Capítulo 2 - O Herdeiro do Ministério
Num impulso, July se escondeu embaixo de uma mesa. Ela não conseguia ver nada a sua volta, só o comissário caído ao seu lado em meio a pedaços de plástico e vidro, além do gelo derretido encharcando o piso. Ele gemia em meio a sua desorientação como se tivesse se machucado feio. Quando a fumaça se dissipou mais, ela conseguiu ver a vidraça completamente destruída, e algo além. Uma estranha forma redonda se projetava no céu escuro, demorou um tempo para July reconhecer aquilo como um balão com dois canhões de boca larga acoplados em suas laterais.
Alguns homens, uns seis ou sete, usando blusas listradas, bandanas e calças esfarrapadas se balançaram em cordas e pularam para dentro do salão, anunciando o assalto. Os seguranças da festa, também uns seis ou sete, sacaram suas armas e apontaram em direção aos invasores. As armas eram modelos de pistolas simples mas com uma nova funcionalidade, eram portáteis, ficavam recolhidas e, quando um botão na parte de trás era apertado, se montavam através de um sistema automático de engrenagens. A maior surpresa da noite para July foi ver o tal Alexander junto aos seguranças, também com uma pistola apontada para os piratas. Seria ele um policial disfarçado?
Depois disso as coisas ficaram um pouco estranhas. Os convidados se encolheram nos extremos do salão, escondidos em qualquer lugar que pudessem alcançar. Os piratas também traziam pistolas consigo, mas até então empunhavam facas e ameaçavam os seguranças, que se empenharam em buscar uma saída alternativa onde ninguém se machucasse. Um dos piratas sacou sua pistola, um modelo mais rudimentar, apontou em direção a Alexander e disparou. O tiro teria acertado em cheio o seu pescoço, se Alexander não tivesse sido empurrado pela prima-dona, que se jogou do palco em cima dele, o derrubando. O tiro acabou acertando um jarro da ornamentação do salão. A prima-dona sacou uma arma escondida numa de suas botas e disparou de volta, atingindo o pirata no ombro. Assim, o tiroteio começou de fato.
Gritos assustados ecoavam pelo ar quando mais piratas sacaram mais pistolas e começaram a atirar com tudo em direção aos seguranças. Alexander e a cantora se arrastaram para trás de uma mesa caída que usaram como barricada. Os demais seguranças também se esconderam atrás de ornamentos destruídos pelo solavanco, bolando estratégias para manter a atenção dos piratas neles e assim tentarem manter os desesperados convidados a salvo.
— Droga, eu estou zerada! — A cantora diz após alguns disparos, se encolhendo atrás da mesa e guardando a pistola de volta na bota.
— Calma aí, já chamei reforço — Alexander responde. Ele havia retirado do casaco um comunicador e começou a girar um botão largo no centro do aparelho que mais parecia um telefone celular velho, daquele mesmo tipo que tem uma antena fina na ponta.
Alguém ajudou o comissário a se levantar, com dificuldade, e lhe tirou do meio do fogo cruzado. July sentiu uma crise de pânico tomar conta do seu corpo ao ouvir algumas balas se colidindo na parede logo atrás de si. Ela olha em volta, nervosa, procurando por seu pai, por Ed, por Natasha, ou por qualquer pessoa que possa lhe ajudar, em vão. Tudo parecia bagunçado e a única coisa que a garota assustada conseguiu fazer foi gritar. Mas seu grito era só mais um na multidão apavorada. Insignificante.
Acima dos gritos e dos tiros soaram as sirenes de polícia à medida que dois pequenos aviões da brigada aérea de Newdawn se aproximavam do zepelim. Enquanto isso, lá embaixo, holofotes se acenderam iluminando o espaço aéreo, e a noite, de Newdawn. O som e as luzes alertaram os piratas.
— São os Mavericks, vamos fugir camaradas! — Um dos piratas disse, usando as cordas de antes para voltar ao balão, e trazer junto o pirata atingido pelo tiro da prima-dona.
Quando os piratas deixam o zepelim e o balão se afasta, os convidados saem de seus esconderijos e começam a se reunir novamente. Ninguém ficou realmente ferido, só alguns pequenos arranhões aqui e ali, mesmo os atingidos por balas perdidas não pareciam ter ferimentos graves. No geral, eles acreditavam estarem a salvo, até serem atingidos novamente por mais um solavanco, esse bem mais forte do que o anterior, chegando ao ponto de causar uma breve queda de energia na aeronave. O zepelim começou a arder em chamas após ser atingido por um coquetel molotov.
***
Disparos cortam os céus de Newdawn enquanto os aviões perseguem o balão. Os pilotos aceleram e ultrapassam o veículo pirata, fazendo uma manobra para encurralar o balão pela frente. Antes dos aviões se aproximarem, os canhões laterais do balão são acionados, e ao invés de bombas eles disparam uma fumaça densa que cria uma nuvem em torno do veículo aéreo. Os aviões são forçados a desacelerar mas continuam seguindo em frente, atravessando a nuvem de fumaça e fazendo ela se dissipar, mas o balão havia desaparecido sem deixar vestígios.
