Capítulo 7 | Carnificina
Serra do Mar, Morretes/PR - 21/03/20, 7:56 - Corte Sul
Rosalie Armstrong
Ela sabia que Malakai tinha tirado a toalha para fazer a transformação, e por mais que sua curiosidade estivesse a atiçando para olhar, não o fez.
Na verdade, mal tinha coragem de encarar ele agora. Pelo menos, não enquanto o constrangimento ainda crepitava no âmago, perfeitamente disfarçado pelo teimosia.
Atrás dela, os ossos de Malakai estalavam e se quebravam. Rosie umedeceu os lábios, engolindo em seco. Quando a meia vampira finalmente olhou pra trás, um grande lobo branco a encarava.
Ela o contemplou em sua majestosidade, gravando na mente os contornos dos olhos cinzentos e o focinho grande.
Simplesmente...lindo.
Ele grunhiu na direção dela e desapareceu da caverna. A meia vampira esperou que o cheiro dele se distanciasse. E assim que o lobo se foi, Rosie massageou os pulsos outrora presos, e esticou os braços se espreguiçando. Um ritual de preparação que sempre seguia antes do trabalho.
O olhar dela perscrutou o local novamente, estudando toda a composição rochosa da caverna, que parecia muito antiga. E pelo cheiro intrínseco de cachorro molhado, um vampiro não devia ter pisado ali há pelo menos um ano.
Ela deu a volta pela caverna, indo de um lado a outro. Depois se agachou frente à corrente que ele tinha quebrado para soltá-la. Rosie franziu o cenho, tentando arrebentá-la com a força sobrenatural. Porém o material não sofreu dano algum.
Ok. Talvez ela estivesse muito fraca devido à fome, ou talvez... bom, haveria algum tipo de material inquebrável pra vampiros? Pendeu a cabeça, analisando. A segunda opção era muito improvável, levando-se em conta à experiência dela com torturas. Ficaria com a primeira hipótese.
Próximo.
Foi até o baú outrora aberto pelo alfa, procurando qualquer coisa relevante ou fundo falso. Nada. Somente algumas toalhas e cobertores estavam no fundo, emboladas em um emaranhado de tecido.
Tsc, tsc, tsc... Malakai não era organizado.
Rosie se despiu da roupa molhada e se enrolou em um cobertor com cheiro de montanha e pinho. O cheiro de Malakai.
Ela balançou a cabeça, e seguiu para perto do fogo, colocando a roupa molhada entendida em um tronco perto do calor.
O que faria agora?
A mente viaja enquanto os olhos verdes observavam cada fagulha das chamas. As labaredas se moviam em uma dança sensual e quente, quase hipnótica.
Determinada, a meia vampira girou nos calcanhares, seguindo pra friagem enquanto apertava ainda mais o cobertor envolta de si.
A floresta da Serra do Mar estava em um escuro sepulcral, iluminada somente pelas estrelas. O vento soprava preguiçosamente entre as árvores. E o único som que se ouvia era da cachoeira e das folhagens, até os animais haviam sumido.
Ela cheirou o ar, tentando localizar qual lugar deixara algumas provisões. O rosto virou para o leste, seguindo o rastro deixado, num cheiro sutil de rosas.
A visão e a velocidade sobrenatural a guiaram até uma árvore com galhos secos e magrelos. Rosie se abaixou, desenterrando o saco de pano, e o escondendo dentro do cobertor que revestia seu corpo. A vampira deu meia volta, voltando pra caverna do alfa.
Pelo jeito que ele a olhara antes de desaparecer, a intenção de não voltar ficava clara. O que não significava que ela não iria arás dele.
Rosie foi até a cama a passos pesados. Se sentia fraca, e realmente estava. E se Malakai não tivesse mandado todos os aventureiros e drogados embora, talvez ela pudesse fazer o lanchinho fresco da noite.
Mas agora infelizmente teria de se contentar apenas com as barrinhas de cereais que havia trago.
