Capítulo 5 - A Dançarina da Boate Closer
A figura de July refletia nos espelhos da sala de dança. Neles, ela viu a imagem da perfeição, a postura ereta apoiada na ponta das sapatilhas, a expressão neutra buscando a concentração necessária. As demais bailarinas lhe observavam ansiosas, sentadas num canto da sala. A única pessoa em pé além de July era a professora, uma senhora de meia idade de postura e expressão rígidas, o cabelo cinzento arrumado no topo da cabeça como uma peruca velha e cafona.
Ao sinal da professora, July flexiona as pernas e parte para um giro em torno do próprio corpo. A perna direita levantou-se, criando uma grande abertura enquanto July continuava girando. Ela juntou novamente as pernas e encerrou o movimento num giro mais rápido, terminando com o tronco levemente curvado para a frente. July estava ofegante, mas firme e satisfeita. A professora lhe parabenizou, e as suas colegas de turma começaram a aplaudir animadas. Todas, menos uma: Lollipop.
***
A professora dispensou as suas alunas. July foi para o vestiário, trocou as roupas de balé pelo seu disfarce cívico e saiu da escola de dança. O prédio, que além de escola de artes também era um teatro e um cinema, possuía arquitetura clássica e sua fachada lembra um velho palacete, daquele tipo que chama atenção e cria boatos sobre ser ou não assombrado. A entrada dava acesso a uma praça larga com uma fonte no centro. Praça essa que fica mais ou menos perto da galeria pluvial que leva ao esconderijo da gangue pirata de Margaret, algo que ela ainda não sabia.
July caminhou com uma mochila nas costas e arrumou o cabelo enquanto o vento soprava agressivo, nuvens negras se aglomeravam tímidas e uma tempestade podia cair a qualquer momento. Já havia chovido mais cedo naquele dia, e poças de água turva se espalhavam pelo pavimento. Ela se dirigiu à fonte e encontrou Ed, eles se cumprimentam e passam a caminhar juntos. Chegando num corredor comercial ali perto, a dupla encontra Alexander, que chega um pouco apressado, meio andando e meio correndo.
— Desculpa o atraso — Alexander diz após cumprimentar July com um abraço — Dia de sábado é um inferno na delegacia. Fica difícil conseguir uma brecha.
— Não tem problema. E esse é o meu amigo que eu te falei — July vira-se para Ed, ainda encarando Alexander amigavelmente.
— Prazer em conhecê-lo — Ed e Alexander apertam as mãos. Ed parecia meio sério naquele dia, havia algo muito errado nele que ninguém conseguia explicar.
— Vamos andando, temos pouco tempo — Alexander faz um gesto para que lhe acompanhem.
Alexander guiou July e Ed até uma casa nas imediações, ou o que teria sido uma casa tempos atrás. Agora, o local estava isolado por altas tábuas de madeira e fitas amarelas da polícia. Alexander afastou uma das tábuas e eles passaram pela passagem improvisada. Do outro lado, a estrutura da velha casa ainda estava de pé, mas os resquícios do incêndio eram visíveis. A porta de entrada estava escancarada e meio torta, e as paredes assumiram uma coloração escura.
Eles entraram na casa incendiada, July teve que tampar o nariz para suportar o cheiro de queimado que estava impregnado ali dentro. Um chumaço de cinza acabou caindo em seu olho, e ela teve que puxar os goggles da testa para se proteger enquanto seus olhos começavam a lacrimejar. Dava para reconhecer a mobília pelo formato do que restou dos móveis, mas tudo estava carbonizado. Haviam objetos quebrados e lixo pra todo lado. No centro da sala onde ocorreu o suposto crime era possível ver, no chão sujo, a silhueta dos corpos encontrados junto de Ivana marcada com giz, assim como nos filmes.
— Não garanto que essa visita vá passar despercebida — Alexander diz enquanto Ed começa a analisar cada detalhe da cena do curioso crime.
— Que horror! — July disse com repulsa — Não consigo imaginar o que aconteceu aqui.
