Capítulo 24 | Desejo Insaciável
Na Rebelião | Corte Sul | Horário xxx - 24/03/2020
Rosalie Armstrong
Rosalie ainda não fazia ideia do que havia acontecido, mas o alfa parecia destroçado, e vê-lo daquela maneira era como ter um membro do próprio corpo quebrado. E acredite, isso já tinha acontecido muitas vezes para que não reconhecesse a sensação.
De qualquer maneira, sua primeira reação fora abraçá-lo, ainda que a princípio ele não devolvesse a rodeando com os braços musculosos. Ela continuou até que finalmente, meio sem jeito, um abraço quente a apertou contra o peitoral duro.
E Rosalie só acreditou que era real quando sentiu a nuca ser fungada pelo alfa. Pigarreando, o soltou.
- Você está melhor? – Kai perguntou, os olhos a perscrutando rapidamente em busca de ferimentos.
- Sim – acenou, se afastando. E quando percebeu a nudez do alfa, virou de costas, tirando os cabelos colocados ao redor do rosto e os jogando para trás. – O que aconteceu com você?!
- Nada.
Rosalie o olhou de soslaio.
- Há poucos minutos você parecia desesperado.
- Você não estava acordando. Achei que tivesse se afogado.
- Ah. – deixou escapar, sentindo um rubor queimar as bochechas. – Estava assim...por causa de mim?
Atrás dela, Kai soltou um grunhido, mas não respondeu. Rosalie cruzou os braços, tentando ignorar o momento constrangedor que se instalara.
– Onde estamos? - mudou de assunto.
- Me diz você.
- Já te falei que entrei na rebelião usando a entrada de outro país... – resmungou, olhando para a correnteza forte que passava na frente deles. Estavam no que parecia um banco de areia, quer dizer, um banco de terra, porque a areia embaixo deles era escura e pesada. - Um rio subterrâneo? – fez uma pergunta retórica.
- Não – o alfa apareceu ao seu lado, e apontou para a esquerda, de onde uma manilha grande jorrava água abundante. – Provavelmente um rio com o curso desviado para o subterrâneo.
- Estranho.
- Eu diria engenhoso. – Kai murmurou, as mãos na cintura.
Rosalie se virou pra ele, o encarando. O olhar cinzento do alfa a atingiu com intensidade e peso. Ela precisou fazer esforço para não se retrair.
Se sentia confusa, curiosa, e... emocionalmente deslocada em relação ao alfa. O que de fato, era algo surpreendente. Já ele, se mostrava mais cauteloso, alarmado, e talvez mais perigoso. Ainda que sua nudez lhe desse um ar um tanto rústico quanto vulnerável.
Ok.
Admitia que também um tanto erótico. Não que estivesse olhando ou já tivesse visto, lógico.
- Precisa se acostumar com minha nudez. – ele disparou.
- Já me acostumei.
O alfa grunhiu novamente e se virou, observando a paisagem envolta na penumbra.
- Mentir não combina com você, Rosie. E não funciona comigo.
Ela suspirou e passou as mãos pelo rosto ainda molhado, o seguindo. De vez em quando, uma brisa gélida perpassava eriçando os pelos de seu corpo, e sua roupa molhada agravava o frio.
Eles andaram em silêncio por alguns minutos, observando o grande banco de terra em que estavam. Era extenso e delineado pela correnteza forte da água que constataram ser doce e potável.
As paredes da grande caverna eram mais escuras e feitas de pedregulhos e rochas. E o ambiente só foi minimamente clareado quando chegaram perto de uma luz ofuscante vermelha, que ainda piscava feito um alerta na extremidade oposta.
- Eu vi essa luz quando estávamos caindo!
- Eu também. Acho que esse lugar foi evacuado por causa da explosão. – O alfa murmurou, apoiando a mão na cintura dela para que seguissem juntos para a esquerda, de onde as sombras pareciam estar em formatos de...
- Construções! – Rosie praticamente gritou, surpresa por aquela descoberta.
A visão sobrenatural a guiou para o que parecia uma entrada, com duas tochas apagadas fincadas no chão. A sua frente, haviam três casebres de areia.
As casas não tinham janelas, somente uma entrada sem porta. Estavam em volta de uma grande fogueira apagada com alguns utensílios de ferro e cozinha.
Ela tentou se adiantar, indo em direção a primeira casa. Mas a mão do alfa puxou seu antebraço para que o esperasse.
- Vamos andar juntos.
- Não acho necessário. – murmurou quando entraram na sala com um banco de terra de dois lugares e uma almofada preta.
- Se você tivesse mais perto de mim quando o chão se abriu sob nossos pés, não teríamos caído.
- Então não teríamos descoberto tudo isso. - estalou a língua, passando para o próximo cômodo.
Ali continha dois bancos e uma mesa de terra, algo parecido com uma cozinha. Depois, finalmente foi para o último cômodo, com dois colchonetes no chão e mochilas perto da porta.
Várias roupas estavam jogadas perto das bolsas parcialmente cheias. Inclusive, uma das mochilas tinha várias pistolas carregadas. Rosie verificou cada uma e observou que todas as balas eram de prata.
