Capítulo 6 - Uma História de Piratas


     Já haviam se passado umas cinco horas desde que o escuro véu de Nix recobrira os céus de Newdawn quando o comissário Heathcliff saiu do táxi. Ele olha em volta, se certificando de não ter sido seguido, e por um momento se permite admirar a magnificência do prédio a sua frente. Ele já esteve naquele local outras vezes, mas naquela noite em especial ele se sentia como se pisasse lá pela primeira vez.

     O prédio era um luxuoso restaurante, com uma fachada dourada decorada com janelas largas e cortinas vermelhas da mais fina seda. Heathcliff adentrou e caminhou até os fundos do hall de entrada, onde entrou no elevador panorâmico e subiu até o topo do prédio, passando por todos os andares que compunham o salão do restaurante. Uma relaxante melodia de violino tocava nos alto-falantes do prédio. No último andar, Heathcliff sai do elevador em um jardim a céu aberto, que possuía arbustos altos simulando um labirinto natural decorado com rosas vermelhas e outras flores elegantes.

     Dali de cima a vista da cidade era magnífica, e ainda se podia ver de perto os dirigíveis e outros veículos voadores transitando pelo espaço aéreo de Newdawn. Alguns casais observavam os veículos e a paisagem deslumbrante sentados em bancos de madeira, e Heathcliff passou por eles enquanto se dirigia até a outra extremidade do jardim. Lá, o comissário encontrou uma dama vestida toda de preto e com um véu cobrindo seu rosto, próxima ao parapeito e distraída, vendo um pequeno Maverick distante.

     — Boa noite — O comissário diz com um sorriso no rosto, se aproximando da dama por trás. Ela movimenta levemente sua cabeça para o lado, indicando já ter reparado na presença de Heathcliff, mas ainda permanece em silêncio — Você veio mesmo, igual como dizia na carta.

     A dama permaneceu em silêncio. O seu véu despertou uma certa curiosidade em Heathcliff. Ele já havia se encantado pela fotografia, estava ansioso para ter certeza de que aquela moça graciosa era de fato real, e estava bem diante dele.

     — Posso ver você, meu amor? — Heathcliff se aproxima alguns passos.

     A dama se virou a passos lentos e aproximou suas mãos do véu. Quando lhe retirou, Heathcliff sentiu uma gélida onda de vergonha tomar conta de seu corpo. O mundo começou a desmoronar em torno de sua expressão incrédula e se desmanchar como um espelho quebrado. Sua esposa estava diante dele naquele jardim, e o olhar de Natasha denunciava a mistura de decepção e fúria.

***

     — O que aconteceu depois?! — July perguntava, com os olhos arregalados de surpresa com a história.

     Ela estava no quarto de Natasha, usando as roupas que costumava usar nos treinos de muay thai com Ed. O saco com as luvas da sua avó estava ao seu lado na cama. Natasha também estava lá, narrando o ocorrido, cabisbaixa. Dessa vez elas estavam uma de frente para a outra, se encarando em meio a conversa.

     — Tivemos nossa pior briga — Natasha parecia arrasada — E ele decidiu ir embora.

     — Que pena — July disse tentando ser o mais séria possível — Eu realmente não esperava que fosse terminar assim.

     — Não precisa se preocupar princesa. Se não fosse assim, quem sabe eu iria descobrir de outra maneira bem pior — Natasha abriu um sorriso — Eu te agradeço muito por ter tirado esse fardo de mim.

     — Não agradeça a mim — July disse, sentindo-se encher de sensatez — Agradeça a Kate Bush — Elas riram juntas por um momento — E o Max?

     — O quê que tem? Pensei que não gostasse dele — Natasha pergunta, surpresa.

     — E não gosto, mas queria saber se ele já soube. Deve ser difícil para uma mãe ver o filho ter que lidar com essas coisas complicadas.

     — Ainda não soube, mas o Max já é praticamente um adulto. Tenho certeza de que ele vai fazer uma escolha sábia.

     — Sei... — July para por um momento, pensando em algo, em seguida diz — Olha pelo lado bom, se o Max for morar com o pai você vai ter essa casa inteira só para você.

     — A primeira coisa que vou fazer é mandar instalar uma banheira de hidromassagem — Natasha comenta, animada.

     — Eu quero ser a primeira a experimentar — July diz, e elas riem juntas novamente. July, em seguida, se levantou da cama — Preciso ir agora, o Ed pediu para a gente se encontrar na academia.

     — Viu? Não demorou tanto para ele perceber que errou — Natasha também se levanta, se aproxima de July e pega em suas mãos — Dar uma chance.

     — Olha, não sei se é sobre isso, mas vou tentar ser o mais atenciosa possível.

     — Não que isso seja muito difícil para você — July recolheu o saco com as luvas de sua avó. As palavras de Natasha a deixaram radiante.

***

     Quando July chegou na academia de Atlas ela pensou que Ed estava atrasado, só depois pôde encontrá-lo no tatame, juntos de mais algumas pessoas. Todos estavam sentados sobre o tatame, encostados na parede, e se vestiam com kimonos de diferentes cores, mas a maior parte deles sendo azul escuro. Diante deles estavam outros dois rapazes jogados no chão, um por cima do outro, e agarrados entre si com seus braços e pernas. July reconheceu aquela modalidade como uma outra arte marcial que Ed já havia lhe falado antes, jiu-jitsu, ou algo parecido...

     O garoto que estava por baixo conseguiu virar o jogo, se livrando da pegada do rival e ficando por cima. Em seguida, pressionou o seu joelho contra o peito do rival, enquanto manteve a outra perna firme. Quando olhou para os seus companheiros com um sorriso no rosto, buscando uma certa aprovação, July o reconheceu. Era o Ed mostrando mais uma de suas inúmeras habilidades.

     O rival derrotado deu um tapinha na coxa de Ed, que se lembrou de lhe soltar do golpe. Todo mundo se cumprimentou em seguida, e os praticantes de jiu-jitsu saíram do tatame. July adentrou quando Ed ficou sozinho lá dentro, lhe encarando ainda com o sozinho do rosto.