— Bom, os detetives encarregados já pensam em dar o caso como encerrado mesmo sem solução. E o Ministério já começou a providenciar a papelada para a demolição dessa casa — Alexander parecia nervoso. Ed olhou de relance para suas mãos, que tremiam sem parar, e o policial as escondeu nos bolsos.
— E os detetives chegaram em alguma conclusão lógica? — Ed pergunta meio seco, tirando um par de luvas plásticas do bolso do casaco e enfiando elas nas mãos. Na verdade, apenas na mão carnal, pois membros metálicos não deixam impressões digitais.
— Segundo eles, a hipótese é que foi uma tentativa de assédio durante um assalto. Apesar de ser uma pensão, Ivana estava sozinha na hora. Os homens invadiram e a atacaram, ela se perturbou e provocou a explosão com magia — Alexander agora fica cabisbaixo, e se distrai empurrando pedaços de madeira podre com o pé.
Myth é conhecida como a cidade da magia. Seus habitantes utilizam antigos ensinamentos arcanos como fonte de energia e combinam tecnologia com filosofia e misticismo, mas isso cobra um domínio magistral para manter o funcionamento da cidade. Por isso, Myth se destaca pelo sistema educacional exemplar, e pela população dedicada ao estudo, tanto que a maior parte das pessoas lá, além de poderem conjurar os elementos naturais com facilidade, acabam indo trabalhar em outras cidades como médicos, professores, arquitetos, dentre outras funções. Apesar da utilização de magia baratear o desenvolvimento tecnológico, as demais cidades flutuantes evitam comercializar com Myth alegando que seus métodos são profanos, porém Myth sobrevive comprando tecnologia de suas cidades irmãs e adaptando ao seu estilo.
— Outros acreditam que os homens invadiram a casa com o intuito de assassinar Ivana, um crime de ódio motivado por preconceito — Alexander fala apertando os olhos como se fizesse esforço para lembrar as palavras. Ele sente seu nariz começar a se irritar com a poeira densa daqueles escombros — Pra mim, essa explicação é mais aceitável.
Ed sabia que tudo aquilo era mentira, principalmente porque os corpos haviam sido identificados mesmo com dificuldade. O primeiro era o dono da pensão, o segundo não teve a identidade revelada, mas com certeza não era um ladrão, não havia sinais de arrombamento em nenhum lugar da casa. Alexander também aparentava saber o mesmo. Alguma coisa ali cheirava mal, e não eram os destroços chamuscados.
— O Ed tem uma teoria completamente diferente — July diz, sentindo suas vias nasais se encherem de catarro. Nessa hora ela desejou profundamente não acabar o dia gripada.
— Baseada em que? — Alexander pergunta.
— Bom, vamos lá — Ed inspira fundo, buscando o ar limpo naquele ambiente saturado. Em seguida, começa a narrar sua teoria como um perito criminal — Essa casa é um modelo deveras antiquado, que remonta dos primeiros anos de Newdawn. Muitas pessoas se preocupavam com o fato do ar aqui em cima ser bem mais frio do que o comum, então é padrão que todas as casas desse modelo tenham um aquecedor que fica exatamente ali — Ed aponta para um grande espaço vazio abaixo da janela — Como podem ver, não tem nenhum aquecedor aqui.
— Mas o dono pode muito bem ter removido o aparelho — Alexander fala meio constrangido. Não é nada legal ver outra pessoa fazendo seu trabalho melhor que você.
— E quebrado o piso no processo? — Ed se agacha perto do local onde deveria está o aquecedor e chama Alexander e July para se aproximarem. Juntos e abaixados, eles percebem um buraco no piso preto de pedra, e rachaduras profundas em volta. Ali perto, em meio as rachaduras, havia um pedaço de ferro parafusado no chão — Essa é a ponta de um dos suportes do aquecedor. Acredito que, alguém de alguma forma, danificou o aquecedor, iniciando o incêndio e fazendo ele decolar e cair do outro lado da sala, quebrando aquela cadeira — Ed aponta para o outro lado da sala, onde, de fato, havia o móvel partido ao meio.