- Provavelmente fugiram sem conseguir levar as coisas. – O alfa analisou, recebendo um aceno de concordância por parte dela. – Vamos dormir aqui hoje. Precisamos encontrar comida, e...
- Você precisa encontrar uma roupa. – o interpelou, analisando uma calça jeans que acabara de encontrar jogada no chão. – Talvez dê em você.
- Cheira a vampiro. – O alfa pressionou os lábios.
Rosie deu um sorriso torto.
- Acho incrível como você menciona a minha espécie como se eu não fizesse parte dela.
- Você é diferente. – ele murmurou, pegando a calça de sua mão. – Vampiros normalmente tem cheiro de sangue e morte, você tem cheiro de... – as narinas dele se dilataram um segundo antes do cenho se franzir. – Ainda não consegui identificar, apesar de não ser ruim.
Rosie ainda o encarava quando mais uma vez o olhar dele recaiu sobre ela com intensidade. Desviando os olhos, ficou de costas para que ele se vestisse.
- Vou verificar as outras casas e procurar comida.
- Não acho que...
- Kai. – disse calmamente. – Não preciso de babá. E de qualquer forma. – apontou para a própria cabeça de fios avermelhados. – Podemos nos falar a qualquer momento pelo laço.
Ele ainda abotoava a calça jeans quando assentiu contra vontade, dizendo:
- Vou dar uma olhada e ver se é seguro para passarmos a noite.
Rosie acenou para ele antes de sumir da vista da alfa e ser abraçada pela escuridão. Somente o barulho de água e vento, e o cheiro de vampiros pairava sobre o lugar.
Ela foi até as outras casas, constatando o mesmo que a primeira: haviam saído sem conseguir reunir seus pertences, e como na última casa havia um prato de comida pela metade e frio, talvez tivesse acontecido naquele dia.
Aliás, fora a comida do prato, não encontrara mais alimento algum. E saber que o alfa precisava se alimentar, a preocupava mais do que o fato de estarem perdidos no submundo da rebelião.
Ainda assim, estar relativamente longe dele lhe deu alguns momentos pra pensar. Porém sua mente era um disco arranhado com o retrato do alfa e seu comportamento discreto e agora super protetor.
Nada bom.
O relacionamento deles estava progredindo e Kai começava a se soltar. Porém, a caída deles naquele lugar pareceu ter reduzido todo o progresso a estaca quase zero.
Alguma coisa havia acontecido.
A meia vampira se agachou perto do rio subterrâneo, colocando a mão em formato de concha para pegar um pouco da água e refrescar o rosto. Depois, mais uma vez observou com atenção aquele lugar contornado por água e de teto rochoso.
Quando entrara na rebelião pela entrada da Argentina, não tinha visto nada como aquele assentamento. Somente vampiros em treino e um grande arsenal de armas.
E agora onde estavam era diferente e substancial. Mas, se pensasse que a Rebelião estava entre eles havia milênios e se estendiam em grandes túneis por quilômetros e até países...
- Você subestimou eles. – a voz mental de Kai interpelou seu pensamento.
- Está lendo a minha mente?! – retrucou.
- Não. Mas talvez esteja começando a ler você.
Alarmada, olhou a própria volta como se o alfa pudesse surgir da penumbra. Pigarreando, perguntou pelo laço:
- O que acha desse lugar?
- Foi evacuado por risco de desabamento, mas por enquanto o teto parece estar seguro. Acho que podemos passar um tempo aqui.
- Kai. – falou serenamente.
Ele sabia que não era disso que perguntava, e para sua afirmação, o alfa grunhiu, respondendo:
- Não podemos baixar a guarda. Não encontrei nenhuma entrada ou saída, mas tenho a impressão de que este lugar não é isolado. Não me surpreenderia se alguém retornasse para ver o que restou.
Depois de mais algum tempo, ele concluiu:
- Acredito que vamos descobrir que a rebelião é muito mais perigosa e surpreendente que o esperado. E não acho que isso seja bom.
- Porque não confia em nós. – se referiu aos vampiros.
- Não confio neles. Confio em você.
- Não deveria. – murmurou incerta pelas próprias palavras.
- Eu sei. Estou arriscando.
- Kai. – o chamou mais uma vez, ainda que não soubesse o que diria.
- Diga, Rosie.
Rosalie suspirou, sentindo uma tensão estranha no estômago.
- Você está bem? – ele se adiantou, como se sentisse pelo laço seu súbito mal estar.
- Sim-m, estou é... – se calou.
Pela Deusa, o que estava acontecendo com ela?
- Eu só... Onde você está?! – ela suspirou mais uma vez, pronta para retornar. E quando girou nos calcanhares, trombou no peitoral dele.
- Bem atrás de você.
Rosie deu um pulo para trás, o coração retumbante no peito.
- Baixou a guarda. – os braços dele estavam cruzados na frente do peitoral nu e musculoso. – Como imaginei.
- Não esperava que fosse aparecer aqui do nada!