***
O zepelim se aproxima do mesmo terraço onde os passageiros haviam embarcado anteriormente, enquanto o incêndio se espalhava. Lá embaixo, a avenida havia sido isolada quando os bombeiros foram acionados, a aeronave incendiada não permaneceria no ar por muito tempo. Os seguranças começam a escoltar os convidados para fora do veículo. July, ainda embaixo da mesa, viu Alexander e a cantora irem na frente, arrastando o seu pai, Natasha, Lollipop e outras pessoas. Wes saiu correndo, carregando o osso de dinossauro, e alguns rapazes carregavam o comissário, só agora July viu o ferimento terrível atrás da cabeça dele. Porém, nem sinal de Ed. Isso acabou alimentando ainda mais o seu pânico e ela voltou a gritar, incapaz de sair do lugar por conta própria. Ver Max Williams surgir diante dela não serviu como alívio.
— Você vem comigo! — Max agarra July pelos braços e a puxa de baixo da mesa, lhe arrastando até uma porta nos fundos do salão. Pedaços do teto começam a cair enquanto o fogo se espalha. July se debate, tentando libertar-se de seu captor, e começa a gritar ainda mais desesperada, mas ninguém lhe dá importância, todos estavam ocupados demais tentando salvar as próprias vidas.
July continuava gritando, principalmente por Ed, enquanto Max a empurra para além da porta dos fundos. Ed, que estava ajudando os feridos a saírem do zepelim em segurança, ouve o pedido de socorro da amiga e olha em volta, lhe procurando. Ele consegue ver July antes dela sumir atrás da porta dos fundos, e decide ir até lá se questionando se tem algo errado, mas, antes de fazer qualquer coisa, Ed sente uma faca perfurar seu quadril. Espantado, ele olha para trás e vê o moço do terno fosco com uma faca suja de sangue nas mãos.
— Que droga, Leonard! — Ed gritou meio confuso, usando o braço mecânico para pressionar o local do ferimento proporcionado por aquele golpe inesperado.
— Chegou a hora, Edmond! — Leonard anuncia de um jeito assustadoramente sádico em meio ao semblante de seriedade — Quem imaginaria que o herdeiro do ministério morreria num ataque pirata?
— Não tenho tempo para isso, seu louco! — Ed vira as costas para Leonard e começa a andar com um pouco de dificuldade. Leonard avança com a faca em punho, mirando agora a altura das costelas de Ed. No momento certo, Ed vira-se e consegue agarrar o braço de Leonard, usando seu próprio peso para lhe derrubar e passando-o por cima do ombro. Leonard cai sem fôlego e solta a faca, a qual Ed chuta em direção às chamas. Mais um pedido de socorro ecoa no ar, e Ed olha em volta, atento — July!?
— Quem diabos é July? — Leonard se pergunta enquanto levanta com dificuldades, assim que Ed se afasta.
Enquanto isso, July é arrastada por Max através de uma escada até outra porta, por onde ela é empurrada para uma ponte metálica cruzada num amplo espaço recoberto por tecido no formato de um cilindro. Ela estava no balão que sustentava o zepelim no ar, mas ao invés de ar quente ela encontrou chamas que aumentavam cada vez mais e ameaçavam romper o tecido grosso que sustentava o veículo. Por um momento, July permanece caída no metal quente, sufocada pela fumaça e pelo calor insuportável, só encontra forças para se levantar ao ouvir a porta se trancando atrás dela.
— Você fica aí — Max diz do outro lado, dando tchauzinhos.
— Espera! Não! Socorro! — July gritava enquanto batia na porta com força, mas no fundo ela acreditava que esse seria seu fim, pois até mesmo a estrutura metálica onde estava ameaçava desmoronar nas chamas ao redor. Mas ela abriu um sorriso de esperança quando viu Max ser derrubado do outro lado, atingido por um soco rápido e certeiro na bochecha direita, e a imagem de Ed surgiu no vidro da porta — Ed! Me tira daqui! Rápido!
Do lado de fora, o soco de Ed arremessou Max contra a parede, fazendo-o cair de joelhos. Ed estava encostado na parede lateral, quase na porta, sua respiração estava ofegante, sua visão meio turva e o ferimento anterior ainda sangrava e ardia, e ele ainda precisava se livrar de Max Williams antes de salvar July. O zepelim continua a dar solavancos, anunciando a perda da estabilidade, e Ed percebeu que não tinha muito tempo. Max se levantou e puxou uma faca escondida no casaco, enquanto encarava Ed com uma expressão furiosa.
— E lá vamos nós — Ed se solta da parede, forçando a si mesmo a permanecer numa base firme diante de Max.
Max avança na direção de Ed com a faca em punho. Ao se aproximar, Max ergue a faca mirando o peito de Ed, o qual segura os braços de Max acima das cabeças de ambos. Mesmo depois de levar um soco na cara, Max ainda não tinha ideia do quanto Ed era forte, mas ele ainda tinha um ponto fraco, e Max aproveita a deixa para lhe desferir uma joelhada na barriga. O golpe fez Ed recuar sem soltar os braços de Max, mas acabou permitindo que eles se abaixassem, e nisso a faca passa rasgando a carne logo abaixo da prótese.
Irritado, Ed junta seus últimos esforços para tentar erguer o corpo magro de Max até que seus pés não alcançarem mais o piso metálico, e lhe arremessar escada abaixo. Ele consegue, sentindo-se esgotado em seguida. Max despenca até o último degrau, a faca em sua mão acaba se cravando na coxa durante a queda. Ele se recompõe com uma certa dificuldade e arranca a lâmina da perna, deixando um sangramento no local. O puro ódio sentido se refletia em seu semblante, mas não transparecendo sentir dor, e fez parecer que arrancar uma faca da perna foi como tirar um espinho do pé, o que deixou Ed arrepiado.