— Em seguida o aquecedor sumiu no ar? — Alexander perguntou, novamente incomodado. Ed tinha toda razão e aquela visão da cena mudava tudo.
— Não, ele foi escondido — Ed se levantou e caminhou até os fundos da sala, parando diante do que sobrou de um grande quadro — Essas casas também possuem cofres padronizados — Ed agarra a moldura queimada e arranca o quadro da parede. Atrás realmente havia um cofre, trancado. Ele vira-se para os amigos — Alguém sabe a senha?
***
Enquanto isso, Cornelius está debruçado em sua mesa avaliando os fios internos do computador. Quase tudo já estava montado, mais cedo ou mais tarde a máquina estaria funcionando novamente. Depois seria questão de tempo para realizar seus sonhos. No bolso de trás da calça havia um comunicador, e ele estava sem camisa, exibindo seu físico magro e desprovido de músculos, com pelos escuros crescendo no pé da barriga e nas axilas.
Cornelius leva um pequeno susto ao sentir o comunicador vibrar com sua melodia estridente sinalizando a chegada de uma chamada. Ele retira do bolso e puxa a antena enquanto aperta o botão.
— Quem é? — Cornelius pergunta, aproximando o comunicador do rosto.
— Cornelius, é o Ed — Ele diz, andando de um lado para o outro na frente do cofre. O material do item era projetado para suportar acidentes, por isso ele estava intacto, só sujo de cinzas na tampa pesada — Você consegue abrir um cofre?
— Que tipo? — Cornelius se encosta na cadeira, interessado no assunto
— Um velho, das casas primordiais — Ed encara o cofre. Atrás dele, Alexander cruza os braços e abaixa a cabeça, com raiva, enquanto July tenta lhe acalmar, passando a mão em seu ombro — Daqueles que tem uma alavanca na frente e uma senha de quatro dígitos.
— Ah, não é tão difícil — Cornelius se levanta — Onde vocês estão? — Ed passa o comunicador para Alexander, que informa o endereço — Chego aí num instante.
Cornelius abre um armário e tira um estetoscópio estilizado, com a campânula bem maior do que o necessário e adornado com anéis dourados. Em seguida, ele coloca o estetoscópio e mais alguns materiais, luvas, seus goggles e outras ferramentas menores numa bolsa, veste uma camisa de botões e sai de casa correndo.
— Corra Cornelius, corra! — Ele pensa consigo mesmo, lembrando daquele filme onde uma moça corre contra o tempo e muda a realidade. O clima estava abafado e ele já estava todo suado. Tímidos pingos de chuva caiam de vez em quando.
Na entrada de sua casa, Cornelius vira à esquerda e sobe a rua, dobrando na primeira esquina. Ele segue em frente até uma estação do bondinho, sobe pela rampa e corre pela plataforma até a rua seguinte, caindo direto num velho playground. A partir dali, correr por aquela vizinhança era como voltar no tempo e correr pelo passado. Cornelius passa por uma escola onde ele estudou, sem tempo para nostalgia, e desaparece através de uma rua mais estreita.
Cornelius corre por um verdadeiro labirinto de casas simplórias em vielas cada vez mais estreitas, pisando em poças enquanto cães sem dono latem atrás dele. Em seguida ele sai numa rua mais ampla no entorno de um campo de futebol, ao lado de um condomínio chique onde uma ex-namorada vivia. Cornelius segue até o campo, adentra e corre na diagonal até o extremo oposto, por onde sai através de um buraco na grade. Aquele local já era bem afastado de sua casa, uma extensa rua sem saída pouco movimentada na parte de trás de uma das sedes da agência de abastecimento de Newdawn, e também um estacionamento improvisado para os funcionários da mesma. Um lugarzinho estranho com gente esquisita.
Seguindo seu caminho em direção a uma passagem na metade da rua sem saída, Cornelius para quando algo chama sua atenção. Ele ouve perto dali o som de alguém chorando, e o barulho de pancadas e gritos. Cornelius podia muito bem passar direto, mas a curiosidade falou mais alto. Ele anda calmamente até o balão de retorno, e encontra, encostado num muro alto todo pichado, Johnny chorando sentado sobre caixas de madeira. Ao seu lado, um homem gordo disparava todo tipo de insultos com a voz visivelmente alterada.