- Não é sobre isso. – o alfa respirou fundo. – Acredito que estamos entorpecendo os sentidos um pelo outro.
Rosie uniu as sobrancelhas.
- Como assim?!
- Olhe os nossos muros mentais, Rosie.
A meia vampira abriu os olhos da mente, observando a si, a ponte e Kai do outro lado. Mas os muros... não havia mais nada, somente a bagagem mental desprotegida atrás deles.
De novo na realidade, Rosalie se viu em choque.
- O que foi que aconteceu com nossos muros?!
- Não sei... – surpreendentemente, a voz de Kai se esvaiu.
Ela franziu o cenho.
- O que não está me contando, Malakai?!
O alfa parecia fazer um esforço sobre-humano para não encará-la. Os cabelos negros estavam desgrenhados, e o peitoral tinha todas as veias sobressaltadas. Em contrapartida, seu corpo correspondia com todos os pelos eriçados e os mamilos entumecidos.
Ela deu um passo para trás, protegendo os seios como se estivesse nua. Porque por mais que o alfa não a tivesse encarando, sentia-se de corpo e alma exposta como um convite aberto para ele.
E era uma sensação forte, como se todas as células do seu corpo clamassem para senti-lo. E seus dedos ansiassem para tocá-lo. E sua boca esmorecesse por beijá-lo.
- Seu cheiro... – Kai também deu um passo para trás. - Está acontecendo de novo.
– Também estou sentindo... - murmurou baixinho.
- Eu estava nas casas antes de sentir a necessidade de estar aqui. Achei que fosse porque você não se sentisse bem. Mas isso...
- Kai. – estava quase entrando na água para fugir daquela necessidade absurda de se entregar para ele.
- Não fale meu nome desse jeito. – a voz dele saiu embargada.
Queria perguntar que jeito seria aquele. Mas o clima não estava como há segundos antes. O ar parecia pesado e até parara de soprar.
Somente havia ela e Kai, com os corações e nervos à flor da pele.
- O que vamos fazer?! – a respiração estava entrecortada.
- Você precisa ficar longe de mim. A lua negra também deve estar influenciando meus sentidos.
- Há poucos minutos você queria exatamente o contrário, Kai... – percebeu tarde demais como o havia chamado: sua voz estava embargada e aveludada, o provocando.
Como aquilo podia estar acontecendo de forma inconsciente? Seu corpo começava a agir de forma independente, fazendo de tudo para tê-lo.
Em resposta, o alfa praticamente rugiu, pulando para trás e mais longe num salto. Observando-o rapidamente, percebeu como ele parecia atordoado, e com um volume que começava a se agigantar dentro da calça jeans.
- Eu encontrei corda e aço. – a voz dele disparou. – Vou me amarrar. Isso vai dar algum tempo pra você.
- Tempo... pra quê?
- Pra fugir de mim.
Os olhos dela se arregalaram.
- Não posso fazer isso! Nem sei onde estamos muito menos para onde ir...
- Não importa. Só corra e se proteja.
- Vamos se perder um do outro.
Os olhos de Kai cruzaram com os dela.
- Eu sempre vou encontrar você.
- E se... não fugirmos?! – um desespero crescia no coração. – Talvez não lutar contra tudo isso seja a reposta!
- Não sabemos as consequências. – ele já estava de costas. – E por mais que tudo o que eu deseje seja você, seu bem estar e segurança vem em primeiro lugar. Ultrapassar essa linha selará seu destino para sempre junto ao meu, e daí todos os nossos planos e promessas de sangue estarão comprometidos.
- Achei que já estávamos com os destinos entrelaçados.
- É diferente, Rosalie. Você seria minha. E acredite, você não sabe as dimensões disso para os lobisomens. É o contrário de toda liberdade que almeja – ele a olhou sobre o ombro. – Então, não escute seu corpo, coração ou instintos. Peço que confie em mim quando digo para fugir.
Não. Não. Não.
Não queria deixá-lo. E o pânico de somente pensar naquela possibilidade a atingira como a droga da perda de um ente querido.
Seus olhos lacrimejavam sem parar, e sua garganta tinha um nó que se desatasse, choraria como um bebê por ele.
- Mas... se você sempre me encontrará, por que devo correr?
- Porque tenho esperanças de que esse desejo insaciável passe como da última vez.
- E se não passar?
O tronco dele se expandiu, expirando fundo.
- Você será minha.
Ulalá, amores KKK Aqui estamos entrando rápido em mais novidades (um tanto quentes, não? rs Vai esquentar ainda mais!)
Tudo tem uma explicação, e no final as peças se encaixarão. Mas o laço de Kai e Rosalie é muito mais profundo e complexo que o esperado. E em contrapartida, na Corte norte temos uma nova movimentação política, e o a Corte sul está perto. Será que os gêmeos os encontrarão antes que nosso casal descubra o que está acontecendo e o que é esse desejo insaciável?
Cena dos próximos capítulos... Alguém ansioso aí? ><
Obrigada por chegar até aqui e acompanhar Coração de Sangue.
Não está revisado. :(
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