— Vai se fuder! — Max gritou, enfurecido, para Ed, e foi mancando em direção ao salão.
Ed parou por um momento, depositando seu peso na parede enquanto digere tudo que viveu até agora só naquela noite. Lutas, tiroteios, incêndios, e ferimentos que, com toda a certeza do mundo, deixariam cicatrizes bem feias. Aquela não era a primeira vez que Ed sentia medo, e odiava se sentir assim pois medo era algo que ele conhecia bem. Seu devaneio se dissipou ao ouvir novamente July batendo com força na porta.
— Ed! Você tá bem?! Tá aí ainda?! Me tira daqui!! — Ouvir July chorando em meio a tosse e ao pedido de socorro deu a Ed as últimas forças necessárias para reagir à aquele momento bizarro. Ele ficou diante da porta, fazendo um sinal para Julie se afastar, e começou a forçar seu peso com pancadas até ela ser derrubada. July correu para abraçá-lo — Isso é sangue? — Ela perguntou, preocupada, quando sua mão encontrou o ferimento no quadril.
— Longa noite, vamos sair daqui! — Os dois começam a correr, quase se arrastando de exaustão, enquanto o zepelim vai perdendo altitude levemente.
***
Do lado de fora, os seguranças instruíram os convidados a permanecerem longe do zepelim. Alguém chamou uma ambulância que chegou rápido, trazendo um pequeno grupo de enfermeiros para prestar os primeiros socorros aos feridos. Alguns dos bombeiros que haviam isolado a rua lá embaixo também subiram no prédio, trazendo machados consigo.
Natasha estava extremamente nervosa, olhando em volta e não conseguindo encontrar Max. Na mesma situação estava Ernest, que não via July desde antes do tiroteio. Eles acreditavam que Max e July apareceriam juntos a qualquer hora, isso até Max sair sozinho do zepelim, mancando devido ao ferimento na perna.
— Max! Querido, você está ferido?! — Natasha perguntou, preocupada, ao se agarrar no filho — O que aconteceu, meu amor?
— Fiquei preso no banheiro — Ele respondeu com sua melhor performance de vítima das circunstâncias.
— Acho que esse era o último, vamos rapazes — Um dos bombeiros diz para os seus companheiros, e todos se preparam para derrubar de vez a aeronave com os machados, que nesse ponto já era uma bola de fogo disforme flutuando sobre Newdawn.
— Alguém viu a minha filha? Não vejo ela em lugar nenhum! — Ernest grita ao ser consumido pelo desespero. Num impulso ele corre em direção ao zepelim, mas acaba sendo segurado por dois seguranças brutamontes da festa.
— Ainda tem uma menina lá dentro! — Alexander alertou os bombeiros, que recuam e começam a estudar um método de adentrarem no zepelim e resgatarem July.
— É a menina esquisita, será que ela vai morrer queimada? — Lollipop comenta em tom de deboche para as genéricas.
— Mulher, que horror!
Mas antes que qualquer atitude possa ser tomada; antes mesmo dos bombeiros fazerem seu trabalho, de Ernest se soltar e correr em direção as chamas, de Lollipop falar mais besteiras, de um ansioso Wes terminar de roer suas unhas, e ainda antes que uma enfermeira enfaixe o ferimento de Max; July e Ed aparecem correndo no salão. O fogo estava cada vez mais alto e o teto já despencava em pedaços flamejantes, nisso Ed usava seu corpo para tentar proteger July até a saída. Os dois se jogam no piso duro do terraço quando as chamas explodem o zepelim, levantando altas labaredas e criando um clarão na escuridão do céu noturno. Assim o zepelim cai, derrotado.
No mesmo estado de derrota estava Ed, que despenca sem forças enquanto July cai de joelhos. Ernest corre em direção à filha, que se agarra ao pai e começa a se desmanchar em lágrimas. Os enfermeiros colocam Ed numa maca improvisada e somem com ele no meio da pequena multidão, que também começa a se dispersar em meio a murmurinhos e sussurros.
— Filha, você está bem? Eu fiquei tão apavorado só de pensar... — Ernest diz enquanto ajuda July a se levantar, acreditando que ela conseguia lhe ouvir, mas todas as palavras se misturaram na cacofonia. A garota olha em volta e encontra Max no meio das pessoas em volta dela.
— Você... — July o encarou com ódio — Ele tentou me matar! — Ela olha para o pai, em pânico, enquanto aponta para Max com seu indicador trêmulo. As lágrimas voltam e ela se vê envolvida numa mistura de choro, pavor e desespero. E essas eram as únicas palavras que conseguia dizer — Ele tentou me matar!
Max tentava se explicar com uma falsa expressão de inocência enquanto Ernest lhe encarava de um jeito frio e irritado, e Natasha de um jeito confuso, porém compadecida pelas palavras de July. Em meio a tantos olhares, ninguém reparou a expressão de malícia surgindo no olhar de Leonard.
***
Enquanto isso, muito abaixo dali, o balão pirata continua sua trajetória. Após ativar os canhões de fumaça, o balão reduz bruscamente sua altitude num ponto estratégico da cidade, uma galeria pluvial que leva em direção a uma usina de tratamento abandonada, com ligação a uma galeria de esgoto subterrânea, o esconderijo perfeito para uma gangue pirata. Através da galeria e por baixo de toda cidade, o balão chega em seu destino, um pátio improvisado num amplo espaço da estação, onde muitos outros piratas e uma mulher com seus fartos cabelos encaracolados em cachos cor de ouro aguardavam pelos companheiros. Todos os piratas usavam um uniforme padrão, semelhante àquele dos que invadiram o zepelim, mas a mulher, além de ser a única presente naquele local e em meio ao grande grupo masculino, utilizava um uniforme diferente, um casaco mais ornamentado mostrando sua posição no grupo, a capitã.