O homem entra numa casa velha bem na ponta da rua, e Cornelius se aproxima com cautela. Johnny levanta a cabeça revelando a expressão irada, as lágrimas densas escorrendo pelo queixo, e um horroroso hematoma na bochecha esquerda.
— Tá olhando o que velhote!? — Johnny pega uma garrafa de vidro do chão e arremessa em direção a Cornelius. A garrafa acerta a parede ao seu lado. Assustado, Cornelius vai embora correndo pela única saída possível.
Aquela passagem era uma rua média entre dois condomínios. Haviam árvores altas que enchiam a rua de sombras e folhas secas. Passando por um banco improvisado abaixo de uma das árvores, Cornelius se lembra que costumava beber ali com seus amigos, na época que ainda tinha amigos para isso. Muitos jovens de potencial perderam suas vidas para a criminalidade daquela região por pura covardia. Newdawn nunca foi uma cidade perfeita.
Cornelius para de correr diante do cruzamento de uma larga avenida, por onde vários carros passam a toda velocidade. Ele teve certa dificuldade para atravessar a avenida, mas conseguiu depois que um motorista desatento acabou fechando o cruzamento e atrapalhando o tráfego. Cornelius passa pelo orfanato onde ele e Cérebro cresceram, e dali em diante era só seguir reto até ver as casas chiques que nunca foram alugadas dando espaço a pequenas lojas. Mais uns quinhentos metros e Cornelius chegou ao seu destino.
***
Posicionado diante do grande cofre, e tossindo pela falta de ar e o fôlego gasto na corrida, Cornelius coloca as olivas do estetoscópio nos ouvidos e posiciona a campânula sobre a tampa. Ele gira os anéis dourados do cabo, ajustando a nitidez do som, e começa a analisar as combinações de números, consciente da existência de dez mil senhas possíveis. Apertar números aleatórios no teclado girava pequenas engrenagens sob a tampa do cofre, mas apertar uma sequência correta de números girava engrenagens maiores, e Cornelius podia distinguir os sons perfeitamente pelo estetoscópio. Em, mais ou menos, quinze minutos ele descobre a combinação certa e ouve as trancas se abrindo num estalo.
— Pode abrir — Cornelius se afasta do cofre enquanto Ed se aproxima. Ed virou a alavanca e puxou a tampa com força. O cofre se abriu, e lá dentro, além de uma barata voadora que fez todo mundo gritar, havia o aquecedor da casa, com um buraco na frente como se tivesse explodido, e um revólver.
— Parece que minha teoria acaba de se confirmar, e encontramos a arma do crime — Ed conclui, colocando as mãos na cintura. Atrás dele, a barata rasteja até sair pela porta.
— Como isso passou batido pela perícia? — July pergunta, impressionada. Ela nunca imaginaria que aquele caso misterioso tivesse tanto haver com as pessoas próximas a ela.
— Não tem perícia quando alguém acoberta o caso — Ed encara Alexander, cujas pernas tremiam ainda mais do que as mãos — Ninguém nem mesmo reparou aquele buraco no chão que foi claramente feito por um projétil — Ed aponta para um pequeno buraco redondo próximo do que sobrou de uma cômoda.
— Tá bom, eu digo! — Alexander praticamente grita, como se não aguentasse mais se sentir sufocado pelas próprias palavras — Um sujeito pagou o comissário para não fazer a investigação. Isso no mesmo dia que acharam a menina e os corpos.
— Um sujeito? — Cornelius pergunta, curioso.
— Que tipo? — Ed pergunta meio seco. Ao seu lado, July estava assustada com o tom de seriedade cada vez maior na voz do amigo.
— Do tipo mauricinho, ele tinha até um broche com o brasão do ministério — Alexander responde, fazendo o possível para não gaguejar — Aquele desenho feio que é tipo a Torre de Comando na frente de um sol com um tamanduá.
