Capítulo 16 | Damien Ivanov

Damien compilou as memórias mais uma vez e depois desmembrou a parte que cabia ao irmão: o exato momento em que vieram ao mundo, se conectando como almas e gêmeos.

Seus punhos se cerraram, tentando sufocar a raiva daquela ligação.

- Pronto. 

Lucy se arqueou sobre ele rapidamente.  E sem nem erguer o tapa olho que escondia o olho direito - a visão da verdade -, voltou a se sentar na poltrona ao lado, exigindo:

- Mais uma vez. 

- Não.

- Mais. Uma. Vez. – a fêmea disse pausadamente, a ameaça velada na voz. – Lembre-se: senão conseguir ir até o fim, não poderá participar da reunião sem que Dacian saiba. 

Damien abriu os olhos, encarando o teto abobadado dos seus aposentos, localizados na torre sul do castelo. Lucy estava sentada ao lado, o barulho irritante das chaves tilintando a cada vez que ela se mexia impaciente na poltrona de veludo.

Ele bufou, e fechou os olhos para o que parecia a milésima vez.

A ligação mental era uma maldição.

Eles trocavam memórias, sentimentos, sonhos e pesadelos, a todo milésimo de segundo. E se Dacian não fosse alguém tão insuportável, talvez não fosse um inferno. 

Mas o irmão era todo o mal que ele já conhecera em mil e quinhentos e cinco anos.

Experimente saber tudo o que um psicopata pensa... Não era à toa que às vezes se pegava pensando em bater a cabeça na parede.

E a compilação cerebral era a única forma de neutralizar a conexão. Sendo um método de efeito temporário, que separava memórias de sentimentos, e tornava-o apático para que Dacian não conseguisse acioná-lo através da mente.

Porém, os treinamentos mentais não o separava apenas do irmão, mas também de toda memória conjunta que compartilhassem com outros familiares. O que mais pesava, era seu afastamento gradativo de sua mãe, Dalilah.

E todo o motivo de seus esforços e a busca empreendida nas ruínas, era por ela.

Sua mãe estava em Outroso. A dimensão perdida de onde todos os seres sobrenaturais presentes na terra vieram, e para onde - segundo ele -, deveriam voltar.

Contudo, de que adiantaria se esforçar para estar junto dela, se cada vez que conseguia a compilação mental, significava que matava mais um pouco as lembranças maternais? De que adiantaria encontrar Outroso, se quando a olhasse, não sentisse saudade, mas somente dor e ódio? 

Essas eram uma das muitas indagações que alimentavam sua insônia há centenas de anos, - junto da dor que carregava por ser necessário observar apaticamente todos os acontecimentos da vida de Rosalie, sua prometida.

Mas, ainda que não tivesse a resposta das perguntas, guardava dentro do peito uma fagulha de esperança. Uma fé inabalável de que, quando visse a mãe, o amor venceria até o pior dos males.

Então, era por ela e por toda esperança que ainda restasse de voltar pra casa, que tentaria mais um vez e quantas mais precisassem.

- Mais uma vez. - afirmou pra si mesmo, recopilando a memória embrionária, o parto, o sorriso do pai e o amor da mãe. 

Tudo se tornou uma só massa, para então ele trazer a faca do ódio e da raiva, e fatiá-la em mil pedaços.

De novo. De novo. E de novo.

Seus olhos se fecharam com força. Lágrimas quentes deslizaram pelo rosto. O corpo todo tremia, num misto de solidão, dor e angústia. Para enfim visualizar o objetivo: os portões de Outroso se abrindo. 

Damien respirou fundo, dissipando pouco a pouco as dores, sedimentando o sentimento de vitória, e finalmente... ponto zero.

- Limpe a mente. Nada mais existe. Somente você. – a voz de Lucy reverberou de algum lugar longínquo.

Ele nasalou o inútil ar, expirando. E quando abriu os olhos... nada. Se sentia tão oco como um biscoito da sorte.

- Pronto.

Se sentou como um robô, empertigando a colunas e se arqueando para pegar o coldre com a Beretta e colocá-la no cinto.

Lucy se empertigou, levantando o tapa olho para o observar com a visão da verdade. O olho direito o mirou, focando-o através da nebulosa translucida e brilhante.

O dom da veracidade a permitia ver a olho nu as ligações entre os seres. Desde uma simples paixão, até uma complexa ligação mental, como a dele e do irmão.