     — E aí, July. Que bom que você veio — Eles se cumprimentaram com um aperto de mão. July ainda não se sentia à vontade para abraços, e Ed sabia disso, mas ainda assim quis manter a simpatia entre eles. Eles se sentam e July começa a enrolar as bandagens em suas mãos — Sabe, fiquei feliz que veio pro treino. Cheguei a pensar que fosse largar depois daquele dia.

     — Eu fiquei bem chateada, de verdade. Mas achei que não seria legal desperdiçar sua boa vontade de me ensinar.

     — Mais uma vez você tinha razão. Eu andei pensando tanto no Leonard que acabei esquecendo o que realmente importa — Ed encara July com um sorriso no rosto. July se sente tímida, e retribui o sorriso. A expressão de Ed muda repentinamente para espanto — Por isso espero que não me odeie pelo que vou dizer agora.

     — Tá bom — July, despreocupada, revira os olhos e se levanta, se põe diante de um saco de pancada e começa a improvisar alguns golpes — Pode falar. E o que vamos fazer hoje?

     — Eu tô com um pressentimento estranho — Ed também se levanta e começa a tirar seu kimono, por baixo ele usava apenas o calção tradicional de muay thai. July se sentiu tentada por um momento a admirar os músculos definidos de Edmond — Algo me diz que o Leonard vai aprontar algo grande, e a qualquer momento. Então eu quero te deixar pronta o mais rápido possível. Você já se sai bem, mas deve ter percebido que o saco não revida.

     — Oi? — July se vira para Ed, meio confusa — Como assim?

     — Hoje quero que lute comigo. Quando terminar, pode se considerar preparada para qualquer situação.

     July assentiu, apesar de não poder esconder seu nervosismo naquele momento ela fez o possível para ignorar isso. Enquanto fazia o circuito padrão de aquecimento, Ed troca seu kimono por uma blusa sem mangas e enrola as bandagens em suas mãos, e em seguida vai buscar suas luvas num canto do tatame. Ed acionou o seu relógio e a luta começou.

     Posicionados um diante do outro, July e Ed rodam em volta de si mesmo enquanto estudam as melhores possibilidades de ataques. July toma a iniciativa, esticando o braço em um jab falho, ao qual Ed desvia facilmente ao mover seu tronco para trás. Ela continua com um direto na altura da barriga, mais um jab e um cruzado de direita, todos evitados com facilidade pelo seu mestre e adversário. Em seguida, distraída pelos repetidos erros, July não consegue evitar a joelhada de Ed na altura do ventre.

     Ela tenta manter a concentração enquanto arrisca outros golpes e avança, Ed esquiva de todos movendo seu tronco e seu quadril, enquanto se movimenta ao redor dela. Ed solta um direto certeiro, mesmo fechando sua guarda July ainda sentiu o golpe lhe empurrar para trás, os socos de Ed eram mais pesados do que ela esperava. July parou para respirar por um momento, e notou um certo ar de advertência no olhar de Ed, como quem queria deixar claro que ela sabia muito bem o que fazer.

     July, inspirada pelo incentivo silencioso, avança novamente em passos rápidos e Ed solta mais um direto. Esse July consegue evitar, esquivando seu corpo para a sua esquerda e aproveitando o impulso para desferir um cruzado esquerdo em Ed, que encolheu seus ombros para absorver o golpe. July aproveita a brecha e também se encolhe, dessa vez para o lado contrário com o intuito de acertar um soco nas costelas desprotegidas de Ed. Agora foi ele quem recuou, e por fim, lembrando-se do ensinamento sobre cortar uma árvore, teve sua coxa acertada por um chute interno.

     Mesmo com o recuo de Ed, July não aproveitou a vantagem para avançar. Em vez disso ela permaneceu no mesmo lugar, trocou de base para impulsionar a perna mais forte, projetou seu quadril para a frente enquanto inclinou o seu tronco para trás, e levantou sua perna até a altura da cintura, acertando em cheio a barriga de Ed bem embaixo de sua defesa. Ed se encolhe, e July avança com um gancho esquerdo, jogando o rosto de Ed para cima, e um direto, lhe fazendo abrir novamente a defesa. July finaliza sua sequência com mais um chute certeiro, direto nas costelas. Ed perde completamente o foco, colocando as mãos enluvadas sobre a costela acertada e relaxando sua base, ainda com o corpo meio encolhido.

     — Bem em cima da facada — Ed encara July, que se recompunha ofegante, e coberta de suor — Acho que você achou o meu ponto fraco.

     — Me desculpa, eu te machuquei? — July se aproxima de Ed, distraída.

     Ed girou seu corpo, rapidamente, na direção de July, avançou apoiando o joelho no tatame e agarrou July pela cintura, a derrubando. A garota grita de surpresa com o golpe inesperado advindo de outra modalidade marcial.

     — Parabéns, pode se considerar uma vitoriosa — Ed sorriu e eles riram juntos, mesmo sendo vergonhoso para ambos se encontrarem naquela posição, um por cima do outro.

     A dupla se levanta, se cumprimenta com a reverência tradicional, e se abraçam. A alegria substituindo a chateação por meio da superação. Tipo de momento que só o esporte é capaz de proporcionar.

***

     Ao chegar em casa, July encontra seu pai na rua, ao lado de seu carro, que estava com a tampa do capô levantada e um mecânico debruçado sobre o motor com uma lanterna em mãos. Ela se aproxima, curiosa, e seu pai a encara. July percebe que Ernest tinha graxa no rosto.

     — Oi July, como foi o treino? — Ernest pergunta. O mecânico ao seu lado se abaixa e pega uma bolsa azul com ferramentas dentro.

     — Bem legal, tá tudo bem por aqui? — July aponta para o carro.

     — Tá sim, é só uma vistoria de rotina — Ernest improvisa um sorriso. O mecânico encara o banqueiro e balança a cabeça em negativa, sem dizer nada — Não esquece de esfriar seus pés antes de tomar banho.

     July concorda e entra no casarão Harmond, deixando para trás seu pai, que começa a debater conceitos de engenharia sennita com o mecânico. Dentro do casarão, July caminha para o seu quarto, ainda animada com sua vitória. Ela passa diante do escritório de seu pai, e ouve uma conversa suspeita.