— Igual a esse? — Ed tira do casaco sua carteira de identidade.
— Sim... Ele também tinha o cabelo todo lambido para trás — Alexander complementa.
— Inferno! — Ed chuta uma velha mesa de centro. A mesa sai voando e se desmancha em pedaços queimados de madeira ao se chocar com uma parede. July e Cornelius se assustam, e se abaixam, mesmo com a mesa sendo arremessada na direção oposta. Alexander apenas dá pequenos passos para trás. Ed vira para July — É o Leonard! — Ed estava furioso agora.
— Vamos embora! Esse lugar me dá arrepios! — July se levanta e grita para Ed, uma lágrima tímida escorre pela sua bochecha.
O grupo sai da casa e se afasta alguns metros. Alexander estava visivelmente chateado, e July tenta lhe tranquilizar, agradecendo pela ajuda. Quando Alexander vai embora, July se volta para os outros amigos.
— Aquilo não foi nada legal, Edmond! — July diz cruzando os braços — Você não podia ter falado com o Alexander daquele jeito.
— Foi mal, acho que exagerei — Ed coça a cabeça — Mas eu tenho certeza que foi o Leonard quem pagou para acobertar o caso. Ele faria de tudo pra me atingir, até mesmo prejudicar quem nem conhece.
— Você tem certeza? — Cornelius pergunta. Seu nariz escorria de um jeito que lhe incomodava cada vez mais.
— Absoluta — Ed responde — Leonard é obcecado por poder e...
— Você sempre fala que o Leonard é obcecado por isso e aquilo mas não faz muito diferente! — July diz irritada — Esquece o Leonard e pensa em mim!
July vira as costas e sai andando antes que Ed possa responder qualquer coisa, e começa a espirrar no meio do caminho. Ela vai embora sem olhar para trás, deixando Ed e Cornelius confusos. Eles se entreolham.
— O que deu nela? — Ed encara Cornelius.
— Mano... você vacilou, de verdade — Cornelius também vai embora, deixando Ed sozinho por um instante.
Ed, então, começou a refletir. Até quando sua vida seria essa sucessão de erros e arrependimentos? E como sempre, tudo culpa de Leonard. Nessa hora, Ed teve uma ideia que não parecia ser ética, mas que resolveria tudo. Se essa história fosse um desenho animado, teria uma lâmpada sobre a cabeça de Edmond.
***
Enquanto isso, July estava preocupada com Alexander, e ficou ainda mais quando Emily disse que ele chegou na delegacia, pendurou o casaco e foi embora. Sem mais opções, July decide, finalmente, visitar Natasha. Ela chega na residência dos Williams e Natasha vem lhe atender. A senhora estava radiante, o cabelo arrumado e usando trajes leves, porém elegantes. Muito diferente daquela imagem maltrapilha vista na última vez que um Harmond frequentou aquela casa, quase um mês antes. Os dias voltaram a ser de tranquilidade para Natasha Williams agora que seu marido voltou ao trabalho, e seu filho conseguiu um emprego.
— Querida, quanto tempo? — Natasha e July se abraçam, animadas com o reencontro.
— Desculpa a demora, de verdade, eu estava esperando o chato do Heathcliff sair antes de aparecer aqui — July diz enquanto entra na casa.
— Fica a vontade, o Max também vai passar o dia fora — Natasha fecha a porta e ambas se sentam nas poltronas da sala de estar — E você, está bem?
July parou por um instante, respirou fundo e abaixou a cabeça. Ela começa a desabar em lágrimas.
— Não, não tá nada bem — Comovida, Natasha a abraça novamente.
Elas subiram para os aposentos de Natasha, os desentendimentos conjugais fizeram ela e Heathcliff começarem a dormir em quartos separados. Assim, era perceptível o toque pessoal na decoração quase infantil do quarto de Natasha, onde todo o enxoval possuía as cores rosa e branco. July sentou-se na cama e começou a desabafar enquanto Natasha penteava e arrumava o seu cabelo, algo que elas faziam desde que July era pequena. Lá no fundo, Natasha foi a figura materna mais próxima que July teve.
