Capítulo 9 | Impossível
Serra do Mar, Morretes/PR - 21/03/2020, 8:21 - Corte Sul
Malakai Arsov
A lâmina de prata que rasgara seu peito agora estava no coração. O queimando, dilacerando, despedaçando. O veneno que ela usara era absorvido por sua corrente sanguínea, o dopando morosamente.
E ainda assim... nada.
Kai arquejou, gemendo de dor. Rosalie estava boquiaberta, e respirava com tanta dificuldade que parecia pior que ele.
- Por que você não morre?!
A meia vampira uniu as sobrancelhas, e mais determinada torceu a faca, a girando fundo em seu peito. O alfa soltou um grito, sentindo o músculo do coração se destroçar.
A situação de Rosalie também não melhorou. Na verdade, por mais que fosse a vida dele que estivesse por um fio inquebrável, ela é quem parecia desfalecer, tossindo sangue e erguendo o rosto à procura de ar.
Rosalie largou a faca e saiu de cima dele num pulo, abanando o rosto à procura de mais oxigênio.
– O que... que você fez comigo?!
A meia vampira tentou cambalear para se apoiar em uma árvore, porém caiu de joelhos. Kai rolou para o lado, expelindo sangue pela boca.
A dor pungente aumentava gradativamente, como que acionada por um botão energético invisível. Ele comprimiu os olhos, segurando a lâmina no peito.
Aquilo era novo.
Por não conseguir morrer, ele tinha optado por sair do posto de alfa dos alfas e viver como um lobo solitário, ainda que precisasse matar todos para os convencer de que queria ficar só.
Mas aquela dor lancinante era novidade. Um vestígio cruel que o deixava mais perto do além mundo.
Será que finalmente seria capaz de morrer?
O alfa segurou o cabo da faca, a puxando pra fora do coração. Com os lábios pressionados, conteve o grito de dor, que abafado rompeu numa crise de tosse.
- N-não te fiz nada... V-você quem me esfaqueou. – Kai murmurou com dificuldade, sentindo a cura acontecer vagarosamente. Mais lenta que o comum.
Droga. Adeus morte.
- Você não morreu. – a meia vampira balbuciou – E agora sou eu que estou morrendo...
Rosalie se levantou de forma trôpega, e cambaleou pra longe dele, agora parecendo lutar contra um monstro invisível. Ela se escorava numa árvore, depois reaparecia no outro lado, se apoiando em um arbusto.
- O que está acontecendo comigo?! - a ouviu dizer novamente. Kai piscou, tentando acompanhar o pinball ambulante que ela havia se tornado.
Fome.
Rosalie estava fraca, e o cheiro do sangue dele estava a afetando. Ela lutava contra a vontade de se alimentar. Por quê?
A resposta veio rápido. Rosalie não tinha conseguido resistir. E agora estava arqueada sobre ele, roubando uma lasca de sangue com o indicador.
Assim que ela o provou, a coloração antes pálida voltou ao normal, bem como a respiração. Rosalie inspirou fundo, puxando ar pra dentro do peito.
E instantaneamente, oxigênio o adentrou também. Limpo e fresco. O ar serpentou pelo pulmão dele, puxando a cura no encalço. Os olhos de Kai se arregalaram.
Que porra era aquela?
A meia vampira se afastou, dessa vez, como um pinball mais direcionado.
- Precisamos sair daqui. – ela ordenou, tentando fazer o isqueiro que tirara do bolso funcionar.
Malakai se levantou, o corpo nu sujo de terra e sangue. Quando olhou a própria volta, fitando os corpos destroçados, ficou completamente consternado.
– É, você matou toda essa gente e nem se deu o trabalho de colocá-los 7 palmos abaixo da terra. – De costas, Rosie ralhou pra ele. Kai bufou.
Não ia se dar o trabalho de reiterar que não havia sido ele. Pelo menos, não todos.
