Capítulo 23 | Élyunn
Logo depois da queda, nos túneis da Rebelião | Corte Sul | 23/03/2021
Rosalie Armstrong
Eram muitas pedras. E terra. E talvez água, e... fogo? Não. Desespero. Estava sendo soterrada viva. Gritos cortavam sua garganta. Chamava por ele. Tentava tocá-lo. Mas havia somente escuridão.
Não. Não. Não.
- ROSIE!
Um chamado mental. Não conseguia responder. A dor despontava em cada centímetro de sua pele. Lágrimas caiam uma após a outra de seus olhos. O pânico brotava em cada poro de seu corpo. E...
Algo quente e peludo primeiro tocou seu braço. Depois, o contato aumentou, como se estivesse sendo revestida por um casaco de pele.
E de repente, mais água. Agora em abundância. E gelada. Uma corrente molhada e de ar a conduzindo para o desconhecido. Talvez a morte. Não conseguia respirar.
Tentou gritar, e engoliu mais água. Não. Não era a corrente a conduzindo. Era... ele. Estavam indo para cima. Para onde deveria haver... sim, oxigênio.
Rosie arfou, se debatendo. O pulmão tentando trabalhar. Seus cabelos colados em seu rosto como uma máscara. Mal conseguia ver algo. Só uma luz. Era vermelha, e piscava de forma ritmada.
- Rosie! Fica comigo!
Tentou responder novamente e engoliu mais água. Tossiu, regurgitando. Seus olhos vislumbravam flashes de sombras altas, talvez construções. Não soube distinguir. Não quando algo duro a atingiu na cabeça, e fez a escuridão recebê-la de vez.
Malakai Arsov
Ainda na água, Kai se transformou novamente, deixando a pele de lobo. Precisava segurá-la, e não fazia isso por consideração. Fazia por desespero, pânico, como se a própria vida dependesse da sobrevivência de Rosie, mesmo que há horas atrás tudo o que mais quisesse fosse morrer e matá-la.
Onde estavam e no que tinham caído era algo sem importância alguma senão tivesse a meia vampira. Ele conseguiu nadar para a margem, e os tirou da água.
Fez massagens cardíacas enquanto a chamava repetidamente. Cada vez que o nome da fêmea era pronunciado e ela não abria os lindos olhos verdes, o coração apertava de angústia.
O batimento do coração dela era um murmúrio mais fraco do que a primeira vez que a salvou. Agora, parecia que estava a perdendo. Do mesmo modo que sentiu quando perdera o irmão: a vida de Rosalie parecia se dissipar por seus dedos.
- Malakai. – alguém o chamou. Ele continuou a massagem cardíaca. Sem cessar. Uma dor insuportável tomava o peito. – Kai?! – identificou a voz de Ren.
Mas estava tomando pelo desespero. Sentia os olhos lacrimejando enquanto a própria respiração se esbaforia.
- ROSIE! POR FAVOR!
- MALAKAI!
Ele se sobressaltou quando viu o espectro do irmão agachado ao lado de Rosie, estirada sem vida no chão.
- Calma! – Ren levantou uma das mãos. A respiração de Kai estava afoita, e quando notou que parara as massagens, retornou. – Por Fallon! – Ren o empurrou, e a força espectral quase o jogou de volta na água. – Você precisa se acalmar e entender a situação!
- Rosie... – murmurou, tentando tocá-la.
- Kai! Pelo amor de Deus! Seu juízo precisa ser mais forte que a conexão! – Ren se pôs de pé. – Ela não morreu! Está exaurida!
- O...quê? – se percebeu perto da meia vampira novamente, com a palma no rosto molhado e pálido.
- Francamente... – o irmão estava com a mão na cintura. – Eu só não vou falar nada da sua burrice em se conectar com uma meia vampira, porque graças à Fallon, Rosalie é especial.
- Do que você está falando, Warren. – foi uma pergunta retórica, e ele não se importava se fosse ou não respondida. Tinha os olhos fixos nela.
- Você está tão consumido que nem percebeu o que ocorreu diante de seus olhos! – Ren bateu o pé. – Quando o chão cedeu, o desespero de Rosalie conjurou todos os principais elementos da natureza.