     — Já achei o cofre, vou tentar algumas combinações — Discretamente, July se aproximou da porta do escritório e espreitou uma situação estranha. Lá dentro, Clementine estava diante do cofre de seu pai, com um comunicador numa mão e a outra sobre o disco de combinação do cofre. Ela gira o mecanismo algumas vezes até o cofre se abrir num ranger de engrenagens. Clementine começa a remexer nos papéis e documentos que estavam lá dentro — Nada aqui — Clementine disse ao seu interlocutor através do comunicador. Tomada pela curiosidade, July entra, apressada, no escritório.

     — Clementine? O que está acontecendo?! — A voz de July expressava uma mistura de indignação e dúvida, apesar dela já ter se tocado do que realmente estava acontecendo ali. Clementine lhe encara assustada, tomada pela vergonha, e se afasta do cofre.

     — Aconteceu um imprevisto, vou ter que desligar — Clementine falou no comunicador, em seguida ela escondeu o equipamento debaixo da saia de seu uniforme. Ela se aproxima de July em passos firmes com a expressão frívola.

     — Parada aí! — July estendeu a mão para Clementine — Nem mais um passo ou eu...

     — Vai fazer o que? Garotinha tola! — Clementine retirou uma faca escondida no uniforme e apontou para July, que ficou extremamente tensa. O rosto de July se contorceu de espanto e suas pernas tremeram.

     Num impulso, July agarrou a mão na qual Clementine segurava a faca e lhe forçou até a governanta maligna largar. July a empurrou, firmou sua base e girou seu corpo para acertar Clementine com um chute lateral. Clementine se jogou para o lado e empurrou o peso de seu corpo para cima de July, lhe derrubando diante de uma estante. Alguns livros caíram em cima da garota, que se sentiu tonta e exausta. Clementine se afastou alguns passos, seu rosto com uma expressão sádica. Ela baixou o zíper do uniforme de empregada e arrancou o vestido preto de seu corpo, revelando o uniforme listrado de pirata que usava por baixo.

     Clementine saiu do escritório e se afastou pelo corredor, informando que ela havia sido descoberta aos seus comparsas através do comunicador. July respirou fundo e se levantou, não podia deixar aquela farsante escapar tão facilmente. Ela se aproximou da janela do escritório, ignorando as dores que sentia em todo o seu corpo, e viu seu pai ainda na calçada junto ao mecânico.

     — Pai! Chama a polícia! Rápido! — Ernest olhou para cima, confuso. Antes que pudesse dar mais explicações, July saiu correndo do escritório a tempo de ver Clementine entrando no quarto da garota — Vadia...

     July ainda não sabia quais eram as intenções dos piratas em sua casa, e ela esperava encontrar Clementine revirando seu quarto em busca de joias e itens valiosos. Mas ao entrar no quarto, July viu a criminosa correndo para o closet e saindo pela janela, imitando o truque que July fazia com as cordas da Torre de Comando. Agora tudo fazia sentido, mais ou menos, Clementine sempre observava July sair de casa pelas cordas para aprender uma forma de executar a fuga perfeita após um roubo.

     Já fazia mais de um mês que July não se pendurava naquela corda, mas ela não tinha outras opções a não ser seguir Clementine por ali. Tomada pela adrenalina, ela agarra a corda áspera com as mãos firmes e, uma após a outra, começa a percorrer aquela extensão inclinada. Clementine, alguns metros à frente, vira-se ao perceber o constante balançar da corda à medida que July se aproximava.

     — Você não desiste nunca? — Clementine resmunga, irônica. Nessa hora ela faz o improvável, joga seu corpo para cima e fica de pé sobre a corda com exímia estabilidade. Clementine olha para cima, uma sombra redonda cobre o quarteirão quando um balão pirata surge pairando sobre elas. July, desmoralizada, encara o balão, sentindo seus punhos fraquejarem por um momento e forçando seu corpo a permanecer firme — Tchauzinho.

     No balão, um grupo de piratas joga uma corda, a qual Clementine agarra e é içada. July continua percorrendo alguns metros na corda. Ela percebe Clementine na borda da cesta, acenando para ela, e uma portinhola abrindo-se na base. Lá de dentro sai alguma coisa afiada e reluzente, que despenca antes do balão se afastar do Calçadão. July só reconhece o objeto como uma serra circular quando já é tarde demais. A serra se aproxima acumulando velocidade através de sua trajetória, e passa por trás de July, partindo a corda.

     Quando uma das cordas da Torre de Comando se solta ela é recolhida para uma grande carretilha fixada ao solo, mas a carretilha daquela corda específica ficava a um pouco mais de quinhentos metros de distância. July é puxada com agressividade pela corda como um peixe fisgado por um anzol de uma vara de pescar gigantesca. O impulso de ser arrastada em alta velocidade é gritar. Mais uma vez a garota acredita estar diante de seu fim, se soltar a corda ela se esborracha no piso de paralelepípedos, se continuar segurando ela seria esmagada pelos mecanismos da carretilha. Mas o que realmente acontece acaba colocando a vida de July Harmond ainda mais em risco.

     A corda começa a se curvar à medida que é recolhida, e nisso July é arremessada contra uma das grades de segurança, que tomba para trás ainda presa na base. No momento do impacto, July acaba soltando a corda e se agarrando a grade, ficando pendurada nos céus. Contemplando a sua inevitável morte, July entra em desespero absoluto e volta a gritar. Uma das bases da grade se rompe, fazendo-a tombar mais noventa graus, e deixando July ainda mais inclinada sobre a imensidão azul. Ela olhou para baixo por um instante e percebeu que era impossível ver qualquer coisa lá embaixo além de nuvens e mais nuvens, Newdawn estava numa altitude muito maior do que ela esperava. Era o seu fim.

     O vento bate no rosto de July e ela percebe que, se quisesse se salvar, devia agir rápido. Ela respira fundo e começa a usar o vão entre as grades para escalar de volta a segurança da "terra firme". Para isso ela precisaria de destreza e precisão para subir rápido e evitar ao máximo afrouxar ainda mais a última base que sustentava a grade. Mesmo com a dificuldade de sustentar todo o peso de seu corpo nos braços, e o medo incessante, July consegue escalar e colocar uma das mãos na borda do Calçadão. Mas o triunfo dura pouco, e ela sente a base da grade se partir.