Lucy se levantou da poltrona, tirando um celular do bolso posterior da calça de couro.

- Estamos prontos, Blay.

Uma porta secreta surgiu no lugar onde era a estante de livros, que ficava atrás da mesa situada na frente da cama de dossel. 

Dacian observou seu quarto por um momento, observando as paredes cinzas queimado. O lustre torto, a cama bagunçada, ainda com uma fêmea do norte ainda dormindo serenamente entre os lençóis. 

Depois de também ter certeza que nada sentia, nem uma fagulha de desejo em voltar para cama, girou nos calcanhares.

Eles passaram pela entrada e desceram por um túnel terroso e úmido, até um espaço amplo de terra batida, onde uma mesa retangular de mogno se entendia, centralizada embaixo de uma lâmpada improvisada.

Ao redor dela, estava a Corte de Hades, formada pelos mestres vampiros: Zabdiel, Thunder, Blayder, e Lucy, que chegava junto com ele.

Zabdiel tinha os braços tatuados revestidos por um colete de pele, e o encarava sob os óculos escuros. Thunder exibia um sorriso travesso, enquanto limpava o cano de um fuzil e jogava uma piadinha para Lucy. E Blay estava sentado em uma das cadeiras, apertando distraído o controle da TV smart, colocada no fundo do espaço, onde algumas camas e uma mini cozinha estavam.

Era uma equipe sensacional dentro de esconderijo improvisado e arcaico. 

- Não era o seu irmão que deveria fazer sala pro convidado? – Thunder começou, agora enroscando um silenciador em um dos revólveres espalhados na mesa.

- Sim. Mas agora sou eu quem vai falar com o General, e Dacian quem vai encontrar o modo de matar o alfa. Algum problema?

Por um segundo a corte de Hades o olhou, e Blay soltou uma risadinha.

- Esqueci que você está no ''modo gelo''.

Damien revirou os olhos. Thunder emendou uma pergunta:

- Vamos esperar ou iremos até o nosso convidado?

- Ele é um vortex. – Blay comentou, franzindo o cenho para o jornal nacional. – Chegará até nós.

- E o que vamos fazer, bater um papinho com o general? – T. tentou de novo. – Ou vamos meter uma bala nele, como deve ser?

Zab descruzou os braços, e tirou uma cadeira, se jogando no assento:

- Vamos ser diplomáticos, suponho.

- Desde quando nos tornamos uma espécie de FBI, chefe? – Thunder ralhou, abrindo os braços.

Damien suspirou, tirando uma cigarrilha do bolso e acendendo com um isqueiro que Lucy jogou na direção dele.

- Preciso que ele me traga Rosalie. – respondeu, indo para o outro lado da sala e se jogando em uma das camas.

- E por que nós mesmo não vamos pegá-la? Ela está em Curitiba, um território nosso! – T. exclamou o óbvio.

- Rosalie está sob a proteção de Dacian, idiota. – Lucy respondeu com um arquejo. – Não podemos interferir numa promessa de Sangue.

T. suspirou:

- Porra, seu irmão fode legal com os nossos planos. Logo agora que estávamos prestes a encontrar a entrada de Outroso, tsc, tsc...

- Eu sei, mas temos essa carta na manga. Ele não sabe dos meus planos, então se conseguirmos a Rosalie primeiro, eu me vinculo a ela e o tiramos do nosso caminho. – Damien explicou. 

- Mas nós também não sabemos dos planos dele. – Blay pontuou, enfim desligando a televisão. – A não ser o fato de que quer usar você, sabe-se lá para o quê.

- Ele está sendo auxiliado... – Damien devolveu, e então chamou seus analistas: - Zabdiel, Lucy, já sabemos por quem?

- Negativo. - Zabdiel meneou a cabeça. - Está mais fácil saber quem não o ajuda. E todos do castelo estão limpos. 

Lucy complementou:

- Seu irmão é uma incógnita.

- Ok... – Damien engoliu a insatisfação, e continuou: - E sobre o alfa?

Thunder resumiu:

- Sabemos o que todo mundo sabe: é um bastardo que se tornou alfa muito cedo. Mas fugiu do cargo de alfa dos alfas e agora é um procurado pela espécie. Parece que precisam matá-lo para tomar o lugar, e o papai traíra dele que lidera a caça.