Agora concordava plenamente com Raviel, que dizia que Rosalie não sabia arrumar mantimentos. E quando agiam em bando, tal tarefa sempre ficava a cargo de Harley, o vampiro mais guloso que conhecia, que graças à gula juntava as melhores e mais deliciosas provisões.
Ela se acomodou na cama confortável e inspirou profundamente, ignorando o cheiro do alfa e seu fracasso, para então pensar nos próximos passos. Tinha entrado na execução do plano D assim que percebeu que o A, B e C estavam fora de questão.
É... não estava fácil.
Ela abriu o saco de pano, tirando a faca de prata do tecido. Os olhos dela escorregaram pelo reflexo à meia luz, estudando as runas entalhadas no cabo de madeira.
O plano era D, de desespero, de dando a louca.
Rosie passou a lâmina no ar, imaginando-se cortando a garganta do alfa. Um sonho? Poderia ser. Mas era preferível se iludir ao invés de imaginar a própria morte.
Por isso, se deitou novamente rogando a grande mãe por um milagre. Não soube quanto tempo ficou acordada, mas quando sonhou, um mundo fantástico e jamais visto lhe fez visita.
[..]
Rosie abriu os olhos, zonza pelos segundos que precisou para se situar no pesadelo que vivia. A luz solar já despontava na entrada da caverna, atribuindo um brilho quase etéreo às paredes rochosas.
O barulho da cachoeira soava alto, indicando o quão forte a correnteza desaguava. Ela se concentrou por alguns instantes, buscando sons e cheiros externos. Mas somente o piar dos passarinhos a saudou junto da brisa suave que dançava nas árvores, envolvidas pelo cheiro verde da floresta.
Um belo dia pra matar um alfa.
Ela foi até a fogueira, que se tornara apenas brasas, e pegou sua roupa seca estirada no tronco ao lado. Rosie se vestiu, enfiando na jaqueta e bolsos de couro os pertences que estavam na sacola de pano.
Adagas, facas, e... acônito.
Caminhou até a entrada da caverna, elevando uma mão para proteger os olhos da claridade. Descendo, foi até a beira da correnteza. Rosie levantou a face, sentindo a quentura do sol matinal sob a pele e respirando fundo. As narinas dela se dilataram, absorvendo o cheiro de...Sangue.
Ferroso, metálico, pútrido.
Um alarme interno tocou em seu íntimo, eriçando todos os pelos do corpo. A meia vampira virou o rosto, alinhando-o na direção do cheiro.
Não havia mais beleza, nem leveza. Só morte.
Rosie correu furtivamente no rastro do sangue, se esgueirando por árvores e arbustos durante quilômetros até uma espécie de clareira.
Quando chegou, precisou piscar diversas vezes para ter certeza que o cenário era verdadeiro.
Haviam pernas, braços e cabeças - outros órgãos que não soube discernir - jogados em todo canto. As árvores altas tinham galhos quase que inteiros quebrados, inclusive uma delas tinha o tronco estilhaçado.
O chão batido estava enlameado, com poças de sangue que conduziam dúzias de moscas. O zumbidos das varejeiras pareciam invadir a sua mente. E o cheiro...argh. Rosie colocou uma das mãos no ventre, como se pudesse segurar o conteúdo do estômago que subiu pela bile.
Ela caminhou, adentrando ainda mais a carnificina enquanto se desviava de alguns corpos. Foi quando o encontrou, posicionado no centro de todo o caos.
O grande lobo alfa parecia morto, senão fosse pelo som da respiração que indicava que dormia profundamente. A pelagem outrora branca agora tingida de vermelho, com alguns grumos de sangue colados pelo corpanzil.
O que Malakai fizera?
Um raiva descomunal começou a subir por sua espinha, mas antes que explodisse, respirou fundo. Toda aquela missão suicida já estava um estrago total, não poderia colocar mais nada a perder.