— Conseguiram o diamante? — A capitã se aproxima do balão quando dois piratas, sendo um deles aquele baleado no ombro, desembarcam. Os demais tripulantes se espalham pelo pátio.
— Não estava lá — O pirata baleado diz, pressionando o local do ferimento com uma bandagem.
— Que inferno! — A capitã sai raivosa e desaparece em um corredor da estação.
Um tempo depois, os dois piratas abordados se encontram em uma galeria que ainda funcionava. A água cinzenta exalava um insuportável cheiro de esgoto, mas nenhum outro local da base pirata expressava mais privacidade.
— Já tô de saco cheio disso, arriscar nossas vidas por causa de um diamante idiota — O pirata baleado comenta — Aquela vadia lunática precisa de uma lição.
— Relaxa camarada — O companheiro disse, enquanto contava as notas de dinheiro em suas mãos — Pelo menos aquele contato secreto nos rendeu uma bela bagatela pelo serviço.
O pirata com o dinheiro solta uma risadinha, que o baleado acompanha enquanto ambos repartem o dinheiro igualmente. Nenhum dos dois percebe a capitã se aproximando até ouvirem a sua voz grave ecoar no túnel subterrâneo.
— Contato secreto? — A capitã pergunta indignada, sem esperar qualquer resposta dos piratas, que nesse ponto já se tremiam de medo. Em poucos minutos, diversos outros camaradas piratas se reuniram na galeria, curiosos para saber o que a capitã faria com os traidores, que agora estavam com seus braços e pernas amarrados em sacos de pedras — Diga o nome! — A capitã ordena de forma ameaçadora, próxima ao ouvido do pirata baleado.
— É um burguesinho, o nome dele é Leonard Roberts — A voz do pirata é consumida pelo medo — Por favor, não me mate.
— Obrigada pela informação — A capitã diz, abrindo um sorriso dissimulado — E eu não vou te matar, a água vai — A capitã empurra os piratas amarrados em direção às águas turvas da galeria, seu corpos são arrastados pela correnteza até afundarem e desaparecerem. A capitã se vira para o resto do bando, que lhe saúda com gritos e aplausos — Eu sou Margaret, a rainha da pirataria, e ninguém me faz de besta. Agora, camaradas, vamos encontrar esse burguesinho.
***
Aquele pesadelo em forma de noite logo ficou para trás. Demorou um tempo mas July logo se recuperou, nada que uma semana longe de todo mundo e afundada nos livros não resolvesse, sempre resolve. Ela estava feliz de ver seu pai tão dedicado com seu bem estar, mas algumas coisas ainda lhe preocupavam, dentre elas a falta de notícias de Ed. Estaria ele bem? Teria sobrevivido? Todos os dias July rezava pedindo que seu amigo estivesse a salvo e que alguma notícia chegasse logo. Certa manhã, Natasha veio lhe visitar e dar notícias do comissário, o ferimento na cabeça não era grave mas ele teria que ficar acamado por mais alguns dias. Era uma situação difícil, mas a vida precisava continuar alguma hora.
Na semana seguinte, July Harmond deixa sua casa, novamente disfarçada, para mais uma visita à Cornelius. Dessa vez ela sai pela porta dos fundos direto no Calçadão, evitando sua rotineira acrobacia nas cordas, ainda demoraria um pouco para ela ter a disposição e adrenalina necessária para realizar tal façanha. Pelo menos Clementine continuava a lhe observar pela janela, satisfeita por vê-la finalmente sair de casa.
— Senhorita July, tente não se atrasar para o jantar — Clementine avisa — Seu pai hoje irá chegar mais cedo.
— Tudo bem, até mais tarde — July acena para Clementine e segue seu caminho habitual.
O dia estava ensolarado e uma leve brisa balançava as copas das árvores no entorno da via. Apesar das preocupações, July se sentia bem estando novamente em meio a movimentação acolhedora do Calçadão, e assim caminha tranquila observando as vitrines das lojas. Ela andava distraída até ser abordada por um casal que nunca havia visto antes naquela região, já na altura da rua onde pegaria o bonde. A dupla não tinha a melhor aparência, vestiam roupas remendadas com tecidos coloridos e adornavam os cabelos emaranhados com bandanas, fitas e tranças. July levou um susto quando eles se aproximaram e tentou lhes evitar acelerando o passo, mas o homem logo a alcançou e fez ela parar.
— Ei mocinha, gostaria de saber sobre o seu futuro? — Ele perguntou abrindo um sorriso animado, assim July pode ver a fileira amarelada de dentes e sentir o hálito azedo em meio a eles.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa para lhes despistar, a mulher segurou as mãos de July e começou a lhe dizer coisas absurdas sobre amor, dinheiro e maternidade enquanto fingia analisar as linhas na palma da sua mão e o que a posição dos astros influenciava nelas. July sentiu-se tomada por uma onda de constrangimento e cogitou a possibilidade de só sair correndo para longe desses estranhos. Mas como poderia estando praticamente cercada?