     No Calçadão, uma pequena multidão se aglomerou em torno da grade partida, mesmo com as autoridades exigindo que mantivessem uma distância segura. Ernest estava confuso e impaciente, mesmo atendendo a exigência de July naquele exato momento a polícia ainda não havia chegado. Um suspiro de espanto ecoa através da multidão quando a mão de July surge na borda. Nesse exato momento, um rapaz surge em meio a multidão, empurra as pessoas à sua volta, incluindo os guardas, e dispara na direção da grade tombada. Mesmo com todos os alertas furiosos surgindo a sua volta, o rapaz se joga no chão e agarra o braço de July.

     — Te peguei! — O rapaz diz, agarrando o outro braço de July e lhe puxando para cima. A grade se solta definitivamente, e despenca em direção ao firmamento infinito abaixo de todos.

     Já em segurança, July e seu salvador caem um sobre o outro. Ainda agitada, ela nem tivera tempo de reconhecer quem havia se arriscado para lhe salvar. Chegou a acreditar que havia sido o Ed, mas logo reconheceu aqueles olhos escuros diante dela.

     — Alexander... — Ele abriu um sorriso largo, mostrando os dentes amarelados.

***

     Novamente as forças aéreas de Newdawn perseguem o balão pirata pelos céus da cidade, dessa vez de dia. Mais uma vez a investida dos Mavericks é falha, e o balão desaparece diante dos olhos dos pilotos.

     No interior do balão, a capitã Margaret se aproxima da recém chegada Clementine.

     — Camarada Clementine, e aí? — Margaret abraça a companheira — Encontrou o diamante?

     — Não — Clementine diz com pesar — Não estava lá.

     — Não se preocupe — A capitã pirata segura o ombro de Clementine — Eu já sei onde ele tá, mas você nos deu uma ótima distração.

***

     Um tempo depois, já ao entardecer, July e seu pai estavam em frente a sua casa, conversando com o comissário Heathcliff. Diversos policiais foram convocados para rondar aquela região após o incidente daquela tarde. Heathcliff estava furioso, farto dessas histórias de piratas. A grade rompida ainda não havia sido restaurada, e alguns policiais orientavam os transeuntes a ficarem longe daquele local. Também estavam presentes alguns repórteres com máquinas fotográficas, câmeras e microfones. Com o tempo, os repórteres se dispersaram, ao contrário dos fofoqueiros locais. A quase morte de July e a história da empregada pirata se espalharam por Newdawn como uma praga.

     — E então, o que levaram? — Ernest perguntou quando alguns agentes saíram do casarão. Eles balançam a cabeça em negativa e confirmam a hipótese daqueles que acompanhavam as ações dos piratas mais de perto: eles haviam roubado exatamente nada.

     — Mesmo assim meus homens vão ficar de patrulha nessa vizinhança durante a noite, precisamos dar um basta nesses delinquentes — Heathcliff encara July — O que a senhorita tinha na cabeça quando se arriscou daquele jeito perseguindo aquela pirata?! Poderia estar morta agora!

     — Eu tinha que fazer alguma coisa! — July diz inconformada — De qualquer forma ela fugiu...

     — Acredito que você mereça um belo castigo para aprender sobre prudência.

     As palavras de Heathcliff fazem o rosto de July se encher de fúria, ela estava pronta para soltar umas verdades na cara daquele comissário hipócrita quando seu pai lhe interrompeu antes que cometesse um desacato a autoridade.

     — July, por favor suba para o seu quarto.

     — Mas, pai!

     Ernest, calmamente, aponta para o casarão. Mesmo inconformada e furiosa, July vai embora após uma desprezível rabissaca. Antes de entrar na casa, ela olha para o lado e encontra Alexander a observando meio afastado. Ele já estava vestido novamente com o uniforme policial, e ela se sente profundamente tranquilizada com isso. July sorri e entra na casa. Em seguida, Emily se aproxima de Alexander.

     — Olha só quem decidiu aparecer — Emily comenta com ironia — O desbravador de casas combustas.

     — Fala baixo! — Nervoso, Alexander olha para os lados, pousando as suas mãos nos ombros de Emily — Quer que o Heathcliff descubra tudo e eu me ferre?

     — Tá bom, calma aí — Emily se afasta, e em seguida aponta seu indicador no rosto de Alexander — Mas eu quero saber de tudo!

***

     Momentos depois, July está em seu quarto, o cômodo iluminado apenas pelo abajur no criado mudo. Ela estava irritada com o fato de seu pai ter seguido aquela ideia absurda do Heathcliff de lhe colocar de castigo durante a ronda policial daquela noite. Porém, lá no fundo ela sabia que seu pai, não o comissário, tinha razão, sua empreitada havia sido de grande imprudência. Se não fosse por Alexandre ela estaria morta agora, seu corpo perdido no mundo desconhecido lá de baixo. Por um instante ela imaginou se seu cadáver teria sido encontrado pelos sandalitas.

     O que ela não conseguia aceitar era o fato de seu pai ter saído com o comissário Heathcliff, que nunca foi a mais amigável das pessoas.

     Na televisão, a notícia dos acontecimentos daquela tarde estava estampada em todos os canais. Cansada, July desliga a televisão e pega um livro na cabeceira de sua cama. Estava distraída, em meio às aventuras fantásticas de Júlio Verne, quando algo atrapalhou a sua leitura. O repentino som de alguma coisa caindo. Ela ergue a cabeça e olha em volta, vendo um vulto estranho parado na porta do seu closet. July estreitou os olhos para ver melhor aquela figura macabra no escuro, quando o vulto desapareceu rapidamente, entrando correndo no closet.

     — Quem tá aí!? — July fechou o livro, marcando a página onde parou, e se levantou da cama. Ela caminhou cautelosa até o closet, acendeu as luzes e adentrou no cômodo completamente vazio — Se for um ladrão, saiba que tem um monte de policiais lá embaixo e eu não vou hesitar em chamar eles. Agora, se for um fantasma, não sei quem chamar.