Por isso buscou se concentrar, para então reconstituir na mente todo o massacre. Passou segundos somente inalando o cheiro da morte, e detectando o odor vampírico mesclado ao de humanos e lobisomens.
Os olhos dela se arregalaram.
Algo estranho e que não acabara nada bem havia acontecido ali. E se não estivessem em meio a tantos caos de guerra e política e morte, talvez tivesse votado na hipótese de uma confraternização entre as espécies.
Que outro motivo poderia tê-los reunidos?
A meia vampira dobrou os braços na frente do peito, sentindo a irritação descomunal subir pela espinha novamente. Afinal, ela passara mais de um mês não somente seguindo Malakai, mas cuidando para que a matilha de lobisomens não o encontrasse na floresta. Porém, aquela carnificina era como um incêndio florestal que exalaria o cheiro por toda a cidade.
E seu prazo para cumprir a missão estava acabando. Tão rápido que parecia água perpassando entre seus dedos. E ela já podia sentir o pânico acerca dos pesadelos que estariam a esperando quando fracassasse.
Não. Aquilo já tinha ido longe demais. Quem ele pensava que era para matar daquela maneira e colocar tudo a perder?
Rosie marchou na direção do grande lobo, perpassando por corpos já infestados de moscas. Antes dela chegar, Malakai abriu um dos olhos cinzentos, a observando ir com tudo pra cima dele.
A meia vampira puxou e ergueu a faca de prata embebida em acônito. O lobo nada fez que bufar. A respiração entrecortou-se, estimulada pela fraqueza da fome e a adrenalina.
Ela se arqueou um pouco, saltando com a habilidade sobrenatural e caindo agachada sobre o alfa. Malakai apenas respirou serenamente quando sentiu a faca sob a jugular.
- Isso é mais um motivo pra matar você. – falou, ainda que fosse pra si mesma. Fechou os olhos por um instante, reunindo forças.
Faça. Faça. Faça logo.
Mas então, com um movimento ligeiro com a pata, o lobo a virou, ficando por cima dela. Rosie prendeu a respiração, observando a transformação acontecer a um palmo de seu rosto.
Os pelos desapareceram, dando lugar a pele e músculos. As garras retrocederam das patas, com as mãos aparecendo uma de cada lado de sua cabeça. As presas e o focinho sumiram, permitindo que o queixo quadrado do alfa ressurgisse, bem como as sobrancelhas cheias que adornavam os olhos afiados e cinzentos.
Malakai estava ali, nu como veio ao mundo. Em cima dela, grande e robusto como o poderoso macho que era. A faca agora erguida na direção do peitoral dele.
Rosie engoliu em seco:
- O que está fazendo?!
- Facilitando as coisas. Quer me matar? Faça. – ele começou a abaixar o corpo, chegando perto da ponta letal.
As mãos de Rosie começaram a tremer.
- É o que eu devia fazer, sabia?! – rebateu, ganhando tempo. – Como pôde matar essa quantidade de criaturas?
Ele franziu o cenho.
- Não os matei. Cheguei quando já estavam quase todos mortos.
Ou seja, havia matado sim. Mesmo que alguns.
- Por que matou humanos?
- Não eram humanos. Eram caçadores.
- Caçadores... de quê?
Ele pendeu a cabeça.
- Acho que eu os matei antes de perguntar.
Rosie se irritou.
- Isso é engraçado pra você?! - apertou ainda mais a faca, como se aquele comentário fosse mais um motivo para matá-lo.
Ele meneou a cabeça, negando. E então, fez o impensável:
- Feche os olhos, prenda a respiração e faça.
Surpresa, Rosie ergueu uma sobrancelha. Tanto pela vontade dele de morrer pelas mãos dela, quanto pelo conselho.
- Você parece experiente.
- Dei o meu pior. - Ele deu de ombros, um vestígio de tristeza perpassando rápido pelos olhos. - Agora faça.