Kai levantou o olhar.
- Terra, ar, água e fogo. – o irmão gesticulava, mas o olhar estava longe, como se estivesse pensando em voz alta. – Por Fallon! – Ren ergueu o indicador como se fizesse uma descoberta. Kai franziu o cenho, sem entender. – Cadê o livro?!
Ele bufou.
- Não sei.
- Como assim, não sabe?! - Warren praticamente explodiu. – Você têm noção do que se trata El conto de La Bestia?!
Kai realmente estava ficando sem paciência. Por isso, inspirou fundo ignorando o irmão, e checou a respiração de Rosalie novamente.
- Aquele era o último exemplar do mapa de Outroso! – Ren gritou e foi até ele, pronto para dar outro empurro espectral.
Mas o alfa se adiantou, ralhando:
- Eu não dou a mínima para essa fábula do outro mundo que você sempre acreditou, Warren! Além disso, nem sei do que se trata, na academia nunca me foi ensinado nada de Outroso, a não ser histórias e cantigas. Ninguém acredita que esse lugar pode ser encontrado, e eu também não. - Ele sustentou o olhar crédulo do irmão. - Nem sei porque você apareceu novamente, e não consigo entender porque fez todo esforço do mundo para estar morto! - depois que falara, logo se arrependera. Mas continuou. - Agora, se você puder...
- Eu fiz todo o esforço para proteger você. Ainda que a morte sempre fosse uma possibilidade.
A boca de Kai abriu, mas logo se fechou. A areia onde pisava de repente pareceu movediça.
- O quê?!
O espectro do irmão se sentou na terra molhada, enquanto as mãos perpassavam pela cabeça onde a trança negra estava.
- Foi escolha de Aleksey que você não aprendesse sobre Outroso. Eu nunca concordei com essa decisão...
Kai uniu as sobrancelhas e abriu os braços, interpelando-o:
- Por quê? Não vejo motivo para ocultar isso de mim, e...
- A sua mãe está em Outroso.
- Mi-nha...mãe? – a voz cedeu.
- Você não nasceu na Rússia, muito menos na Bulgária. Você veio de Élyunn, ou Outroso, como muitos preferem chamar. E antes que faça outra pergunta, me deixe continuar e falar o que você deveria saber há muito tempo: Você não é um Arsov, e não é filho de Aleksey. Sua mãe trocou você ao nascimento por Sebastian, meu verdadeiro irmão. E não, ela não te abandonou. Ela tentou salvar você ao mandá-lo para terra.
Kai caiu sentado, esquecendo-se que a areia molhada começava a revestir a pele nua de seu corpo.
- Antes de conseguirem abrir um portal para terra, Élyunn estava em guerra porque os seres sobrenaturais ainda não haviam entrado em acordo sobre a colonização desta dimensão. Milhares morreram em questão de dias, e muitas mães tentaram salvar seus filhos dando-o para a primeira expedição que chegou aqui 500 anos antes de Cristo. Sua mãe foi uma dessas mulheres. – O irmão fez uma pausa dramática, limpando uma lágrima. – Você ainda tinha meses quando Aleksey o trouxe na última viagem interdimensional no nosso portal. Ele descobriu que você não era Sebastian alguns meses depois. A raiva dele... – o irmão coçou o peitoral, como se sentisse dor. – Bast foi perdido para sempre, mas o seu crescimento atenuou o sofrimento de Aleksey... Quer dizer, até que você se mostrasse o lobisomem mais forte de nossa era. Aí a raiva voltou com toda força, e ele conseguiu salvar o último conto da destruição que a Rainha Katiusca fazia de todos os mapas de Élyunn para retornar à busca de Bast.
- Mas...
- Sim, eu roubei o livro um pouco antes de morrer. E quando abri El Conto de La Bestia, entendi a raiva dele por você... E não era porque você não é Bast ou era o mais forte de toda nossa sociedade. É porque ele acredita que você foi a chave para fechar de vez o nosso portal, e fazê-lo perder meu irmão pra sempre.
- Warren. - Kai murmurou, mostrando as palmas. - Ainda não entendi. Mas sei que Aleksey está errado! Eu jamais poderia ter o poder de fechar um portal. Nem sei como se faz isso.