     O cômodo permanece silencioso à medida que o eco das palavras de July diminui. July reparou a porta de um armário entreaberta, e avançou até ela lentamente. A cada passo a porta balançava levemente como se alguém lhe empurrasse com a pontinha do pé. July respira fundo e abre as portas do armário, em seguida Roza surge lá dentro, lhe assustando com um grito estridente que se espalhou no ambiente.

     — Roza!? O que você tá fazendo aqui!? — July respirava fundo com uma das mãos sobre o peito, se recuperando do susto. Suas mãos tremiam. Enquanto isso, Roza ria, animada com aquela cena que era engraçada só pra ela.

     — Ouvimos uma fofoca de que você quase morreu hoje e o Cornelius me pediu para vir aqui ver se tá tudo bem — Roza dizia em meio às últimas risadas que ainda balançavam seu interior.

     — E como você entrou aqui? — Roza apontou para a janela do closet.

     — Você desce pelo poste, eu subo por ele — Roza diz, encolhendo os ombros — Teria sido mais fácil se aquela corda ainda estivesse ali. O que aconteceu com ela?

     — Ai, amiga — July anda em círculos, arrumando o cabelo — Longa história... — As duas garotas saem do closet enquanto July conta tudo o que aconteceu naquela tarde. Roza ouviu tudo com entusiasmo, e July ficou mais tranquila ao ter companhia naquela noite esquisita. Lá no fundo, ela só precisava relaxar — Agora estou trancada aqui — July senta-se na cama.

     — Só acho que a gente devia sair mesmo assim — Roza senta-se ao lado de July, abrindo um sorriso provocante — Só para sentir o gostinho da rebeldia.

     — Parece arriscado... — Uma pequena pausa — Tô dentro! — July se levanta, ficando de frente para Roza e lhe encarando com o indicador levantado — Mas só para dar uma voltinha no quarteirão, quero voltar o mais rápido possível.

***

     Momentos mais tarde, July encontra a chave reserva que seu pai esconde numa caixa de guardar charutos na última gaveta da escrivaninha do seu escritório, ao lado de um aparelho de fax e de um fixafone, uma tiara de plástico que transforma os comunicadores em um headset. As garotas saem do casarão pela porta dos fundos, fazem um pequeno esforço para driblar os policiais, e caminham animadas noite adentro em meio a risadinhas. Naquela noite, o Calçadão parecia vazio, poucas pessoas vagavam por aí, apesar de todos os bares e restaurantes estarem relativamente cheios. Era noite de ficar em casa, evitar as ruas, e em breve July perceberia que devia mesmo ter ficado em casa.

     Enquanto isso, distante daquela concentração de policiais, Lollipop também caminha pelo Calçadão em direção à boate Closer. Ela está distraída, revisando o que planejava fazer para a apresentação daquela noite, andando com a cabeça meio baixa, pensativa, coçando o queixo, e carregando uma mochila nas costas. Ela não percebe a dupla de silenciosos piratas surgindo de um beco e lhe seguindo, mas percebe quando um pirata brutamonte surge em seu caminho, lhe empurrando com força para trás.

     Lollipop se esforça para permanecer em pé após o empurrão brusco. Ela encara o grandalhão, irritada, mas logo se sente amedrontada com aquela figura alta e musculosa diante dela. Lollipop se afasta cautelosa, andando de costas e se preparando para correr, mas ao se virar ela se depara com os outros dois piratas que se aproximam cada vez mais. Todos com um sorriso insano estampado no rosto.

     Graças a um golpe de sorte, ou uma ironia do destino, July e Roza se aproximam, também distraídas em meio a fofocas. A expressão de Roza torna-se séria quando ela reconhece a situação de Lollipop, interrompendo sua caminhada e parando July com seu braço. July encara Roza, que aponta para frente.

     — Aquela não é a menina com quem você não vai com a cara? — Roza pergunta — Ela parece encrencada.

     — Lollipop... — July observa por um momento. Os piratas se aproximam ainda mais da garota, que fica cada vez mais apavorada. July se volta para a amiga — Vamos chamar a polícia antes que algo ruim aconteça! — Ela estava pronta para dar meia volta e alertar aos policiais que estavam rondando sua casa, mesmo que isso denunciasse sua desobediência.

     — Ah não — Roza é tomada por uma atmosfera desafiadora de malícia — Você já deixou um escapar hoje, agora é minha vez e eu não pretendo falhar — Roza sai correndo em direção aos piratas.

     — Roza! Espera! — July lhe acompanha, se preparando para o combate inevitável.

     Roza corre pela rua num impulso de coragem, ela esbarra propositalmente no brutamonte, que a encara irritado, e parte para cima de um dos piratas da dupla atrás de Lollipop, lhe acertando um soco no queixo e o derrubando. July também se aproxima, provocando o brutamonte. O pirata tenta lhe agarrar, e July desvia para o lado esquerdo, acertando uma joelhada na barriga dura do brutamonte. O pirata se encolhe, e July lhe acerta mais uma, um pouco mais embaixo. Quando o brutamonte cai encolhido, contorcendo-se de dor, July faz um lembrete mental: proteger seus pontos vulneráveis numa próxima luta, e não subestimar o adversário pelo tamanho.

     Aquele capanga que sobrou fica sem saber o que fazer, e tenta agarrar Lollipop. Por sua vez, a dançarina consegue se livrar facilmente dele quando Roza acerta o pirata nas costas com um cano que ela achou numa lata de lixo ali perto. Lollipop se afasta devagar daquela cena absurda, e começa a gritar ao ver mais piratas chegando. Eles vinham de todos os lugares, caíam de cima dos prédios, surgiam em meio a becos escuros, e saiam até mesmo de dentro de bueiros. Roza e July olham em volta, procurando uma saída enquanto os piratas as cercavam. Roza vê um único pirata saindo de um beco atrás delas, e, usando o cano, lhe derruba com uma pancada certeira no pescoço. O pirata cai com um olhar vazio e vago, sem balbuciar qualquer sinal de dor. Se estivesse morto elas nunca saberiam, não havia tempo para isso.