— Eu estou indignada — July dizia num tom sério. As lágrimas ficaram para trás, mas seus olhos ainda pareciam inchados. Ao lado da cama, uma vitrola tocava um disco da Kate Bush — Ele mentiu para mim esse tempo todo, e agora age como se fosse outra pessoa. Ainda não acredito que ele fez isso comigo.
— Oh, minha princesa, não fica assim — Natasha diz enquanto penteia os cabelos negros de July — Os homens são estranhos.
— Mas ele não é qualquer homem — July se encolhe sobre os joelhos — Ele é meu melhor amigo, já passamos por muita coisa juntos...
— Tipo quando vocês capturaram o ladrão de tortas — Natasha arranca uma risada de July.
— Sim — July sorri e relaxa os ombros — Acho que vai demorar para aceitar que ele estragou tudo.
— Também não seja tão dura — Natasha canta o refrão da música — Se ele realmente se importa com você do mesmo jeito que você se importa com ele, quem sabe ele perceba e tente resolver tudo.
— Tem razão — July se vira, encarando Natasha — E o Heathcliff, ainda quer ajuda para saber se ele te trai?
— Não sei, o que eu posso fazer? — Natasha pareceu cabisbaixa. July se levantou e se aproximou da vitrola.
— Interpretar a música.
Assim, enquanto July escreveu uma carta de amor, caprichando na caligrafia, Natasha procurou por um retrato dela na juventude, antes mesmo do casamento, num velho álbum de fotos. Heathcliff andava tão alheio que dificilmente reconheceria a própria esposa naquela foto, bem mais magra e com os cabelos loiros. July colocou a foto num envelope enquanto Natasha assinava a carta com um pseudônimo.
— Pronto, agora é só enviar e esperar a resposta.
— Acha que vai funcionar? — Natasha pergunta, insegura.
— Você não vai saber se não arriscar — July pousa a mão no ombro de Natasha — Mas não precisa enviar exatamente agora se não quiser.
— Acho que vou pensar um pouquinho — Natasha sorri meio envergonhada, July lhe abraça novamente.
— Só quero te ver feliz.
— Digo o mesmo, princesa.
***
Sábado à noite, não no mesmo sábado, mas uma semana antes. Leonard arruma discretamente o cabelo enquanto atravessa o portão pesado da boate Closer. O local era praticamente um corredor largo, com um bar de um lado e uma pista de dança com postes no outro, era bem escuro e fedia a tabaco. Max entrou logo atrás, olhou em volta e sorriu com ironia ao perceber como aquele local não combinava com o ambiente familiar do Calçadão, não era à toa que ficava meio escondido nos fundos de um cassino. Leonard e Max se sentam em banquinhos diante do balcão do bar.
— Gentileza sua me chamar pra sair — Max comenta com a voz carregada de deboche. Ele observa a freguesia do estabelecimento, homens ricos aplaudindo as dançarinas e jogando notas de dinheiro no palco sempre que uma das garotas tirava uma peça do figurino — Mas agora quero saber como eu entro nesse plano.
— Você já fez a sua parte ao me contar o que sabe sobre July e os outros amiguinhos do meu irmão — Um garçom lhes oferece dois copos com whisky. Leonard toma um gole, delicadamente — Agora você me responde mais uma coisa, por que você quer matar July Harmond?
— Bom... — Max toma a bebida de seu copo, tentando disfarçar o fato de não saber ao certo o que dizer. Ele suspira, surpreso ao sentir a bebida forte descendo direto pro estômago — Dinheiro.
— Dinheiro? Mas você já é rico — Leonard o encarou, erguendo a sobrancelha — Ou melhor, seu pai é.
— É, mas apesar de rico ainda é negligente — Max se aproxima de Leonard — Eu quero sumir dessa cidade, ir embora. Nunca conseguiria isso com o dinheiro do meu pai, mas um certo banqueiro consumido pelo luto não se importaria de me emprestar uma grana, que, inclusive, eu não pretendo devolver.