Ela agora fazia esforço para queimar um ramo do arbusto enquanto despejava alguma substância que tirara de um dos bolsos. Depois, pegou o ramo em chamas, e o depositou sobre um dos corpos.
O fogo começou a queimar um braço e uma perna aleatório, exalando um cheiro ocre que fez Kai franzir o cenho, levando o antebraço ao rosto.
O alfa fechou os olhos, tentando se concentrar para começar a transformação. A forma lupina aguçava todos os sentidos dele, estimulando ainda mais as habilidade. E a cura era uma delas.
Ele inspirou uma, duas, três vezes, e...
- Não estamos sozinhos. – as narinas dele se dilataram, calculando. Rosie olhou em volta preocupada. – São lobos, chegarão em minutos.
Se continuassem tão rápido quanto estavam.
- Estão longe? – Ela perguntou ainda de costas. Kai percebeu o esforço que ela fazia pra não olhar ele.
- Uns dez quilômetros. – Respondeu, ainda imerso nos cheiros. Rosalie o olhou por cima dos ombros rapidamente.
- É impossível. Ninguém consegue farejar tão longe. – a meia vampira debochou.
- Impossível... – Tá aí uma palavra que não existia no dicionário dele. – Você já conheceu alguém que não morre?
Ela pendeu a cabeça, parecendo analisar a pergunta dele. Inclusive, outra indagação sobre coisas que não deveriam existir atiçou a mente dele.
De repente, Kai soltou a pergunta:
- Rosalie, o que você fez com a gente?
A meia vampira se deteve.
- Não sei o que quer dizer, Malakai. E de toda forma, não é hora de conversa. Você está prestes a ser encontrado.
- Eu? – Uma das sobrancelhas dele se arqueou – Desistiu de me matar?
- Claro que não. – Rosalie finalmente se virou, o queixo levemente erguido. – Pelo jeito, o que devo fazer agora não é te matar, mas sim descobrir como você morre.
- Vai fugir?
Kai queria que ela ficasse, precisava saber o que Rosalie tinha feito.
- Recuar. – o corrigiu. – Hoje não posso sair vitoriosa, mas quem sabe amanhã, quando estiver pronta?
- Não vou permitir que fuja.
- Então tente vir atrás de mim. - Rosalie sorriu, os olhos brilhando em desafio.
Kai riu, reencontrando naturalmente a concentração para começar a transformação. A dor que devia despontar quase não fez cócegas. Notadamente, a ferida do coração devia tê-lo deixado dormente.
Ele inspirou, agora revestido pela pele lupina. Pela ausência do cheiro da meia vampira, ela já devia estar longe. Mas ele ia encontrá-la.
Rosalie podia se considerar boa na caça. Porém, provavelmente ainda não tinha se deparado com uma criatura como ele.
Feita pra isso.
E Kai começaria com o calcanhar de Aquiles dos vampiros: a fome. Ela podia ter roubado um pouco do sangue dele, contudo precisaria de muito mais para se saciar.
Mas antes de dar início a parte divertida, ele teria que vestir mais uma vez a máscara de carrasco. Então virou o corpanzil lupino pra entrada da trilha, esperando pacientemente os três lobisomens que chegariam.
O som das patas contra o solo cessaram aos poucos. Indicando que eles já estavam ali.
Primeiro, um lobo negro apareceu, posicionando-se ao meio. O alfa. Depois, dois lobos cinzentos apareceram, guardando cada lado da retaguarda.
Kai grunhiu em aviso. Sempre tentava a paz antes da guerra.
De nada adiantou. Os três lobos eriçaram as caudas em posição de ataque. Os olhos deles estavam vidrados, como se não acreditassem que estivessem na frente do alfa dos alfas. O famoso desertor.
Ele sorriu intimamente, como quem diz "não, vocês não estão sonhando".
AAAAA Demorou mais saiu!! kk
O que acharam???
Semana que vem (ou final de semana) volto com mais um cap! Espero vocês!
E por favor, não se esqueçam da estrelinha <3
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