     — Por aqui! — Roza indica o beco vazio enquanto larga o cano. As garotas entram apressadas no beco e saem na rua de trás, diante do restaurante luxuoso com a fachada dourada. Elas entram no prédio em busca de socorro, sem perceberem que os piratas de antes não haviam lhes seguido.

     Novamente o destino age de forma irônica, e uma viatura policial se aproxima do grupo pirata no calçadão. O veículo derrapa, ficando de lado na rua, e os policiais saem de dentro já com as pistolas em mãos. Eram Emily e Alexander, usando coletes a prova de balas e improvisando uma barricada para o confronto direto, eles foram os únicos a deduzirem que os piratas poderiam estar agindo nas imediações, já que o entorno do casarão Harmond estava nada mais do que silencioso demais, deveras suspeito. Emily faz os primeiros disparos, derrubando três piratas, enquanto Alexander se abaixa atrás do carro, chamando reforço pelo seu comunicador. Os piratas se apressam em busca de cobertura, atirando sem ver exatamente onde queriam acertar. As balas acertaram a lataria da viatura, soltando um perturbador som metálico.

     Outras viaturas chegam fazendo o mesmo, e o tiroteio se torna mais agressivo. Alexander se levanta, se prepara para atirar e aponta sua pistola, mas se abaixa apressado quando uma bala passa raspando a centímetros de sua bochecha. Um pirata surge do beco atrás deles e atira na perna de Emily, que se abaixa instintivamente ao sentir o disparo rasgando a carne da sua canela esquerda. Alexander, assustado, larga sua arma e se encolhe sobre Emily, de costas para o pirata que preparava seu próximo tiro. Mesmo caída, e com Alexander na sua frente, Emily consegue abater o pirata com um tiro no peito.

     Alguns agentes adentram no beco, se certificando de que o local era seguro, e Alexander arrasta Emily até lá, passando por cima do corpo morto do pirata. Alexander sentou Emily no chão do beco, apoiada numa parede, e se sentou diante dela, apoiado na parede paralela. O ferimento na perna de Emily gera um intenso sangramento.

     — Você não podia ter se exposto tanto, seu burro! — Emily dizia, irritada. Pequenos gemidos doloridos surgiam em meio às suas palavras — Me deixa aqui e volta pra lá...

     — Não mesmo, você está ferida e eu vou chamar ajuda — Alexander pega o seu comunicador e tenta fazer uma ligação. Ao perceber que Emily fazia o mesmo, ele se enche de curiosidade — Vai ligar pra quem?

     — Vou chamar apoio aéreo — Emily gira os botões do comunicador.

     — Os Mavericks? — Emily responde apenas com uma balanço negativo de cabeça. A mente de Alexander clareou nesse momento.

***

     Tomadas pela adrenalina, July, Roza e Lollipop ainda correm pelo hall de entrada do restaurante sem perceberem que o local estava completamente vazio. July aperta freneticamente o botão do elevador até as portas se abrirem diante delas. Lollipop entra primeiro, sua respiração ainda ofegante, e ela solta um gritinho agudo e abafado ao sentir o fio metálico de uma lâmina encostando na sua garganta. Margaret também estava no elevador, com a cimitarra em punho.

     July e Roza se sentiram paralisadas por um momento, vendo Margaret acenando para elas com um certo ar de infantilidade, e Lollipop virando seu rosto discretamente, seu olhar implorando por ajuda. Elas correram para dentro do elevador quando as portas começaram a se fechar. Agora estavam as quatro garotas no elevador, uma delas com uma arma, e a outrora relaxante melodia de violino parecia mais um lamento infernal. Ninguém disse uma palavra sequer enquanto o elevador subia, mostrando os andares sitiados por piratas.

     July observou Margaret de cima a baixo, não havia dúvidas de que ela era a mente sórdida por trás de toda a balbúrdia que aquele miserável grupo de larápios vinha causando nos últimos meses. Mas havia algo ainda mais perturbador em Margaret, ela não transparecia crueldade, ambição, ou qualquer coisa que justificasse suas estranhas motivações. O traje pirata que vestia parecia muito mais uma fantasia mal encaixada numa criança, e isso incomodou July, talvez ela e a capitã pirata estivessem na mesma situação. Por outro lado, quando Roza observou Margaret, ela se limitou a face externa, e percebeu que Margaret estava relutante, afastando lentamente a cimitarra do pescoço pálido de Lollipop.

     No momento certo, Roza avança, agarrando o pescoço de Margaret com uma mão e empurrando a espada com a outra, ficando-a bruscamente no tecido espesso que recobre as paredes do elevador. Roza empurra Margaret contra a parede atrás dela, deixando-a rendida como um animal indefeso diante de um caçador. Lollipop também se afasta no momento que Roza ataca, e July se põe a sua frente de forma protetora, ela quase consegue sentir o coração de Lollipop pulsando loucamente nas suas costas. Roza aperta o pescoço de Margaret cada vez mais forte, deixando-a sufocada e tomada pelo medo. Em seguida, Roza solta a mão que segura a espada e fecha o punho ao lado de seu rosto, o qual estava tomado por uma seriedade insana.

     Margaret, em vão, usa suas mãos livres para agarrar a mão de Roza, sentindo suas forças se esvaírem de seu corpo.

     — Roza... Já chega! — July diz, vendo o elevador se aproximar do próximo andar. Elas estavam dois andares abaixo do jardim.

     As portas do elevador se abrem, Lollipop corre para fora sem rumo, apressada para sair daquele pesadelo. July vai atrás dela e agarra seu pulso antes que ela avance mais no corredor supostamente vazio. Lollipop luta por um momento, tentando se soltar, mas logo cede. July se vira para a sua amiga, nesse instante, Roza larga Margaret e sai do elevador. As três meninas apertam as mãos umas das outras e correm pelo corredor até uma escada de emergência.

     Margaret caiu derrotada, sentada no chão do elevador e respirando fundo. Ela se levanta em instantes, amaldiçoando a intromissão daquelas garotas e arrancando a cimitarra da parede. A capitã arrumou seu casaco, e seus cachos loiros, e apertou um botão no elevador, subindo rumo ao próximo andar.