— Acho que você devia tirar as mãos da bolsa dessa jovem — Disse uma voz familiar quando duas pessoas chegaram por trás do homem estranho, que praticamente pulou de susto e saiu correndo junto com a mulher. Irritada, July agarrou a bolsa junto ao peito, e só depois ela se virou para ver quem tinha lhe salvado.
— Alexander! Que bom te ver — July ficou realmente feliz em vê-lo novamente, ela também queria ter notícias dele depois do incidente no zepelim. Alexander estava usando o uniforme policial padrão de Newdawn, um casaco azul marinho com seu nome gravado em letras douradas. Junto dele estava uma mulher jovem de cabelos castanhos curtos que também lhe parecia familiar, mesmo sem ela saber exatamente de onde. Ela também vestia o uniforme policial, e trazia na cintura um coldre com algumas armas portáteis anexadas — Nossa, você é mesmo um policial.
— Na verdade sou detetive — July sentiu uma fagulha de empolgação se acender dentro dela ao ouvir essas palavras — E essa é minha parceira, Emily Starsky-Hutch, mas acho que vocês já se conhecem — Emily acenou e July lhe encarou por um momento, só então ela se deu conta de onde tinha visto Emily antes. Aquele rosto corado era inesquecível.
— Você não era a cantora da festa? — July pergunta, ainda de um jeito duvidoso.
— Assim, a gente foi contratado pra fazer a segurança da festa, aí eu pensei que o melhor lugar pra ter uma visão completa do salão seria de cima do palco — Enquanto Emily explica, July percebe um certo sotaque diferente no seu tom de voz. Enquanto cantava era possível disfarçar, mas falando normalmente era impossível de não reparar. Com certeza ela não era de Newdawn, pelo menos não da cidade grande, pois no extremo oposto da nave ainda existiam simulações de campos e fazendas.
— Realmente, genial — July diz com empolgação.
— E a ideia foi minha — Alexander abriu um largo sorriso, arrancando um semelhante de Emily, enquanto ela balançava a cabeça em discordância. Para July, Alexander era praticamente um desconhecido, mas ela já gostava dele. Às vezes é bom ter por perto gente que não tem medo de ser diferente, parecer estranho, falar sozinho ou ser sincero demais. July via verdade nos olhos escuros dele.
O trio ouve um grito de socorro vindo do fim da rua, olhando naquela direção eles conseguem identificar facilmente a situação. O casal de vigaristas havia feito mais uma vítima, uma que caiu direitinho na lábia deles. Agora eles corriam rua abaixo.
— Esses pestinhas estão cada vez mais peraltas — Emily comenta com desprezo, enquanto ajusta no rosto as lentes dos seus goggles.
— Há ratos malvados em todo lugar — Alexander diz, assumindo uma expressão séria e focada no rosto enquanto encara sua parceira. Ele faz um gesto de cabeça para Emily e a dupla de detetives sai correndo atrás dos criminosos.
— Ei, esperem por mim! — July sai correndo logo atrás.
Após correrem vários metros na extensão do Calçadão, Alexander consegue alcançar a mulher quando ela tropeça numa pedra solta do calçamento e cai. Enquanto algema a criminosa, ele indica que Emily continue perseguindo o homem antes que ele desapareça nas esquinas adjacentes.
— Deixa comigo! — July diz ao se aproximar da dupla de detetives, um pouco ofegante da corrida. Ela enfia a mão no coldre de Emily e puxa a primeira arma que acha.
Ela aperta o botão e os mecanismos automáticos começam a montar a arma. Essa era diferente das que os seguranças e piratas usaram na festa, tinha o cano mais grosso e a boca era larga como um funil. Logo July reconheceu como sendo um disparador, já carregado, e se lembra do que Cornelius tinha lhe ensinado sobre usar armas.
— Atirar depois de mirar — July repete para si mesma enquanto mira no fugitivo, posicionando a arma em sua direção e a alguns metros acima da cabeça — Atirar depois de mirar...
E ela dispara! Um pequeno projétil redondo sai da arma com notável velocidade. O barulho do disparo acabou assustando alguns pedestres que transitavam pelo Calçadão, e agora se aglomeram junto ao trio para ver o desfecho da empreitada. Alexander se levantou, trazendo a mulher algemada junto, mas ainda lhe segurando para que não fugisse de novo. Já Emily estava tão chocada que não sabia como reagir. Só então July se deu conta de uma coisa, o que diabos ela tinha atirado? Os disparadores eram utilizados para lançar redes mas também disparavam projéteis explosivos, provavelmente os piratas utilizaram um desses para quebrar as vidraças do zepelim. E ambos tinham o mesmo formato, bolinhas revestidas de chumbo.
July só queria pegar o fugitivo, não parti-lo ao meio. Agora o projétil encerrava sua curva no ar e começava sua descida, mirando a nuca do vigarista. Para os outros a situação era algo como um jogo de cara ou coroa, cujas possibilidades eram apenas pegar ou não pegar, mas July sentia-se em meio a uma sessão de roleta russa. O suspense do momento acabou quando o projétil se partiu em quatro partes e revelou a rede interna, se esticando no ar e caindo em cima do homem, que acabou caindo junto. As pessoas batem palmas e saúdam os detetives enquanto July solta um profundo suspiro de alívio.
— Vamos meninas — Alexander diz, indo buscar o criminoso preso na rede — Vamos levar esses espertalhões para a delegacia.
— Acho que isso é seu — July entrega a arma para Emily, exausta após aquele momento de tensão inesperado.
— Quer saber? Pode ficar! — Emily responde, ainda atônita.