Ren balançou a cabeça, triste:
- Não... Aleksey estava certo.
Agora o alfa abriu os braços, ainda sem entender. Pois se Aleksey já sabia...
- Por que roubar o livro?
- Porque eu fui o único que compreendi o resto da Profecia. - o irão engoliu em seco, antes de pronunciar: - "E para encontrá-los basta esperar. A besta e a Rosa podem os salvar. Uma união transcenderá. Mas se optarem pelo caminho errado, o caos se instalará.'' Eu sabia que você era a besta e que ia estabelecer conexão com a..
- Rosa.
- Rosalie. Ela têm o poder arcano, algo que somente a linhagem mais forte de Élyunn detinha.- O olhar do irmão caiu sobre a meia vampira. - Isso significa que ela tem o poder de abrir os portais, e com sua força, você tem o poder de fechá-los.
- Mas a parte da união...
- No início eu não entendia como que uma meia vampira podia ser a chave da profecia. Não quis acreditar nos sinais, e pensei que você estava fazendo a maior idiotice os selando...
- Você fala como se eu quisesse.
- Você quis, Malakai. – os olhos do irmão se detiveram nele. – Você se sentia morto e quando viu Rosalie, cheia de vontade de viver, se agarrou a ela como o único motivo para viver.
O alfa tentou sorrir com ironia, mas seu rosto deve ter feito uma careta, porque Ren continuou:
- Assim que se começa uma ligação: um ideal compartilhado. Rosalie sempre lutou por liberdade, algo que você sempre almejou. E quando eu morri e seu sofrimento aumentou, você fugiu. E por mais que queira justificar sua atitude dizendo que foi por mim, não foi. A verdade é que você preferiu o exilio porque era a única alternativa que lhe dava liberdade, seja para sofrer ou sobreviver.
- Você não sabe do que está falando.
- Eu vivo em você, Malakai. Sei exatamente do que estou falando. – Ren se levantou e fez um gesto como se não tivesse importância. – Tudo bem. Foi o destino. Vocês tinham de se encontrar. Só queria que soubesse a verdade e o que descobri. – o irmão caminhou para longe deles a passos lentos, entrando no breu das sombras. – Encontre o livro e o proteja. Ninguém mais deve saber de vocês. Mas será uma questão de tempo até que Aleksey descubra e queira Rosalie.
O irmão sumiu na escuridão. Entretanto, a voz continuou em sua cabeça:
- Eu sempre o amei, Kai. Como meu irmão de verdade...Mesmo com meu jeito torto, eu tentei o proteger de todas as formas. – Ren pigarreou antes de continuar. – Você pode ter fugido, mas ainda não deixa de ser um alfa. E depois de ver seus atos em prol da meia vampira, sei que segue o maior significado do que é ser um lobisomem: a lealdade. Eu acredito em você, e me sinto honrado por morrer em nome de seu legado.
Um silêncio se apoderou de sua mente.
- WARREN! – Kai gritou para a escuridão.
- K-ai. – Rosie soltou um murmúrio fraco. O alfa caiu de joelhos na terra molhada. – Voc-ê está machucado? – a ponta do dedo de Rosalie tentava tocá-lo. – Nós...estamos vivos?!
Pela primeira vez, Malakai chorou. E torrentes de lágrimas desceram por sua face ao mesmo tempo que seu peito estava apertado com a mistura de tantos sentimentos aprisionados.
Kai gritou com toda força que veio de seu âmago. Mas na mente. E a força de seu ato perpassou pela conexão com a potência de um furação, colocando abaixo todo o muro dela e o dele.
Mesmo alquebrada, Rosalie engatinhou com dificuldade em sua direção, e de joelhos na sua frente, o abraçou.
- Estou junto com você.
Mais um capítulo, gente! Desculpem pela demora, estou com dificuldade de atualizar por causa do trabalho. Mas me diz, o que acharam desse capítulo? Já tem alguma teoria?
Não se esqueçam da estrelinha, ajuda muito na divulgação da história <3
No próximo tem mais revelação, e aos poucos, as informações vão se conectar como um quebra cabeça, prometo. Não desistam de Rosie e Kai rs
Não está revisado. :(
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