***

     July, Roza e Lollipop chegam à escada de emergência. Roza está quieta, digerindo a besteira que ela quase fez com o olhar vago, enquanto July está confiante, tentando formular algum plano de fuga. Lollipop está apenas assustada, suas mãos tremem e seu semblante está tenso. A luta era consigo mesma para manter a postura e não desmoronar em lágrimas no meio daquele prédio cercado por piratas.

     — Roza, o que foi aquilo? — July pergunta, subindo apressada pela escada que parecia não ter fim. Sua pergunta desperta Roza do seu transe momentâneo.

     — Não sei, eu só queria proteger vocês — a voz de Roza também estava tensa.

     — Foi assustador, nem parecia humano — July parou de subir e se virou para encarar a amiga. Uma assustada Lollipop posta entre elas, cada uma em um degrau.

     — Que seja — Roza disse com seu sarcasmo habitual — Para onde estamos indo mesmo?

     — Tem um jardim no último andar, fica a céu aberto, acho que de lá podemos chamar a atenção de algum zepelim e pedir ajuda — July explicou.

     — Mas isso não vai deixar a gente ainda mais encurraladas?

     — Talvez — July responde com uma risadinha — Mas se descer é pior.

     — Não tão rápido, pirralha! — Clementine surge na escada, alguns degraus acima, portando uma faca. July se vira para ela, a encarando com desprezo.

     — Confirmado, você não desiste mesmo! — Tomada pela impulsividade, July avança contra Clementine, agarra a mão que segura a faca e lhe desfere uma rasteira entre as pernas. Clementine se desequilibra, e cai escada abaixo. Roza e Lollipop se encolhem contra a parede, evitando serem atropeladas pela pirata — Vamos!

     As garotas seguem pela escada e chegam no último andar, onde passam por uma larga porta de vidro e chegam no jardim, passando pelo labirinto de arbustos até a extremidade direita, a fim de procurar qualquer coisa que se mova no céu noturno e que não seja um morcego ou um pássaro. Elas, inclusive Lollipop, até soltaram alguns gritos avulsos, sem sucesso. As garotas encaram a cidade adormecida, sentindo-se profundamente chateadas com tamanho desamparo.

     — Poupem suas vozes — Margaret surge atrás delas, sua silhueta imponente em meio ao céu noturno e seu cabelo volumoso balançando com a brisa gélida. Ela estava com a cimitarra recolhida numa bainha presa em seu cinto. Nesse momento, a confiança de July derreteu, e ela se sentiu perdida, sem esperança, e sem opções. Até mesmo Roza sentiu-se encurralada, mas precisou ficar alerta para segurar o braço de Lollipop, que não parava de recuar em direção a borda.

     — O que você quer de nós!? — July se põe diante do seu grupo fragilizado, sua voz tentando simular o tom de autoridade e saindo mais parecida com um soluço — Por que não nos deixa em paz!?

     — Eu só quero a garota — Margaret aponta para Lollipop, lhe deixando ainda mais abalada — Ela tem algo que me pertence, e eu terei de volta a qualquer custo.

     — Não... — Lollipop sussurra, e começa a proclamar essa mesma palavra para si repetidas vezes.

     Roza encara Lollipop por um momento, em seguida encara Margaret, seu semblante torna-se sombrio novamente, e ela avança em passos pesados. Roza já se aproximou atacando, desferindo golpes que pareciam aleatórios e tentando acertar Margaret em qualquer parte do seu corpo. Dessa vez, Margaret estava mais atenta, desviando dos ataques com facilidade apenas movimentando seu tronco, por vezes utilizando as mãos para aparar um soco mais alto como uma exímia artista marcial.

     July também quis agir, tentando acertar Margaret por trás, mas a pirata também estava atenta em sua retaguarda. No momento em que Roza dispara com tudo num soco mais largo, Margaret desvia para o lado, deixando July no caminho do ataque de Roza, tarde demais para recuar. O soco de Roza acerta em cheio o rosto de July, a qual se afasta, assustada, sentindo o local acertado começar a latejar. July percebeu algo estranho naquele golpe. Roza era rápida, sem dúvidas, mas a força daquele soco não condizia com ela, e por um momento July pensou ter sentido alguma coisa metálica por baixo da pele da amiga. Por sua vez, Roza não recuou, nem se surpreendeu em ter acertado sua amiga, ela apenas continuou atacando, vez ou outra acertando a barriga e o tórax de Margaret, mas não o suficiente para lhe impedir.

     July permaneceu afastada, observando o embate, até perceber um detalhe que mudou tudo: Margaret não estava apenas evitando os golpes de Roza, ela estava a conduzindo. Cada vez que Roza atacava, Margaret desviava, lhe forçando a ir onde ela queria, assim elas atravessaram boa parte da extensão do jardim até a beirada mais próxima. July não teve tempo de avisar, quando percebeu já era tarde, e soltou um grito vago ao ver Margaret acertando um golpe certeiro no centro do peitoral de Roza, um golpe que tirou seu equilíbrio e lhe fez cair de costas nos arbustos que recobrem o parapeito daquele jardim suspenso babilônico. Roza desapareceu em meio aos arbustos, soltando um grito estridente enquanto caía lá de cima.

     Para July, essa foi a gota d'água, ela ficou ainda mais desesperada, e partiu para cima de Margaret, socando-a de forma impulsiva em meio ao choro, aos gritos e soluços. Margaret conseguiu se livrar dela com facilidade, derrubando-a na fajuta imitação de pedra que compunha o piso do jardim. July sentiu o peso do mundo cair sobre ela junto da exaustão, ela estava morta de cansada, em pânico, e não conseguia mais se levantar. Seu corpo inteiro doía, e o último grito de Roza ainda ecoava em sua mente. Juntando o resto do resto das suas últimas forças, July virou de bruços e se arrastou até o buraco no arbusto feito pelo corpo de Roza, de lá ela olhou para baixo e se espantou mais ainda com o que viu.

     O corpo de Roza estava lá embaixo, estirado no asfalto, e partido ao meio. As pernas estavam reviradas em ângulos impossíveis, claramente quebradas, seu rosto ainda estava tenso, mirando o topo do restaurante, e um dos braços também havia se arrancado, estando alguns metros longe de onde deveria realmente está. Mas o que realmente assustou July foi o fato de não haver sangue, e sim óleo em volta do cadáver de Roza. Óleo, fios e engrenagens, além de placas metálicas por baixo da pele e faíscas saindo de alguns pontos.