Zab complementou o outro:

- Estão dizendo no submundo que Malakai roubou algo de Aleksey antes de fugir. Não sabemos ainda o que é, mas pela maneira como está obstinado... é valioso.

Lucy pendeu a cabeça:

- Será uma das chaves de Outroso? 

- Acredito que sim. - Damien revelou, expirando a fumaça da boca. - O conselho diz que Outroso se perdeu porque quebraram o portal e dividiram a chave em duas partes, entregando uma para os vampiros e outra para os lobisomens. E a família de Malakai governa há muitas décadas. 

- Devíamos descobrir o que é, e encontrar primeiro. – Zab prôpos.

- Estou trabalhando nisso. - Damien declarou. 

Blay pensou alto:

– Já temos uma das duas partes, se encontrarmos a segunda... 

- Abre-te sésamo! – T. disse, com uma voz de interlocutor. – Não vejo a hora de voltar para casa... – um apito do celular fez o macho parar. – Nosso convidado chegou! Ele consegue entrar aqui? 

Uma mudança sutil no ar e uma voz:

- Sim, consigo. – Raviel murmurou, depois de se materializar ao lado de T., que sorriu de forma zombeteira e disse:

- Ah, finalmente conheci um vortex! -  Blayder exclamou - Vampiros que tem núcleos de energia que proporcionam a Materialização...super legal hein, difícil de ver nos dias de hoje. 

- Vamos ao que interessa. - T. revirou os olhos, e murmurou - Seja bem-vindo à Corte de Sul e blábláblá.... nos traga a Rosalie.

Um dos cantos dos lábios de Raviel se ergueram num meio sorriso, quando ele ignorou T. e começou a caminhar pela sala, reconhecendo o local.

- Olá, Raviel. – Damien disse, recebendo um aceno como cumprimento. 

O macho parou na frente dele, ainda estirados com suas roupas sujas em cima da cama.

- Solicitou a minha presença para que eu lhe traga a Rosalie?

Raviel tinha os cabelos desgrenhados e o rosto sujo de sangue, indicando que as coisas no norte não estavam boas.

Azar o deles.

- Sim.

Raviel sorriu, erespondeu o óbvio:

- Não vou fazer isso.

- Então por que veio? – perguntou Damien. 

- Sua corte ameaçou matar meu esquadrão pessoal no meio de uma guerra governamental. Era a minha visita ou a morte deles. Não tive escolha, tive?

- Depende do ponto de vista... - Damien deu de ombros, mas logo insistiu - Queremos que traga a Rosalie.

- Não vou dizer não novamente para não ficar chato. Então...Por quê?

Lucy externou: 

- A promessa de Sangue com Dacian vai matá-la. Ela não pode matar Malakai porque ele...

- não morre... É, fiquei sabendo um pouco tarde demais também – o macho começou a andar novamente, agora chegando perto de Zabdiel, um antigo compatriota que traíra o governo do Norte para se juntar à corte de Sul. – A essa altura, Rosalie sabe disso também.

Damien piscou.

- Então deixará que ela morra?

- Ela escolheu aceitar a promessa do seu irmão. O que posso fazer? Cada um com o seu destino.

- Não minta pra mim, General. – Damien pendeu a cabeça. – Sabemos que é você o contato de emergência dela.

- Sou. Mas ela não me acionou.

- Então a procure.

- Olhe vossa... é alteza ou majestade? – Raviel perguntou, e logo depois deu de ombros. – Deixa pra lá. Eu tenho uma ideia melhor: por que você não espera o tempo da promessa acabar para caçá-la? Agora deve falta um pouco mais de quatro meses, e o que é esse tempo perto da nossa quase eternidade?

Zab sorriu, e respondeu por Damien, dizendo o óbvio: 

- Não temos esse tempo, general.

- Que pena... eu também estou muito ocupado. – Raviel respondeu, fazendo um sinal para seu estado sujo e ensanguentado – Inclusive, vocês me tiraram de uma batalha para essa visita, e...

- Uma fonte me disse que eles estão ligados. - Damien jogou no ar.  Raviel parou de caminhar, franzindo o cenho:

- Como?!

Damien foi até a mesa, se sentando na cabeceira.

- Ontem, em Morretes, alguns batedores viram Malakai sendo atingido por uma flecha embebida em acônito... – os dedos dele tamborilavam na madeira. – Em pouco tempo, o envenenamento lupino também atingiu ela.

Raviel cruzou os braços.

