todos os atlantes do mundo, por que comigo? Poseidon deve estar me castigando por eu não ter atendido ao chamado.
Coral franziu a testa. Aquela conversa ficava cada vez mais estranha.
— Poseidon? Tipo o deus do mar grego?
O garoto voltou a encará-la, parecendo mais doente do que nunca.
— Você não sabe mesmo do que estou falando, não é?
Coral negou com a cabeça.
— Não faço ideia.
— Acho que não tem outro jeito, então. Caleo já deve saber, aqueles octopos que encontrei na orla não estavam lá por acaso. Você está correndo um risco terrível, Coral.
Sua fala a deixou mais com raiva do que com medo.
— Já estou farta de enigmas! Se você tiver a bondade de me explicar que risco terrível estou correndo...
Ele pigarreou alto, endireitando a postura.
— Me desculpe pela minha falta de modos, mas não podemos ter essa conversa aqui. Venha comigo, estaremos mais seguros lá em cima, no meu quarto. E a propósito, meu nome é Petrus.
Olá pessoal, como vão?
Demorei, mas cheguei com um capítulo fresquinho para vocês, espero que tenham gostado...
Me contem o que acharam de Petrus, ele será um personagem muito importante daqui em diante.
E Coral finalmente saberá a verdade sobre o pai?
Volto semana que vem com mais, até lá deixem seu voto e seu comentário!
Bons ventos e até a próxima ;)
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