***
Enquanto isso, Ernest Harmond dirige seu carro até um outro bairro rico um pouco mais afastado do Calçadão, tendo como destino a residência da família Williams. Ele simplesmente amava aquele veículo, sua aerodinâmica, a forma como o carro deslizava pelas ruas e aquele cheiro de carro novo. Depois da filha, aquela maravilha mecânica vinda de Senna era o que mais gostava no mundo, e ele não esperava menos de uma cidade especializada em produzir carros e combustível fóssil. Ao chegar ao seu destino, Ernest desce do carro e arruma seu paletó enquanto toca a campainha. Em instantes, Natasha abre a porta.
— Oi senhor Harmond, a que devo a honra de sua visita? — Natasha pergunta. Ela não parecia a mesma senhora elegante da noite da festa, usava um vestido velho e seu cabelo estava bastante desarrumado. Quem procurasse direito acharia facilmente algumas rugas perdidas no seu rosto, antes disfarçadas pela maquiagem.
— Vim conversar com o seu filho — Ernest diz de um jeito mais descontraído, era bom estar longe do escritório e da rígida postura burocrática que a função de banqueiro lhe exigia.
— Ele fez algo errado? — Natasha pergunta num salto de espanto.
— Não, é um assunto particular — Ernest mostrou-se um pouco desanimado.
— Ah, entendi — Natasha convida Ernest para adentrar em sua residência. O banqueiro entra, passando pela porta — Quer que eu pendure o seu casaco?
— Não precisa, eu não me demoro.
Em seguida, Natasha deixa Ernest esperando na sala de estar enquanto sobe as escadas para chamar por Max. Ernest olha em volta e se depara com um ambiente um pouco diferente do que costumava ver naquela casa em situações anteriores. Os móveis da sala de estar estavam afastados e tinha produtos de limpeza junto a uma vassoura e a um balde na ponta de uma parede, em direção a cozinha era fácil ver a pilha de louças a serem lavadas. Será que a situação financeira dos Williams era tão precária a ponto deles terem despedido os empregados? Ernest preferiu acreditar que os serviçais estavam no andar de cima, ocupados demais com os cuidados de dois feridos, e isso acabou se confirmando quando uma moça ruiva uniformizada como enfermeira desce as escadas carregando uma maleta de primeiros socorros. Natasha volta à sala de estar.
— Ele está no quarto, é a primeira porta à esquerda.
Ernest subiu pelas escadas e caminhou pelo andar superior em direção ao quarto de Max. O moço veio lhe receber na porta, vestindo pijamas e segurando o peso do corpo em uma muleta.
— Senhor Harmond, soube que quer conversar comigo. Vamos, entre — Max caminhou até sua cama, onde se sentou e esticou em cima dela a perna esfaqueada acidentalmente, deixando as muletas de lado.
— Sim, sobre o noivado — Ernest assumiu um semblante de seriedade, mas no fundo ele parecia mesmo estar cabisbaixo — Acho que você não é uma boa opção para minha filha.
— Como assim? — Max pareceu confuso — Olha, se foi pelo que ela disse naquela noite eu posso explicar.
— É bom mesmo — Ernest disse enquanto caminhava de um lado para o outro pelo quarto — Eu prezo a segurança da minha filha acima de tudo.
— Eu juro que estava preso no banheiro, nem sabia que a July ainda tava lá dentro, se soubesse teria feito o possível para salvar ela — Max encarou Ernest no fundo dos olhos — Eu amo a July.
— Parece ser sincero. Mesmo assim acredito que a melhor opção no momento seja cancelar o noivado. July nunca reagiu bem a sua presença, e a quebra do acordo que fiz com seu pai não vai afetar os meus negócios no momento.
— Mas o senhor não acha que vai me afetar? — Max rebateu com tristeza, lágrimas surgem nos seus olhos durante seu jogo de negociação — Os médicos disseram que a minha perna vai ficar boa, mas não deixaram claro se meu pai vai ter sequelas da pancada na cabeça. E minha mãe, ela disfarça bem...
— O que houve com a madame? — Ernest, curioso e espantado, se aproxima de Max, sentando ao seu lado na cama.
— Ela já aparenta os primeiros sinais de demência, está ficando louca, tadinha — Max faz uma pausa e respira fundo — Em breve eu terei que cuidar deles, tenho medo de não conseguir lidar.
— Calma garoto — Ernest pousa a mão no ombro de Max — Não precisa se preocupar, você é um bom garoto, sei que vai conseguir resolver tudo. E pode contar comigo para o que precisar.
— Muito obrigado senhor Harmond, você é muito bondoso — Max enxuga as lágrimas. Ernest levanta e anda até a porta.
— Quando sua perna estiver boa compareça ao banco, acho que você precisa de um emprego.
Ernest abre um sorriso simpático antes de ir embora. Novamente sozinho no seu quarto, Max se joga na cama e solta uma risada maléfica, abismado com a facilidade que teve para manipular Ernest. Agora ele tinha uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. Enquanto desce as escadas, Ernest encontra Natasha na sala, lustrando as prateleiras com um pano úmido, e se despede enquanto lhe encara de um jeito compassivo, e com um leve toque de julgamento.