— Você é desprezível — Leonard ri discretamente e toma mais um gole — E pelo visto você já encontrou o banqueiro de luto perfeito. Emprego novo, trajes caros...
— Digamos que agora eu tenho a galinha dos ovos de ouro — Max sorri enquanto chama o garçom para encher seu copo novamente.
— É exatamente esse o próximo passo do meu plano, conseguir dinheiro — Leonard fala com o dedo indicador levantado — Não posso simplesmente desviar dinheiro do Ministério, eles têm políticas muito rígidas em relação às contas públicas. Descobririam rápido e isso daria uma bela dor de cabeça. Portanto, eu tô de olho numa certa fortuna — Leonard se debruça sobre o balcão.
— E o que esse muquifo tem haver? — Max pergunta em meio a uma risadinha, ainda mais debochado.
— Olha, você acabou de me aborrecer — Leonard tira do casaco um volumoso maço de dinheiro e coloca diante de Max — Pega isso e vai se divertir.
Max recolhe o dinheiro e deixa o balcão, indo em direção ao palco, onde uma mulher negra mostrava os seios para a plateia masculina. Leonard continuou no balcão, tomou mais alguns drinks e acendeu um cachimbo. Sua atenção se voltou ao palco na apresentação seguinte, quando as luzes do estabelecimento abaixaram e se concentraram em um dos postes. Uma música dramática, onde a voz melancólica do intérprete repetia a mesma sentença, ecoou no ambiente.
Uma moça alta de cabelos escuros amarrados num coque saiu detrás das cortinas no fundo do palco. Ela estava descalça e com os braços à mostra, usava uma lingerie preta enfeitada com plumas brancas. Seus olhos estavam destacados em meio a uma maquiagem vermelha que refletia as luzes da boate. A garota caminhou delicadamente até um dos postes do palco e começou sua apresentação de pole dance, girando em torno do poste e chegando a se pendurar de cabeça para baixo. Seus movimentos sensuais hipnotizaram a plateia, e ninguém nem mesmo reclamou do fato dela não ter tirado a roupa em nenhum momento.
A dançarina termina sua apresentação, faz reverência e sai correndo do palco, com um sorriso satisfeito no rosto e uma plateia eufórica lhe aplaudindo. Max estava boquiaberto, e Leonard havia observado toda a apresentação com admiração, mas também com convicção. Ele havia acabado de encontrar aquilo que estava procurando na Closer. Um sorriso sádico estampa sua face.
***
Mais tarde, em meio a madrugada e depois de arrastar um Max Williams morto de bêbado para dentro de um táxi e enviá-lo para casa, Leonard fuma na rua aos fundos da boate. O entorno do Calçadão agora parecia fantasmagórico, apenas bares e casas de saliência estavam abertos, e poucas pessoas andavam pelas ruas, todas elas suspeitas, escondendo seus rostos em capuzes e cachecóis. A porta dos fundos da boate Closer se abre e a dançarina das plumas sai, agora sem a maquiagem e usando trajes mais adequados para aquela noite fria. Ela desce a rua apressada. Do outro lado, dois homens saem de um bar e passam a lhe seguir, ela olha para trás e acelera o passo. Os homens começam a correr. Observando a cena de longe, Leonard decide fazer o mesmo.
Leonard alcança um dos homens e lhe agarra pelo pescoço, derrubando-o com uma joelhada no quadril. O segundo homem puxa uma faca e tenta lhe golpear, mas Leonard consegue segurar seu braço e lhe aplicar um soco certeiro no rosto. Os dois homens voltam correndo para o bar, e a garota encara Leonard meio perdida. Ela se recompõe, vira as costas e volta a seguir seu caminho.
— Salvei sua vida! — Leonard grita para a garota — Não vai me agradecer!?
— E daí? Não pedi sua ajuda! — A garota responde sem se virar ou parar de andar — Nem te conheço.
— Mas eu te conheço, Normaji Garland — A garota para e se vira, irritada, para Leonard.
— Meu nome é Lollipop! — Ela fala com o dedo apontado no rosto de Leonard. Em seguida vira as costas e volta a seguir seu caminho. Leonard lhe acompanha, afastado alguns metros — Agora vai ficar me seguindo?