     — Roza... O que é você? — July disse em meio ao choro de incredulidade. Até mesmo a sua voz estava fraca, parecendo muito mais um sussurro desanimado.

     O grito esganiçado de Lollipop chamou a atenção de July, Margaret estava indo em direção a ela, lhe encurralando contra o arbusto de outro parapeito. Mas não havia mais nada que July pudesse fazer. Margaret agarrou os pulsos de Lollipop com força, consequentemente, a garota tentou se debater para se soltar, sem sucesso. Ela estava cansada de chorar, cansada de sentir medo, e passou a encarar Margaret com os olhos cheios de ódio.

     — O que você quer comigo!? — Lollipop perguntava, sentindo seus pulsos doerem a medida que Margaret lhes apertava cada vez mais forte — Por quê não me deixa em paz!?

     — Nada demais, só isso! — Margaret enfiou uma de suas mãos na blusa de Lollipop e arrancou o seu relógio, que estava pendurado em seu pescoço esse tempo todo. Lollipop voltou a sentir o espanto tomar conta de seu corpo, e aumentar ainda mais quando Margaret jogou o relógio contra o piso com toda força e pisou em cima depois. Em meio aos cacos, Margaret recolheu um diamante reluzente. Um grande, pesado, e brilhante diamante — Muito obrigada — Margaret falou por fim, com um sorriso malicioso em face.

     Em seguida, Margaret empurrou Lollipop como se ela fosse um saco de lixo. Assim como Roza momentos antes, Lollipop também atravessou os arbustos e começou a despencar em direção a morte certa. Enquanto tentava agarrar o ar, e novamente chorava sem parar, Lollipop via o sorriso maligno no rosto de Margaret se tornar cada vez mais distante. Teria Alice se sentido assim ao cair na toca do coelho branco?

     Lollipop fechou os olhos e aceitou o seu fim, ela só queria que fosse rápido e que não doesse tanto. Mas a única coisa que ela sentiu foi alguém chegar voando e a agarrar, lhe salvando. Uma salvação que apresentou-se tão rápido ao ponto de se sobressair à realidade, transformando as luzes da cidade em linhas brilhantes. Quando abriu os olhos, Lollipop se deparou com o sorriso simpático de Wes Jeffords, que estava lhe segurando em seus braços enquanto voava com seu jetpack. Lollipop se sentiu agradecida por mais aquele golpe de sorte, ou ironia do destino, ou pelo simples fato do apoio aéreo de Emily ter chegado bem a tempo.

     — Você é um anjo? — Lollipop sentiu-se mais calma, como se Wes tivesse chegado para espantar todo o medo que ela sentia.

     — Na maior parte do tempo sim — Wes soltou uma risadinha, e Lollipop passou seu braços em torno dos ombros dele, segurando firme enquanto eles voam de volta ao topo do restaurante.

     Chegando lá, Lollipop se solta de Wes, e a simpatia desaparece do rosto dele. Wes pega sua arma e aponta para Margaret enquanto a ferramenta mortal se ativa. Ele trazia consigo um modelo de pistola diferente, onde sete canos apareciam em círculo quando ativado. Margaret levanta as mãos numa rendição debochada, ainda segurando o diamante, e July permanece caída. O jardim começa a se encher de policiais.

     — Parada aí! — Wes se aproxima de Margaret, segurando firmemente a sua arma estilizada — Você está presa em nome da lei de Newdawn.

     — Tchauzinho — Margaret fala de um jeito meio infantil, ignorando a presença de Wes e dos policiais.

     Nessa fração de segundos, um balão pirata se materializa acima de todos e lança uma corda. Em instantes, Margaret já estava lá em cima, indo embora no veículo. Os policiais se preparam para atirar no balão quando um pirata joga uma bomba de fumaça no jardim, fazendo todo mundo tossir e se perder em meio a fumaça densa. Quando se dissipa, tudo que eles conseguem ver é a tropa Maverick passando por cima deles. Porém, mais uma vez, os aviões da brigada aérea de Newdawn falham em sua missão.

     Um policial ajuda July a se levantar, agora ela se sente melhor, e um pouco de disposição surge em seu interior, apesar dos machucados e músculos doloridos. Nada que um kit de primeiros socorros não resolva. Os policiais se ocuparam em serviços técnicos, inspecionando o prédio em busca de alguma pista do paradeiro dos piratas, ou do que viria agora que Margaret possuía seu tão cobiçado diamante. Lollipop também havia se recuperado, o medo havia ficado para trás, e a velha arrogância estava de volta.

     — Olha aqui garota estranha! — Lollipop dizia de um jeito esnobe enquanto se aproximava de July e lhe apontava o indicador — Não pense que vou te agradecer por você e a sua amiga esquisita terem me defendido! — Lollipop cruza os braços.

     — Bom, eu não vou com a sua cara — Normalmente July teria se irritado, mas ela respondeu de uma forma calma e determinada — E não espero que vá com a minha. Mas acho que ainda podíamos ser amigas, como nos velhos tempos.

     Lollipop cedeu, ela soltou os braços e passou a coçar um deles delicadamente, com sua cabeça baixa. Por fim, encara July com um sorriso envergonhado.

     — Quer ir para um lugar legal comigo? — As garotas riem juntas, de um jeito que elas não faziam há muito tempo.

     — Adoraria — O rosto de July torna-se sério, e se enche de pesar, quando ela lembra de algo — Mas preciso fazer uma coisa antes, pode me emprestar o seu comunicador?

***

     Sem dúvidas aquela cena peculiar do corpo destruído de Roza chamou a atenção de um ou outro agente, mas ninguém parou para se questionar o que deveria ser aquilo, não havia tempo. Minutos depois, quando todos já haviam saído do prédio e das imediações, Cornelius chegou ao local. Ele se aproximou do corpo de Roza, atônito, e desabou sobre os joelhos, lhe encarando por um momento, em choque, e depois tudo que se pôde ouvir na escuridão foi seu grito melancólico. Um segredo havia se revelado.

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