***
Distante dali, nos arredores da área industrial, Cornelius respira fundo o ar puro concentrado dentro da sua redoma particular. Era bom para os seus pulmões sentir qualquer coisa que não fosse o cheiro de metal velho e fumaça do resto da casa e da vizinhança, e isso lhe enchia de tranquilidade. Enquanto canaliza pensamentos positivos em meio a sessão de respiração na horta, Cornelius começa a idealizar um projeto novo. Que tal construir filtros de ar e usar eles para criar uma brisa sintética ali dentro? Ed iria gostar de ver como isso afetaria positivamente suas plantas. Perdido nos seus pensamentos, ele não percebe um drone movido à engrenagens se aproximar por trás dele, parando ao seu lado. Uma tela se abre no topo do drone, revelando a imagem de um homem careca com o nariz grande e pontudo.
— Então essa é sua horta privativa, irmão Cornelius? — O drone transmite uma voz grave e robótica, meio distorcida devido às interferências tecnológicas. Cornelius abre os olhos e lhe encara de um jeito relaxado.
— Olá, irmão Cérebro — Cornelius diz — Na verdade é de um amigo. Ele se baseou nas hortas caseiras de Manifesto.
— Manifesto é uma cidade linda, mas Tesla é ainda mais. — Tesla era conhecida como a cidade da eletricidade e da ciência, sendo uma das poucas cidades que mantiveram o uso de energia elétrica como era antes da guerra e se desenvolveram a partir disso. No mais, não chega a ser tão relevante quanto Newdawn e outras cidades flutuantes de maior destaque, tendo inclusive sua dimensão territorial muito menor do que elas. Já Manifesto, conhecida como a cidade verde, foi forjada a partir do desenvolvimento sustentável e das políticas de preservação ambiental. Era uma grande cidade, semelhante a uma metrópole de prédios altos, mas recoberta por uma exuberante floresta viva. Os seus habitantes, que valorizavam muito mais a amizade e as virtudes do que o poder econômico, dividiam espaço com plantas, que iam desde as diminutas orquídeas que cresciam nas rachaduras dos calçamentos até as grandes árvores dos parques públicos.
— Imagino que seja, quem sabe um dia eu esteja aí com você — Cornelius encara a árvore, sentido-se distante e vazio. É estranho se sentir sozinho numa cidade entupida de gente.
— Irmão Cornelius, não seja tão negativo — Cérebro diz, o drone se movimenta e fica diante dele — Tenho absoluta certeza que o comitê avaliativo da Sociedade da Ciência vai gostar daquele seu projeto do computador, e vai gostar ainda mais daquele...
— Esse não! — Cornelius grita de um jeito exaltado, mas logo abaixa o tom de sua voz, olhando em volta com nervosismo — Esse eu nunca fiz.
— Tudo bem então — Cérebro responde, constrangido, e o drone plana pela horta, avaliando a qualidade das mudas que cresciam na terra fofa.
Cornelius sonhava em um dia adentrar na Sociedade da Ciência, um clube particular sediado em Tesla, num lugar conhecido como Casa das Ideias, e composto pelos mais promissores inventores e cientistas das cidades flutuantes. Juntos, esses inventores usavam seus intelectos para avaliar o desenvolvimento tecnológico das cidades, comercializar protótipos de novos produtos e serviços baseados nas características de cada cidade, e até mesmo financiar pesquisa científica, como o desenvolvimento de vacinas e estudo avançado de doenças. Mas não era nada fácil ingressar nesse clube altruísta, antes era preciso impressionar pelo menos mais da metade dos integrantes do comitê avaliativo com uma invenção própria.
Cérebro conseguiu ingressar cinco anos atrás, com o protótipo do primeiro jetpack movido a diesel. Em questão de meses os jetpacks já estavam aprimorados e sendo produzidos em larga escala nas fábricas de Senna, e passaram a integrar o inventário obrigatório dos aventureiros e das valquírias, uma tropa especial de policiais alados composta exclusivamente por mulheres que atuava em algumas cidades como Asgard e Yggdrasil. Depois que Cérbero foi morar em Tesla, Cornelius ficou sozinho em Newdawn e passou a se dedicar em um projeto para conseguir uma vaga na Sociedade da Ciência, até agora sua melhor opção era consertar o computador velho, recuperado por Wes numa expedição, e depois decidir o que fazer com ele.
O que mais intrigava Cornelius era o fato do brasão da Sociedade da Ciência ser uma ilustração de um monstro típico dos contos de H.P. Lovecraft, com tentáculos e tudo que tem direito, mas o significado era algo que nem mesmo Cérebro, presente lá há tanto tempo, sabia explicar. E se sabia, guardava esse segredo a sete chaves.
July chega animada, fazendo Cornelius abrir um sorriso largo e correr para lhe abraçar.
— July! Menina, que susto você me deu! — Cornelius diz após o abraço — Fiquei bem preocupado depois que ouvi falar sobre o que aconteceu na festa do Wes.
— Ai mano, nem me lembre. — July dizia enquanto gesticulava e revirava os olhos — Achei que fosse morrer, mas o Ed me salvou no último minuto. Falar nisso, onde ele tá? Tá bem?
— Sim, sim — Cornelius falou com entusiasmo, July se sentia aliviada — O cara parece que é de aço, já tá bonzinho. Novo em folha.
— Que bom, isso me deixa aliviada — July fica corada de vergonha e tenta disfarçar olhando em volta.
— Fala a verdade, você gosta dele né? — July fica ainda mais nervosa com a indagação de Cornelius, e acaba respondendo meio sem jeito.
— Não! Ele é só um amigo — Ela sente seu rosto ficar vermelho de vergonha.
— Sei... — Cornelius encara July com um sorriso sacana, segurando a risada.