- Está me dizendo que Rosalie está ligada mentalmente à um lobisomem?

Blay assentiu.

- Foi exatamente isso o que ele disse.

- Impossível. 

Lucy sugeriu:

- Mesmo, General? Você é um dos últimos da linhagem vortex,, um dos poucos que viram Outroso com os próprios olhos... Sabemos que o infinito não existe de onde viemos. 

- Mas aqui existe. - Raviel insistiu, encarando Lucy. - E o pacto interespecies não per...

- Veja com seus próprios olhos. - Blayder o cortou, sacando um Iphone do bolso, e estendendo na direção dele. 

A expressão do general mudou da água para vinho. 

- Isso complica as coisas, Damien. Se eu não ia trazê-la, agora muito menos... Se fizerem algo a Malakai, Rosalie sentirá.

- Vou protegê-la.

- Que piada... – o general riu.

Lucy se debruçou na mesa, encarando Raviel com o olho normal.

Apesar de saber que o general da Horda Infernal era perigoso, a fêmea o observava com curiosidade, desvendando algo do macho.

Então ela abriu a boca, e murmurou:

- Rosalie foi prometida a Damien.

Raviel tentou esconder as emoções, mas o tom de voz revelou o susto com aquela informação:

- O quê?!

Damien repetiu a ordem contida no livro das ligações:

- Rosalie Armstrong, filha de um dos pilares de Outroso, fica prometida ao filho mais novo de Césaro, Rei de Dândis.

Um silêncio sepulcral tomou conta do lugar até o cenho de Raviel se suavizar: 

- Dândis? Capital de Outroso? Ninguém mais segue as leis do mundo perdido...

- Elas ainda regem nossa sociedade. – Blay pontuou.

Raviel chegou perto da mesa, e colocou um indicador na madeira.

- Sim, só que Rosalie é uma meia vampira. Nasceu aqui, nesta dimensão. A raça dela não existe em Outroso, então essa lei não cobre determinações sobre ela.

A argumentação do macho fez sentido, e todos, por um segundo assentiram. Mas Damien estava perdendo a paciência, e disse:

- O que importa, é que cobre sobre mim. E eu preciso dela.

- Minha reposta ainda é não.

Damien pressionou os lábios. 

- O que foi? Vai me matar? – o macho provocou, indicando de onde a petulância de Rosie vinha. – Não vou trair ela. 

T. ignorou o general e murmurou, ainda que a voz estivesse meio incerta:

- Não se pode transgredir uma lei de Outroso. E isso é claramente infringir uma. 

- Depende do ponto de vista... - Raviel repetiu a mesma fala dele, como uma provocação. - Ao meu ver, tem muitos ângulos que vocês não estão levando em consideração. 

- Mostre por qual lado você vê, general. - Zab ergueu uma das sobrancelhas. 

- Damien é filho Césaro? E se for, realmente é o novo velho? - as sobrancelhas de Raviel se uniram - Aquele Rei foi o que mais conseguiu cria na história. E depois do que aconteceu com outroso, a nobreza e a plebe se misturaram...

- Você só pode estar de brincadeira... - T. gargalhou, mas o rosto de seu mestre expressava pura indignação - Deveríamos matar você!

Damien fez esforço para fingir irritação em meio a apatia.  Mas o general continuou:

- Diga para eles sobre a profecia! - Raviel apontou para Lucy - Eu te conheci Lucy, guardiã da verdade! Você era uma das filhas de um dos pilares de outroso que geria conexões. 

Damien viu Lucy engolir em seco, e responder:

- O destino sempre liga aqueles que são prometidos.

Damien bufou socando a mesa, e escondendo os olhos sem vida. Raviel cruzou os braços, averiguando o espetáculo dele.

Lucy, como a boa imediata que era, meneou a cabeça, cortando a conversa no momento perfeito:

- Você está dispensado, Raviel, Herdeiro das montanhas de Lynn.

O general meneou a cabeça, dando uma última olhada em todos, para então desaparecer:

Quando Blay confirmou a saída dele através do dom de reconhecimento sensorial, Damien se virou para a própria corte, e perguntou:

- Acham que ele acreditou? 


woww, enfim voltamos com Coração de Sangue... 

Informações e dons importantes foram compartilhados neste capítulo, e serão esmiuçados nos próximos. Talvez Damien não seja o vilão da história, mas alguém sabe o que ele está aprontando? 

Não está revisado :(

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