- Eu... – Ela fechou os olhos, mas quando foi inspirar fundo a fim de prender a respiração, um calafrio a tomou. – Que cheiro é esse?!
- Só sinto o seu cheiro.
Rosie revirou os olhos.
- Olha, eu acho que a sua ''seca'' já está começando a afetar seu cére... – o cheiro veio novamente com outra inspiração. – É pólvora.
E vinha rápido, na direção deles.
- Pólvora? – ele uniu as sobrancelhas.
Pólvora... O mesmo cheiro de caçadores de vampiros, que viviam entre armas e munição pesada. Rosie agiu rapidamente, usando o que restara da força sobrenatural para trocar de posição, ficando em cima dele novamente.
Os dedos ágeis dela foram pra barra posterior da calça, tirando a pistola e a destravando.
1, 2, 3...
O homem veio correndo na direção deles, uma besta na mão prestes a ser disparada. Rosie foi mais rápida, acionando o gatilho.
Atirou duas vezes. Uma bala se enterrou no crânio do homem, enquanto a outra entrou-lhe pelo olho direito.
Perfeito. Se felicitou, observando o homem cair estatelado no chão.
- Foi fácil demais. – O alfa comentou. – Eu precisei arrancar a cabeça de um deles pra que parasse de tentar me esfaquear.
- Exatamente por isso foi fácil. Você matou os amigos dele, e ele estava tão preocupado com a vingança que não tomou as precauções necessárias. – ela o encarou. – Caçadores de vampiros sempre andam juntos. Não se faz o que você fez se não puder matar o bando deles de uma só vez.
- É sério que você realmente acredita que ele estava focado em outra coisa, a ponto de não perceber a morte iminente? – o alfa sustentou o tronco com os cotovelos, as sobrancelhas arqueadas.
- Sim. Você por exemplo está tão focado no meu cheiro que não sentiu o caçador chegando. Do mesmo jeito que não sente sua morte... - posicionou a faca entre o peitoral dele novamente - A uma facada no seu coração.
- Não o senti porque ele é um caçador de vampiros, não de lobisomens. E não há ameaças a minha vida porque elas simplesmente não existem.
- Malakai, sou uma assassina. – murmurou, tentando absorver a letalidade que sempre carregara.
O alfa segurou a mão dela, que agora posicionava a faca de prata na direção de seu coração, forçando-a ainda mais de encontro ao seu peitoral.
– Então Faça, Rosalie.
Ele a encarou, umedecendo os lábios. Rosie desviou o olhar pra faca, respirando fundo.
- Você errou por ter me subestimado, alfa.
A meia vampira fechou os olhos, prendeu a respiração e forçou a faca. A lâmina lhe rasgou, perfurando-o fundo, a um triz do coração lupino.
Rosie abriu os olhos. Malakai ainda a encarava, a mandíbula cerrada.
Ela pressionou os lábios, tentando reencontrar o controle da mão que agora tremia, incapaz de seguir adiante. O que estava acontecendo? Devia ser o fato de que estava sentada em cima do alfa nu...
Não. Foco, Rosalie! Vai. Por você. Por sua liberdade.
Malakai respirou tropegamente, as sobrancelhas unidas.
- Eu te ajudo.
Os dedos quentes dele fecharam-se em torno da mão dela, forçando a lâmina de prata dentro do próprio coração. Malakai arquejou, trincando os dentes. A meia vampira mordeu os lábios, sentindo a visão se marejar.
Os olhos do alfa piscaram lentos quando ele tossiu, regurgitando sangue. Rosalie ficou boquiaberta, observando a vida se esvair gradativamente do alfa, enquanto também parecia ser arrancada dela.
Chegamos ao fim de mais um cap, pessoal!
O que acham, nossa Rosalie matará nosso alfa? Ou o contrário? Ou nenhum dos dois? hahaha
Novidades vem por aí, meus amores!! ( e eu não vejo a hora de contar hehe)
Obrigada por acompanharem estes dois. Até o próximo cap <3
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