— Tá, mas e aí, onde ele tá agora!? — July praticamente grita, atropelando as palavras.
— Calma, eu vou te contar — Cornelius ri — Antes quero te apresentar alguém — Cornelius e July caminham até onde o drone estava flutuando, a tela transmitia Cérbero anotando consideração sobre orquídeas plantadas em torno de uma macieira — Esse é o meu irmão, Cérebro.
— Olá senhorita — O drone vira a tela em direção à July e Cornelius — Prazer em conhecê-la.
— Oi — July diz meio tímida, depois sussurra no ouvido de Cornelius — Ele é um robô ou coisa do tipo?
— Não — Cornelius solta mais uma risada — Isso é uma transmissão digital, o irmão Cérebro está em Tesla agora.
— Acho melhor deixar vocês conversarem a sós, tchau — A tela se fecha e o drone voa de volta para dentro da casa.
— Vamos entrar, acho que essa conversa merece um café — Cornelius e July caminham para dentro da casa, onde encontram Roza organizando a mesa da cozinha com pratos, xícaras e um bolo quentinho.
— Ah, antes que eu me esqueça — July tira o disparador da bolsa e aperta o botão traseiro — Olha o que eu ganhei!
— Como assim você ganhou uma arma? — Cornelius pergunta ao sentar-se à mesa, dando ênfase em "ganhou", ele não consegue conter o riso, hoje está de bom humor.
— Conheci um policial.
— Aí ele veio e te deu uma arma do nada? — Roza pergunta enquanto deposita café nas xícaras.
— Não foi bem assim, longa história.
Aproveitando o momento de distração do trio, Johnny adentra na casa para cobrar mais uma vez a dívida de Cornelius.
— Ei velhote, vim buscar a parada — Johnny anuncia sua chegada, encostado no arco de entrada da cozinha, o dente de ouro brilhando no sorriso largo. No impulso de um susto, July aponta a arma para ele, fazendo Johnny se enrijecer, com as mãos levantadas acima da cabeça — Opa, não precisa dessa agressividade.
— Vai embora, Johnny! — Roza grita enquanto assume uma postura desafiadora.
— Eu só vim buscar a encomenda — Johnny diz forçando tranquilidade na sua voz.
— Encomenda, essa é nova — Cornelius fala de um jeito cabisbaixo, com todo seu bom humor de instantes antes desaparecendo diante de Johnny. Cornelius arrasta os pés até a pia e tira do armário embaixo dela um pacote de papelão, ao voltar ele joga o pacote para Johnny, que lhe agarra meio desastrado, quase deixando-o cair — Aí tem bem mais do que o combinado, agora ver se me deixa em paz.
— Valeu, otário — Johnny sai correndo para fora da casa. Roza lhe segue, alcançando Johnny no hall e lhe acertando por trás com um chute frontal no seu quadril. O golpe lhe derruba e faz Johnny rolar da calçada até o asfalto, o pacote cai ao seu lado — Isso não vai ficar assim! — Johnny levanta, recupera o pacote e sai correndo pela rua. Roza volta para dentro de casa.
— Que cara mais idiota — July comenta quando Roza volta para a cozinha — Ele não viu que tava descarregada? — July recolhe e guarda a arma — Eu acho...
— Johnny não é um poço de inteligência, mas é um belo inconveniente — Roza diz, sentando-se de volta à mesa junto a July e Cornelius.
— A gente cuida disso depois — July vira-se para Cornelius — Agora me diz, cadê o Ed?
— Ele não te contou? Ele foi ver a Ivana na delegacia — Cornelius responde meio seco, e toma um gole do café. July para por um momento, pensativa, imaginando o que teria levado Ed a fazer isso sozinho. Estaria ele aborrecido porque o plano da festa deu errado? Impossível, ninguém tinha como saber que os piratas atacariam. Agora era só esperar para ver se Ed traria boas notícias.
***
De fato Ed estava na delegacia, diante do delegado encarregado de substituir o comissário Heathcliff em sua ausência, buscando seus últimos resquícios de paciência para lidar com o homem rechonchudo e sem vontade, que rebatia tudo que ele dizia com recursos burocráticos, sem lhe dar atenção. Enquanto isso, Alexander e Emily chegam ao local, trazendo o casal de vigaristas.
— Se me der um pouco de atenção eu posso explicar tudo — Ed diz, apoiando-se na mesa e inclinando seu corpo para se aproximar do policial.
— Quem você acha que é para chegar aqui fazendo exigências? — O homem arruma alguns papéis e lhes solta sobre a mesa, fitando os olhos de Ed — Ainda mais quando se trata de um caso esquisito desses.
Ao mesmo tempo, outro veículo estaciona diante da residência dos Williams, desta vez um modelo mais sofisticado, de pintura preta e carcaça refinada. Leonard, usando um casaco vermelho e óculos escuros, sai do carro e bate à porta. Natasha, ainda em faxina, vem lhe atender.
— Oi, no que posso ajudar? — Natasha diz, arrumando os cabelos bagunçados devido ao serviço doméstico. Ela analisa Leonard da cabeça aos pés, surpresa pela repentina visita de um desconhecido que aparentava ser gente importante só pela aparência.
— Vim conversar com seu filho — Leonard fala de um modo ríspido e arrogante.
— Quem devo anunciar?
Assim, naquele exato momento, Ed e Leonard responderam seus interlocutores com a mesma frase, fazendo o bem e o mal se alinharem, cada qual ao seu propósito particular.
— Eu sou o herdeiro do ministério.
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