— Só para te dizer que eu gostei muito do show — As palavras de Leonard fazem Lollipop parar e se virar novamente, dessa vez um pouco menos ríspida e mais animada.
— De verdade? — Ela pergunta, seus olhos brilham de empolgação.
— Sim, você foi ótima — Leonard se aproxima — Leva jeito para a coisa.
— Muito obrigada — Lollipop enrola a ponta do cabelo no dedo enquanto diz. Ela encara Leonard dos pés à cabeça — Olha, acho que não vai ser tão ruim ter a sua companhia.
— Seria uma honra — Lollipop entrelaçou seu braço no de Leonard e eles voltaram a caminhar, juntos.
Leonard acompanha Lollipop até a casa dela, no caminho ele falava com a voz carregada de charme. Lollipop sentia-se extremamente bem recebendo tanta atenção, e admirava a beleza de Leonard, naquele instante ela se sentiu a garota mais sortuda da cidade. No sábado seguinte, quando Lollipop subiu no palco vestindo um lingerie verde e um chapéu que imitava uma samambaia, ela viu que Leonard estava lá novamente para ver seu show, dessa vez mais próximo do palco, e animado para mais uma apresentação. Ele também estava lhe esperando nos fundos da boate quando ela saiu na madrugada.
— Leo! — Lollipop o abraçou e foi surpreendida por um beijo profundo — Opa...
— Desculpa, acho que me empolguei — Leonard se afastou fingindo vergonha — Sabe, semana passada eu só vim me divertir mas me encantei por você no primeiro instante que te vi no palco. Não consegui não pensar em você por um minuto sequer. Eu senti saudade de você.
Lollipop rói suas unhas por um instante, seu rosto fica corado ao ouvir as palavras de Leonard. Em seguida, num impulso, ela se põe em frente a ele e passa os braços em torno do pescoço de Leonard.
— Meus pais não estão em casa hoje — Lollipop fala de um jeito provocante quando Leonard a segura pela cintura — Você vem comigo?
— Eu adoraria — Leonard sorri e Lollipop retribui. Eles se beijam novamente, e em seguida saem correndo noite adentro, dominados pelas chamas da paixão.
Chegando na casa dos Garland, Lollipop guia Leonard direto para o seu quarto. Ela tranca a porta e joga Leonard na cama, onde ela lhe faz uma apresentação particular, com direito a algo que ela não fazia nas suas performances na boate, tirar a roupa. Instantes depois, Leonard estava deitado de bruços, satisfeito, enquanto Lollipop acaricia seus cabelos deitada ao seu lado.
— Você é incrível — Leonard fala com um sorriso bobo no rosto, conseguindo arrancar outro de Lollipop.
— Eu quero te mostrar uma coisa — Lollipop se levanta e abre uma gaveta do criado mudo. Leonard pôde dar uma boa olhada no corpo esguio dela, em contraste com o quadril largo. Mesmo nua, descabelada e suada, ela continuava linda. Lollipop pega um relógio de bolso da gaveta e senta na cama diante de Leonard — Meus pais me deram esse relógio quando nos mudamos para cá. Eles não disseram o porquê, mas segundo eles é um relógio muito especial. Levo ele para todo lugar, menos pra boate, óbvio.
— É maravilhoso — Leonard se senta na cama e pega o relógio, delicadamente, das mãos de Lollipop. Ele observa cada detalhe do objeto, e fica intrigado com o peso e o formato do objeto, bem maior e mais pesado do que um relógio de bolso padrão. O que mais chama a sua atenção é o fato de uma ponta azulada brilhante se destacar bem no meio do suporte dos ponteiros — Não mais do que você.
Leonard abre um sorriso, Lollipop guarda o relógio e eles se deitam novamente. Relaxada nos braços de Leonard, Lollipop adormece, e seu amante continua acordado. Novamente, Leonard sorri ao se dar conta da descoberta que fez, e Lollipop nem imaginava suas reais intenções com ela. Tudo estava como deveria ser.
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